Para Silva (1998, p.25), quando a tarefa edificatória adquire maior complexidade e passa a exigir a participação de elementos de diferentes formações e interesses, o projeto, além das funções de registro e comunicação, assume também a função de documento, de forma a permitir a interpretação e a posterior avaliação da proposta concebida; a pressuposição dos encargos exigidos para a materialização da obra, aprovação junto aos órgãos da burocracia oficial e tarefas análogas; e, como papel preponderante, o entendimento, por parte dos executores, da imagem mental elaborada da qual o projeto é uma representação (Figura 2.2).
Essa idéia é corroborada por Ceotto (2002), ao definir a função projeto como “a transformação da idéia do empreendedor (público ou privado) em planos, especificações e desenhos que viabilizem tecnologicamente a construção, dentro das premissas adotadas, obedecendo todas as regulamentações pertinentes. É também a principal atividade de comunicação do processo de empreender”.
Figura 2.2 – Os diversos papéis do projeto dentro do processo construtivo. Fonte: Silva (1998, p.25).
De acordo com Naveiro (2001), “à medida que se avança na progressão do projeto, diminui-se o grau de incerteza em relação ao objeto a ser projetado, através de um processo contínuo de tomada de decisão ao longo do qual o estado do projeto vai sendo alterado”. Ou seja, um projeto inicia-se como uma idéia mais geral, mal definida, mesmo vaga, do que poderia ser uma solução adequada para uma necessidade sentida. Com o tempo essa idéia original, ou concepção, é refinada e progressivamente detalhada até que contenha informação suficiente para ser transformada no produto, serviço ou processo real (Slack et alii, 1996).
Segundo Naveiro, o processo de tomada de decisões que caracteriza a progressão do projeto utiliza-se de várias linguagens para representar aspectos particulares do artefato em elaboração: (i) semântica – descrição verbal ou textual do objeto, como, por exemplo, falar que as dimensões de uma viga numa edificação dependem da força cortante e do momento fletor atuantes; (ii) gráfica – esboços, desenhos em perspectiva, desenhos técnicos; (iii) analítica – equações, regras e procedimentos que são utilizados para definir a forma ou a função do artefato; (iv) física – modelos em escala reduzida, mock-ups20, protótipo-rápido ou protótipo real do
objeto.
Assim, na medida em que o processo de projeto de edificações progride, as informações técnicas produzidas são apresentadas mediante inúmeras e variadas formas de representação – desenhos (esboços,
plantas21, cortes, perspectivas), textos (cálculos, memoriais, relatórios, especificações), planilhas e tabelas,
fluxogramas e cronogramas, fotografias, maquetes, etc. –, “que representam a situação instantânea do desenvolvimento do projeto” (Naveiro, 2001).
Por exemplo, enquanto os memoriais descritivos indicam, de forma simplificada, os principais materiais e acabamentos dos elementos construtivos, bem como as técnicas a serem utilizadas para a execução dos serviços, as plantas apresentam a definição geométrica do edifício, com a caracterização quanto ao uso das dependências e indicação de materiais para acabamento dos elementos construtivos paredes, pisos, esquadrias, etc.; bem como as soluções para a função estrutural (projetos das fundações e estrutural) e as funções de serviço (instalações hidrossanitárias, elétricas, de telecomunicações, supervisão, etc.).
Conforme Borges (2001), durante a atividade projetual de uma edificação, engenheiros e arquitetos utilizam fundamentalmente, como instrumentos de criação, desenvolvimento, refinamento e comunicação de idéias, a linguagem gráfica. Desenhos e modelos tridimensionais permitem que as idéias visualizadas pelos projetistas sejam transportadas de suas mentes e registradas de modo a possibilitar sua leitura por outras pessoas e pelo próprio projetista.
Entre as formas de representação mais utilizadas, Borges destaca:
• Diagramas esquemáticos ou sintéticos – configuram-se como desenhos simplificados de um conceito, que exploram as relações e orientações de seus componentes físicos. Funcionam como auxiliares ao projetista na articulação de formas físicas que se relacionam a parâmetros específicos como ventilação, insolação, posicionamento de vistas, entre outros. Estes tipos de diagrama geralmente incorporam o uso de símbolos gráficos que traduzem as idéias subjacentes relativas a estes parâmetros, utilizando-se normalmente projeções ortográficas para a sua representação.
• Diagramas funcionais – identificam a proximidade e o tamanho relativo de zonas de atividade. São mais conhecidos como diagramas de bolhas e normalmente representam uma planta baixa de forma bastante embrionária. O posterior desenvolvimento deste tipo de diagrama pode gerar uma planta baixa com mais informação agregada.
• Diagramas de fluxo – usados freqüentemente para o estudo de fluxos, considerando suas direções, intensidade, conflitos, entre outros aspectos. Exemplos destes fluxos são o movimento de pedestres, o de veículos e o de informação, entre outros. Pode-se verificar também a sua utilização sobre desenhos previamente executados, normalmente plantas baixas ou seções de uma edificação.
20 Modelo preliminar, em tamanho natural e dimensões precisas, geralmente de madeira, feito para testes e estudo da aparência final de
máquina, equipamento ou veículo, especialmente aeronave. (Ferreira, 1999).
21 Em tempos passados, conforme Silva (1998, p.34), na construção civil, em vez de projeto, o idioma português servia-se
preferencialmente de outras denominações, como risco, traço, etc. Mesmo na linguagem coloquial contemporânea, é comum o uso da expressão planta como sinônimo de projeto, o que, na verdade, é uma incorreção, já que o termo “planta” identifica um dos componentes do projeto, mas não se confunde com sua totalidade. Este uso, entretanto, é generalizado, e há inclusive profissionais do ramo que se referem, por exemplo, ao ato de “assinar as plantas”, “aprovar as plantas”, etc.
• Diagramas analíticos – úteis para a visualização e identificação de condicionantes de projeto, através da investigação da natureza das condições existentes, como, por exemplo, as restrições relativas ao sítio da construção.
• Desenhos para projetação – considerados como uma evolução a partir do registro das primeiras alternativas de solução sugeridas pelos diagramas em uma fase mais topológica da progressão do projeto, se apresentam como instrumentos fundamentais no processo de construção e entendimento do problema proposto. A quantidade de informação agregada a este tipo de desenho aumenta à medida que se evolui em direção à solução final.
• Desenhos para apresentação – utilizados para a apresentação e visualização das soluções de projeto, servindo não só como forma de comunicação com o cliente, mas também como um recurso para o projetista ou equipe avaliarem o resultado da proposta. Podem se traduzir sob a forma de projeções ortogonais, através de plantas baixas, cortes, vistas, diagramas elucidativos, entre outros. Normalmente são utilizados meios de expressão de caráter mais artístico em detrimento do caráter técnico utilizado em desenhos executados para a produção. Desta forma, verifica-se a necessidade de recursos gráficos que permitam a sua leitura por um público-alvo com pouca ou nenhuma capacidade de interpretação das abstrações que estruturam essas representações.
• Maquetes de estudo – consistem em modelos rústicos, geralmente utilizados na etapa de estudos preliminares como forma de especulação e experimentação de propostas volumétricas para o partido arquitetônico. Este tipo de maquete pode trabalhar de forma bastante integrada com os esboços iniciais e permitem a visualização de relações formais que, muitas vezes, não se percebem somente com o uso da linguagem gráfica.
• Maquetes de trabalho – representam as propostas de solução encontradas na etapa de anteprojeto. O nível de acabamento e detalhamento das maquetes de trabalho deve permitir o seu entendimento por um público- alvo específico, que pode ser o próprio cliente, a equipe de projeto ao avaliar o conjunto da proposta final e as equipes técnicas responsáveis pelos projetos complementares.
• Maquetes de execução – geralmente utilizadas como forma de esclarecimento de processos construtivos ou relações espaciais complexas. Como exemplo pode-se citar os modelos tridimensionais que permitem a verificação de interferências entre tubulações e outras instalações em edificações industriais.
• Maquetes de apresentação – apresentam um nível de detalhamento e acabamento bastante elaborados e sua função principal é traduzir a proposta final do projeto e permitir o entendimento desta por parte de um público com pouca ou nenhuma capacidade de interpretar as soluções apresentadas na forma de linguagem gráfica bidimensional.
• Representação gráfica digital – em função das inúmeras vantagens relacionadas principalmente às possibilidades de edição de desenhos, reaproveitamento de formas geométricas ou desenhos inteiros em um novo projeto, desenho vetorial de precisão e a manipulação de formas geométricas complexas com relativa facilidade, entre outros aspectos, o desenho digital vem se estabelecendo como o instrumento
predominante para a representação de projetos. A representação gráfica digital considera cada entidade geométrica (ponto, linha, reta, plano, polígonos, etc.), como objetos aos quais podem ser associados diferentes tipos de informação, como, por exemplo, a representação em planta baixa de uma edificação pode ter suas entidades geométricas como paredes ou equipamentos, associados a planilhas de custo que são construídas e editadas em outros tipos de programa de computador (planilhas eletrônicas, editores de texto, entre outros).
De acordo com a NBR 13531 (ABNT, 1995), as informações do projeto devem registrar, quando couber, para a caracterização de cada produto ou objeto (edificação, elemento da edificação, instalação predial, componente construtivo, e material para construção), os atributos funcionais, formais e técnicos considerados, contendo as seguintes exigências prescritivas e de desempenho, conforme o Quadro 2.1.
Quadro 2.1 – Informações que devem estar contidas no projeto de edificação.
Identificação
• Nome (genérico e comercial) do objeto do projeto ou produto • Localização
• Tipo, modelo, categoria, qualidade
• Código: fornecedor ou produtor (fabricante, construtor) • Descrição sucinta do objeto (aplicações e limitações) • Certificado de conformidade ou homologação • Normas e documentação relacionada
Descrição
• Constituintes do produto (partes, composição)
• Processos (de fabricação, construtivo, de montagem e/ou de instalação e conexão) • Complementos e acessórios
• Forma, dimensões, peso, densidade • Revestimento
• Características de superfície: acabamento, aparência (textura, cor, padrão, opacidade, brilho) • Etc.
Condições climáticas, de localização e de utilização
• Clima: ar (umidade, névoa, condensação, poluição), precipitação (chuva, granizo, neve), vento (velocidade, direção e sentido), insolação (orientação Norte-Sul, radiações), temperatura, ruídos (externos e internos)
• Localização: topografia, subsolo, vibrações (incluindo as sísmicas), nível d’água
• Recomendação para utilização: uso (educacional, residencial, industrial), usuários (número, idade, atividades) Exigências e características relativas ao desempenho no uso Exigências do usuário • Segurança estrutural • Segurança ao fogo • Segurança em uso • Estanqueidade • Conforto higrotérmico • Pureza do ar • Conforto acústico • Conforto visual • Conforto tátil • Ergonomia • Higiene • Adequação espacial • Durabilidade • Economia
Continuação do Quadro 2.1.
Exigências e características relativas ao desempenho no uso (continuação) Características • Ativas • Estruturais e mecânicas • Fogo • Agentes gasosos • Agentes líquidos • Agentes sólidos • Agentes biológicos • Agentes térmicos • Agentes ópticos • Agentes acústicos • Energia
• Características operacionais e de manutenção
Aplicações • Viabilidade funcional • Viabilidade legal • Viabilidade de reposição • Detalhes • Cláusulas e especificações • Erros de aplicação Canteiro de obras
• Mão-de-obra, instalações e espaço necessário • Planejamento da obra
• Trabalhos fora do canteiro
• Transporte, manipulação e estocagem
• Preparação e trabalho no canteiro, elevação, montagem, acabamento • Medidas de proteção
• Limpeza do local
• Controle de qualidade in situ, testes e ensaios
• Segurança, higiene e conforto públicos durante a construção ou montagem
Uso – operação e manutenção
• Requisitos de espaço, instalações, materiais e de mão-de-obra, métodos de operação e controle
• Limpeza e manutenção, incluindo inspeção, reparos e reposição • Medidas de proteção, segurança, higiene e conforto no trabalho
• Segurança, higiene e conforto públicos durante os serviços de manutenção (reparos, conservação e limpeza)
Condições de venda ou de aquisição
• Preço de aquisição
• Condições contratuais, de venda e garantias • Condições de pagamento
Suprimento
• Fontes e capacidade de suprimento, incluindo reservas, prazo de entrega ou de construção
• Embalagem, diretrizes para sistematização e organização • Condições de entrega
Serviços técnicos • Organização dos serviços e das instalações de apoio
• Serviço de consultoria técnica
Referências • Localização de exemplos existentes • Literatura técnica disponível
Dessa forma, enquanto produto, de acordo com Melhado (1998, p.19), “o projeto assume enorme responsabilidade sobre a qualidade do produto final e satisfação dos clientes externos e internos, pois é o elemento que vai orientar a maioria das ações futuras, ou seja, o projeto será o gerador e o responsável pelo bom andamento de todas as atividades posteriores ao seu desenvolvimento, formando a ‘espinha dorsal’ do empreendimento”.