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O PLANO SUB ROGADO ( ALTERNATIVE GROUNDS )

Utilizado em outros estudos e associado com a idéia de mudança de perspectiva e utilização do ponto de vista alheio, o termo ground é tratado por Langacker (2002:7) para especificar o evento discursivo, seus participantes e suas

MUDANÇA DE FOCO

8a 8b

Figura 8: A mudança de foco.

Na figura 8a o foco está na xícara e na figura 8b, na lâmpada do teto refletida no líquido. Fonte: http://www.boczon.blogger.com.br/

47 circunstâncias imediatas. Tomando este fundo como plataforma, pode-se delinear a

sua relação com um item lexical, um dêitico, por exemplo, e verificar quais facetas serão perfiladas, ou seja, colocadas em relevo nesta nova plataforma ou plano conceptual.

Este conceito está aliado à noção de plano sub-rogado, que eu utilizarei nas análises, essencial para a construção e emergência das facetas conceptuais do dêitico você. A importância desse plano está na sua função de substituir o plano físico imediato de ele ser decisivo no aterramento9 da entidade dêitica. Como falado anteriormente, os fundos alternativos funcionam como plataformas conceptuais, espaços imagéticos que permitem o perfilamento de determinados elementos discursivos.

A Figura 9 ilustra a laminação dos espaços conceptuais para a emergência das distintas facetas do dêitico você. No primeiro plano (1), temos o falante e o ouvinte numa interação em tempo real, num plano físico. O uso do dêitico você ativa a figura do ouvinte quando ocorre o apontamento canônico, mostrado no plano 1’. Entretanto, há interações nas quais o você projeta um plano sub-rogado(1’’) onde novos elementos são perfilados. Esta plataforma (1’’) tem natureza conceptual, imagética e é cunhada durante o processo dinâmico da referenciação.

9 Brisard (2002: xiii) ressalta que o aterramento epistêmico (epistemic grounding) é o enquadramento diretamente pertinente à compreensão e sentido da dêixis.

Figura 9: Laminação Uma interação ocorre num plano representados em 1’ como eu e

no plano sub-rogado 1’’. Esses

Este processo de pro proposto por Fauconnier e atenção à construção de ce diante da construção de esp input se projetam de forma conceptual.

Este plano sub-rogad sobre os campos simbólico campo real imediato. A dê fantasma, para um plano sim

2.6R

ESUMO

Nesta seção, foram reflexões que se seguem. V

ção de planos conceptuais alternativos: O plano sub-rog lano físico 1 onde estão presentes o falante e o ouvinte u e você. O uso do você pode ativa outros elementos qu sses novos elementos são perfilados nesta plataforma al

projeção se equipara ao processo de mesclag r e Turner (2002). Naquele estudo, os autores d e cenários montados mentalmente, que se to espaços mentais cunhados de forma situada, cu

rma a construir um espaço genérico que ativa

ogado também se filia às proposições de Bühle ólicos. Há projeções de entidades em campo dêixis pode estar num lócus físico ou pode s simbólico imagético comumente tratado como

ram apresentados os construtos teóricos esse m. Vimos que a dêixis marca lingüisticamente

48 rogado.

inte, canonicamente s que não o ouvinte alternativa (1’’).

sclagem conceitual res deram especial tornam possíveis a, cujos elementos ativa a mesclagem ühler (1935, 1979) mpos distintos do de ser projeta em omo fictício. essenciais para as nte um fenômeno

49 psicológico e que tem sua natureza explicada nas proposições de Bühler (1935), Rubba

(1996) e Langacker (1987).

O processo de referenciação dêitica foi descrito. Da mesma forma, foi mostrado que as expressões dêiticas, antes apresentadas como meros índices identificadores de alvos perderam sua aura objetiva e ganharam nuanças psicológicas com os estudos mais recentes sobre o tema. Este avanço em torno da noção de referenciação se deu graças às pesquisas que optaram por um foco mais epistêmico.

Nesta seção, também foram esboçados e exemplificados os vários tipos de dêixis. Foram apresentados os ajustes focais que ocorrem durante a interpretação dos elementos dêiticos. A partir dos ajustes focais de perspectivação, abstração e seleção, bem como a laminação de espaços alternativos e enquadramentos distintos é possível mapear a emergência de entidades, o perfilamento de facetas em um plano imagético. A importância da construção de plataformas epistêmicas alternativas foi ressaltada. Vimos que o plano discursivo imediato funciona como base para que outro plano, o chamado plano sub-rogado, seja projetado.

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3 A

GRAMATICALIZAÇÃO DO VOCÊ

Entende-se por gramaticalização o processo por meio do qual um item lexical tem suas propriedades transformadas. Esta modificação pode acontecer no âmbito da morfologia, da semântica, da sintaxe, da fonologia e da pragmática. Seja por meio de estudos diacrônicos, sincrônicos e pancrônicos, o processo de gramaticalização de determinada entidade lingüística vem sendo investigado na tentativa de mapear mudanças decorrentes de perdas e ganhos semânticos, por exemplo, bem como de identificar traços que se mantêm e não foram modificados.

Neves (2007:257) assegura que “entidades da língua sofrem acomodação para obter uma organização de enunciados que reflita o complexo de relações existente na base”. Destaca-se, segundo Neves (2002:175), as “complexas relações entre léxico e gramática que envolvem alterações graduais de propriedades e que se podem verificar no funcionamento dos itens da língua em todos os níveis do enunciado”. A autora propõe uma visão ampla da gramaticalização que seria “um processo pancrônico que consiste na acomodação de uma rede que tem áreas relativamente rígidas e áreas menos rígidas”.

Dentro da perspectiva cognitiva, a gramaticalização também envolve mudanças correlatas no som, no sentido e na gramática. Este processo pode levar a uma re- análise da categorização de uma dada unidade simbólica e constitui uma mudança de natureza baseada no uso. Langacker (1991:325, 330) mostra que pelo menos algumas instâncias da gramaticalização têm relação com o processo de subjetividade, ou no aumento de grau de subjetividade. Para ilustrar, o autor usa o verbo go (ir) que na língua inglesa sofreu um processo de gramaticalização e que também pode ser usado para expressar um enunciado no futuro. No exemplo, “She is going to close the door”

51 (Ela vai fechar a porta) podemos ter uma ação que se refere a uma locomoção de um

determinado lugar para o outro, partindo do ponto de vista de quem se movimenta, ou de quem narra, ou de uma ação no futuro, na qual alguém vai fechar a porta, utilizando um controle remoto.

Traugott e Dascher (2002) discutirem sobre o fenômeno da intersubjetividade que trata da mudança no sentido objetivo de um determinado pronome de tratamento, por exemplo. Essa mudança consiste na transformação das relações entre o falante e o ouvinte, comumente retratada na deixis social. Os autores mostram que o verbo japonês ageru tinha características honoríficas e deveria ser usado por uma pessoa de nível social menor ao se dirigir ao ouvinte, de nível social superior. Parte deste verbo tinha esta função de expressar a diferenciação social. Atualmente, esse verbo vem sendo usado para expressar polidez e não necessariamente o reconhecimento de status social distinto. O que aconteceu com a dêixis você mostra um percurso que tem algumas similaridades com o processo de gramaticalização do verbo ageru.

A primeira ocorrência do pronome você tem a datação de 1665, segundo o dicionário Houaiss. Mas as formas de tratamento que o antecederam no processo de gramaticalização são mais remotas. Sua etimologia pode ser apreciada por meio do estudo da doutrina político-religiosa adotada por alguns países europeus, mas principalmente pela França, no seu Regime Antigo, que se iniciou no século XV. As relações sociais, naquele regime, eram claramente estabelecidas e segmentadas. Tratava-se de uma sociedade estamental, em oposição a uma burguesia. O clero constituía o primeiro estado, a nobreza o segundo e os camponeses, servos e

52 burgueses o terceiro estado. O Direito Divino10 dos reis foi criado com base no Regime

Antigo. Naqueles tempos, os cargos eram considerados sagrados e contestar o direito de governança real equivaleria a contestar o próprio Deus. O povo se encontrava à mercê das autoridades locais e se dirigia às pessoas mais renomadas por Vossa Mercê.

A versão portuguesa do regime político francês também deixou marcas na linguagem. O pronome vós era utilizado para se dirigir a segunda pessoa, a um grupo de pessoas, bem como a um nobre e o vossa mercê foi trazido para o Brasil, quando colônia de Portugal e ganhou notas menos formais. Ele se tornou vossemecê, vosmecê e finalmente, você, segundo Lopes e Duarte (2003). Entretanto, há registros de algumas variações intermediárias como o vossancé (1721) e o vossê11. Seu uso em Portugal já era bastante diversificado. Num primeiro momento era usado para se dirigir ao rei, além de vossa senhoria, e se estendia ao tratamento não íntimo entre iguais na aristocracia e, mais adiante, por membros menos privilegiados da sociedade portuguesa, segundo Faraco (1996).

A pronominalização da expressão vossa mercê, estudada por Lopes e Duarte (2003), mostra à luz de Hopper (1991) que houve um período de coexistência entre as formas, não havendo um descarte imediato do vossa mercê, em detrimento do emergente você, embora se diferenciassem no que diz respeito à função. O você foi perdendo sua natureza de cortesia e reverência. Esta perda semântica foi acompanhada de uma erosão fonológica – vossa mercê>vosmecê>você>cê. O substantivo mercê ainda conserva sua integridade fonológica, muito embora tenha ganhado novas acepções como capricho, benignidade, graça, recompensa, dentre outras.

10 Veja: http://pt.wikipedia.org/wiki/Direito_divino_dos_reis

53 Nunes (1960, p. 33 e p. 245) corrobora as asserções acima afirmando que o

moderno você é o atual representante da antiga forma de tratamento vossa mercê e esclarece:

Os pronomes correspondentes às primeira e segunda pessoas do plural provêm dos clássicos nostru(m) e vostru(m), o segundo dos quais, pertencente à língua arcaica, continuou a ser usado pelo povo... Também na forma feminina do pronome vosso influiu a próclise de tal maneira que fez que ela perdesse a sílaba final na expressão você, que ocorre a partir de vossemercê, e está, como é sabido, por vossa mercê; contribuiu decerto para tamanha redução no pronome e no substantivo, o seu uso constante no tratamento.

A rigor, o pronome você é usado para se referir à pessoa com quem se fala - a segunda pessoa do singular12. Lopes (1998) ressalta que os pronomes pessoais são caracterizados pelos gramáticos como indicadores universais das três pessoas do discurso: quem fala, com quem se fala e de quem se fala. Entretanto, a conjugação apresenta uma característica idiossincrática interessante. Ela é feita na terceira pessoa, da mesma forma que em Vossa Excelência, Vossa Santidade, etc.

Hoje, o você é basicamente usado como pronome de tratamento entre pessoas da mesma classe social, mesma idade, mesma hierarquia. Mas pode ser utilizado entre as classes e faixas etárias distintas, no Brasil. Em Portugal, ele pode ser usado como forma carinhosa de intimidade, mas causa estranhamento se for usado nas relações interpessoais por um elemento de classe social, ou hierarquia inferior, numa interação com alguém de classe ou hierarquia superior, como informa a pesquisa de Lopes e Duarte (2003).

Em termos gerais, a gramaticalização do você sofreu, além de uma erosão fonológica, uma mudança de sentido, visto a mudança de natureza pragmática descrita

54 acima. Os estudos mais recentes não contemplam, entretanto, as novas acepções

desse dêitico, limitando-se a conferir ao mesmo os valores de indeterminação e generalização. Neves (2000:463), por exemplo, reconhece o valor genérico e afirma que há uma forte indeterminação na referenciação via você, atribuindo ao dêitico o sentido de “uma pessoa, seja qual for”. A autora mantém a proposta canônica do dêitico, ao dizer que “as formas você e vocês se referem à 2ª pessoa, mas levam o verbo para a 3ª pessoa, do mesmo modo como ocorre com os pronomes de tratamento, como vossa senhoria, vossa excelência, o(a) senhor(a).”

As facetas semântico-cognitivas do dêitico você podem ser apreciadas como evidências de uma nova etapa na gramaticalização desta entidade lexical. Para que tal afirmação seja confirmada, há que se fazer um estudo detalhado de como este novo você é usado, bem como traças as generalizações em torno deste uso. A presente pesquisa se propõe a fazer esta investigação pelo viés da Lingüística Cognitiva e suas linhas investigativas.

Passemos para as peculiaridades do processo de referenciação via você, visto sob a ótica da Gramática Cognitiva postulada por Langacker (1987) e para a apreciação das acepções do dêitico você. Nelas poderemos apreciar marcas de abstração importantes para este estudo, bem como os primeiros indícios desta nova etapa no processo de gramaticalização do você.