PARTE I: A MEMÓRIA DO ESPANHOL NO B RASIL
Capítulo 2: A segunda cena. Confronto entre memória e atualidade
3. Certas descontinuidades na reflexão teórica
3.3. A apresentação dos “dados”
3.3.2. O recorte
Acompanhemos, então, o roteiro traçado pela própria autora no seu artigo de 1998, que começa por enumerar as “estratégias que aproximam a gramática da interlíngua (IL) da gramática da L1”, as quais geralmente são mais comuns nas fases iniciais da aprendizagem. A primeira observação refere-se à tendência
“indiscriminada” por parte do aprendiz a empregar o sujeito pronominal pleno, com a conseqüente perda dos valores contrastivos associados, no geral, à utilização dessas formas em espanhol. Vejamos as ocorrências:
Mientras mi hermano había ido a beber agua, él escuchó un ruido y (Ø) percibió [...]202
201 Parece-nos importante esclarecer, mais uma vez, que esse curso caracteriza-se não apenas pelo fato de pôr em marcha um processo de ensino-aprendizado da língua como também por formar docentes e pesquisadores.
202 Maia González esclarece que, como o problema central relaciona-se com o emprego ou não de formas pronominais pessoais em diferentes contextos, ela se serve do símbolo (Ø) sempre que houver uma forma pronominal não realizada fonologicamente, correspondendo ou não a um emprego aceito pela gramática do espanhol (1998, p. 262).
Em quase todos os casos, reproduzimos os destaques realizados pela autora pois ajudam a entender qual é o
Ellos se respetaban, sin embargo, Salvador y su mujer se han separado porque (Ø) tenían problemas de comunicación (1998, p. 249).
Nas duas situações há efeitos sobre a interpretação das formas anafóricas e de correferência que a própria autora tenta estabelecer por meio do destaque (id., p. 249). Ainda com relação a esses casos, Maia González observa que esse
“emprego indiscriminado do sujeito pronominal” parece ter uma espécie de “efeito de compensação” no que diz respeito ao não emprego dos clíticos, o que a leva a levantar a hipótese da importância de uma explicação fonético/fonológica ou prosódica:
(Ø) No sé si yo (Ø) caso o si yo (Ø) compro una bicicleta (id.).
Aqui, a construção com a qual a pesquisadora está comparando essa produção é “No sé si me caso o si me compro una bicicleta”, na qual, de um lado, deveria aparecer a forma pronominal do verbo “casar” e, de outro, a que garante a referencialidade de
“em benefício ou proveito de quem” tal bicicleta seria comprada.203 No entanto, nos dois casos, aparecem pronomes sujeito que poderiam ser interpretados, segundo a pesquisadora, como exercendo essa espécie de efeito de compensação. Um outro exemplo desse “emprego indiscriminado do sujeito pronominal” é o seguinte, no qual também fica comprometida a correferencialidade entre as marcas destacadas:
Entrega (Ø) a Berta el paquete de revistas que está sobre la mesa, pues ella (Ø) necesita hoy mismo (id.).
Já a segunda tendência que Maia González considera marcante nas primeiras etapas do aprendizado é a de apagar os clíticos complementos, como ocorre no seguinte caso:
aspecto sobre o qual ela está querendo chamar a atenção ao citar cada uma das ocorrências.
203 É importante esclarecer aqui algo que será válido também para as reflexões que desenvolveremos no capítulo 4. Na prática de ensino na qual, como a própria Maia González observa, se trabalha com variantes – e não apenas com aquelas que se distribuem no horizonte da geografia mas também com as que ela própria denomina “culturais” e que interpretamos como o que tradicionalmente se denomina variantes diastráticas –, o que se tem como alvo é a exposição do aprendiz ao funcionamento material de uma língua marcado, inevitavelmente, pela correção.
(Ø) Les voy a prestar un disco para que ustedes (Ø) escuchen (ibid.).
E como ocorre, também, no seguinte diálogo:
Alumno 1: – (Ø) Sólo voy a bailar la música especial.
Alumno 2: – Entonces (Ø) tienes que pedir(Ø) (Ø) a los músicos.
Alumno 1: – Yo pensaba que ésa era la música especial pero (Ø) no (Ø) es (id., p.
250).204
Às vezes, esses clíticos são substituídos por outras formas, como nos seguintes casos:
Entonces la señora vino a recibir (Ø) a nosotros.
(Ø)Me solicitó que (Ø) (Ø) acompañara ella al baño.
Si él empezó a buscar empleo, significa que él siguió haciendo eso (ibid.)
A esse tipo de tendência, Maia González vincula aqueles casos nos quais não ocorre o emprego de duplicações, como neste exemplo, no qual aparece em destaque o fragmento que deveria ter sido retomado no próprio enunciado:
Los días más felices de mi vida, yo (Ø) pasé con mi familia (ibid.).
E, por fim, a pesquisadora mostra a preferência pelas formas tônicas em lugar das átonas, especialmente para a expressão do objeto indireto:
Si el sombrero te gustó, (Ø) debías comprar(Ø)lo para ti (ibid.).
Também observa a autora uma preferência pelas construções alternativas às de dativo possessivo aceitas pela gramática. Assim, a forma mais corrente em espanhol é “(A mí) siempre me duele la cabeza.”. Vejamos, no entanto, qual foi o enunciado produzido pelo aprendiz:
A mí siempre mi cabeza (Ø) duele (id., p. 251).205
204 Na segunda ocorrência desse diálogo, o destaque realizado pela própria autora tenta deixar claro que deveria aparecer aí – de nossa perspectiva, por exigência de determinação – um clítico que antecipasse a referência do fragmento “a los músicos”. Por conta dessa mesma exigência, deveria aparecer, também, um clítico que retomasse a referência do fragmento “la música especial”.
205 Consideramos relevante citar aqui outras soluções, desta vez recolhidas de nossa prática:
Neste último caso, existe a possibilidade de se falar em avoidance – termo que Maia González traduz como “evitamento” ou “inibição” (id. p. 254).
A pesquisadora também se refere àqueles casos em que há supressão de clíticos anafóricos, como no seguinte exemplo:
En el cine (Ø) (Ø) sentamos juntos y (Ø) (Ø) dimos las manos (ibid.).
E, como uma tendência relacionada, a autora observa o “emprego indiscriminado de clíticos”:
Lo mismo se pasó con la lengua.
(Ø) Voy a volver(Ø) loco con esos trabajos (ibid.).
Em ambos os casos, há uma perda dos valores marcados das construções com clíticos e, portanto, a neutralização da diferença entre as referidas construções e aquelas que não incluem os pronomes (ibid.). No primeiro caso, o emprego do pronome compromete o efeito de transparência do sentido e, no segundo, a não ocorrência do clítico é responsável por um sentido, poderíamos assim dizer, de indeterminação, que não se resolve. Pela mesma razão – a supressão de clíticos –, o dativo ético raramente aparece, como se observa neste exemplo206:
No (Ø) vayas a perder ese cuaderno. (en la que hubiera quedado muy bien un “me”) (ibid.).
Como efeito da não distinção do valor do dativo ético, neste próximo caso aparece um clítico que poderia ser interpretado como tal; no entanto, observa Maia
Mi duele la cabeza.
La mi cabeza duele.
Mi cabeza duele.
Mi cabeza me duele.
Me duele mi cabeza.
A mí me duele la cabeza.
Só nos dois últimos casos aparece o pronome como marca de dativo possessivo; no entanto, em ambos, tal marca não parece ser interpretada como significativa, pois ou aparece um outro possessivo (“Me duele mi cabeza.”) ou o que se pode considerar uma duplicação (“A mí me duele la cabeza.”) que, em espanhol, teria lugar, fundamentalmente, para marcar contraste com relação a um enunciado prévio.
206 Para a interpretação deste caso, Maia González serve-se também da idéia de avoidance – evitamento ou inibição (id., p. 254).
González, o contexto não o confirmou:
¿Qué te piensas (Ø)? (ibid.)207
Ainda há vários outros efeitos da assimetria observada por Maia González que se propagam pelas produções dos aprendizes dentro dos casos que a autora focaliza nesse seu artigo. Parece-nos relevante citar aqui o da preferência quase categórica pelas passivas com ser sobre as passivas com se:
[...] ella va a ser el palco donde las cuestiones van a ser resolvidas (id., p. 252).
Essa preferência também se dá com relação a construções alternativas que suporiam o emprego de um clítico duplicador, freqüente em espanhol: “Al niño lo adoptaron cuando tenía seis meses.” (ibid.). Vinculada a essas ocorrências aparece também a tendência à neutralização das passivas e impessoais com se, fenômeno este comum no espanhol atual, como a própria autora observa (ibid.). E, para completar o quadro, vale a pena citar os casos que ela qualifica como “problemáticos” nas construções com relativos, com o uso categórico de que, acompanhado ou não de um pronome “cópia”, como no seguinte caso:
[...] y entonces aquel muchacho que yo nunca había hablado con él se acercó y [...]
(id., p. 253).
Nesse mesmo sentido, também são freqüentes os casos que Maia González interpreta como equivalentes às “relativas cortadoras” do português brasileiro208:
Cuando (Ø) voy a una fiesta que (Ø) no conozco a nadie [...] (ibid.).
Também é comum a substituição das construções que suporiam o emprego de relativos por formas estruturalmente mais simples (coordenadas, por exemplo):
Él sabe que (Ø) debe ir, pues tienen noticias importantes para él. Él espera ésas. (ibid.).
A pesquisadora considera ainda o caso da colocação dos clíticos que, segundo ela,
207 Em espanhol, o enunciado com o pronome pode implicar um chamado de atenção sobre uma atitude arrogante por parte do interlocutor. Já “¿Qué piensas?” poderia ser parafraseado assim: “¿Qué crees?”, “¿Qué te parece?”.
208 A autora está se baseando num texto de Tarallo que já foi aqui mencionado: “Sobre a alegada origem
“obedece com freqüência às regras do português brasileiro”, havendo influência alternada da norma escrita e de formas empregadas na oralidade:
Pasáronse muchos días hasta que [...] (id., p. 253-254).
Nesta última ocorrência, Maia González observa a rejeição do clítico em começo de sentença, caso que aparece sempre de forma expressiva (id., p. 254). No entanto, essa forma também pode ocorrer numa situação como a seguinte:
Él lo formula en el presente y entonces él vuélvese al pretérito (ibid.).
Com relação ainda à colocação dos clíticos, a autora analisa aquelas especialmente problemáticas, como as que aparecem a seguir:
No era una buena opción se quedar allí.
(Ø) Dijo que él iba a me llamar.
Ustedes habían me dicho otra cosa (ibid.).
No primeiro caso, explica Maia González, trata-se do pronome anteposto a uma forma impessoal do verbo, um infinitivo (no entanto, também acontece com gerúndios); no segundo, há uma locução verbal com uma construção impossível em espanhol; por fim, no terceiro exemplo, em que há um verbo conjugado num tempo composto, a posição do pronome é, também, impossível (ibid.)
Por fim, Maia González encerra seu artigo analisando o caso especial dos clíticos que, “em determinada etapa do processo de aquisição/aprendizagem”, começam a aparecer em abundância na IL dos aprendizes. Segundo a autora, esse fato
[...] no implica necesariamente la asimilación de las reglas subyacentes que controlan el empleo en la L2, y ni siquiera, en muchos casos, la captación (interpretación) de su función y de su referencia (id., p. 254-255).
Vamos apresentar alguns de seus dados, pois estes nos permitirão compreender melhor do que se trata. Dentro do que a pesquisadora denomina “fenômenos de supergeneralização de regras da L2”, aparecem os clíticos catafóricos duplicando
crioula do português brasileiro: mudanças sintáticas aleatórias”, in: Roberts e Kato, 1993, p. 35-68.
um objeto oracional, como neste exemplo:
(Ø) Se lo dije a Carlos que el profesor no iba a venir y él [...] (id., p. 256).
Em outros casos, a pesquisadora acredita que se trata da incorporação de certas formas da oralidade, assimiladas em pequenos diálogos, que aparecem como um fragmento ou, inclusive, como um item lexical dentro de construções complexas, as quais requereriam determinadas transformações sintáticas (id., p. 255-256), como em:
(Ø) Lo siento que (Ø) no vengas a verme (id., p. 255).209
Também é comum o emprego de um clítico catafórico duplicando um objeto não oracional:
Dísela la verdad a tu amigo [...] (ibid.)210
Às vezes, o mesmo pronome aparece em duas posições numa locução verbal:
No se deben usarse productos que contaminen el agua (ibid.).
O segundo item da classificação considerado pela pesquisadora inclui os fenômenos de distorção de regras da L2: nesses casos, aparece um ou mais clíticos, um dos quais, ao menos, não possui função nem referência recuperável/identificável no contexto (ibid.). Vejamos dois dos exemplos transcritos em seu artigo:
Él dijo que (Ø) me llamaba, pero aunque (Ø) me lo llame no voy.
(Ø)Voy a llamar a Antonio y contárselo que dijo Teresa sobre el trabajo [...] (id., p. 257).
Alguns casos ainda, observa Maia González, chegam a produzir um “efeito engraçado”:
209 Uma pausa, pensando numa enunciação oral, poderia resolver a construção: “Lo siento, que no vengas a verme”.
210 A hipótese, segundo Maia González, é que certos pares de clíticos foram aprendidos como um bloco (de novo, como um fragmento ou um item lexical) e o aprendiz tem dificuldade em dissociá-los. Também é possível pensar, segundo ela, que esses pares são associados com certos verbos, como é o caso dos que introduzem estilo indireto, daí a tendência da autora a acreditar que o que está em jogo nesses casos é muito mais uma memória auditiva do que a aplicação de regras gramaticais (id., p. 256).
Clara quería ir al aeropuerto. Entonces (Ø) se le agarró un taxi (...) (ibid.).
A própria autora esboça algumas interpretações para compreender esta última série de casos. Passaremos em seguida a considerá-las ao expor uma série de conclusões que abrangem, também, os outros casos.