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O paradigma interpretativo tem como pressuposto a compreensão de que a sociedade, e o conhecimento social, se constrói à medida que os seres pelos quais ela é formada reproduzem, aplicam ou reelaboraram padrões constituídos por suas interpretações (BURREL; MORGAN, 1979). Entende-se neste trabalho que os padrões constituídos pelas interpretações do sujeito são apreendidos por um processo construído a partir das práticas do sujeito, práticas que associam o conhecer ao fazer.

Abordagens oriundas do paradigma interpretativo tem sido indicado em estudos que reconhecem que o conhecimento social tem suas raízes no pensamento e nas ações individuais, bem como em estudos que adotam o conceito de competências sob uma perspectiva estratégica, devido a elementos que já foram apresentados no referencial teórico, mas pode-se citar, de maneira geral: as caraterísticas de ambiguidade causal revelada pelo conceito de competência; as condições dinâmicas das organizações; as limitações impostas por análises realizadas sob modelos estáticos; e, principalmente, a necessidade de se compreender elementos subjacentes ao contexto e atividade específicas realizadas pelos sujeitos (VON KROGH; ROOS, 1995).

Além disso, o conceito de competência adotado por este trabalho está atrelado à perspectiva estratégica. Essa maneira estratégica de abordar a

competência, tem suscitado algumas críticas severas quanto ao discurso, pelo potencial que apresenta de servir a interesses puramente ideológicos. Uma perspectiva ideológica da competência prescreve e normatiza um conjunto de regras para legitimar uma divisão social entre os competentes que possuem saberes e os incompetentes que apenas executam tarefas comandadas e, ainda, oculta aspectos da divisão de classes e da exploração econômica, entre outros fatores (CHAUI, 2014). Na perspectiva da ideologia da competência, a organização é tida como competente enquanto os sujeitos como incompetentes, objetos sociais dirigidos e manipulados.

Foi compreendendo o risco que há em um estudo das competências servir a interesses puramente ideológicos, que esse trabalho procurou aderir a uma metodologia antipositivista. Além disso, também se compreende que “a metodologia baseada na racionalidade não consegue capturar aspectos dinâmicos importantes, tais como aprendizagem e inovação, e não pode representar o processo de geração de uma vantagem competitiva” (SEOUDI, 2009, p. tradução nossa). Por esses motivos, este trabalho buscou aderir a uma metodologia que se inserisse no paradigma interpretativo.

Cabe observar que no paradigma interpretativo não se admite que se possa alcançar uma verdade objetiva, mas pode-se admitir a possibilidade de alcançar uma verdade consensual (HUHN, 2005). Isso se dá por meio de uma “realização intencional”, o que significa ter “ocorrido um acordo entre a interpretação inicial do pesquisador, sobre o fenômeno estudado, e o significado dado pelos atores por meio da interpretação que extraem de sua própria experiência vivida” (SANDBERG, 2005, p. 49, tradução nossa). A realização intencional pode ser considerada um critério que justifica o conhecimento produzido na abordagem interpretativa. Cabe ressaltar que a interpretação inicial do pesquisador é formada, em geral, por sua formação acadêmica, sua linha disciplinar de estudos, pelo referencial teórico e pela metodologia adotada.

Embora a interpretação envolva o subjetivismo, assumir a realização intencional como um critério de verdade, significa, acima de tudo, não ceder lugar ao relativismo e também aderir ao pressuposto de que “a verdade alcançada nunca

será uma final e inequívoca verdade, mas um processo contínuo, aberto a reivindicações de conhecimento que possibilitem novas compreensões, ou correções, sobre aspectos da atividade humana” (SANDBERG, 2005, p. 52, tradução nossa).

Nessa perspectiva do paradigma interpretativo, para afirmar que o critério de verdade consensual pôde ser alcançado, é fundamental que “a interpretação do pesquisador permita que o objeto de investigação apareça em suas próprias condições e quaisquer pretensão de verdade seja devidamente justificadas” (SANDBERG, 2005, p. 53, tradução nossa). Observa-se que a justificação deve se dar por critérios adequados, que são requeridos para validação de qualquer pesquisa cientifica, mas ainda resta saber que tipo de critérios poderia ser aplicado para justificar tais pretensões de verdade na tradição interpretativa.

Sandberg (2005), apresenta um conjunto de teorias da verdade e também apresenta um estudo empírico sobre competências individuais, que foi apresentado neste trabalho na seção 2.5 deste trabalho, a fim de fornecer o caminho para se justificar o conhecimento oriundo de abordagens interpretativas. Com relação ao conceito de competência individual na relação de trabalho, sob pressupostos do paradigma interpretativo, o autor esclarece:

Do ponto de vista interpretativo, a competência não é vista como algo consistindo de duas entidades separadas. Em vez disso, a forma de trabalho e trabalharem uma entidade através da experiência vivida de trabalho. Competência é, portanto, vista como constituída pelo significado do trabalho leva para o trabalhador em sua experiência dele (Dall'Alba & Sandberg 1996; Sandberg 1994). Assim, uma mudança no ponto de partida, de trabalhador e trabalharem de forma separada entidades, para experimentar a vida dos trabalhadores de trabalho dá origem a uma forma alternativa de compreender o que constitui competência no trabalho.

Sandberg (2005) também observa que cada abordagem de pesquisa contém uma perspectiva metodológica específica sobre o fenômeno em análise e esclarece o paradigma interpretativo abrange diferentes correntes de pensamento que divergem em suas análises e cada qual enfatiza aspectos específicos que pode estar relacionado ao gênero histórico, cultural, ideológico, ou a compreensão da realidade lingüística. Sandeberg (2005) apresenta algumas das principais correntes,

e respectivos teóricos, que compõem as correntes oriundas do paradigma interpretativo:

O desenvolvimento da tradição de pesquisa interpretativa é muitas vezes remetido às idéias de Weber (1947/1964), que posteriormente foram desenvolvidas por sociólogos fenomenológicos como Schutz (1945, 1953), Berger e Luckmann (1966), Giddens (1984, 1993) e Bourdieu (1990). No entanto, as raízes da tradição de pesquisa interpretativa são muitas, e não se trata de uma abordagem unificada. As principais abordagens se mostram sob diferentes formas de construtivismo social (Berger & Luckmann, 1966; Bourdieu, 1990; Giddens, 1984, 1993), teoria crítica (Alvesson & Deetz, 2000; Habermas, 1972), etnometodologia (Atkinson, 1988; Garfinkel, 1967; Património 1984; Silverman, 1998), etnografia interpretativa (Denzin, 1997; Geertz, 1973; Van Maanen, 1995), interacionismo simbólico (Blumer, 1969; Mead, 1934; Prasad, 1993), análise de discurso (Alvesson & Kärreman, 2000; Foucault, 1972; Potter & Wetherell, 1987), desconstrucionismo (Derrida, 1972/1981; Kilduff, 1993), abordagens de gênero (Calas & Smircich, 1996; Harding, 1986; Keller, 1985; Martin, 1994), abordagens institucionais (DiMaggio & Powell, 1983; Meyer & Rowan, 1977; Scott, 1995), e abordagens de tomada de sentido (Weick, 1995) (SANDBERG, 2005, p. tradução nossa).

Tendo em vista o conceito de conhecimento adotado por este trabalho, no que se refere à perspectiva das organizações, entendendo-o como um processo construído a partir das práticas, que associa o conhecer ao fazer (BISPO; GODOY, 2012), cabe a este trabalho adotar a etnometodologia como uma abordagem metodológica que orienta as normas de investigação desta pesquisa.

A etnometodologia assume o fundamento fenomenológico do método, proposto por Husserl, que busca pôr entre parênteses as preconcepções do pesquisador e que entende que a experiência vivida é a base da ação humana e de suas atividades (RODRIGUES; BRAGA, 2014).

Além disso, a etnometodologia também compreende que não existe uma realidade social independente do sujeito, pois entende que a realidade social é um produto construído pela atividade de todos os membros de um grupo ou coletividade em sua ação cotidiana. Nessa perspectiva o conhecimento é possível a partir de um pensamento teórico e de uma investigação alheia ao sentido comum (IÑIGUEZ, 2004).

Observa-se que a etnometodologia não é postulada como uma teoria, mas como uma corrente metodológica de investigação oriunda da sociologia, sob a qual se inserem estudos que enfatizam a análise das atividades práticas cotidiana conforme a define Garfinkel (1967), ao tratar de estudos que adotam a etnometodologia:

Os seguintes estudos buscam tratar as atividades práticas, as circunstâncias práticas e o raciocínio sociológico prático como tópicos do estudo empírico e, ao dar às atividades mais banais da vida cotidiana uma atenção que normalmente só é concedida a eventos extraordinários, procuram aprender sobre elas por seus próprios méritos. Sua recomendação principal é que as atividades através das quais membros produzem e administram grupos de negócios cotidianos organizados são idênticas aos procedimentos desses membros para fazerem com que esses grupos “prestem conta” de suas atividades (GARFINKEL, 1967, p. 1)

Nessa concepção, o foco de interesse do pesquisador são as pessoas em sua interação cotidiana e as atividades que elas desenvolvem em seus contextos imediatos. As atividades são analisadas como métodos utilizados pelas pessoas na realização de atividades e considera-se a linguagem utilizada para descrições da prática cotidiana. Entende-se nessa abordagem que cada pessoa, em sua ação cotidiana, descreve, fala e constrói a realidade social independente dos indivíduos, cujo conhecimento só seja possível a partir de um pensamento teórico e de uma investigação alheia ao sentido comum (IÑIGUEZ, 2004).

Tendo exposto a abordagem metodológica adotada por este trabalho cabe a seguir, apresentar a especificação do problema, as perguntas de pesquisa e as categorias analíticas.