6 PODER E DOMINAÇÃO
6.3 O PODER HEGEMÔNICO E A IDEOLOGIA
A maneira como Gramsci (1977) utiliza o conceito de hegemonia está intimamente relacionada ao que já temos tratado aqui. Para entendê-lo, é preciso compreender a forma como Gramsci (1977) separou a infraestrutura das sociedades (forças produtivas e relações
sociais de produção) da superestrutura (a ideologia, constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), a qual chamou de bloco hegemônico, tendo em vista que o poder das classes dominantes no sistema capitalista não está apenas no controle dos aparelhos repressivos do Estado (infraestrutura), mas, também e fundamentalmente, no controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação (superestrutura), ou seja, dispositivos hegemônicos da sociedade civil.
Gramsci associa a hegemonia à arena da “sociedade civil”, com o que pretende designar todo o espectro de instituições intermediárias entre o Estado e a economia. Estações de televisão privadas, a família, o escotismo, a Igreja metodista, escolas, a Legião Britânica, o jornal Sun: todos eles seriam dispositivos hegemônicos, que submetem os indivíduos ao poder dominante antes pelo consentimento que pela coerção. A coerção, em contraste, é reservada ao Estado, que tem um monopólio da violência “legítima” (EAGLETON, 1997, p. 106).
Assim, as classes dominantes “educam” as classes dominadas para que estas permaneçam em submissão sob consenso, evitando qualquer teor revolucionário que estes possam vir a tentar levantar (ALVES, 2010). Hegemonia, portanto, para Gramsci (1977), é o exercício desse poder dominante por meio do direcionamento intelectual e moral, unido ao domínio do poder político, que conquista o consentimento dos indivíduos subjugados ao seu domínio.
[...] hegemonia é um conceito que se refere a uma forma particular de dominação na qual uma classe torna legítima sua posição e obtém aceitação, quando não apoio irrestrito, dos que se encontram abaixo. Até certo ponto, toda dominação baseia-se em coerção e no potencial de uso da força. Este tipo de poder, no entanto, é relativamente instável. Para que a dominação seja estável, a classe governante precisa criar e manter estilos de ampla aceitação de pensar sobre o mundo que definam sua dominação como razoável, justa e no melhor interesse da sociedade como um todo (JOHNSON, 1997, p. 123).
O poder hegemônico submete os indivíduos ao poder dominante por meio do consentimento, deixando a coerção a cargo do Estado, o qual, ainda que atue com coerção, corre o risco de perder credibilidade ideológica. Por isso, o poder disciplinar e punitivo passa a agir como um poder invisível, naturalizado como senso comum da ordem social (GRAMSCI, 1977).
A “violência simbólica”, assim, é a maneira de Bourdieu repensar e elaborar o conceito gramsciano de hegemonia, e o conjunto de seu trabalho representa uma contribuição original para o que poderia chamar as “microestruturas” da ideologia, complementando as noções mais gerais da tradição marxista com relatos empiricamente detalhados da ideologia como “vida cotidiana” (EAGLETON, 1997, p. 142).
Contudo, é importante salientar que, para Gramsci (1977), a hegemonia nunca é uma conquista definitiva, estando associada ao conceito de luta e, portanto, em seu caráter relacional, exigindo uma constante luta com as forças contra-hegemônicas.
Gramsci rejeita a noção de ideologia como algo negativo, simplesmente uma “falsa consciência” e explica que hegemonia é um conceito mais amplo que ideologia, pois inclui diversos níveis ideológicos culturais, políticos e econômicos, e a ideologia sozinha está associada à forma como as lutas de poder se dão, a visão de mundo e a consciência adequada à conjuntura em que estão as classes dominantes (GRAMSCI, 1977).
Gramsci normalmente usa a palavra hegemonia para designar a maneira como um poder governante conquista o consentimento dos subjugados a seu domínio – apesar de, é verdade, empregar o termo ocasionalmente para designar conjuntamente o consentimento e a coerção. Assim, há uma diferença imediata ante o conceito de ideologia, já que está claro que as ideologias podem ser impostas à força. [...] hegemonia é também uma categoria mais ampla que a ideologia: inclui a ideologia, mas não pode ser reduzida a ela. Um grupo ou classe dominante pode assegurar o consentimento a seu poder por meios ideológicos, mas também pode fazê-lo, digamos, alterando o sistema de tributação de maneira favorável aos grupos de cujo apoio necessita ou criando uma camada de operários relativamente opulenta e, portanto, razoavelmente inerte. [...] é que se espera que as pessoas acreditem que governam a si mesmas” (EAGLETON, 1997, p. 105, grifo do autor).
Entretanto, o indivíduo precisa se desvencilhar da ideologia das classes dominantes, mas, para isso, é preciso dotá-lo de uma autoconsciência crítica, com auxílio de intelectuais que organizem o partido revolucionário e mostre às classes oprimidas uma crítica possível nos campos cultural, político e econômico (GRAMSCI, 1977). E o indivíduo, o sujeito pode intervir no mundo, sendo constituído e constituindo a história, que pressupõe a intervenção, sim, ativa e consciente dos dominados. Nada é imutável. Tudo precisa ser pensado historicamente – de onde Gramsci nos apresenta seu conceito de historicismo absoluto (ALVES, 2010), já que “toda ideologia é para Gramsci um fenômeno histórico específico” (EAGLETON, 1997, p. 109).
Ou melhor, Gramsci chamou de “intelectuais orgânicos” aqueles que conseguem pensar a realidade social e política e colocar seu conhecimento a serviço de movimentos sociais, para o engajamento político das camadas dominadas em suas lutas por libertação. Esse intelectual atua entre a sociedade política (Estado) e a sociedade civil, buscando estratégias para levar à hegemonia dessas camadas oprimidas, levando consciência crítica aos indivíduos.
A filosofia estaria, para Gramsci, nessa posição matriz de formação dos intelectuais orgânicos, que contribuiriam para o desenvolvimento do espírito crítico das relações sócio-
históricas, tornando a concepção de mundo mais inteligível para todos e colaborando para que cada um elabore uma concepção de mundo mais consciente e crítica com referenciais filosóficos, ou seja, com ideologias. “Criar uma concepção de mundo significa, portanto, torná-la unitária e coerente, e elevá-la até ao ponto a que subiu o pensamento mais avançado” (GRAMSCI, 1978, p. 22).
Para tratar do conceito de ideologia, o que é bastante válido e frutífero nesta pesquisa, é rico conhecer a forma como outros estudiosos pensam o termo. Chauí (2005, p. 7), por exemplo, considera que “ideologia é um ideário histórico, social e político que oculta a realidade, e que esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a exploração econômica, a desigualdade social e a dominação política”. Sua maneira de compreender o conceito está associada à ideia de “falsa consciência” de Marx (EAGLETON, 1997).
Eagleton (1997, p. 15-16), em seu livro Ideologia: uma introdução, apresenta algumas definições que, atualmente, podem ser encontradas para o conceito de ideologia:
a) o processo de produção de significados, signos e valores na vida social; b) um corpo de idéias característico de um determinado grupo ou classe social; c) idéias que ajudam a legitimar um poder político dominante;
d) idéias falsas que ajudam a legitimar um poder político dominante; e) comunicação sistematicamente distorcida;
f) aquilo que confere certa posição a um sujeito;
g) formas de pensamento motivadas por interesses sociais; h) pensamento de identidade;
i) ilusão socialmente necessária; j) a conjuntura de discurso e poder;
k) o veículo pelo qual atores sociais conscientes entendem o seu mundo; l) conjunto de crenças orientadas para a ação;
m) a confusão entre realidade lingüística e realidade fenomenal; n) oclusão semiótica;
o) o meio pelo qual os indivíduos vivenciam suas relações com uma estrutura social;
p) o processo pelo qual a vida social é convertida em uma realidade natural.
O que se percebe, contudo, é que nessas definições, podemos encontrar visões antagônicas entre si e também aquelas que não se excluem. Ao contrário; até se complementam. O importante é compreendermos que elas são as que estão em circulação na contemporaneidade.
A ideologia é um sistema de ideias que pode ser discutido enquanto tal e também como forma de apreensão, de denegação ou, principalmente, de construção da realidade e do mundo. [...] Para Bourdieu o conceito de ideologia é muito problemático no seu uso mais frequente, quando é apresentado como o fundamento último da dominação social. Ele faz deslocar para o terreno do racional e do lógico uma realidade que deve ser buscada nas formas em que a ordem social se inscreve no corpo e na fisiologia dos indivíduos, no habitus que a socialização produz nos
indivíduos e grupos. Consequentemente, aquela noção mais comum de ideologia é um mau instrumento heurístico, pois torna o investigador incapaz de entender as razões da submissão e as reais possibilidades de revolta diante de situações que podem parecer impossíveis de serem vividas quando apreendidas apenas pelo intelecto (GRÜN, 2017a, p. 230).
De fato, Bourdieu não coloca o conceito ideologia em posição central em suas pesquisas. Ele está mais interessado em verificar “os mecanismos pelos quais a ideologia toma conta da vida cotidiana” (EAGLETON, 1997, p. 140). Mais importante, para Bourdieu, é entender a lógica de funcionamento do habitus, que, como explica Eagleton (1997, p.141), “é um sistema aberto que capacita os indivíduos a lidar com situações imprevistas, sempre mutáveis; [...] um princípio gerador de estratégias que permite antes uma inovação incessante que um projeto rígido”.
O habitus é importante para a ideologia porque induz, nos agentes sociais, aspirações e ações de acordo com a objetividade das circunstâncias sociais, rejeitando outras formas de comportamento como algo impensável, já que tudo na história para o habitus se naturaliza. É exatamente dessa forma que, por meio do habitus, que os indivíduos associam o objetivo da história e das condições sociais com o subjetivo e se sentem dispostos a fazerem o que essas condições os levam a fazer – e, assim, o poder se consolida, pelo habitus, tal qual uma ideologia, mas sem ser a ideologia (EAGLETON, 1997).