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3. SETOR ELÉTRICO BRASILEIRO

3.3 O PERÍODO DESENVOLVIMENTISTA E A CRISE DO SETOR

Durante o período de 1950 a 1965, a economia brasileira registrou um desenvolvimento acelerado. O Plano de Metas desenvolvido pelo Governo de Kubitschek conseguiu atingir grande parte de seus objetivos. Inclusive aqueles relacionados ao setor elétrico nacional. Verificou-se, uma expansão significativa da capacidade instalada no setor. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, as metas de 5.000 MW instalados para 1960 e 8.000 MW para 1965 foram atingidas (MEMÓRIA DA ELETRICIDADE, 1995).

Essa fase também se caracterizou pela transferência da liderança do setor elétrico para a esfera pública. Apesar da concentração desta liderança nas mãos do setor público, não foram implementadas no período as transformações necessárias na política fiscal nacional, uma das principais fontes de recursos para os investimentos do setor.

Nos últimos anos da década de 1950, as dificuldades para a realização de investimentos nesta área já se faziam presentes de forma intensa. Uma tarifa de serviços irreal, aliada à corrosão dos impostos (Imposto Único sobre Energia Elétrica - IUEE) provocada pela elevada inflação do período, se apresentava como a principal causa do esgotamento dos recursos gerados pelo setor. Observa-se uma priorização, por parte do governo central, das atividades relacionadas ao desenvolvimento da industria de base nacional. É nesse contexto que, em 1961, surgiu a Centrais Elétricas Brasileiras (ELETROBRAS).

A ELETROBRAS surge como uma holding das concessionárias federais - Chesf, Furnas, Chevap e Termelétrica de Charqueadas (Termochar). Em seus primeiros relatórios sobre o setor, a ELETROBRAS já acusa as dificuldades vividas pelo setor elétrico nacional para a realização dos investimentos necessários ao seu sistema.

Ainda neste período, através de Furnas, o setor elétrico nacional participa de um consórcio com empresas canadenses e americanas (Canambra Engineering

Consultant Limite) responsável pela cultura de projetos e planejamento

desenvolvida, e muito conhecida, neste setor.

Em 1964, é instaurado o regime militar, provocando uma ruptura político- institucional no País. Assiste-se a uma série de reformas nas mais variadas áreas da economia nacional, no sentido de acelerar o desenvolvimento econômico do País. Essas ações teriam reflexos, também, sobre o setor elétrico nacional, propiciando uma elevação da capacidade de investimento e gasto do poder público federal e estadual no setor.

Em 1967, o governo federal realiza uma reforma administrativa do Estado, visando controlar a proliferação de empresas públicas estatais iniciada no governo anterior. Verifica-se a recuperação das tarifas do setor elétrico e a implantação da correção monetária como forma de proteger o seu valor. Com a implantação da filosofia de realismo tarifário, de 1964 a 1967, observa-se um crescimento de 50% na tarifa do setor. Em 1969, o governo federal cria incentivos fiscais para as concessionárias das regiões Norte e Nordeste, através de abatimentos no imposto de renda destas companhias.

Amplia-se a capacidade de geração de recursos para investimento do setor. No final da década de sessenta, verifica-se a abertura de um amplo mercado de eurodólares, a nível internacional. A facilidade para a capitação de recursos no exterior torna-se um fato, elevando a capacidade de endividamento externo das empresas do setor. O setor inicia os anos setenta registrando uma participação de 20% do capital estrangeiro sobre todas as suas fontes de recurso. Observa-se também nesse período ações do governo federal no sentido de incentivar todas as

concessionárias estaduais públicas a se concentrar em uma única companhia estadual.

Configura-se uma política federal voltada para a ampliação da capacidade de investimento do setor elétrico, agora concentrada na esfera pública, como forma de auxiliar na aceleração do desenvolvimento da economia nacional.

Em função desta filosofia expansionista adotada pelo governo militar, os primeiros anos da década de 1970 seriam marcados por um grande desenvolvimento da economia nacional. Esse período marcaria o surgimento do primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), programa do governo central. Apesar da pouca ênfase dada ao planejamento da economia nacional, o programa almejava acelerar ainda mais o seu crescimento. Durante esse período (1970 a 1973), grandes investimentos foram direcionados ao setor elétrico do País.

O ano de 1974 trouxe grandes surpresas para a economia mundial, com reflexos inevitáveis para a economia brasileira. Nesse ano ocorreu o primeiro grande choque do petróleo, colocando a economia internacional frente à sua primeira grande crise no período pós-guerra.

Como fato agravante, as enormes turbulências geradas no cenário internacional atingiram o Brasil em um momento de instabilidade econômica, processo inflacionário intenso, elevado endividamento externo e mudança política interna. O general Ernesto Geisel assumiu a Presidência da República.

Sob o ponto de vista do Governo Brasileiro, o cenário econômico, neste momento, assume as seguintes características: dívida externa elevada, altos índices inflacionários e economia internacional recessiva. Apesar de todo o cenário adverso da economia nacional e internacional, o governo brasileiro opta por uma política econômica voltada para o ajuste estrutural da economia nacional (MEMÓRIA DA ELETRICIDADE, 1995). Grandes processos de desenvolvimento da indústria de base nacional, iniciados em governos anteriores e, nesse momento, em processo de maturação, não sofreram soluções de continuidade.

Assim, a ordem do dia continuou sendo crescer priorizando-se, evidentemente, a indústria de base nacional, apesar de todas as adversidades do

momento. Para tanto, o governo continuou exercendo seu papel de grande propulsor desse desenvolvimento, através da adoção de medidas a nível interno e externo, coerentes com esse objetivo. É lançado o II PND, ainda com objetivos desenvolvimentistas, principalmente quanto à indústria de base nacional.

Uma série de ações foi adotada pelo governo central, com reflexos altamente negativos para o setor elétrico. Com o objetivo de estimular o crescimento industrial do País, o governo lançou mão de uma série de incentivos fiscais, por exemplo, a redução de impostos como o IUEE, direcionados a grandes empresas do setor. No mesmo período, programa-se a desvinculação dos recursos tributários do financiamento do setor com a passagem dos recursos oriundos do IUEE para o Fundo Nacional de Desenvolvimento (GOGERBA, 1995). A contenção tarifária sobre os serviços públicos, entre elas a referente ao fornecimento de energia elétrica, também se torna instrumento de incentivo ao crescimento industrial.

Tais ações protecionistas provocaram o esgotamento da capacidade do setor elétrico brasileiro de gerar seus próprios recursos financeiros. Como conseqüência, suas concessionárias encontraram no endividamento externo a saída para a obtenção dos recursos necessários para seus investimentos (ROSA, 1995). Aprofundou-se o processo de endividamento das empresas concessionárias de energia elétrica, estaduais e federais.

Em 1979, um novo choque do petróleo colocou a balança de pagamentos do Brasil em situação quase que incontrolável, tamanho o endividamento externo do País, naquele momento. O setor elétrico brasileiro, por sua vez, foi identificado como um dos responsáveis por grande parte desta dívida.

A década de 1980 se iniciou profundamente influenciada pelo segundo choque do petróleo e pela crise econômica internacional. A economia nacional apresentava de enormes dificuldades relacionadas à sua política externa. Durante essa década, todas as atenções da área econômica do governo brasileiro estavam voltadas para esse setor.

O setor elétrico brasileiro também convivia com grandes problemas. O setor caracterizava-se por apresentar um quadro crítico de estrangulamento econômico- financeiro, cujas origens eram identificadas nos anos setenta, mais especificamente,

a partir da estratégia de desenvolvimento adotada pelo II PND (COGERBA, 1995). Segundo Pinguelli Rosa (1995), os caminhos dessa crise poderiam ser resumidos em:

• Empréstimos externos contraídos na década de setenta;

• Inadequação dos prazos curtos destes empréstimos com os longos prazos das obras do setor elétrico;

• Compressão tarifária implementada pelo governo federal;

• Equalização tarifária implementada pelo governo em 1974 e que seria extinta em 1993.

Como agravante, durante os primeiros anos da década de oitenta, intensifica- se, por parte do governo federal, a utilização do setor elétrico nacional como instrumento de captação de recursos externos, na tentativa de minimizar os resultados negativos da balança comercial brasileira. Em função da crise internacional, os juros são elevados, agravando-se ainda mais a situação financeira das concessionárias do setor.

Assiste-se a uma concentração de esforços, por parte das empresas do setor, na tentativa de administrar seus constantes déficits de caixa. Tal postura tira de cena a cultura de planejamento estratégico de longo prazo, desenvolvida por este setor durante os anos sessenta. A inadimplência e o atraso no cumprimento de compromissos financeiros assumidos, tanto dentro do próprio setor elétrico, como na esfera privada, são instrumentos utilizados com freqüência pelas concessionárias na busca de seus objetivos financeiros de curto prazo. Essa inadimplência generalizada afeta sensivelmente a credibilidade do setor elétrico brasileiro. Como conseqüência, os conflitos intra-setoriais se multiplicam.