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3 PAREDES COR-DE-ROSA EM MEIO AO ACRÔMICO DA PRISÃO: RETRATOS DA ALA LGBT DE UM PRESÍDIO PERNAMBUCANO

3.2 O PAVILHÃO X — APRESENTANDO “A CASA DOS HOMENS”

O Pavilhão X, a “casa dos homens”, comporta cerca de 26% da população carcerária total da instituição35 na atualidade, 405 pessoas ao todo, ou seja, aproximadamente o número de vagas oferecidas em todo o presídio. É o primeiro pavilhão da unidade, localizado próximo à entrada principal da penitenciária, imediatamente após a área de segurança, a gaiola.

Apesar de já ter entrado naquela unidade anteriormente, o pavilhão X ainda era uma parte do cárcere que eu não havia explorado, pois trata-se de um pavilhão de isolamento. Dessa maneira, não quis entrar desacompanhada, invadindo o recinto de forma desavisada, uma vez que aquela é a casa daquelas pessoas e não se entra na casa de ninguém sem se pedir licença ou

32 Expressão nativa para referir-se aos presos que são que não podem conviver nos espaços que possuam membros de facções inimigas e/ou que são ameaçados de morte por outros detentos da prisão. Eles são afastados do convívio com os demais detentos e isolados pelos agentes do presídio, como medida de segurança dentro da prisão. 33 Reação violenta, geralmente física, de um grupo da população com intuito de punir um indivíduo supostamente transgressor.

34 O termo “casa” é uma expressão nativa utilizada para denominar os espaços de convívio do pavilhão X. Os espaços de convívio, por sua vez, são os ambientes onde fica um grupo de presos específicos, que possuem alguma característica em comum. Ex. população LGBT, presos heterossexuais “homens”, evangélicos, etc. 35 Os dados referidos foram fornecidos pelo setor Psicossocial da unidade por meio de comunicação informal e são relativos ao mês de novembro de 2019.

ser convidada. Muito menos quis entrar escoltada pela equipe técnica, ou até mesmo pela guarda, como me foi oferecido, então assim que cheguei na área de reclusão da unidade, me dirigi à sala do setor psicossocial e solicitei à equipe técnica que me apresentasse a algum morador deste pavilhão, para que este pudesse me acompanhar na entrada do ambiente.

A equipe me apresentou a Rodrigo36, um detento do X com quem eu já tinha tido um certo contato anterior, e este me levou para dentro do pavilhão. Durante o translado entre a sala do psicossocial e o pavilhão, Rodrigo me questionava, aparentemente curioso, o que eu pretendia fazer lá me perguntando se eu tinha certeza que queria entrar, afinal, quase ninguém entra lá a não ser a guarda para fazer os procedimentos de revista, o conhecido “baculejo37” ou a equipe técnica para solicitar o comparecimento de algum detento para algum atendimento.

Expliquei para ele de forma sucinta que estava realizando uma pesquisa com as moradoras e moradores da ala LGBT e que ficaria com elas e eles alguns dias acompanhando o dia a dia delas e deles. Ele achou tudo muito inusitado pois era a primeira vez que alguém passaria tanto tempo com eles naquele lugar, mas me acompanhou até a entrada e me mostrou todo o pavilhão.

Na entrada do pavilhão estava a figura do Assistente do Chaveiro, ou Assistente de pavilhão, uma pessoa que auxilia o chaveiro do pavilhão a controlar o funcionamento do mesmo e a entrada e saída de presos. Os Chaveiros, por sua vez, são presos escolhidos pelos próprios detentos do pavilhão. Eles têm as chaves das celas, detém o poder sobre os demais e o controle de todo o pavilhão. Todos que entram ou saem do pavilhão estão sob a responsabilidade do assistente, caso alguém despareça, este deve prestar contas ao chaveiro que por sua vez, presta contas aos guardas da segurança, os agentes penitenciários.

Assim que atravessei as telas e a grade de segurança que ficavam logo após uma pequena quadra, imediatamente reconheci a ala LGBT, através da pintura das suas paredes cor de rosa, era a primeira instalação. Antes de conhecer as demais instalações do pavilhão, pedi licença e entrei rapidamente na casa para dizer às moradoras e moradores que eu havia recebido a autorização para iniciar a pesquisa e estar no espaço por alguns dias ali.

A maioria das pessoas da ala já sabia um pouco sobre o que se tratava, pois já havia falado sobre isso com elas e eles em um outro momento, durante o meu período de aproximação. Informei que eu iria conhecer o restante do pavilhão, depois voltaria para conversamos sobre a pesquisa e tirarmos todas as dúvidas sobre a minha estadia e como seria as suas participações e, assim, iniciei junto a Rodrigo uma caminhada para conhecer o território do X.

36 Nome fictício.

Ao lado da ala LGBT havia uma cela um pouco menor, não tinha identificação e estava trancada, era “a cela do castigo dos homens”. Em frente à ala e ao Castigo tinha uma pequena igreja. Estava em horário de culto religioso, de fora dava para observar tudo o que se passava através das janelas e portas abertas. Ao lado da igreja tinha outro espaço conhecido como “a casa dos irmãos da igreja” e junto à casa dos irmãos, do lado de fora, havia um pequeno banheiro para uso dos “irmãos”. Em frente à igreja tinha uma mesa e um banquinho de cimento, uma pequena área à sombra de uma árvore para o lazer, todos podiam transitar naquele espaço.

Caminhando alguns passos, após a cela de castigo tinha uma tela de segurança com um pequeno portão. Sentado próximo ao portão tinha outro assistente de pavilhão, controlando a entrada para a “área de convívio dos homens”. Atrás da tela havia uma outra área de lazer, maior que a área da parte da frente, onde havia uma mesa de bilhar, uma lanchonete e um pequeno laguinho e uma horta, cultivada pelos próprios detentos.

Além disso, havia um espaço muito maior, cuja parede se estendia da parede lateral do castigo e tomava o restante do espaço, era o “convívio dos homens”, ou “convívio do pavilhão X”. Tratava-se de um espaço grande, que possuía uma grade na entrada. Dentro desse espaço existia as celas dos demais presos do pavilhão, “os homens”. Fora das celas, tinha alguns barracos38 espalhados pela área. Era um espaço muito maior que a ala LGBT, o Castigo e a Casa dos irmãos, visto que era onde se concentrava a maior parte da população prisional do X.

38 Expressão nativa que se refere a pequenas cabanas de tecido, fechadas por um zíper, que dividem os espaços onde um ou mais indivíduos dormem.

Figura 1 - Planta de Coberta Da área do Pavilhão X. Desenvolvida por José Ygor- estudante de arquitetura da Faculdade Maurício de Nassau - Recife/Pe

Na breve passagem que fiz por lá pude observar as construções das “jegas39” e as subdivisões existentes dentro da área, havia uma parte considerada nobre, a “Boa Viagem40”, onde ficam os presos com mais poder aquisitivo, em que a maioria das jegas era feita de

39 Termo nativo para cama.

40 Boa Viagem é um extenso e populoso bairro nobre situado na Zona Sul da cidade do Recife, capital de Pernambuco, Brasil. Uma das suas principais características é a sua posição ao longo do Oceano Atlântico, onde também fica a praia de Boa Viagem.

alvenaria e possuía uma estrutura um pouco melhor que a dos alojamentos dos demais e uma outra parte conhecida como “a favela”, composta por seus barracos de tecido e com uma estrutura mais precária.

Havia uma certa restrição quanto à entrada de pessoas nesse lugar, por essa razão, eu só entrei lá apenas uma vez em um dia de visita dos familiares, momento em que as “portas” ficavam mais acessíveis devido à entrada e saída das visitantes e um certo tempo depois que já estava convivendo com eles.

Enquanto andávamos pelo pavilhão X, os gritos de Rodrigo informavam que uma visita estava a se aproximar. Existe uma regra no pavilhão de que todos devem vestir as suas camisas quando recebem alguma visita, especialmente se for uma visita feminina. Rodrigo me mostrava os espaços e eu me apresentava às pessoas brevemente, avisando-lhes que eu passaria um certo tempo no lugar e por essa razão, eles me veriam com alguma frequência naquele ambiente.

Muitos me sorriam, pareciam demostrar aceitação da minha presença, me davam as boas-vindas. Outros ficaram um pouco mais retraídos, talvez por um certo receio do desconhecido, por não saberem quem eu era e não entenderem o que eu estava fazendo lá. Além disso, não era dia de visita, eu cheguei de surpresa, alguns tiveram que sair correndo para se vestir, a minha presença já começava a bagunçar a rotina daquele lugar. Após dar a volta em todo o pavilhão X, retornei à ala LGBT para finalmente conhecê-la.

3.3 A CASA DAS MADRINHAS — DESENHANDO OS CENÁRIOS E COLORINDO AS