6 PODER E DOMINAÇÃO
6.1 PODER E DOMINAÇÃO PARA GOVERNAR
Quando falamos em poder e dominação na sociedade, é extremamente enriquecedor recorrer a Foucault e a suas análises acerca da genealogia do poder, na sua concepção não jurídica, sem relação à lei, consequentemente, a uma soberania pelo direito (MACHADO, 1979). Antes de tudo, é importante compreender que Foucault (1979) não enxerga o poder como algo meramente negativo ou repressivo, sempre a ser imposto. Contrariamente, seu viés positivo é que lhe agrega, justamente, o caráter ideológico, que o faz ser aceito coletivamente, contribuindo para formação das individualidades e dos rituais de verdade, do que é estabelecido como a ordem legítima dominante (FOUCAULT, 1979).
Foucault (1979) defende que o poder funciona como uma rede de dispositivos que atravessam a sociedade, e que existem inúmeras outras relações de poder fora do âmbito do Estado, o qual, outrora, fora o centro de controle da sociabilidade, por meio de mecanismos de punição e proibição que levavam à soberania. Contudo, há outros pontos de sociabilidade que colaboram para determinar o que é, ou não, legítimo, não ficando tudo a critério, apenas, do viés econômico, que toma o poder como uma mercadoria. “[…] o poder é luta, enfrentamento, disputa, relação de forças, estratégia, onde se tem por objetivo acumular vantagens e multiplicar benefícios” (DANNER, 2010, p. 148).
E é exatamente nesse contexto que Foucault (1979) nos apresenta seus conceitos de poder disciplinar e biopoder, tão caros ao desenvolvimento das relações de produção do capitalismo e do Estado moderno, uma vez em que tais poderes se apresentam como procedimentos para modelagem do indivíduo e gestão da coletividade, da população, rejeitando as propostas de dominação e repressão como intervenções violentas do Estado.
O poder disciplinar, segundo Diniz e Oliveira (2013/2014, p. 149-150):
É uma técnica de poder que funciona como uma rede que vai atravessar todas as instituições e aparelhos de Estado. Este instrumento de poder que atua no corpo dos homens usará a punição e a vigilância como principais mecanismos para adestrar e docilizar o sujeito, pois é a partir deles que o homem se adequará às normas estabelecidas nas instituições como um processo de produção que, a partir de uma “tecnologia” disciplinar do corpo, construirá um sujeito com utilidade e docilidade.
Com a ideia de se formarem indivíduos dóceis e úteis, por meio da disciplina, trabalha-se com a política de coerção, esta que não faz uso da violência física, nem de obrigatoriedades, mas de manipulação de gestos, comportamentos, de corpos, compondo cidadãos dóceis, submissos e prontos para agir como se quer, com muita eficiência, utilidade e obediência.
Um desses mecanismos de manipulação é o panóptico, o qual, como observa Foucault (1975), é uma figura arquitetural que atua como nova tecnologia a serviço da disciplina; como em uma torre, de onde todos estão sendo sempre vigiados, mesmo sem ver quem os vigia; uma máquina de vigilância que permite que alguns indivíduos vigiem o comportamento de muitos outros constantemente e, a partir dessa vigilância, todos ficam o tempo todo em estado permanente de alerta, posto que estão sendo vigiados. Assim, automaticamente, funciona o poder disciplinar pelo mecanismo do dispositivo panóptico (FOUCAULT, 1975).
Principalmente devido à grande explosão demográfica do século XVIII, sentiu-se a necessidade de se ter um controle maior da sociedade, que fosse além dos indivíduos e atuasse na população em prol da economia capitalista. Dessa maneira, Foucault (2008a) lançou mão de seu conceito de biopolítica, propondo, novamente, uma transformação nos mecanismos de poder, que se apropriou de processos biológicos para controlá-los e modificá-los, como conviesse àquela nova dimensão coletiva que estava necessitando de regulamentação – a população. Assim, recorrendo-se a saberes como Estatística, Demografia e Medicina Sanitária, buscava-se, pelo mecanismo do biopoder, controlar os corpos através de recursos que envolviam as taxas de nascimentos e de mortes, os índices de fecundidade, de morbidade e de longevidade, os números de criminalidade e de migração, entre outros, acerca da população (FOUCAULT, 2008a).
A partir daí, definem-se as normas que a sociedade deveria seguir e os limites dos índices do que é aceitável ou não em termos de tudo aquilo que garantisse a vida da população, como, por exemplo, o aceitável nos números da criminalidade em uma determinada sociedade, compreendendo que alguma criminalidade sempre vai haver, e que o importante é saber qual é o máximo e o mínimo aceitáveis – essa é a lógica do biopoder (FOUCAULT, 2008a).
O que mais nos chama atenção nisso tudo, é a forma como Foucault (2008a) expõe a genealogia das relações de poder associada com a genealogia do próprio sujeito – que se autodetermina e governa a si mesmo e, assim, permite-se cumprir com o que lhe é posto tal qual uma dominação, sem violência física, sem obrigatoriedades e repressões. Isso é o que
Foucault (2001, p. 785) explica quando apresenta o conceito de governamentalidade, “o encontro entre as técnicas de dominação exercida sobre os outros e as técnicas de si”.
Mas esse sujeito não é simplesmente um ser passivo, capaz apenas de se deixar governar tal como deseja a ordem do sistema. Foucault vê a possibilidade de liberdade na construção das subjetividades, porém, claro, compreendendo que ela atua dentro do que lhe permitem as condições materiais históricas. O sujeito se constrói a partir dos “jogos de verdade” a que está assujeitado, que são, exatamente, essas condições materiais históricas que vão atuar na conjuntura na qual o sujeito busca suas referências; é a ordem estabelecida e legitimada. Contudo, há sempre uma certa margem de liberdade que permite ao sujeito romper com esse contexto de assujeitamento (FOUCAULT, 2008a).
Por isso, o sujeito em Foucault não é meramente passivo e assujeitado; mas é importante reconhecer a força do contexto em que ele está inserido contribuindo na sua estruturação, a respeito da maneira como entendemos e tomamos o ator social para esta pesquisa.
6.2 GOVERNAMENTALIDADE NEOLIBERAL E PROCESSO DE EMPODERAMENTO