constituindo um recurso de valor para o ensino do método científico na educação em diferentes níveis
Qual a importância do método científico para a educação em diferentes níveis? Qual sua relação com o processo de aprender a aprender? Para caracterizar essas relações, é pertinente avaliar o conceito de Método da Ciência. Sagan (1996) utiliza o termo ciência, ora como sinônimo de conhecer (como processo), ora como sinônimo de conhecimento (como produto). O autor evidencia os dois sentidos do termo quando declara que “a ciência é mais do que um corpo de conhecimentos, é um modo de pensar”. No entanto, o autor enfatiza o sentido de processo: “o método da ciência [...] é muito mais importante que as descobertas dela”. Se considerada como conhecimento, o que caracteriza esse conhecimento é justamente uma forma específica de produzi-lo, um
tipo de processo caracterizado como científico. Desta forma, parece que o conceito de Ciência como processo é mais nuclear do que considerá-la como conhecimento, que decorre necessariamente de tal processo.
É possível avançar ainda mais nas distinções de conceitos relacionados à Ciência. Botomé (1997) apresenta uma esclarecedora análise dos conceitos de método, metodologia, método de pesquisa, método científico, método de pesquisa científica. O autor avalia que esses conceitos são por vezes considerados como sinônimos na literatura, mas possuem referentes distintos que exigem esclarecimento: método se refere a uma sequência de etapas para realizar algo; metodologia se refere ao estudo do método; método de pesquisa se refere a uma sequência de etapas para produzir conhecimento novo; o método científico se caracteriza por um processo em que são controladas as variáveis que interferem com o processo de conhecer. Logo, o método de pesquisa científica se caracteriza por uma sequência de etapas para produzir conhecimento novo em que as variáveis que interferem com o processo de conhecer são controladas. Ou seja, método científico e método de pesquisa científica são dois conceitos que não são sinônimos. Ambos podem ser caracterizados como processos comportamentais, mas o método científico é um conceito mais abrangente que o de método de pesquisa científica – se caracteriza por controlar as variáveis que interferem com o processo de conhecer os fenômenos.
Moreno e Martínez (2007), ao sistematizar o conhecimento sobre aprendizagem autônoma, consideram que o Método da Ciência constitui uma tecnologia para aprender a aprender. Para os autores, o método consiste em interagir com um fenômeno de maneira a produzir conhecimento a seu respeito. Aprender a interagir com fenômenos para produzir conhecimento é condição para aprender relações novas com diferentes fenômenos. A proposição de “interagir com fenômenos para produzir conhecimento acerca deles” de Moreno e Martinez (2007) é
coerente com a definição de Botomé (1997) para o que constitui o Método da Ciência, definido pelo controle sobre as variáveis que interferem com o processo de conhecer. Aprender a controlar as variáveis que interferem com o processo de conhecer é condição para aprender a lidar com qualquer fenômeno, e nesse sentido, o método científico constitui uma forma de aprender a aprender.
O método de pesquisa científica torna especialmente evidente como o método científico constitui uma forma de aprender a aprender. As classes de comportamentos que constituem a intervenção indireta do psicólogo por meio de pesquisa, identificadas por Botomé e cols. (2003) são classes gerais o suficiente para produzir conhecimento acerca de qualquer fenômeno, por meio de diferentes procedimentos mais específicos, em diferentes áreas do conhecimento. Por exemplo, o psicólogo que aprende a produzir conhecimento sobre deprimir-se (“depressão”) como um processo comportamental, pode também investigar o ansiar-se (“ansiedade”) da mesma maneira. A partir do conhecimento produzido, aprende novas formas de intervir em relação a esses fenômenos. O método de pesquisa científica, se examinado como um processo comportamental, caracteriza uma forma de aprender a aprender – ou uma classe de ordem superior – no sentido que aprender as classes de comportamentos relacionadas a produzir conhecimento acerca de um problema de pesquisa é condição para aprender a produzir conhecimento acerca de quaisquer problemas de pesquisa.
O método científico não está restrito a atuação do cientista (pesquisador) profissional ou à intervenção profissional de nível superior. Se considerado como um processo comportamental com variações de complexidade, estudantes de diferentes níveis de educação – até mesmo crianças – podem comportar-se cientificamente em algum grau. Diversos autores reconhecem que ensinar ciência não é “apresentar as descobertas”, e sim, garantir que os alunos sejam capazes de comportarem-se cientificamente. Por exemplo, Sagan (1996) prescreve que as crianças precisam praticar o método experimental, em oposição a apenas ler sobre ciência nos
livros. Duarte (2000) considera que “é mais importante adquirir o método científico que o conhecimento científico existente”. O último autor cita outros investigadores que chegaram à mesma conclusão, como Jean Piaget e Juan Delval41. Rodrigues (1982) enfatiza esta prescrição:
As crianças devem também ser iniciadas no conhecimento da produção científica. Não para decorar fórmulas de matemática, física ou química, nem para aprender a desenhar moléculas ou células. Mas saber como o
conhecimento é produzido. Saber que ele é produzido pelo esforço do homem, pela sua aplicação metódica, pela disciplina da observação, pelo registro dos fatos, pela comparação, pela dedução. A iniciação às
Ciências deve ser uma iniciação a sua importância como instrumento de domínio da natureza e de incorporação da natureza e de suas forças para promoção do homem. (Rodrigues, 1982, p. 28, grifos nossos).
Parece haver certo consenso em parte da literatura ao entender o método científico como um processo, não como sinônimo das descobertas produzidas por esse processo, e que esta concepção de ciência constitui um objetivo da educação em diferentes níveis.
Ao caracterizar o conceito de metacognição (aprender a aprender), Martín e Marchesi (1995) descrevem como exemplo do conceito um indivíduo que, em um contexto de aprendizagem, é capaz de “planejar que estratégias devem ser utilizadas em cada situação de aprendizagem, aplicá-las, controlar o processo de utilização, avaliá-lo para detectar erros que tenham sido cometidos e modificar, consequentemente, a nova atuação” (p. 26). O
41 Conforme referências na obra original:
Piaget, J. (1988). Sobre a pedagogia. São Paulo: Casa do Psicólogo (textos inéditos). Delval, J. (1998). Crescer e pensar: a Construção do Conhecimento na Escola. Porto Alegre: Artes Médicas.
exemplo proposto pelos autores constitui uma maneira de controlar as variáveis que interferem com o processo de conhecer ao estudar. O exemplo é esclarecedor em relação a aprender o método científico como um recurso para aprender a aprender em uma escola.
É razoável considerar que propor perguntas pode ser uma forma de orientar a sequência de decisões e de comportamentos que aumentam a probabilidade de o cientista controlar as variáveis que interferem com o processo de conhecer. Botomé (1997) sugere uma maneira de identificar a relevância de um problema de pesquisa, por meio das respostas às seguintes perguntas: qual o conhecimento que já existe sobre essa pergunta? Como foi produzido esse conhecimento? Essas perguntas orientam o pesquisador a sistematizar o conhecimento existente acerca dos fenômenos constituintes de um problema de pesquisa. É possível supor outros exemplos – ao coletar dados, o pesquisador pode perguntar-se que tipos de dados poderão ser coletados? Onde posso coletar os dados? Por meio de quais instrumentos? Quais são os melhores instrumentos para coletar dados? Que critérios considerar para definir qual instrumento é o melhor? Entre muitas outras possibilidades. Propor perguntas a si mesmo parece ser um procedimento útil para orientar o processo de produzir conhecimento científico por meio de pesquisa, que explicitam relações de controle que interferem com o processo de conhecer, em coerência com o método da Ciência.
Considerando que tanto o método científico quanto o processo de perguntar constituem formas de aprender a aprender, a relação entre estes dois processos pode ser investigada. Identificar as classes de comportamentos constituintes da classe delimitar problema de pesquisa a partir de perguntas possibilitaria evidenciar de que forma específica o processo de fazer perguntas no início de um procedimento de pesquisa caracteriza um recurso para aprender a aprender. Que classes de comportamentos são universais para delimitar diferentes tipos de problema? Ensinar tais classes provavelmente garantiria autonomia ao cientista ou profissional de nível superior para delimitar novos problemas de
pesquisa. O processo de perguntar parece ser caracterizador para qualificar o processo de delimitar um problema de pesquisa como uma classe de comportamentos de ordem superior.
O processo de perguntar como forma de controlar o processo de conhecer não se restringe ao método de pesquisa científica. O método científico caracterizado pelo controle das variáveis que interferem com o processo de conhecer, pode ser facilitado pelo perguntar. De que maneiras o processo de perguntar ao delimitar o problema de pesquisa ajuda a controlar o processo de conhecer? Identificar classes de comportamentos constituintes da classe delimitar problema de pesquisa a partir de perguntas pode constituir-se como condição de exame da função das perguntas para controlar o processo de conhecer, extrapolando a sua utilidade na pesquisa científica. Identificar as classes de comportamentos relacionadas ao perguntar provavelmente produzirá conhecimento que pode facilitar o ensino do método científico como um objetivo para a educação nos mais diferentes níveis.
2.6 O processo de delimitar problema de pesquisa e o processo