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2 GÊNEROS ENCARCERADOS — AS RELAÇÕES DE PODER E O CONTROLE DOS CORPOS LGBTs DENTRO DO DISPOSITIVO DISCIPLINAR PRISÃO

2.1 SOCIEDADE DISCIPLINAR, SISTEMAS PUNITIVOS E RELAÇÕES DE PODER

Os sistemas punitivos estão presentes na história da humanidade desde os tempos primórdios e ao longo do tempo passaram por diversas transformações21, até alcançarem o modelo punitivo prisional que conhecemos na atualidade, no qual as prisões se tornaram a essência desse modelo, assumindo o caráter de estabelecimento público que utiliza-se do princípio da privação da liberdade dos indivíduos, visando a coerção e a regeneração dos sujeitos que agem “fora da lei”.

21 Dentre essas transformações podemos citar os tormentos físicos, nos quais os indivíduos ficavam preso em lugares insalubres, sem iluminação, sem condições de higiene e “inexpurgáveis” (CARVALHO FILHO, 2002), tais como masmorras e calabouços, a espera de sua punição; e o suplício, no qual as punições iam desde a tortura por castigos corporais que causavam extrema dor (amputação dos braços, queimaduras a ferro em brasa até a pena de morte por degola, enforcamento, fogueira, etc.), que aconteciam em forma de espetáculo, em praça pública na frente de toda população, com intuito de exemplar para que outros não cometessem os mesmos crimes.

Foi a partir do Iluminismo, movimento intelectual que incentivava o uso da razão como uma forma de liberdade econômica e política contra os regimes de poder sociais (político, religiosos e ideológicos), que as penas de morte e o suplício (antigos modelos punitivos) começaram a perder o seu caráter de exemplaridade, marcando o início da mudança desse sistema punitivo, cujas penas eram tidas como desumanas e a partir de então o cárcere assume uma característica disciplinar, que visa não mais apenas a “punição”, mas também a “vigilância”, o “controle” e a “correção” dos indivíduos da nova Sociedade Disciplinar22.

Segundo as definições de Foucault (1975/2014), o cárcere deve representar uma espécie de “reformatório”, que possa vir a punir o indivíduo, não apenas privando-o da liberdade, mas criando estratégias para que haja uma reeducação do indivíduo apenado, a fim de reinseri-los na sociedade sem causar-lhe danos físicos ou psíquicos, ou seja, sem afetar a integridade do sujeito encarcerado. Dessa forma a prisão deveria perder seu caráter de humilhação moral e física e passar a servir como um instrumento cuja a finalidade é promover a reintegração social do sujeito apenado.

Com a chegada da pós modernidade, os modelos de sociedade disciplinar foram se modificando e, a partir de então, o controle exercido sobre os corpos surge depositado na sedução, hedonismo, consumo, nas biotecnologias, a partir dos dispositivos disciplinares (prisões, hospitais, escolas, família, etc.). A esse sistema de relações entre o exercício de poder e a vida cotidiana, Foucault denomina biopolítica. A biopolítica consiste na ideologia que exige o controle dos corpos individuais, dando um passo à frente na teoria do controle social.

É possível definir a biopolítica como a implementação de ações políticas à vida dos indivíduos, tanto em corpos individuais quanto das populações. O estado e as teorias econômicas se ocuparam em potencializar as capacidades biológicas e intelectuais dos indivíduos, a exemplo do conceito de família tradicional, que é definido por padrões heterossexuais, ou seja, é necessário a presença de um pai/homem e uma mãe/mulher, para que esses possam gerar filhos e por meio do controle da natalidade a sociedade diz qual o número “ideal” de filhos que este casal deve ter, afim de que os sujeitos se adequem ao conceito de produção, tecido pela sociedade capitalista. Desta forma, o objetivo do biopoder é, portanto, a gestão total da vida, resultando na exclusão progressiva de massas de minorias, as quais a identidade é negada.

22 A sociedade Disciplinar pode ser entendida como uma forma de dominação, configurada por uma espécie de controle social e moral, a partir de um olhar dominante que é introjetando no cotidiano do indivíduo moderno, através das instituições disciplinares (exército, igreja, fábricas, escolas e outros).

A lógica da obediência, por sua vez, é caracterizada pela ideia de que um método disciplinar deve ser aplicado para corrigir o sujeito condenado, criando uma vigilância ininterrupta sobre os sujeitos privados de liberdade, Panoptismo23, afim de controlar os seus corpos e torna-los dóceis, formando “uma política de coerções, um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seu comportamentos” (FOUCAULT, 2014, p. 135), nesse sentido, a prisão é a aparelhagem utilizada para tornar os indivíduos dóceis, por meio da disciplina, pautada nas relações de poder.

De acordo com Foucault (1987) as relações de poder se discriminam enquanto um feixe vinculado à vida dos indivíduos controlada, na instancia física e psicológica. O autor abre brechas para entendermos as relações de poder para além daquilo que é físico, do que é visível, mas para entender as estruturas de poder na sua complexidade, nas suas vicissitudes, de uma forma sutil, uma vez que, para ele, todo corpo é um corpo dócil e ao mesmo tempo que normaliza é também normalizador. O corpo dócil, por sua vez, é o corpo que pode ser disciplinado, manipulado, submetido, moldado, treinado para ser útil ao Estado e para obedecer sem questionar. Assim, os corpos dos prisioneiros acabam sendo moldados nas prisões por meio das dietas, dos exercícios, dos horários, das regras, da vigilância, tudo é controlado por um grupo de poder.

Contudo, poder é saber e quem detém o poder econômico ou cientifico gera o saber, as normas e o restante da população apenas as seguem. Por sua vez, aqueles que não seguem as normas estabelecidas pelo grupo de poder encontra-se fora da normalidade. O conceito de normalidade, porém, é produto do próprio poder e não é uma mercadoria, mas sim, uma ação dentro de uma relação, ademais, o dispositivo disciplinar é a rede que se estabelece entre esses elementos. Em Arqueologia do Saber (1969), Foucault postula que um grupo de poder estabelece o que é a “verdade”, porém essa verdade não representa a verdade absoluta. Neste texto o autor trata das formações discursivas e defende que o saber é tudo aquilo que um grupo de pessoas compartilha e decide que é a verdade. A verdade por sua vez, define o que é correto e incorreto, certo ou errado, normal ou patológico, bom e mau e assim instaura a norma.

Através dessa verdade normatizada, o poder disciplinar controla a vontade e o pensamento social classificando e controlando os indivíduos para que cumpram seu papel

23 Mecânica de poder ilustrada a partir do diagrama de Jeremy Bentham, que se configura em uma construção arquitetônica com um arranjo circular composto por células, com uma torre de observação no ponto central “o olho do poder que tudo vigia”, sem que haja comunicação entre estes. De acordo com Foucault (1987/2007), essa estrutura projetada no cárcere possibilita a partir da vigilância, realizar o controle e a correção do comportamento dos indivíduos aprisionados, ao induzir no detento “um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder” (p. 166).

dentro do corpo social por meio da linguagem que define o discurso, seja ele dito ou escrito. Segundo John Austin (1955), importante teórico da filosofia analítica, com inúmeros estudos de linguagem dos anos 40, a linguagem constrói versões de mundo e, consequentemente, produz “realidades”. Essas realidades irão definir em cada sociedade ou grupo, aquilo que é socialmente aceito e tido como correto a despeito disso, tudo o que for contrário ao referencial estabelecido é tido como errado, isto é, está fora da norma.

Em seu livro Microfísica do poder (1979), Foucault aponta que o capitalismo se perpetua graças ao exercício de poderes que estão presentes em todo o corpo social e está presente em cada parte do quadro social, são os micropoderes. O Estado e os grupos sociais fazem uso das relações de poder, porém essa dinâmica acontece de maneira sutil, ou seja, está presente em instituições, espaços produtivos, organizações políticas, vínculos familiares e laços íntimos, na sociedade disciplinar como um todo. Só as mentes e os corpos disciplinados podem garantir a produtividade, aceitação das normas, “o saber dominado” e o pensamento metódico necessários para atender as demandas do capitalismo ocidental:

Por saber dominado entendo duas coisas: por um lado, os conteúdos históricos que foram sepultados, mascarados em coerências funcionais ou ema coisa e, em certo sentido, uma coisa inteiramente diferente: uma série de saberes que tinham sido desqualificados como não competentes ou insuficiente elaborados: saberes ingênuos, hierarquicamente inferiores, saberes abaixo do nível requerido de conhecimento ou de cientificidade” (FOUCAULT, 1979, p.170).

De acordo com o Construcionismo Social (GERGEN, 1985), a própria sociedade constrói teorias para explicar o mundo e essa construção se dá por meio das interações sociais e é através do discurso, por meio da linguagem, que os sujeitos detentores do conhecimento constituem as “realidades’. Entretanto, a linguagem produz o conhecimento e o conhecimento em si é produto da própria linguagem, ou seja, fruto de uma construção social. Por essa razão a realidade pode ser considerada como convencional e dinâmica (GERGEN,1985), pois varia de acordo com o contexto cultural de cada sociedade. Nesse sentido, o construcionismo social se opõe ao essencialismo biológico dos sexos-gêneros e da sexualidade e problematiza a universalidade desses conceitos sociais, contribuindo para novas formas de definições a respeito dessas categorias. (PAIVA, 2008; VANCE, 1991/1995; WEEKS, 2000).

Adotar a perspectiva construcionista significa, portanto, contrapor-se à ideia de naturalização e da universalização dos conceitos rígidos que normatizam as identidades de gênero e as orientações sexuais por meio das formações discursivas, uma vez que consideramos

que “toda formação discursiva é um lugar de poder” (BRAH, 2006, p. 373) e este, por sua vez, é constituído performativamente através de práticas políticas, econômicas e culturais. Para Foucault (1979), o poder é uma rede complexa e multidirecional, contínua e perigosa e as relações de poder variam de acordo com a resistência de cada indivíduo.

A liberdade ética é, portanto, um modo de resistência na trama da biopolítica, na qual resistir implica que o sujeito se tome como uma “obra de arte”, ou seja, que constitua-se a si mesmo ao “relacionar a forma de relação que tem consigo mesmo à atividade criativa” (FOUCAULT, 1995, p. 262), sem recorrer às regras e ao saber científico, por isso Foucault preconizava a arte de viver. Ao tomar-se como obra de arte, os sujeitos podem constituir-se para além do domínio das regras sociais e criar-se dentro de si mesmo, buscando romper com os processos de opressão social que delimitam as suas existências.

O conceito da biopolítica nos ajuda a entender tanto as dinâmicas políticas do poder quanto as dinâmicas da normalização das sexualidades. Nesse contexto, a população LGBT, que é foco desse estudo, surge como um grupo de minoria social, cuja identidades são tidas como “arnomais” e “desviantes”, pois estão situadas em um lugar que foge à norma social da biopolítica, cujo referencial normativo do sexo segue à uma regra científica que é biologiscista e universal, ou seja, o macho possui pênis e fêmea possui vagina, a categoria gênero é construída através de lógica binária (feminino/masculino e mulher/homem) e a sexualidade é baseada nos padrões da heteronorma, na qual só é permitido que homens se relacionem com mulheres e vice-versa, sendo proibido sequer desejar algo que fuja à regra.

Dessa forma os corpos LGBTs também são marcados pelos processos de disciplina, identificação e subjetivação, pois são corpos a serem adestrados, corrigidos, recuperados, docilizados para tornarem-se produtivos e úteis ao Estado, uma vez que governar as sexualidades é também governar as populações.

Além disso, o lugar que os discursos normativos sobre a sexualidade ocupam dentro do conceito da biopolítica nos leva a refletir sobre como o discurso constrói as “verdades”. Essa rede torna evidente uma estrutura de poder-saber-verdade, que forma uma grande teia de significações e produzem, por meio das formações discursivas, os gêneros, os sexos e a sexualidade dos sujeitos da modernidade.