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Existe responsabilidade, nas palavras de Miranda, quando “um sujeito de Direito”

transgride uma norma ou um dever que esteja constrito com relação a outro sujeito, ou sujeitos, ou sempre quando cause-lhe um prejuízo, gerando, desta feita, “um dever específico para com o lesado.”225

A responsabilidade necessita de alguns elementos para sua existência no mundo jurídico, sendo eles: um fato gerador, ato ilícito que pode se dar por ação ou omissão, um nexo causal e um dano ou prejuízo efetivo. Essa responsabilidade é atinente a diversos sujeitos, dentre eles, Estados e, a responsabilidade dos Estados, Accioly, nos idos de 1933, já citava, em referência à uma Conferência ocorrida nos idos de 1929 em Havana, como a questão nodal, o maior problema do direito internacional por trazer em si questões vão além dos Estados, vez que comportam: “a offensa aos seus direitos, a violação dos direitos que lhe incumbem, as sanções pelos damnos causados”226.

221MARTINS, Ana Maria Guerra. Direitos Internacionais dos…, p. 233.

222Guide on Article 6…, §87, p.22 e Guide on Article 13…, §6, p.75.

223Guide on Article 6…, §84, p.22. Vide ainda RENUCCI, Jean-François. Introduction générale à…, p.74.

224Guide on Article 13…, §32, p.13.

225MIRANDA, Jorge. Curso de Direito Internacional Público. Cascais, 2016.p.363.

226ACCIOLY, Hildebrando. Tratado de Direito Internacional Público. Volume I. Rio de Janeiro, 1933, p.287.

Desde os escritos acima, a questão da responsabilidade em muito evoluiu, indo muito além de questões internas, podendo ser vista por diferentes óticas, como: responsabilidade em disputa entre o homem médio e um terceiro ou entre ele e um Estado, tendo, nessa última perspetiva alcançado a ordem internacional e, por ir além de uma disputa entre homens médios e tendo um Estado em um polo da lide, torna-se ponto que merecer cuidado e atenção.

A responsabilidade, quando analisada no campo do Direito Internacional, com uma das partes de um litígio sendo um Estado, passa a ter um cariz muito mais coletivo que individual como ensina Valério Mazzuolli, posto que seja um Tribunal a não promover atos que lhe cabem, seja um agente do Estado a praticar um ilícito lesivo a uma norma internacional, caberá ao Estado a responsabilidade internacional sobre seus atos227.

Vale registrar que, na esfera internacional, para as Nações Unidas, o ato ilícito de um Estado, ainda que não gere um dano ao outro, é passível de ser suscitado228.

Por força desse entendimento, o Princípio da Responsabilidade, existente em todos os ordenamentos, emergiu e alcançou o campo do Direito Internacional. Surgido como fruto de entendimento jurisprudencial, seguiu seu curso até tornar-se um princípio geral do Direito Internacional229, reconhecido como jus cogens230, que, nas palavras de Accioly, é “um princípio fundamental do direito internacional, princípio segundo o qual a prática de um acto illícito ou a violação de um compromisso, por parte de um Estado, impõe a este o dever de uma reparação”231, seja a outro Estado ou a um cidadão.

Traçam-se essas linhas iniciais acerca da Responsabilidade Internacional enquanto princípio, por ter sido esta a forma que sedimentou-se no âmbito internacional, contudo, aqui compartilha-se do entendimento de Carvalho Ramos, que, por sua vez, utiliza-se da posição de Gilles Cottereau, ao dispor que acolhe-se a responsabilidade internacional seja ela vista como princípio geral do Direito Internacional, como obrigação ou instituição jurídica pois, o que importa, é ter-se em conta que é uma reação jurídica pela qual o Direito Internacional reage às violações de suas normas e, com isso, passa a exigir a preservação da ordem jurídica vigente232.

227MAZZUOLLI, Valério de Oliveira. Curso de Direito Internacional Público. São Paulo, 2015, p.613.

228Cf. Projeto da Comissão de Direito Internacional das Nações Unidas sobre Responsabilidade Internacional dos Estados. Disponível em < http://iusgentium.ufsc.br/wp-content/uploads/2015/09/Projeto-da-CDI-sobre-Responsabilidade-Internacional-dos-Estados.pdf>, acessado em 5/572020.

229RAMOS, André de Carvalho. Responsabilidade Internacional do Estado .., p.54: Vide também RAMOS, André de Carvalho, Responsabilidade Internacional por …, p.71.

230MIRANDA, Jorge. Curso de Direito Internacional Público, 6ªedição. Cascais: Princípia, 2016.pp.364.

231ACCIOLY, Hildebrando. Tratado de Direito …, p.288

232 RAMOS, André de Carvalho. Responsabilidade Internacional por …, p.74 (apud COTTEREAU, Gilles, 1991)

Por essa ótica, passa-se a uma abordagem da responsabilidade internacional dos Estados em direitos sem a sua indicação exclusiva como princípio geral do Direito Internacional:

II.2.1 A Responsabilidade Internacional dos Estados

No ramo do Direito Internacional dos Direitos Humanos, repousa o entendimento que um Estado incorre em responsabilidade quando não cumpre obrigações assumidas de respeitar e assegurar/garantir os direitos integrantes de um tratado por ele ratificado ou outro dispositivo a que tenha se vinculado, sendo essa responsabilidade reconhecida como estrita, ou seja, quando viola obrigação assumida, ainda que involuntariamente, responde pela violação.

A seguir a esteia de Carvalho Ramos, tem-se que com o constante desenvolvimento de mecanismos protetivos dos direitos humanos, passou a ser imperioso o estudo da responsabilidade internacional dos Estados por violações de normas de direitos humanos internacionais, contudo, esse estudo era dissociado entre experts em Direito Internacional e experts em Direito Internacional dos Direitos Humanos, segregando esses especialistas suas pesquisas para seu campo de atuação, sem a conjugação dos direitos233.

Apenas com o “fortalecimento do Direito Internacional dos Direitos Humanos como ramo do Direito Internacional” culminou-se com a unificação no entendimento da responsabilidade internacional do Estado, havendo, na atualidade, uma grande preocupação em se atentar à responsabilidade internacional do Estado dentro a proteção dos direitos humanos234 haja vista que é através da responsabilização de um Estado ao violar norma de direitos humanos que se consegue “reafirmar a juridicidade deste conjunto de normas voltado para a proteção dos indivíduos”235.

Não se pode olvidar que os Estados, por força dos tratados de direitos humanos aos quais estiverem vinculados, em linha de regra têm obrigações (convencionais) de proteção e, por força dessas e seu amplo alcance, quando se pensa em responsabilidade internacional, deve-se pensar além dos Governos que tenham firmado os documentos, mas pensá-la no seio do próprio Estado, vez que voltada ao Estado, transcende os Governos e vai sendo transferida aos Governos seguintes, implicando em atos tanto do Executivo (promover atos necessários para

233RAMOS, André de Carvalho, Responsabilidade Internacional por …, pp.10-12 onde traz tais colocações e cita entendimentos de diversos doutrinadores no assunto, chegando a citar Bruno SIMMA ao aduzir que. “Como bem sustenta SIMMA, os especialistas em Direito Internacional, por um lado estimulam a segregação do estudo de direitos humanos para longe do ´verdadeiro` Direito Internacional” (apud SIMMA, Bruno, 1995).

234RAMOS, André de Carvalho, Responsabilidade Internacional por …, pp.14-15

235RAMOS, André de Carvalho, Responsabilidade Internacional por …, p.19

cumprir essas obrigações); quanto do Legislativo (harmonizá-las com as normas internas e dar-lhes eficácia) e do Judiciário (aplicar internamente as normas e assegurar seu respeito) para perpetuação. Descumprindo-se tais obrigações, surge a responsabilidade internacional, seja por ação ou omissão, seja de qualquer dos seus Poderes236, podendo tanto reparar danos, como sofrer medidas coercitivas237.

Dessa forma, tem-se que com a responsabilidade internacional, vem o compromisso de

“aceitar” as normas trazidas nos tratados firmados e, na hipótese de lesão das mesmas, acolher o que lhe for impingido da melhor forma possível, não cabendo qualquer alegação de que o direito interno do Estado assim não o permite para que deixe de dar efetividade à norma.

Apesar dos elementos da responsabilidade trazerem “a existência de um fato internacionalmente ilícito”, o “resultado lesivo” e “o nexo causal entre o fato e o resultado lesivo”238, Carvalho Ramos relembra que as Nações Unidas não levam em conta o dano. Para os direitos humanos o resultado lesivo existe em “toda a gama de prejuízos materiais e morais causados à vítimas e familiares”239 o que demonstra uma preocupação mais específica desse ramo do Direito Internacional com o ser humano, seja ele o lesado ou os que a ele sejam próximos e de certa forma também sintam-se lesados com o dano, isto é, há uma extensão da responsabilidade para além da vítima.

Contudo, quando os tratados internacionais, ao tratarem da proteção dos direitos humanos estabelecem a observância a parâmetros mínimos a serem respeitados pelos Estados, se descumprida obrigação de garantia, assecuratória de direitos humanos consagrados, tanto nacional quanto internacionalmente, ocasiona-se, nesse último caso, a possibilidade de responsabilização do Estado que não tenha atuado no limite da proteção do direito240.

Com isso, há formas de reparação do dano que não necessariamente a restituição integral do bem lesado, pois, em matéria de direitos humanos, nem sempre uma violação de direito permite que se retorne ao status quo ante241.

236TRINDADE, A. A. Cançado. Desafios e conquistas…,p.417.

237RAMOS, André de Carvalho. Responsabilidade Internacional do Estado…, p.54. E ainda TRINDADE, A. A.

Cançado. O legado da …,pp.23.

238RAMOS, André de Carvalho. Responsabilidade Internacional dos Estados …, p.55.

239RAMOS, André de Carvalho. Responsabilidade Internacional dos Estados …, p.55

240Caso Ibrahim e Outros x United Kingdon – Queixas nºs 50541/08, 50571/08, 50573/08 and 40351/09, §251.

241Para um aprofundamento acerca da responsabilidade internacional dos Estados no âmbito dos direitos humanos há vasta doutrina; contudo, recomenda-se a leitura, dentre outros, de RAMOS, André de Carvalho.

Responsabilidade Internacional por ….

Em se tratando de lesão do direito à educação, vislumbra-se hipótese de algum restabelecimento do estado inicial, mas essa não é a mesma visão para o acesso à justiça, quando finalizada a contenda, muitas das vezes, a restituição integral poderá já não ser uma hipótese.

Apesar de haver diversas outras formas de reparar a lesão, o caminho deve sempre ser o da não-lesão que pode se dar através da máxima adequação das normas nacionais às internacionais (com a implementação interna dos dispositivos internacionais), com a estreita observância às obrigações internacionais assumidas quando da ratificação de tratados de direitos humanos, bem como pelo desenvolvimento de políticas públicas que permitam a adequada fruição dos direitos humanos.