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O percurso de uma pesquisa: o campo dando forma ao campo

A pesquisa de campo iniciou-se com um mapeamento dos locais que poderiam ser representativos para o levantamento de dados e para os primeiros contatos com os narradores da fronteira em questão. A estratégia para esse mapeamento foi baseada em meu conhecimento anterior da região e na ideia de que a pesquisa deveria se concentrar na faixa de fronteira. Para isso, tomei como centro de atuação, por um lado, as cidades de Santana do Livramento/BR e Rivera/UY, caracterizadas por sua “fronteira seca”: essas cidades são contíguas e os limites de cada país identificados por marcos de concreto, numerados e posicionados pelas ruas (fotos );11 por outro lado, as cidades de Uruguaiana/BR e Paso de Los Libres/AR, distantes 14 quilômetros e separadas por um delimitador natural, o Rio Uruguai.

Marcos de concreto representando os limites de cada país

11 Na zona urbana de Livramento/Rivera essa demarcação simbólica está representada não apenas

pelos marcos, mas também pela Praça Internacional – ponto de encontro de habitantes de ambos os “lados”, que vem servindo de palco para manifestações reinvindicatórias ou comemorativas –, onde há um obelisco ladeado pelas bandeiras dos dois países. Já os marcos, que possuem uma numeração distinta fora da zona urbana, prosseguem como os delimitadores de toda essa faixa de fronteira. Nessa extensão de 167,8 km existe uma estrada em solo natural, que acompanha a linha, ora entrando no Brasil ora entrando no Uruguai, conhecida como “Corredor Internacional”. Nesse setor, encontram-se os Marcos Intercalados, de 1 até 668, bem como Marcos Intermédios, de 33-I até 41-I, e o Marco Principal, 12-P.

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Tanto na zona rural quanto nas pequenas cidades e vilarejos, a paisagem da fronteira caracteriza-se por extensas planícies, cuja vegetação, pouco variada, constitui-se basicamente de gramíneas, pastagens e capões de mato isolados. A criação extensiva de gado ou ovelhas deixa o campo com um aspecto “pouco povoado”. As estradas que ligam as fronteiras, as cidades e as estâncias, são caminhos que parecem intermináveis pelo seu traçado retilíneo e pela imutabilidade da paisagem, onde se pode andar cinquenta, sessenta quilômetros sem que se aviste uma moradia ou um habitante. Como a própria linha de fronteira é, na região, frequentemente invisível, decidi fotografar os sinais indicativos, como marcos, placas de estrada e mesmo alguma fachada alusiva a esse aspecto.

Estrada que liga Rivera a Vichadero/UY

A partir desses pontos, tracei uma linha imaginária que avançava em torno de cem quilômetros em direção a cada um dos três países e procurei verificar quais cidades, pueblos e vilarejos estavam compreendidos nesse espaço. Como já havia ficado demonstrado em minha experiência anterior, delimitações restritas de áreas geográficas não se adequam à extensa e maleável rede de indicações de contadores reconhecidos e legitimados pela comunidade. Logo, essa faixa de cem quilômetros serviu apenas como um parâmetro de atuação e não como uma regra absoluta. Assim, listei as aglomerações urbanas incluídas nessa área, muitas das quais eu já havia conhecido, seja pelas narrativas, seja pessoalmente. A faixa compreende: Rivera, Artigas, Massoller, Bella Unión, Vichadero (no Uruguai); Paso de los Libres, Mercedes, Monte Caseros, Tapebicuá (na Argentina); Uruguaiana, Barra do Quaraí, Alegrete, Quaraí, Santana do Livramento (no Brasil). O mapeamento dessas cidades permitiu que eu buscasse referências históricas, políticas e sociais de cada uma delas e

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que conhecesse de antemão as necessidades de atuação em cada zona. Como, em muitos locais, eu não possuía referência de nenhum contador, nem mesmo contato com algum habitante, optei por começar baseando-me nas relações que havia estabelecido anteriormente, tanto no lado brasileiro da fronteira quanto na cidade uruguaia de Rivera. O conhecimento prévio de alguns narradores da região foi fundamental para o estabelecimento de novos contatos e também para a retomada de antigas relações. Restava-me, assim, no decorrer da pesquisa de campo, ir acompanhando as indicações fornecidas por eles.

Mapa da América do Sul: em destaque a área aproximada de abrangência da pesquisa

Em geral, fiquei hospedada nas residências dos próprios contadores ou de pessoas próximas a eles, tanto no campo – em estâncias – quanto nas

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cidades. Em duas ocasiões, fiquei instalada em escolas rurais, no Uruguai, o que foi interessante, pois permitiu que eu tivesse acesso facilitado a um grande número de narradores, membros das famílias dos alunos, além de ter meu trabalho legitimado por minha relação com os professores. Em ambos os casos, procurei dar o retorno pela acolhida através de palestras ministradas a partir de temas relacionados à pesquisa, sugeridos pelos professores. Outro fator importante, nos dois casos, foi que acabei estabelecendo contato também com as crianças e suas narrativas, o que acrescentou uma nova perspectiva à observação.

Permaneci em campo, em períodos alternados, entre os meses de maio de 2001 e abril de 2002, perfazendo aproximadamente oito meses de pesquisa

in loco.

Os métodos utilizados – e modificados – em campo serão explorados a seguir, com profundidade, na descrição que faço do período de pesquisa. Antes, porém, gostaria de abordar alguns procedimentos metodológicos, estabelecidos a priori, cuja influência foi definidora para o andamento desta pesquisa.

O primeiro procedimento em questão é o da realização de um campo “itinerante”. As motivações para tanto têm as mais variadas origens: os narradores, em geral, também são ou foram andarilhos, viajantes, e seria importante conhecer as localidades mais comuns em suas trajetórias,12 tais

como estâncias, estradas, passos (passagem de um rio), montes, marcos históricos, rios, etc.; as histórias circulam pela fronteira e para conhecer como se dá esse processo eu também teria que “circular”; os narradores sempre fazem referência a outro narrador e me dão indicações explícitas para conhecê-lo, o que é um fator importante também para a compreensão da rede de contadores da fronteira; por estar trabalhando com uma faixa abstrata de fronteira, a verificação dessas hipóteses exige o deslocamento e o estabelecimento de contatos com habitantes de toda a área em questão.

Essa itinerância, entretanto, gera algumas dificuldades, como, por exemplo, no momento de decidir quanto tempo permanecer em cada local ou com cada narrador. A questão dos curtos períodos de estadia, possíveis dentro dessa perspectiva, muitas vezes também é um impeditivo para a convivência mais profunda e cotidiana com os narradores. A solução que encontrei para isso adveio do próprio trabalho. Nos locais onde percebi que havia oportunidade e expectativa de uma estadia mais longa, por parte dos narradores, e um bom prognóstico de continuidade, de minha parte, permaneci mais tempo.

12 Trabalho a noção de “trajetória” no mesmo sentido empregado por Kofes (2001, p. 24), isto

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Outro procedimento utilizado diz respeito à participação daqueles que foram meus guias e interlocutores diante dos contadores. Isso porque os melhores interlocutores não eram necessariamente contadores, mas intermediários, pessoas que me apresentavam a estes, contextualizavam seu papel para o grupo e, eventualmente, acompanhavam nossas conversas. Na grande maioria dos casos, a presença desses interlocutores durante os eventos narrativos era importantíssima, pois gerava um ambiente familiar e estimulante ao contador e lhe permitia tecer comentários, conferir informações, compartilhar histórias, ou seja, falar para um ouvinte especializado. A importância do estímulo conferido pela audiência para que os causos/cuentos ocorram é mencionada pelo contador Roberto Rodriguez, de 56 anos (Tomaz Gomensoro/UY):

Siempre tenemos unas anécdotas para contar cuando... se surge más cuando pasan los años y uno se encuentra con un conocido. Se encuentra con alguien ahí que... Entonces se ve las anécdotas: “Chê, te acuerdas de tal vuelta que nos encontramos? De fulano, do que él hizo, de lo que pasó...?” Entonces se transforman en las verdaderas ruedas de cuentos, de anécdotas, de las cosas, no? Pero... Pero así sin un motivo, si uno as veces no tiene un incentivo... Tiene que ser una recordación: “Chê, te acuerdas tal cosa?” O respecto a un caballo: “Te acuerdas el caballo que montaste, aquél caballo que te volteó?” Entonces son cosas así...13

O “bom” interlocutor eventualmente também agiu como tradutor, no caso de narrativas contadas em guarani, como ocorreu na Argentina, por exemplo, e mesmo para algumas palavras do espanhol criollo.14 Além disso, esses sujeitos

também teciam seus comentários e faziam suas próprias interpretações, auxiliando- me na compreensão do contexto amplo das narrativas. Sua atuação como primeiro ouvinte diante dos contadores também ampliou as possibilidades para realizar o registro de imagens, liberando meu olhar e permitindo a realização de pequenos movimentos com a câmera. Por outro lado, ainda que tenha ocorrido poucas vezes, alguns interlocutores também prejudicaram ou mesmo impediram o desenrolar das narrativas. Um deles, por exemplo, mais afoito, insistia com um narrador para que me contasse histórias de assombração, ainda que este estivesse mais inte- ressado em contar sua triste história de vida. Outro, na ânsia de me ajudar, impediu

13 Para informações específicas sobre os métodos e técnicas utilizadas na transcrição das

narrativas e discursos dos contadores, ver o item 2.2.

14 Embora domine o espanhol e, aos poucos, tenha me familiarizado com o chamado

“portunhol” ou “dialeto fronteiriço”, não tive condições de aprender o guarani, daí a importância de ter um tradutor que me acompanhasse, ainda que raramente as narrativas fossem contadas integralmente nesse idioma (pois os próprios contadores, muitas vezes, também se encarregam de traduzi-las).

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que a filha de um contador, já bastante idoso e com dificuldades de memória, contasse suas próprias histórias e desse sua versão para as histórias do pai.

O uso de equipamento audiovisual foi outro procedimento importante. Minha proposta não era de realizar uma etnografia visual, mas registros específicos de performances narrativas e do contexto dos contadores. A ideia era priorizar o registro das performances em vídeo e das paisagens em foto, mas essa não foi uma regra estrita. Sozinha em campo, eu estava munida de uma filmadora com microfone de lapela, duas máquinas fotográficas (uma com filme colorido e outra com filme em preto e branco) e um gravador de fitas cassete. Eu conhecia bem o manejo de cada equipamento, mas logo que cheguei a campo percebi que teria que equacionar muito bem como e quando utilizar cada um deles. Meu trabalho e as análises posteriormente inferidas foram permeados pelo uso desses equipamentos e pela relação com eles.

Finalmente, creio que seja útil mencionar os procedimentos éticos utilizados. Minha relação com os narradores foi sempre mediada por pessoas que eles conheciam bem. Graças a isso, quase de imediato, estabelecia-se um clima de confiança e de disponibilidade. Uma atitude que procurei ter, no sentido de retribuir e de reafirmar essa confiança, foi a de retornar às suas casas e oferecer-lhes cópias de fotografias feitas no encontro anterior. A simples atitude do retorno (que podia ser apenas um ou vários), além de gerar reações de comprometimento com a pesquisa, proporcionou também, nesses novos eventos narrativos, um melhor dimensionamento do repertório, do estilo e das estratégias de performance de cada contador. Por outro lado, a intenção de uso dos registros audiovisuais nos produtos finais – inicialmente o vídeo e a tese – exigia que fossem solicitadas autorizações assinadas de todos os contadores. Esse talvez tenha sido o procedimento mais difícil, já que muitos narradores são analfabetos. Nesse caso, foi necessário solicitar a assinatura de algum familiar. O fato de estabelecer a relação de confiança com base em um papel nem sempre é bem aceita ou mesmo compreendida entre muitos desses homens e mulheres. Embora todos tenham sido bastante gentis ao atender meu pedido, devo admitir que houve ocasiões em que realmente não fui capaz de, ao me despedir, depois de ouvir muitas histórias e ganhar meia dúzia de ovos de ñandu (ema), solicitar a tal assinatura.15 Percalços dos

encontros antropológicos contemporâneos.

15 Nem sempre era possível solicitar a autorização no início da conversa, pois muitos

contadores, ao saber de meu interesse, imediatamente começavam a narrar suas histórias (o que, por vezes, dificultava também a preparação adequada do equipamento de registro). Como todos eram informados sobre os procedimentos e objetivos da pesquisa e demonstravam pronto interesse em participar, optei por manter, ao longo deste trabalho, seus nomes reais.

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A seguir, faço um pequeno relato do período de pesquisa.

Inicialmente fiz contato com três famílias que já me haviam me hospedado anteriormente, explicando-lhes a retomada de meu trabalho na região e solicitando-lhes nova acolhida. Esse contato foi mais fácil, pois, durante os anos de intervalo, continuávamos trocando correspondências. Em dois casos obtive respostas positivas e, no terceiro, recebi a notícia de que o Senhor José Ferrari, grande apoiador de meu trabalho em Alegrete/BR, havia falecido poucas semanas antes. Entre as outras duas alternativas, uma de Rivera/UY e outra de Santana do Livramento/BR, optei pela proposta de minha amiga de Rivera, que sugeriu que eu adiantasse minha chegada para que pudesse estar na cidade a tempo de participar de um grande almoço que reuniria cerca de duzentas pessoas. Lá, segundo ela, certamente eu faria bons contatos. Aceitei a sugestão, especialmente porque seria uma ótima oportunidade para adentrar na fronteira uruguaia. Com malas e equipamentos prontos e um mapa do Mercosul em mãos, peguei a estrada para a fronteira. Realmente aquele almoço foi um excelente ponto de partida, pois saí de lá com minha caderneta de campo já preenchida com diversos nomes e telefones de narradores e de possíveis intermediários, moradores e/ou conhecedores do meio rural daquela fronteira, tanto uruguaios quanto brasileiros.

A partir de então, o trabalho em campo foi tomando sua própria dinâmica, mas não sem que, por vezes, eu tivesse que recorrer a meus mapas e cronogramas. Nesse percurso, deparei-me com alguns dilemas. Permanecer mais tempo num mesmo local, conhecendo mais profundamente a população e suas relações, ou tentar realizar uma amostragem mais representativa de contadores, suas performances e o imaginário da região? E como fazer com que o registro audiovisual captasse imagens e sons representativos e com alguma homogeneidade (já que serviriam como demonstrativo do trabalho), mas isso considerando sujeitos tão diferentes, encontros distintos e situações as mais diversas?

Esses conflitos, constituintes do trabalho de campo, foram sendo resolvidos com o andamento da pesquisa, ao mesmo tempo que lhe foram conferindo um ritmo próprio. Desta forma, acabei conhecendo profundamente, por exemplo, a comunidade de Cerro Pelado, a 76 quilômetros de Rivera/UY, onde permaneci longas temporadas e para onde voltei diversas vezes. Mas também visitei alguns lugares e pessoas uma vez apenas, sendo que, nesse caso, o “retorno” era simbolizado pelas fotos enviadas através de amigos ou parentes dos narradores contatados. Essas incursões únicas também foram importantes, pois estavam de acordo com a ideia inicial de realização de uma cartografia dos narradores e das narrativas que circulam por essas fronteiras.

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Em relação ao audiovisual, a experiência prática e a possibilidade de analisar as imagens nos intervalos da incursão no campo foram conferindo a quali- dade e a homogeneidade necessárias, ainda que não na medida desejada. O trabalho com imagens exige um planejamento, um apuro técnico no registro e um cuidado no armazenamento, difíceis de alcançar plenamente quando se está sozinha em campo, especialmente nesse caso em que o campo é tão multifacetado e repleto de elementos novos (devido à sua característica itinerante), e principalmente quando o foco está em utilizar as imagens e sons dentro do próprio processo de construção do objeto.

O fato de que já havia conhecido o lado brasileiro e pesquisado ali fez com que a ênfase maior desta nova pesquisa de campo fosse dada às fronteiras argentinas e uruguaias, incluindo uma extensão de terras que acabou se estendendo até 130 quilômetros das linhas divisórias desses países.

Esse conhecimento anterior também permitiu reencontros com contadores que haviam sido especialmente importantes naquele momento (1998), em Rivera/UY, em Uruguaiana/BR e em Livramento/BR. Don Chachá, Seu Romão, Seu Ordálio, Gaúcho Pampa mantinham nossos encontros na memória e agregaram, pelo tempo e amizade acumulados, uma densidade especial ao trabalho, traduzindo a confiança e a intimidade mantidas com meu retorno em novas narrativas ou novas maneiras de contá-las.

Outra opção nessa nova etapa foi acompanhar menos o cotidiano das estâncias, sobre o qual eu já possuía experiência, e presenciar o maior número possível de encontros sociais das comunidades abordadas. Nessas ocasiões, dediquei-me mais à observação e registro das atividades do que propriamente à participação, dando ênfase à captação de imagens e sons referentes à distribuição das pessoas no espaço e suas respectivas relações sociais, às posições e atitudes dos corpos dos sujeitos – em movimento e em repouso –, ao uso da indumentária, à manipulação de objetos, etc. A observação da participação dos narradores e do surgimento das histórias durante as festas também auxiliou na compreensão da relação que esse tipo de evento tem com a circulação das narrativas orais e com a manutenção dos laços que perfazem a rede de contadores e a cultura da fronteira.