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Em março de 1998, Kojima consolidou os dois grupos que estavam trabalhando independentemente em um projeto chamado GCD (greatest common divisor, ou maior divisor comum). Consolidando essas equipes que estavam pensando em produtos completamente diferentes, Kojima pretendia desenvolver um produto com um novo conceito. Na consolidação do projeto GCD, Kojima sugeriu que Ito e Kamiyama trouxessem seus conceitos ao projeto sem modifi cações. O de- senvolvimento continuou, com o grupo de Kamiyama trabalhando na direção de “um gravador com funções de edição que poderia permitir entrada e saída mul- ticanais usando um disco em vez de uma fi ta VTR” e a equipe de Ito trabalhando em um “computador especializado que permitiria entrada e saída em tempo real de vídeo e de áudio, com função de armazenamento”. No total, o Projeto GCD empregou a diferenciação de valor, mais do que a divisão de trabalho funcional tradicional.

Não apenas não existia nenhum produto como o MAV-555 na ocasião, mas também não estava claro, nem para os fabricantes nem para os usuários em perspectiva, o que o produto era ou como deveria ser usado. Por causa disso, surgiram muitas opiniões diferentes sobre o tipo de produto que o MAV-555 deveria ser. Tudo que eu pude fazer foi deixar Ito e Kamiyama utilizarem suas visões sobre o produto, fazendo com que os dois entras- sem em contato no processo de desenvolvimento e realizassem algo bom. Kamiyama tinha experiência com interfaces de usuários usadas na edição, tanto dos VTRs quanto dos discos, e sugeri que ele tivesse consciência da importância disso. Eu o instruí a não comprometer-se em relação à facilida- de de usar o MAV-555. Por outro lado, recomendei que Ito exercitasse com- pletamente seu nível superior de experiência e conhecimento neste campo com a Sony. Em relação à arquitetura central, eu o aconselhei a afastar-se do MAV-2000 enquanto tomava precauções. Particularmente, como o MAV-555 seria equipado com uma interface Ethernet, eu enfatizei que a consideração de como o 555 aparentaria, a partir da perspectiva dos usuários conectados à rede, era um papel importante da equipe de Ito. (Kojima)

Um sério confl ito ocorreu no interior do projeto quase imediatamente. O grupo de Kamiyama estava buscando uma interface de usuário idêntica à do VTR. No entanto, para Ito, que estava trabalhando a partir da perspectiva de fa- zer um provedor, existiam demasiadas funções a serem incluídas. A equipe de Ito pretendia um sistema que funcionasse estavelmente, sem colocar uma alta carga

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no provedor, mesmo que isso signifi casse reduzir o número de funções. Enquanto Kamiyama considerava a velocidade da resposta uma característica crítica, Ito pensava que aumentar a velocidade da resposta resultaria em um aumento de carga sobre o disco rígido, comprometendo, assim, a estabilidade do sistema.

Contrastando, Kamiyama insistia em maximizar o número de estruturas. Ao fazer um sistema baseado em um esquema de funcionamento semelhante ao do computador, o número de estruturas tinha de ser reduzido para garantir a estabilidade do sistema. Quando Kamiyama visitou o local de edição de um pro- grama de hockey no gelo, nos Estados Unidos, notou que havia um ligeiro atraso entre o som do disco saltando e o movimento no vídeo. Isso era um problema que se originava do baixo número de estruturas usadas na edição não-linear. Como o padrão de qualidade da fotografi a, na reprodução em câmera lenta, ti- nha sido determinado pelos VTRs profi ssionais anteriores da Sony, Kamiyama acreditava que era necessário alcançar o mesmo nível:

Não importa quanta tecnologia digital um produto utiliza, são as pessoas que usam o produto, e são elas que vêem a fi gura. Podemos fazer o melhor possível na conversão da percepção analógica das pessoas para a digital. Também havia o aspecto da conversão do áudio analógico para o digital. Por exemplo, quando o VTR está em fast forward, ele faz um som de guin- cho. O trabalho dos editores é facilitado se esse som estiver presente. Quan- do se procura uma cena usando o fast forward, um equipamento similar ao computador lê apenas algumas estruturas, e não é possível parar em um de- terminado ponto. Em um programa de notícias, é difícil captar o momento exato em que alguém é iluminado pelo fl ash. Considerando-se a facilidade de uso, o MAV-555 não teria valor genuíno a não ser que considerássemos a fundo como os usuários realmente usam o equipamento em sua situação de trabalho. As pessoas orientadas para o computador diriam que “isto não é o que um computador faz”, mas não estamos trabalhando com um compu- tador em mente. (Kamiyama)

Os dois grupos tentaram resolver o confl ito – com o grupo de Kamiyama insistindo na interface do usuário e o de Ito na estabilidade do sistema – de ma- neira dialética. Eles tentaram encontrar a síntese entre os dois conceitos em con- fl ito (isto é, a tese e a antítese) procurando uma solução de nível mais alto do que a tese ou a antítese. Perseguiram uma abordagem “ambos-e”, em vez de “ou-ou”, não uma conciliação, algo “intermediário” ou “no meio de”, dos dois conceitos em confl ito.

O número de estruturas que Kamiyama sugeriu pareceu um grande risco para a estabilidade do sistema. O desenvolvimento do MAV-2000, no qual estávamos trabalhando, atrasou-se e foi difícil manter a motivação no gru- po. No entanto, Kamiyama conhecia as condições da cena de transmissão

e fez uma ameaça, afi rmando que os usuários nem mesmo olhariam para o produto. Ele estava convencido sobre o aumento do número de estru- turas por segundo para a função de JOG, mas havia um limite para até onde se poderia ir. A partir daí, a tecnologia de shuttle G (um método de aumento da freqüência da estrutura sem colocar carga sobre o disco rígi- do) foi desenvolvida. Obtivemos resultados da simulação do que seria, também, melhor para os usuários, e isso o convenceu. Mudamos muitas partes para atender às alegações de Kamiyama, mas não consideramos isso uma conciliação. Começamos a entender que se respondêssemos às sugestões dele, poderíamos também contribuir para a futura expansibili- dade a partir do ponto de vista do provedor. Por outro lado, mantivemos nossa idéia básica relativa à arquitetura. Kamiyama pode ter considerado que uma arquitetura avançada foi forçada sobre ele, mas continuamos a convencê-lo a aceitar essa parte dizendo que estávamos também fazendo o nosso trabalho. (Ito)

O MAV-555 que foi lançado em junho de 1999 era bem diferente do produto que Ito e Kamiyama tinham cada um originalmente visualizado. No processo de combinar os vários conceitos, o conceito de “gravador de disco” veio gradual- mente à luz. Como mencionado anteriormente, o MAV-555 teve sucesso ao criar uma posição no mercado com um conceito de produto que não era conhecido até então.

Os sistemas de edição baseados em computador e os provedores de vídeo estavam se tornando estruturalmente mais próximos dos computadores pessoais. O uso de software e hardware com fi nalidade geral poderia facilitar o desenvolvimento do que eles chamavam de equipamentos não-lineares. No entanto, novos conceitos não podem nascer como uma extensão dessa abordagem. O MAV-555 não é um VTR linear ou o que a indústria chama de não-linear. Sua força está no fato de que os usuários começaram a chamar o equipamento apenas de “MAV-555” ou “gravador de disco”, assim como as pessoas chamavam de “Walkman” o novo tipo de tocador de fi ta cassete. (Kojima)

No documento Gestão Do Conhecimento - Takeuchi e Nonaka (páginas 153-155)