Museus e histórias controversas dizer o invisível em museus
6.5 O Programa de Acessibilidade do Museu do Doce e a Terapia Ocupacional
Desirée Nobre Salasar
Terapeuta Ocupacional pela UFPel [email protected]
Elcio Alteris dos Santos
Mestre em Engenharia Elétrica pela UNESP Professor do Curso de Terapia Ocupacional da UFPel [email protected]
Francisca Ferreira Michelon
Doutora em História pela PUCRS Professora Titular do Departamento de Museologia Conservação e Restauro do ICH/UFPel Universidade Federal de Pelotas; [email protected]
Resumo: O Programa de Acessibilidade de um museu deve discorrer sobre o olhar deste espaço frente a públicos especiais e quais os recursos que ele oferecerá para incluir os mais diversos visitantes. Ao integrar a equipe do Museu do Conhecimento de 2016, a Terapia Ocupacional teve como objetivo principal o desenvolvimento do Programa de Acessibilidade do Museu do Doce da UFPel, por entender-se que esta profissão está diretamente ligada às questões relacionadas às deficiências, através dos conhecimentos de ergonomia, tecnologias assistivas, acessibilidade e inclusão, contextos sociais, Direitos Humanos e das Pessoas com Deficiência. Sua atuação nos museus está baseada na Resolução 383/2010 do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) que dispõe sobre os Contextos Sociais, bem como a Resolução 458/2015 sobre Tecnologia Assistiva. Desta forma, para além dos conhecimentos específicos, o Terapeuta Ocupacional possui legislação que o insere neste contexto de atuação. O Programa de Acessibilidade do Museu do Doce foi elaborado por uma graduanda em Terapia Ocupacional que possui experiência em acessibilidade cultural para pessoas com deficiência. Este programa foi planejado através de referenciais teóricos e práticos, levando em consideração recursos de acessibilidade que obtiveram resultados positivos em outros museus, pois atingiram a efetivação do entendimento do discurso expositivo. O resultado desta ação tornou-se pioneiro no país por ser o primeiro Programa de Acessibilidade de um museu, realizado pela Terapia Ocupacional. Palavras-chave: Acessibilidade. Inclusão. Museu do Doce. Terapia Ocupacional.
Introdução
Terapia Ocupacional e Cultura
É comum, quando se está a falar do campo cultural, que se restrinja o mesmo às manifestações artísticas e, em decorrência, que quando se relaciona a terapia ocupacional com
esse campo se pense no ambiente cultural como aquele onde ocorrem as expressões de arte, ou a sua utilização enquanto recurso terapêutico.
Entretanto, ao entender-se a cultura como um “instrumento de identidade, no qual o indivíduo pode, se lhe for dado acesso, usufruir, apropriar-se e ressignificar espaços existentes” (Dorneles; Lopes, 2016, p. 177), a terapia ocupacional tem potencial para atuar enquanto agente mediador de acessibilidade cultural para pessoas com deficiência. Assim, contribuirá para a ampliação de repertório do cotidiano desta parcela da população, bem como a valorização destes cidadãos. Para tal, faz-se necessário entender que a cultura é um direito, assegurado por legislação federal através da Constituição Federal e do recente Estatuto da Pessoa com Deficiência1. Desta maneira, deve-se ultrapassar a ideia de que o direito à cultura é dado
através de gratuidades (ou valores acessíveis), conforme os primeiros direitos adquiridos por esta parcela da população.
O conceito de deslocamento, defendido por Dorneles, discute que a acessibilidade cultural ultrapassa esta ideia de direito garantido através de isenção de pagamentos. Segundo esta autora, para que a acessibilidade seja efetiva é “necessário pensar o direito cultural de fruir com a produção estética, artística e cultural” (DORNELES; JÚNIOR, 2014, p. 107). Para tal, faz-se necessário criar estratégias de acessibilidade que garantam essa fruição para as pessoas com deficiência em ambientes museais.
Assim, a terapia ocupacional e a cultura formam uma linha tênue que perpassa a transversalidade do fazer humano. Tendo como seu foco de atuação o Desempenho Ocupacional
2, o terapeuta ocupacional é o profissional apto para planejar, desenvolver e executar ações e/ou
atividades que garantam a plena fruição de seus clientes nos mais diversos contextos, incluindo os ambientes culturais, ou neste caso específico, os museus.
O Museu do Conhecimento para Todos: Inclusão cultural para pessoas com deficiência O Museu do Conhecimento para todos: inclusão cultural para pessoas com deficiência em museus universitários é um programa de extensão da Universidade Federal de Pelotas, vinculado ao Departamento de Museologia, Conservação e Restauro do Instituto de Ciências Humanas que foi apoiado nos editais PROEXT/MEC/SESu nos anos de 2012 e 2015. Seu objetivo principal era desenvolver um conjunto de procedimentos e recursos para a promoção de ambientes inclusivos em museus universitários. Pautado na ação interdisciplinar e na indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, o programa visava contribuir para a formação de profissionais aptos a entender, promulgar e exercer seu papel social em prol da inclusão cultural das pessoas com deficiência. Para tal, utilizava como fundamento os princípios do Desenho Universal, cujo escopo é a produção de produtos e projetos que atendam a todos os públicos. Assim, leva em conta a pluralidade da sociedade, bem como as pessoas e suas singularidades.
Desta forma, a pluralidade encontrada também na equipe do programa, que contava com sete cursos de Bacharelado da referida instituição (Arquitetura e Urbanismo, Museologia,
Conservação e Restauro, Terapia Ocupacional, Cinema, Design Gráfico e Design Digital) e de dois programas de pós-graduação (Arquitetura e Urbanismo e Memória Social e Patrimônio Cultu¬ral) era fundamental para que as áreas conversassem entre si, de forma a perceberem como confluem os conhecimentos que constroem o entendimento da inclusão. No que tange aos museus, adequam-se os princípios do desenho universal para o atendimento e recepção que contemple os mais variados públicos.
Durante o período que compreende o Programa foram desenvolvidas diversas ações e produtos, tendo como principal, o primeiro resultado deste, o Memorial do Anglo, no Campus Porto da UFPel. Este foi o primeiro espaço acessível para pessoas com deficiência visual na cidade de Pelotas.
No ano de 2015 o Programa fez uma parceria com o Museu do Doce da UFPel para o desenvolvimento e implementação da exposição de longa duração do museu. Naquele ano ocorreram oficinas de formação com a equipe e uma visita guiada com pessoas com deficiência visual, provenientes da Escola e do Centro de Reabilitação Visual Louis Braille3. Entretanto é
no ano seguinte que os trabalhos começam a ganhar forma e as equipes passam a desenvolver seus produtos voltados para a exposição.
O Museu do Doce
Criado através de Portaria do Reitor em 30 de dezembro de 2011, o Museu do Doce pertence à UFPel e sua missão é salvaguardar os saberes e fazeres da tradição doceira de Pelotas e região. A sede do Museu, localizada no centro histórico da cidade, é um edifício imponente, construído em 1878 com destacado estilo construtivo, tombado como patrimônio nacional pelo IPHAN em 1977. A restauração do prédio foi entregue à comunidade em 2013, junto com a inauguração do Museu do Doce.
Visto como um laboratório para os cursos da instituição, o Museu do Doce sempre esteve de portas abertas para os mais variados tipos de eventos e exposições, entretanto enquanto seu principal acervo encontrava-se o imponente casarão.
Assim, é através da parceria com o Museu do Conhecimento que a exposição “Entre o sal e o açúcar: o Doce através dos sentidos”, planejada e desenvolvida por docentes e discentes da UFPel, passa a ser a primeira exposição de longa duração do museu.
Uma vez que o Museu busca a proximidade com a comunidade e o programa de extensão buscava implementar espaços inclusivos, pensados através do conceito de Desenho Universal, a proposta era desenvolver uma exposição inclusiva e com recursos de tecnologia assistiva que estivessem disponíveis para todos.
3 Instituição parceira do Programa desde 2012. A Associação Escola Louis Braille e Centro de Reabilitação Visual é
a instituição parceira do programa desde o início. A escola, especializada em deficiência visual, atende alunos com essa deficiência e também outras associadas (deficiências múltiplas). O Centro de Reabilitação realiza atendimentos especializados para pessoas oriundas de 22 municípios do entorno de Pelotas, sede da 3ª coordenadoria regional de saúde do Estado.
Metodologia
Integrante da equipe do Museu do Conhecimento desde 2012, é em 2016 que a Terapia Ocupacional teve o seu papel de maior responsabilidade dentro do Programa, o desenvolvimento do Programa de Acessibilidade do Museu do Doce da UFPel. Este se deu por entender-se que esta profissão está diretamente ligada às questões relacionadas às deficiências, através dos conhecimentos de ergonomia, tecnologias assistivas, acessibilidade e inclusão, contextos sociais, Direitos Humanos e das Pessoas com Deficiência.
Sua atuação nos museus está baseada na Resolução 383/2010 do Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) que dispõe sobre os Contextos Sociais, bem como a Resolução 458/2015 sobre Tecnologia Assistiva. Desta forma, para além dos conhecimentos específicos, o Terapeuta Ocupacional possui legislação que o insere neste contexto de atuação.
Por conseguinte, entende-se que a acessibilidade cultural está relacionada à promoção de iguais condições para que o maior número possível de pessoas, com ou sem deficiência, possam desfrutar de um espaço cultural. Assim, para além das pessoas com deficiências sensoriais, físicas e intelectuais, a aces¬sibilidade oferece oportunidades para crianças, idosos, pessoas com limitações tempo¬rárias, entre outras. Entretanto, é necessário que o espaço contemple as seis dimensões da acessibilidade trazidas por Romeu Sassaki (2009): atitudinal, metodológica, arquitetônica, programática, comunicacional e instrumental. Assim, contemplar-se-á o conceito de Desenho Universal.
O Programa de Acessibilidade do Museu do Doce foi elaborado por uma graduanda em Terapia Ocupacional que possui experiência em acessibilidade cultural para pessoas com deficiência. Este programa foi planejado através de referenciais teóricos e práticos, levando em consideração recursos de acessibilidade que obtiveram resultados positivos em outros museus, pois atingiram a efetivação do entendimento do discurso expositivo.
Discussão e Resultados
No período que compreende as atuações no Programa de Extensão O Museu do Conhecimento para Todos, a terapia ocupacional esteve inserida em grande parte das atividades destacando-se pela sua contribuição teórica e prática acerca das seis dimensões de acessibilidade. Assim, aos poucos se foi ganhando espaço, apresentando as possibilidades de inserção e o domínio dos conteúdos de tecnologia assistiva, ergonomia, inclusão e direitos da pessoa com deficiência.
Cabe lembrar aqui que o Museu do Conhecimento contava com diferentes áreas do conhe¬cimento, que entrecru¬zaram suas habilidades específicas para que a exposição pudesse comunicar para um variado público. Assim, ao longo dos dois últimos anos foram feitas diversas discussões e pes¬quisas que aprofundaram o conhecimento de novas tecnologias assistivas para inclusão de pessoas com deficiência em ambientes museais, para que a primeira exposição de longa duração do Museu do Doce fosse inclusiva.
Destaca-se, portanto, que, embora o Programa de Acessibilidade tenha sido pro¬duzido pela terapia ocupacional, os recursos expostos na exposição foram elaborados pela equipe em conjunto.
Os Recursos de Acessibilidade do Museu do Doce
Os recursos de acessibilidade do Museu do Doce fundamentaram-se no princípio do Desenho Universal e, por isso, estão disponíveis para todos os visitantes. Entretanto, sabe- se que os públicos especiais precisam de alguns recursos que garantam o entendi-mento da exposição e a livre circulação naquele espaço.
Portanto, o Museu do Doce foi contemplado com os seguintes recursos:
- Mobiliário Ergonômico – Facilita o acesso para cadeirantes, crianças e pessoas de baixa estatura.
- Cores contrastantes – Garante a visualização do texto por parte de pessoas com baixa visão. - Textos alinhados à esquerda, com fontes tamanho 28 e sem serifa – Promovem uma melhor leitura para pessoas com baixa visão e facilitam a atenção do público em geral.
- Audioguia com audiodescrição – Asseguram às pessoas com deficiência visual as informações essencialmente visuais da exposição.
- Maquetes e esquemas táteis – Ampliam o entendimento passado através da audiodescrição e da mediação acessível.
- Peças originais para tocar – proporcionam a oportunidade de explorar o objeto real.
- Catálogo nas versões: Visual, Braile e Áudio – Estende o público que têm aces¬so às informações da exposição e da equipe que participou do processo.
- Textos em braile, letra ampliada e Língua estrangeira (Inglês e Espanhol) – Garante às pessoas com baixa visão, cegos e estrangeiros a informação sobre os textos disponíveis nos painéis da exposição.
- Iluminação direcionada – Facilita a visualização da exposição por parte de pes¬soas com limitações visuais.
- Realidade Aumentada com Libras e Audiodescrição – Garante o acesso fácil à informação para pessoas Surdas e com Deficiência Visual.
- Elevador – Elemento básico de acessibilidade para cadeirantes, idosos, ampu¬tados, gestantes, familiares com carrinhos de bebê, entre outras limitações físicas (per¬manentes ou temporárias).
- WC adaptado – Proporciona autonomia para pessoas com deficiência.
- Vaga de estacionamento prioritária para Pessoa com Deficiência – Facilita o acesso à entrada no Museu.
Estão ainda em fase de implementação os seguintes recursos:
- Pranchas de Comunicação Alternativa – Garantem o acesso comunicacional às pessoas com deficiência intelectual ou baixa escolaridade.
- Trilho podotátil – Proporciona autonomia para o visitante cego que deseja utili¬zar o áudio- guia.
- Vídeos com tradução para Libras e audiodescrição – Amplia o público alvo dos dispositivos audiovisuais.
- Material em Linguagem Simples – facilita o acesso comunicacional a um gran¬de número de visitantes (com ou sem deficiência).
O Programa de Acessibilidade do Museu do Doce resultou de um trabalho desenvolvido ao longo de cinco anos de atuação da Terapia Ocupacional no Programa, associado aos conhecimentos adquiridos da autora durante seu percurso acadêmico4. Partindo deste
modelo de atuação, buscou-se desenvolver um documento baseado no conceito de Desenho Universal, que apresentasse diversos recursos de tecnologia assistiva que acolham pessoas com deficiência, mas não só. Obviamente, que determinados recursos são pensados para públicos específicos, como é o caso da audiodescrição, (que para uma pessoa cega abre o caminho para o entendimento de uma imagem, enquanto para um normovisual pode fazê-lo perceber detalhes que ele não havia percebido anteriormente). Entretanto, ao disponibilizá-los para todos, ele torna-se um recurso potenciador de experiências multissensoriais e inclusivas, pois o museu acaba por fomentá-lo e ampliar o repertório tanto educacional como atitudinal de seus visitantes.
Para além dos recursos apresentados, o Programa de acessibilidade do Museu do Doce apresenta uma proposta de atividades de sensibilização para a diversidade e de promoção do protagonismo de pessoas com deficiência a serem desenvolvidas pelo setor educativo, bem como sua visão de ser um laboratório de formação e a garantia de estar em constante evolução. Assim este documento, que abrange as seis dimensões de acessibilidade, garante o acesso cultural às pessoas com deficiência no referido museu. Cabe ressaltar ainda, que este é o primeiro Programa de Acessibilidade de um museu na cidade de Pelotas/RS e pioneiro no país por ter sido desenvolvido pela terapia ocupacional.
Conclusão
Planejar, desenvolver e executar um Programa de Acessibilidade é uma missão complexa. É primordial que para sua efetivação, este importante documento seja realizado por pessoas com uma formação conceitual sobre as deficiências, assim será possível dirigir para um ponto comum os conhecimentos das diversas áreas do conhecimento que buscam a acessibilidade. Desta forma, as intervenções especializadas congregam possibilidades de ampliação dos recursos para a construção de uma exposição, de fato, inclusiva.
Sendo o Museu do Doce um laboratório formativo de uma instituição de ensino público, este acaba tornando-se referência em acessibilidade cultural para pessoas com deficiência através de seus primeiros passos a caminho da inclusão. Além disso, para a cidade de Pelotas, um museu com essa vocação está se tornando referência pelos recursos nos quais aposta, pelo público que o apoia e pelos recursos que vem desenvolvendo. No que concerne à atuação Terapia Ocupacional neste espaço, esta tornou-se referência nacional, justamente por apresentar à profissão uma nova possibilidade de atuação no contexto da cultura: Os museus.
Referências
AOTA AMERICAN OCCUPATIONAL THERAPY ASSOCIATION et al. Estrutura da prática da Terapia Ocupacional: domínio & processo-traduzida. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v. 26, n. esp, p. 1-49, 2015.
COFFITO. Resolução 383. Dispõe sobre a terapeuta ocupacional no contexto social e dá outras providências. Disponível em: < https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=3146>. Acesso em: 27 set. 2016
_______. Resolução 458. Dispõe sobre o uso da Tecnologia Assistiva pelo terapeuta ocupacional e dá outras providências. Disponível em: <https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=313468 >. Acesso em: 27 set. 2016
DORNELES, Patricia; ALBERTACCI JUNIOR, Geraldo. Rede de articulação, fomento e formação: O curso de especialização como instrumento da política e acessibilidade cultural para pessoas com deficiência. In: CARDOSO, Eduardo; CUTY, Jenifer (Orgs.). Acessibilidade em ambientes culturais: relatos de experiências. Porto Alegre: Marcavisual, 2014. p.102-120. DORNELES, Patrícia; LOPES, Roseli Esquerdo. Cidadania e diversidade cultural na pauta das políticas culturais. Cadernos de Terapia Ocupacional UFSCAR. São Carlos, v. 24, n. 1, p. 173- 184, 2016.
SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: acessibilidade no lazer, trabalho e educação. Revista Nacional de Reabilitação (Reação). São Paulo, v. 12, p. 10 -16, mar./abr. 2009.