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CAPÍTULO 1 WALMART BRASIL: TRAJETÓRIA DE INTERNACIONALIZAÇÃO E

1.3 Internacionalização do varejo

1.3.3 O processo de internacionalização do Walmart

Seguindo o debate dos autores sobre o processo de internacionalização, o grau de sucesso ou fracasso e as particularidades às quais as políticas e práticas do Walmart tiveram ou têm que se adaptar dependem de três fatores principais: 1) o abastecimento e a estrutura do mercado; 2) a demanda e a cultura local e 3) as instituições (TILLY, 2007a).

1991 através de uma parceria (joint venture)50 com a Cifra, na época o maior grupo varejista local. Em 1992, instalou sua primeira loja em Porto Rico e em 1993, a empresa criou sua divisão internacional. Em 1994, adquiriu a rede Woolco, no Canadá. Nessa primeira onda de internacionalização, o Walmart foi razoavelmente bem sucedido, conseguiu em pouco tempo assumir posição dominante nesses mercados, favorecendo-se especialmente do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA).

Uma segunda onda, na proposição de Burt e Sparks (2001, 2006) deu-se com a entrada do Walmart em uma variedade de mercados, usando os mais variados métodos e formatos. Em 1995, a empresa iniciou suas operações nos mercados brasileiro e argentino, mas não conseguiu posição muito forte nesses países. Tanto em Hong Kong quanto na Indonésia, Alemanha e Coreia, o Walmart entrou e se retirou posteriormente. Nesses dois primeiros países, a entrada se deu por joint-venture.

Como aponta Burt e Sparks (2006, p. 33), a expansão na segunda fase se deu em pequena escala e o objetivo principal era mais marcar presença nesses mercados do que buscar uma posição dominante. Nesse processo, o Walmart encontrou dificuldades de diferentes naturezas. Em alguns desses países haviam outros varejistas transnacionais já estabelecidos. Na Coréia, por exemplo, a empresa entrou em 1999, com a compra de quatro lojas do grupo holandês Makro. No entanto, quando o Tesco se associou com o grupo Sansung, os concorrentes foram se retirando desse mercado, primeiro com a saída do Carrefour, e logo em seguida, do Walmart, ambas em 2006.

A companhia também teve dificuldade de exportar seu modelo de negócios e garantir o menor preço, seja pela dificuldade na cadeia de fornecimento, seja pelas diferenças culturais ou pelos constrangimentos das regulações nacionais. Além disso, foi afetada pelas crises econômicas que abalaram em diferentes momentos, esses mercados. No início dos anos 2000, portanto, apenas Brasil e China estavam recebendo investimentos.

A maior entrada durante essa fase de internacionalização deu-se na Alemanha, com a compra de duas redes fracas: a Intespar e a Wertkauf. Com isso, o Walmart assumiu a posição de décimo primeiro varejista, mas em um país onde o setor é altamente concentrado e as dez maiores varejistas controlavam 80% do total de vendas. Sem conseguir melhorar sua posição no mercado alemão, o Walmart tentou se utilizar do mecanismo de corte dos preços para enfraquecer e eliminar a concorrência, mão não obteve sucesso. Além das barreiras dos regimes de propriedade, a empresa norte-americana enfrentou dificuldades também diante da cadeia de fornecimento, nos conselhos do trabalho e frente à base de empregados sindicalizada. Somaram-se a isso outros aspectos da regulação

50 Trata-se da do acordo entre duas empresas para a atuação em um negócio conjuntamente, em que tanto os recursos quanto os resultados são divididos.

e do mercado varejista daquele país que demandariam mais tempo e investimento do que seria possível diante da impaciência dos acionistas por retornos lucrativos (CHRISTOPHERSON, 2006, p. 263-263).

No Brasil, até 1998, as operações do Walmart foram viabilizadas por meio de uma joint venture com as Lojas Americanas S.A. através de 8 lojas. O processo de sua expansão deu-se apenas nos anos 2000, quando a empresa entrou na chamada fase “mais focada financeiramente e mais orientada para os resultados” (BURT; SPARKS, 2001, p. 33).

Nesse período, a terceira onda de internacionalização do Walmart caracterizou-se por uma visão mais estratégica e teve como marco a compra da rede ASDA em 1999, tornando o Reino Unido o principal mercado internacional da empresa. Recentemente, Walmart e Sainsbury se juntaram para ocupar o lugar do Tesco como maior varejista do Reino Unido51. Uma estratégia também de longo prazo foi utilizada para a entrada no Japão, que começou com a compra de participação na rede local Seiyu em 2002 (na época o quarto maior varejista japonês) até assumir o controle da empresa em 2007.

O fracasso do Walmart na Alemanha foi uma das experiências mais emblemáticas e originou uma série de estudos, como por exemplo, a contribuição de Christopherson (2006), que ajuda a compreender o modelo de “estratégia global” difundido pelo Walmart. A autora explica que, geralmente, o modelo ideal de “varejo enxuto” construído a partir dos EUA está baseado: no controle de informações do consumidor; na pressão pela transformação das práticas das indústrias fornecedoras, que passam a absorver parte dos custos do varejista; e na alta flexibilidade do trabalho e desregulamentação do setor varejista e dos transportes. Na medida em que esse modelo concebe a internacionalização apenas via concentração de mercado, segmentação, capitalização, integração da cadeia de suprimentos e uso de tecnologia de informação, quando consideradas, as instituições são percebidas como um obstáculo a essas práticas. Portanto, a autora reafirma essa perspectiva do “varejo enxuto” como um modelo também ideológico, que deriva de uma visão particular do contexto político e econômico necessário para a competitividade e eficiência do setor varejista (CHRISTOPHERSON, 2006, p. 272–274).

51 Wal-Mart. “Walmart and Sainsbury’s announce combination of Sainsbury’s and Asda, Walmart’s wholly owned UK business”, 30 de abril de 2018. Disponível em: https://news.walmart.com/2018/04/30/walmart-and-sainsburys-announce- combination-of-sainsburys-and-asda-walmarts-wholly-owned-uk-business, último acesso em 15/01/2019,

Figura 1- Walmart no Mundo

Fonte: Walmart, Relatório de sustentabilidade 2013, p.09.52

Hoje o Walmart está presente em 28 países e apesar da sua crescente participação no exterior, as vendas internacionais nunca ultrapassaram os 30% do total (Tabela 2)53. As lojas no exterior

também representam menos de 40% das 11.695 existentes em 2017. Isso evidencia o fato já destacado por Carré e Tilly (2017) de que, apesar do seu gigantismo e sua liderança no volume de vendas e força de trabalho, o Walmart não representa uma das empresas mais internacionalizadas do mundo, ou seja, permanece bastante dependente do controle do mercado norte-americano, maior mercado consumidor do mundo.

52 O documento original não apresenta legenda para as cores. Sabe-se que os países que estão nomeados e de cor laranja são aqueles onde o Walmart possui operações.

53 Apesar disso, no índice de transnacionalidade calculado pela UNCTAD com dados de 2012, que considera uma média baseada nas taxas de ativos, total de vendas e número de empregados no exterior, o Walmart ocupa a primeira posição entre os varejistas, seguido pelo Tesco e Carrefour (CHESNAIS, 2016, p. 86).

Tabela 2 - Evolução das vendas internacionais do Walmart (1997-2018) Ano Vendas Internacionais (em Bi de U$) Porcentagem do total de vendas da companhia 1997 5.0 4.80% 1998 7.52 6.40% 1999 12.25 8.90% 2000 22.73 13.80% 2001 32.10 17% 2002 35.49 17.40% 2003 40.79 17.80% 2004 47.57 18.50% 2005 52.54 18.70% 2006 59.24 19.20% 2007 77.12 22.30% 2008 90.57 24.20% 2009 98.84 24.60% 2010 100.11 24.70% 2011 109.23 26.10% 2012 125.87 28.40% 2013 135.20 29% 2014 136.51 28.90% 2015 136.16 28.20% 2016 123.41 25.80% 2017 116.12 24.10% 2018 118.1 24%

Fonte:Abhijeet Pratap, 201854.

Para aprofundar o entendimento sobre o processo de entrada e a estratégia do Walmart no Brasil, apresentaremos brevemente algumas características do setor varejista e do segmento supermercadista no país.