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3 COMICIDADES CABO-VERDIANAS: UM BREVE PANORAMA DE OBRAS

3.3 O RISO ENGATILHADO DE CINCO BALAS CONTRA A AMÉRICA (2005):

3.3.1 O riso do autorretrato: perfil do escritor Jorge Araújo

Jorge Araújo nasceu ano de 1959, na cidade de Mindelo, na ilha de São Vicente, Cabo Verde. É escritor, jornalista, repórter e editor, bem como ex-diplomata. Em sua trajetória jornalística realizou a cobertura de diversos conflitos armados, sobretudo em países africanos, e recebeu o prêmio AMI – Jornalismo contra a Indiferença (2003). É autor, dentre outros, de

Timor, o insuportável ruído das lágrimas (2000), Comandante Hussi (2003), ganhador do

Prêmio Branquinho da Fonseca da Fundação Calouste Gulbenkian na edição de 2005, no mesmo ano, Nem tudo começa com um beijo (2005, adaptado também para o teatro), Paralelo

75 (2006), O dia em que a noite se perdeu (2008), Beija-Mim (2010) e O cemitério dos amores vivos (2015), bem como Cinco balas contra a América (2008). Iniciou sua carreira

como jornalista em programas de televisão em Cabo Verde, e posteriormente exerceu brevemente atividades diplomáticas. Em Portugal conseguiu cumprir sua principal meta fazendo reportagens. Atuou no Independente, Já, TVI, Correio da Manhã, além de ter realizado uma longa estadia em Londres trabalhando na BBC. Atualmente reside em Portugal.

Figura 3 – Escritor Jorge Araújo

Em uma matéria contida no site jornalístico cabo-verdiano A semana, publicada em 7 de abril de 2008, acerca da reedição de livros de Jorge Araújo por editoras brasileiras, o autor afirma que Cinco balas contra a América é baseado nas suas experiências aos 16 anos, quando vivia no Mindelo no período posterior à revolução dos cravos ocorrida em Portugal também denominada por portuguesas(es) e cabo-verdianas(os) como 25 de abril.

Uma das possibilidades analíticas concernentes à declaração da narrativa ser uma ficcionalização das vivências de sua juventude no Mindelo recai na interpretação do autor enquanto representado pelo personagem Bob. Tal leitura é ancorada na profissão escolhida pelo rapaz após sair de Cabo Verde: repórter na cobertura de confrontos internacionais. Outros aspectos biográficos também se aproximam do enredo, como a cidade do Mindelo e seus pontos turísticos servindo como cenário para a trama, como pontua Avani Silva (2015).

O que causa interesse, pelo menos em minha leitura, são as motivações que levaram um cabo-verdiano emigrado para Portugal, ex-diplomata em seu país, a elaborar uma narrativa tão negativa sobre os eventos, grupos e sujeitos envolvidos com o processo emancipatório das ilhas. Dentre os textos analisados ao longo da tese, poucas abordagens foram tão transparentes quanto a trama juvenil discutida neste tópico, seja ao citar explicitamente o nome do PAIGC, seja ao narrar as estratégias de recrutamento de jovens ou ainda das vigilâncias contra uma suposta invasão estadunidense ou portuguesa às ilhas cabo- verdianas (aspecto inclusive citado por Germano Almeida em O Meu Poeta (1992a)).

3.4 “QUE OUTRA ATITUDE POSSO TER SE NÃO A QUE SE EXPRIME PELO RISO?”: ANÁLISE DO ROMANCE O ELEITO DO SOL (1992), DE ARMÉNIO VIEIRA

O protagonista da narrativa – um escriba egípcio – é submetido às arbitrariedades do faraó e do chefe de uma das mais cruéis prisões do Egito. Forçado pelo supremo soberano a descobrir sua verdadeira filiação, o escriba mostra sua capacidade de adaptação e superação das adversidades através de sua criatividade e de seus conhecimentos mágicos e artísticos. Ao descobrir sua nobre ascendência, consegue ser eleito faraó.

O eleito do sol possui várias possibilidades de leitura, dentre elas a transplantação da

situação de insatisfação de Cabo Verde para o contexto surreal e autoritário do Antigo Egito fornecido por Arménio Vieira, repleto de animais imaginários como unicórnios, bicórnios, além dos tapetes mágicos e tantos outros elementos quiméricos.

Vieira tece uma crítica muito ácida contra as autoridades, demonstrando suas arbitrariedades e por vezes, fazendo-lhes descrições absurdamente derrisórias. Não há sequer uma referência a Cabo Verde, como também não são perceptíveis posicionamentos partidários explícitos, mas é notável a verve transgressora e irreverente assumida pela obra por meio, dentre outros aspectos, da sátira direcionada aos regentes.

O romance se inicia com diversas chaves interpretativas, principalmente, o caráter onírico da narrativa, uma vez que a história foi relatada para o narrador não identificado e onisciente pelo próprio personagem principal através de sonhos, e este também lhe informou acerca de suas outras “reencarnações”, afirmando que foi “negro em África, amarelo na China, branco no país dos ingleses e vermelho na América; fui homem de todas as raças.” (VIEIRA, 1992, p. 9).

O personagem principal, Akenaton, contou para o narrador que se tornou faraó através de um sonho e escolheu especificamente que sua história mais antiga, a de sua vivência enquanto negro e temporariamente pobre em África fosse registrada. Esta escolha, embora não seja aprofundada na narrativa, é bastante emblemática.

Dentro das concepções imagéticas propagadas pelos meios de comunicação, especialmente pelo cinema, o Antigo Egito é costumeiramente retratado como uma civilização de pessoas de pele clara, majoritariamente, branca. Grandes clássicos cinematográficos sobre o Egito tiveram a maior parte de seu elenco composto por atores e atrizes brancas(os). Há evidências científicas que afirmam que o povo egípcio era negro63, assim como se identificavam enquanto negros, conforme postula o estudo A origem dos

antigos egípcios64, de Cheikh Anta Diop, presente na coleção História Geral da África (2010), editada pela Unesco. A própria identificação do Egito enquanto país africano é muitas vezes menosprezada pelo senso comum. Tal ocultação é sintomática, pois oblitera que uma das civilizações mais influentes e desenvolvidas da antiguidade, um dos paradigmas da ‘ocidentalidade’ juntamente à sociedade helênica, seja negra e africana.

Ao destacar a raça e a origem de seu protagonista como um negro e africano logo no início do romance, levando em consideração toda a controvérsia que envolve estas identidades em relação ao Antigo Egito, torna-se possível conceber qual é o posicionamento político da obra. O ato de escrever sobre um africano e negro, como assinala Kwame Anthony Appiah, em seu livro Na casa de meu pai (1997), representa um ato de resistência, pois,

63 Para mais informações sobre o Antigo Egito e sua representação cinematográfica consultar o artigo Um Egito

Negro incomoda muita gente, de Charô Nunes publicado no Portal Geledés. Disponível em:

https://goo.gl/6owXBu. Acesso em: 13 ago. 2014.

Vemos a formação de um discurso de resistência e descobrimos as possibilidades de ensinar a resistência, à medida que os próprios súditos descolonizadores escrevem, agora, como sujeitos de uma literatura própria. O simples gesto de escrever para e sobre si mesmo [...] tem uma profunda significação política. (APPIAH, 1997, p. 88)

O fato de colocar um protagonista negro e africano também é sintomático de uma consciência, muitas vezes, silenciada das identidades cabo-verdianas, pois como postula Cláudio Furtado em seu artigo “Raça, etnia e classe nos estudos sobre e em Cabo Verde: marcas do silêncio” (2012), essa reivindicação passou a ser mais intensa a partir das contribuições ideológicas fornecidas pelos intelectuais orgânicos da luta de libertação nacional (2012, p. 163). Até então, e mesmo posteriormente, afirma o autor, esta dimensão africana era sublimada para se dar destaque ao aspecto mestiço e crioulo cabo-verdiano, muito mais concebido como uma “mistura”, mesmo que nessa “mistura” se sobrepusesse o caráter europeu.

O protagonista, visto em minha leitura como um microuniverso ideológico não ficcional de Cabo Verde, recusa-se a ser submisso perante os governantes (tanto o Faraó Amenófis XXVIII quanto Ramósis, o governador da prisão conhecida como Choça do Gavião), ridicularizando-os comicamente. Mesmo que, por muitas vezes, mostre-se servil, Akenaton sempre apresenta um tom irônico quando trata diretamente com seus ‘superiores’.

Como um dos exemplos de sua ousadia e arrogância, quando questionado sobre a motivação de ter sido preso sob a acusação de ser cego, por não distinguir um símbolo que representava Amon-Rá, além de incorrer nos crimes de vadiagem e uso de erva proibida, Akenaton responde ao chefe da Choça do Gavião: “Não queria ofender, mas... cego é quem me prendeu. Senão, vejamos: à distância de mil pés distingo os setecentos caracteres das três escritas em uso neste Império [...]” (VIEIRA, 1992, p. 32).

É importante ressaltar que são constantes, no decurso da narrativa, as ridicularizações que Akenaton faz do faraó Amenófis e do governador Ramósis. Sobre o primeiro satiriza:

Por acaso, lembrou-se da grande verruga na penca do Faraó. “Ah! Ah! Ah! Sua Majestade está convencido que a verruga é Anúbis, o deus protector do nariz, quando se trata de uma monstruosa bossa nasal. Eis uma anedota bastante gira! Mas chega de riso, enfrentemos agora a grande fera.” [o governador Ramósis]. (p. 30)

Mikhail Bakhtin em Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance (1998) destaca que o riso possui o poder de destruir o temor e a veneração, pois, segundo o autor, nenhum objeto pode ser cômico em uma imagem distante. Bakhtin (1998, p. 413) assinala que a comicidade movimenta-se na área de máxima aproximação, colocando o objeto

na zona de contato direto, na qual se pode tocá-lo sem cerimônia alguma. É assim que o riso opera no romance O eleito do Sol. Arménio Vieira despe os déspotas, desnuda-os através do riso. Sua derrisão sarcástica afasta o temor que o poder deles suscitaria. Isso fica explícito no seguinte fragmento:

O escriba egípcio pensou: “Alguém que não fosse um predestinado ficaria a tremer de susto ao deparar-se-lhe este cadáver evadido do Vale dos Reis. A falar verdade, eu nunca tinha visto um tipo tão horroroso. Num concurso de monstros, Ramósis seria o vencedor, ainda que concorressem todas as figuras do pesadelo, incluindo Sua Majestade Amenófis. Quantos anos terá este batráquio gigante? Ele próprio já deve ter perdido a conta.” (VIEIRA, 1998, p. 31)

Percebe-se que o que imporia medo seria a figura horrenda do governador e não os terríveis castigos que ele poderia infligir aos que o desobedecem e/ou não respeitam sua “autoridade”.

Na narrativa é demonstrado o descontentamento por parte do protagonista em relação ao governo despótico de Amenófis e, após o desvendamento do enigma da esfinge, fica explícito o desejo de Akenaton em ascender ao trono: “Deixei de ser neto de quem se supunha; por outro lado, talvez salve o Império e venha a ser vizir ou... [...]. Um dia ver-se-á quem vale mais – eu ou o zarolho do Imperador.” (VIEIRA, 1992, p. 19).

O desejo de rompimento, de substituição de um governo para o outro pode ser lido através da vontade de livrar-se de um governo caduco, arbitrário e predatório como o regime de Amenófis, possivelmente, simbolizando a colonização portuguesa e a promessa de um sistema mais progressista, mesmo que nem tão democrático e justo, na figura do novo faraó Akenaton, representando o Cabo Verde independente. Contudo, o romance critica o desconhecimento da plebe egípcia/cabo-verdiana acerca dos eventos relacionados às lutas pela libertação:

Ao passar pela Grande Praça de Tuntankhamon, o escriba notou que, apesar da presença de meia dúzia de pombas ao pé do chafariz onde, há trinta dias, fizera a sua ablução matinal, a vida continuava normal, mostra de que os estratos baixos e médios da população nada sabiam quanto à aproximação da estrela cabeluda, ignorando de igual forma a iminência da nova calamidade. Um comentário irónico aflorou-lhe aos lábios, mas ele, senhor de si, enviou- o para dentro. “Saibamos conter o riso, que as circunstâncias não são para brincadeira”, murmurou ele, estoirando uma gargalhada. (p. 128)

É interessante o questionamento que o romance faz acerca da participação popular nas questões políticas, pois interroga o caráter unificador que os projetos nacionais possuem e sua pretensão homogeneizadora. Tais assuntos são tratados de forma dita séria, não aceitando o

questionamento que a forma risível confere aos temas sacralizados como o nacionalismo e as lutas libertadoras.

Mesmo que os posicionamentos da obra não sejam tão explícitos ao relacionar diretamente o texto com o contexto cabo-verdiano, como no caso das narrativas analisadas anteriormente, possivelmente, as críticas não pudessem ser direcionadas e assumiram o caráter onírico e risível para causar a ambivalência típica do discurso cômico. Nesse sentido, a indagação do deus Toth corrobora com esta leitura: “Que outra atitude posso ter se não a que se exprime pelo riso?” (Ibid.).

Todavia, o caráter inovador da narrativa esbarra na representação do – só existe um – personagem feminino. A mulher do governador Ramósis, majoritariamente denominada como “a incomparável Hatshepsut”, a “bela Hatshepsut”, “inigualável Hat” é descrita como fútil e superficial, mesmo que estas características não recebam uma tônica negativa. Não possuí uma história anterior ao casamento com o administrador da prisão, e passa os dias indiferente aos absurdos cometidos por seu marido. Entretanto, para o escriba, seu único defeito é gostar de doces:

A incomparável Hatshepsut adorava sonhar com jovens agradáveis e bem- falantes. Sobretudo quando tinham uma linda barba. «Se o meu amo fosse assim!» – suspirava ela. Outra paixão da veneranda senhora era a que ela sentia por gafanhotinhos assados com molho preparado à base de condimentos exóticos. Mas, a maior parte do tempo ocupava-a ela a ouvir histórias, enquanto saboreava guloseimas de várias cores, com marcada preferência pelo doce de abóbora silvestre. «Eis um aspecto em que a bela Hatshepsut me decepciona», dizia o vencedor da Esfinge para consigo. «Detesto doces, e desde pequeno que ganhei aversão pelo melão e pelo pepino. No entanto, é-me simpática a predileção que ela tem pelas cores. Não fora a minha mania dos doces, podia-se viver com ela durante mil anos.» (p. 81)

A descrição da personagem fica restrita aos gostos – e quase hábitos –, sem aprofundar nas subjetividades de uma mulher que é oprimida e encarcerada pelo próprio esposo. A relação entre Hatshepsut e o escriba também não reflete uma relação saudável, posto que a comparação entre suas identificações se restringem à predileção dela pelas cores e a durabilidade do afeto é mensurada, por parte do escriba, e limitada pela restrição que esse tem pelos doces.

Um aspecto que merece ressalvas é a representação na narrativa de um episódio de “travestimento”, quando Hatshepsut fica sob o efeito de um feitiço e muda de gênero temporariamente:

[...] Como quer que seja, sinto-me inclinado a acreditar que em relação ao estado anterior – sonho ou realidade, pouco importa – houve na senhora uma mudança para pior. Com efeito, a senhora travestiu; por outras palavras:

mudou de sexo. [...]

«O infalível Toth errou desta vez e a esposa do respeitável Ramósis mudou de sexo.» Calou-se por uns instantes e acrescentou: «Palavra de honra que nunca julguei possível tamanha aberração!» (p. 58-59)

O escriba ainda descreve o ‘desconforto’ em ter que beijar um homem para reverter o encantamento:

– Não exactamente... salvo o respeito, divino Toth. Explico-me: no que se refere ao terceiro beijo, sucedeu que me senti enojado ante a possibilidade de cometer tal acto, já que a respeitável senhora mudou de sexo. Sou o que sou – com fêmeas tudo bem; com machos, estou em crer que sentiria cãibras na língua. (p. 66, grifo meu)

A partir destes fragmentos, principalmente dos grifos em destaque, é possível observar a utilização da linguagem risível para a perpetuação de discriminação transfóbica através da descrição caricatural da mudança de gênero, colocada na narrativa como mudança de sexo. É bastante comum a rejeição/exclusão das pessoas transgêneras(os) por via da comicidade e o estranhamento e animosidade assinalados traduzem o comportamento e posicionamento LGBTTTQIA+fóbico reproduzidos no cotidiano. Esta é uma crítica direta e o ‘enjoo’ provocado pelo efeito do feitiço só é encerrado com a reversão de Hatshepsut ao gênero feminino.

É possível então notar quase um padrão de representação dos personagens femininos em obras de autoria masculina – pelo menos entre os textos discutidos nesta tese. Nos próximos capítulos assinalo como esse paradigma é perpetuado através da comicidade também por dois autores celebrados pela crítica e pelo público.