2 O MUNDO QUE O MESTIÇO CRIOU: INTELECTUAIS E NARRATIVAS DE
2.2 A REVISTA CLARIDADE
2.2.3 Persistências e rupturas de/com o paradigma claridoso
A influência claridosa faz-se notar nas produções literárias posteriores seja através das temáticas em comum, como as questões da seca, da falta de chuvas, do evasionismo/emigração e da mestiçagem, seja por meio da herança estética, ainda mais perceptível nas obras poéticas. Além dessa reverberação nos textos, a relação com o movimento da Claridade é reivindicada enquanto legado; uma associação que se expressa nos discursos ou nas homenagens, como é o caso de vários periódicos surgidos após os escritos claridosos e que são publicados nos aniversários das edições da revista, a exemplo da Sopinha
de Alfabeto, editada por Mito Elias e Filinto Elísio Silva em 1976.
Alguns escritores contemporâneos reclamam para si a herança claridosa, como o faz Germano Almeida, um dos autores analisados nesta tese, ao afirmar25 que percorre o trajeto trilhado anteriormente pelos claridosos, embora apresente seus textos em cenários mais urbanos. Nesse sentido, ao priorizar em suas abordagens os aspectos culturais de Cabo Verde em semelhança ao projeto da Claridade, o escritor confere especial destaque para a cultura mindelense, berço da primeira edição da revista.
Apesar de reconhecer que a literatura cabo-verdiana ainda não rompeu com o paradigma claridoso, Almeida afirma que nem ele promove tal ruptura, mesmo localizando seus enredos em paisagens predominantemente urbanas. A continuação desse modelo também se manifesta no autor por sua perpetuação dos ideais de valorização da cultura portuguesa, do mestiço cabo-verdiano e da cultura de Cabo Verde como distinta dos demais países africanos. Assim como os claridosos, Germano Almeida perpetua uma visão ocidentalizada/europeia de Cabo Verde, principalmente, através da valorização da paisagem urbana do Mindelo, como em O Meu Poeta (1992a) e A Morte do Meu Poeta (1998b),
25 Germano Almeida (1998) citado por Jane Tutikian (2006, p. 64) assinala que: “[...]É verdade que continuamos a dormir à sombra dos louros da «Claridade», como se isso nos bastasse. Não tentamos ultrapassar, continuar a experiência «claridosa». E nem houve ruptura entre essa geração e as actuais; a viagem literária que eles fizeram fi-la eu 50 anos depois, veiculado a um meio mais urbano...”.
narrativas integrantes do corpus desta tese, sob a perspectiva de uma burguesia fútil e elitizada, totalmente afastada das demandas e das culturas populares, cujo ápice do regionalismo é o consumo de grogue26, posto que nem as mornas cantadas em crioulo cabo- verdiano são retratadas nas narrativas.
O prestígio da(o) intelectual letrada(o) em detrimento das(os) contadoras(es) de histórias orais também é sintomático dessa recusa dos aspectos relacionados às classes sem escolarização formal. Esse distanciamento dos pleitos populares, evidenciado, inclusive, pela recusa à utilização mais ampla27 do crioulo cabo-verdiano, além da caracterização negativa conferida por meio da denominação de “preto” aos personagens caricaturizados pejorativamente, está muito relacionado ao que Onésimo Silveira (2015, p. 21) questiona ao enfatizar a falta de identificação entre escritor e o povo. Nas duas narrativas citadas, nenhuma(um) personagem de relevo28 na trama pertence aos grupos de camponesas(es), pescadoras(es) ou trabalhadoras(es) informais, por exemplo.
Desse modo, todas as pessoas das tramas são pertencentes à burguesia e ainda mais a uma elite escolarizada, de circulação nos meios de lazer prestigiados, bem como usuárias de bens culturais ocidentalizados, a exemplo de referenciais de leitura canônicos, como a citação de Hölderlin29 em A Morte do Meu Poeta (1998b, p. 77), e hábitos gastronômicos europeus, como o apreço por licores estrangeiros enquanto “paixão máxima” do Poeta, descrita em O
Meu Poeta (1992a, p. 22) e que, após a posse do cargo de Embaixador, foi radicalmente – e
ironicamente – substituído pelo consumo “exclusivo” de bebidas nacionais como o licor de leite e de tangerina (Ibid.). As práticas medicinais locais ainda são depreciadas em detrimento das “tecnologias” ocidentais, como no fragmento de A Morte do Meu Poeta na qual o Assistente30 do Poeta retruca:
Se estivéssemos na América [EUA], dizia-lhe, a estas horas já estavas com uma placa de prata na garganta e medicado de tal forma que não haveria constipação que resistisse, mas estamos em Cabo Verde e por isso temos que nos contentar com a prata da casa, que no caso são ervas de mato e gemas d’ovos... (ALMEIDA, 1998b, p. 125)
26 Bebida alcoólica típica de Cabo Verde feita de rum, água e açúcar.
27 São pouquíssimas as palavras ou expressões em crioulo apresentadas nas tramas.
28 Mesmo que o protagonista Meu Poeta tenha nascido em uma família sem posses, esse aspecto não é aprofundado, de modo que sua trajetória fora dos círculos de privilégio social não é abordada nas duas obras. Enfatizo também que, apesar das condições financeiras do protagonista e de seu Assistente nem sempre serem favoráveis nas narrativas, os personagens são representados, predominantemente, como pertencentes a uma burguesia em ascensão, numa leitura inferida através de seus hábitos culturais e sociais de luxo, inclusive nos momentos em que não havia provimentos fixos.
29 Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1843) foi poeta e romancista alemão.
30 Posto que tanto O Poeta quanto seu Assistente não possuem nomes próprios nas narrativas, adoto como marca distintiva a utilização de letras iniciais em maiúsculo para me referir aos dois personagens.
Ainda sobre o legado claridoso na obra almeidiana, destaco tanto o vínculo do autor com um dos ideólogos da Claridade, Baltasar Lopes31, “[...] o único poeta nacional que alguma vez mereceu a honra de ser presidente da República de Cabo Verde foi o dr. Baltasar [Lopes]” (p. 130), quanto a continuidade, já assinalada, dos pressupostos da revista, em especial, da perpetuação do paradigma da mestiçagem, como no exemplo do projeto/temática do livro A Família Trago (1998) na qual “[a] ideia é confundir o mito da construção de Cabo Verde com o da mestiçagem32”.
No tocante à ruptura com a Claridade, enfatizo em Mário Lúcio Sousa, um dos autores analisados nesta tese, uma aproximação com os nativistas, em especial, com Eugénio Tavares (1867-1930), explicitada pelo autor em entrevista a André Sampaio, Diego Alves Moreira e Patrícia Camargo durante uma das visitas ao Brasil na ocasião da FESTLIP em junho de 2008, “Há mais uma identificação com os pioneiros da nossa literatura, como Eugénio Tavares, e com a tradição oral anciã, de que com os movimentos posteriores”. A ligação de Mário Lúcio com Tavares é bastante sinalizadora dos posicionamentos que ambos compartilham acerca da cultura popular de Cabo Verde.
Os percursos estéticos de Mário Lúcio Sousa e Eugénio Tavares são muito próximos. Ambos são músicos propagadores do crioulo cabo-verdiano, além de publicarem poesias, prosas e peças teatrais.
Além de ser responsável pela consagração literária da morna (PATRÍCIO E SILVA, 2011, p. 63), Tavares33 também é um dos pioneiros, juntamente com Pedro Cardoso, na divulgação do crioulo cabo-verdiano escrito (RAMOS, 2009, p. 83) e na reivindicação da emancipação de Cabo Verde (RODRIGUES SOBRINHO, 2007) – não enquanto nação soberana, mas tão somente enquanto portadora de um estatuto diferente perante Portugal, como já citado anteriormente.
Em sua estadia nos Estados Unidos, Eugénio Tavares tomou conhecimento dos ideais pan-africanistas (GUIMARÃES, 200534) e aprofundou seu engajamento político, reivindicando, “Portugueses-irmãos, sim: Portugueses-escravos, nunca. Havemos de ter o nosso Monroe: A África para os africanos” (MONTEIRO, 199735). Mesmo reconhecendo o
valor da cultura popular e até mesmo do contributo africano para a conformação desta,
31 Assim como Germano Almeida, Baltasar Lopes também era advogado.
32 Germano Almeida em entrevista concedida a António da Conceição Tomás em abril de 1998 (GÂNDARA, 2008, p. 15).
33 Estabeleceu-se que na data de aniversário de Eugénio Tavares, 18 de outubro, é comemorado o Dia Nacional da Cultura em Cabo Verde, oficializado através de um projeto-lei apresentado pelo deputado Jorge Lima Andrade Silva, na Assembleia Nacional de Cabo Verde. Cf. https://goo.gl/9FRbxQ
34 Citado por Genivaldo Rodrigues Sobrinho (2007). 35 Citado por Genivaldo Rodrigues Sobrinho (2007).
Eugénio Tavares enaltecia ainda mais o legado português, numa tentativa de eruditizar o cancioneiro popular.
A partir dessa perspectiva, uma possível compreensão tanto do reconhecimento da cultura popular quanto do legado africano presentes nas obras de Mário Lúcio Sousa o aproximaria dos empreendimentos efetuados por Eugénio Tavares como ‘cultor’ dos saberes do povo. A atuação de Mário Lúcio como músico do grupo Simentera em Cabo Verde primou pela pesquisa de músicas tradicionais das ilhas – assim como o fez Tavares em relação à morna – conferindo a ritmos como o funaná, morna, tabanka, coladera-samba, valsa andina, polonesa das ilhas, batuco e a berceuse aspectos modernos, de modo a “dar-lhes uma audição a nível internacional” (JSD, 2012).
A apreciação da cultura oral é uma intersecção presente nas obras dos dois autores, sendo uma reivindicação de Sousa a sua prática estética enquanto “oratura” tamanho é o peso da oralidade para a conformação de suas narrativas. Exemplo disso é a ausência de pontos finais no livro O novíssimo testamento (2009), assim justificada por Mário Lúcio Sousa em entrevista a Carolina Freitas do site Jornal das Letras em 2010:
Não existem pontos finais na narração oral, e sendo a minha literatura uma
oratura, essa opção acabou por surgir naturalmente. A partir deste livro, a
ausência de pontos finais é uma 'cruz que tenho que carregar', pois desenvolvi uma sinergia em que da primeira à última palavra há uma ligação, por vezes poética, outras rítmica, ou ainda com outros recursos da oralidade. (SOUSA; FREITAS, 2010)
Não há sequer um ponto final da primeira até a última página da obra e o ritmo narrativo é marcado através de vírgulas, inclusive no fragmento final do livro quando encerra: “E, inclinando a cabeça, entregou o espírito, e ali ante mim feneceu e com ela todo o seu complexo de Jesus, Vírgula,”36 (SOUSA, 2009, p. 324). Mesmo sem a utilização mais ampla
de termos em crioulo há uma tentativa de aproximação com a linguagem coloquial, apesar de o texto apresentar, por vezes, tonalidades bíblicas nas expressões.
Ao contrário do que ocorre em Germano Almeida, é possível observar em Mário Lúcio Sousa uma maior proximidade com os temas e aspectos da cultura popular. A partir dessa oposicionalidade, torna-se ainda mais consistente o argumento de Onésimo Silveira (2015, p. 17-18) acerca da
[...] omissão do homem do grupo de ilhas geograficamente denominado de «Sotavento», que não sendo propositada será de qualquer modo significativa, denuncia só por si a inexistência de identificação que o Movimento
36 Semelhante recurso á oralidade por meio da pontuação é empregado em Germano Almeida, nas duas obras em tela, nos excertos em que falas são introduzidas nas narrativas sem o uso de travessões, para dar conta de um modo mais coloquial de narração.
pretendeu realizar com a terra caboverdiana. Atendendo a que as ilhas desse grupo são as menos ocidentalizadas, cremos haver razão lógica bastante para atribuir aquela falta de representação ao que se poderia chamar, com toda propriedade, o «barlaventismo» da literatura claridosa, isto é, a atenção quase exclusiva aos aspectos da realidade caboverdiana que, por haverem sofrido uma maior lusitanização, permitiam uma imediata coincidência entre a mentalidade saturadamente europeia dos claridosos e a matéria de observação e anotação literária.
Desse modo, as escolhas espaciais nas obras e autoras(es) aqui analisadas sinalizam também para questões ideológicas que promovem, ou não, rasuras quanto ao aspecto mais africano ou mais ocidental na composição cultural dos grupos populacionais de cada região do país, bem como suas implicações nos aspectos relacionados à classe, raça e gênero.
2.3 INTELECTUAIS LITERATOS: TRAJETOS, TRÂNSITOS, MILITÂNCIAS E