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PARTE I: SEPARANDO O JOIO DO TRIGO

5. O samba higienizado

Em 1939 a Revista Fonfon promoveu uma enquete intitulada “O que é o rádio? Fator de educação ou diversão?” As perguntas foram dirigidas aos profissionais do rádio, inclusive críticos, e coube a Mariza Lira, apresentada como “pesquisadora incansável do folclore brasileiro”, responder questões que nos ajudam a entender, inclusive, seu lugar na crítica musical. A enquete tem início com a pergunta que a intitula e podemos dizer que Mariza sai com uma resposta que não desagradaria ninguém dizendo que o rádio servia tanto como fator de educação como distração. E sendo ela crítica de rádio e ao mesmo tempo folclorista, de fato, ela não poderia ter dado outra resposta. Mas, as respostas que se seguem a essa revelam uma preocupação e uma tendência de Mariza Lira em acreditar em certa disciplinarização do rádio que nem sempre estava comprometido com a qualidade da programação. Quando questionada sobre a qualidade do broadcasting brasileiro ela acusa algumas rádios de divulgarem “sandices” e “pachuchadas” que “só conseguem degradar nosso grau de civilização”. Embora ela não declare quais gêneros ela enquadraria nessa categoria, na resposta seguinte parece ficar claro. Quando perguntada se o samba era a expressão da nossa música popular, ela diz que ainda não, que por enquanto ele era uma música carioca e que ainda lutava por sua nacionalização84. E faz uma distinção bem

clara de qual samba para ela merecia ascender à categoria de símbolo do

84 Dois anos antes, em 1937, em artigo de 25 de abril do Jornal do Brasil a opinião parecia ser

outra. Ao defender a originalidade do samba nacional frente a invasão estrangeira Mariza declara “O samba é a alma sonora do povo brasileiro é a verdadeira consagração da nossa música popular.” Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

nacional popular e qual merecia ser esquecido. A retórica utilizada era pertinente ao momento nacional em que o Estado Novo fez uso do DIP (departamento de Imprensa e Propaganda) para censurar o samba malandro:

O samba da cidade, o genuíno samba carioca de música brejeira, provocante, e letra irônica, decantando desalentos de amor ou descrevendo incidentes pitorescos de subúrbios, é interessantíssimo. Mas os tais sambas com quadros de fome, dramas de barracão, em gírias de cabrochas, esses deviam ser mandados, com as levas de malandros, para a Colônia correcional.85

Na pergunta final embora defendesse um rádio comercial, segundo ela não totalmente controlado pelo governo como na Itália fascista, Mariza era favorável a certo controle sobre o rádio para evitar a divulgação de “impropriedades”.

O rádio, como meio de divulgação, deve ser independente e seguir tendências individualistas. Da competição resulta o aperfeiçoamento. Oficializa-lo seria prejudica-lo. Mas é indispensável uma revisão nos valores e nas produções, a fim de evitar a divulgação de impropriedades.86

Em suplementos intitulados “Música Popular Brasileira” publicados aos domingos no Jornal do Brasil, nas suas primeiras crônicas na imprensa Mariza já dava ênfase a um samba que não cantava a malandragem dando destaque a figuras como Ari Barroso, Assis Valente e Francisco Alves, cantores/compositores do asfalto. Dá destaque em 13/6/1937 a um samba de Custódio Mesquita chamado “Samba da Cinelândia”, uma espécie de celebração do samba do asfalto:

Sambista, desce o morro

Vem pra Cinelândia, vem sambar, Que a cidade já aceita o samba,

E na Cinelândia só se vê gente a cantar.87

85 LIRA, Mariza. Revista Fonfon de 11 de novembro de 1939. Fonte: Hemeroteca Digital da

Biblioteca Nacional. [grifo meu]

86 Idem. Revista Fonfon de 11 de novembro de 1939. Fonte: Hemeroteca Digital da Biblioteca

Nacional. [grifo meu]

87 Idem. Publicado em crônica intitulada “O samba” em 13/6/1937 no Jornal do Brasil. Fonte:

Na mesma crônica outro samba ganha destaque, dessa vez de Francisco Alves a quem Mariza se refere como “maior cantor popular brasileiro. Ninguém se lhe compara na sonoridade brilhante e encantadora da voz (...)”. O samba em questão era “Vadiagem” em que valia a pena ter largado a vadiagem, ser honesto, para receber todo o amor da mulher amada88:

A vadiagem eu deixei Não quero mais saber Arranjei outra vida Porque deste modo

Não se pode mais viver (...) Quando eu saio do trabalho, Pensativo no caminho

Que saudades da navalha (...) Mas, chego em casa.

É beijinhos sem ter fim... Vale a pena ser honesto Pra poder amar assim.89

Tendo a crítica o poder de escolha não parece ser coincidência Mariza ter decidido dar destaque a um samba que negava a malandragem. Em outra série sobre o samba, dessa vez publicada no Diário de Notícias entre 1958 e 1960, vemos uma crítica mais madura. Entendendo o samba como já plenamente nacionalizado, Mariza descreve suas etapas formativas e vai elegendo seus personagens, do samba do morro, passando por Sinhô, Noel e finalmente chegando a Ari Barroso, com que ganhava sua versão mais bem acabada e definitiva. Nessa série o músico deu um depoimento publicado no Diário de Notícias de outubro de 1958 em que relata as circunstâncias de composição de “Aquarela do Brasil”. Ele sabia a quem dava esse testemunho, afinal, desde suas primeiras crônicas, era possível perceber um mal-disfarçado elitismo que reclamava do misticismo atávico dos batuques e do sensualismo das danças dos negros, e que só passou a reconhecer o samba como verdadeiramente nacional depois que a alma brasileira o embelezou com seu

88 Sobre a questão da malandragem no samba, cf: PEDRO, Antonio (Tota). Samba da legitimidade. Dissertação (Mestrado em História)- FFLCH, USP. São Paulo, 1980 e WISNIK, José Miguel. Getúlio da Paixão Cearense (Villa Lobos e o Estado Novo). In: SQUEFF, Enio; WISNIK, José Miguel (orgs). O Nacional e o popular na cultura brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1983.pp.129-191.

89 LIRA, Mariza. Crônica intitulada “O samba” de 13/6/1937 publicada no Jornal do Brasil.

mestiçamento, para finalmente Noel Rosa e Ari Barroso darem a ele feição nacional.

Mariza usava uma retórica quase ufanista que combinava perfeitamente com o clima de samba exaltação de “Aquarela do Brasil” ao descrevê-la. O Estado Novo havia ficado para trás para dar lugar ao nacional desenvolvimentismo, a crença de um país grande e moderno emoldurado por uma natureza exuberante cuja trilha sonora seria “Aquarela do Brasil” em tom orquestral a cantar suas grandezas. Aqui já não há mais hesitação, o samba carioca era a música que fazia o povo todo vibrar.

E esse panorama sonoro em colorido brilhante é em forma de samba. Observem bem, porque pelo samba carioca o povo vive, sente e vibra, liberta-se, diviniza-se. Ouvindo a Aquarela do Brasil sentimos o Brasil de hoje, grande, imenso, insofreável que será o Brasil de amanhã, imprevisível.

Aquarela do Brasil é a própria terra, é a gente brasileira, que se projetou naturalmente, em Ari Barroso, para cantar a sua glória.90

Nesse espaço do Diário de Notícias, Mariza avisa aos leitores que o reserva somente para “ressaltar verdadeiros valores” e o único artista a quem dá maior ênfase, inclusive com quatro crônicas seguidas, é justamente Ari Barroso. E aproveita para agradecer o jornal deixando evidente a função educativa da imprensa e do cronista:

Acompanhamos até aqui a evolução do samba, não tão minuciosamente como desejava o velho hábito de professora, mas, tanto quanto possível na medida do espaço e tolerância concedidos a uma cronista por um jornal, que foi ideado e realizado para ser a escola do povo do Brasil, como realmente é o nosso Diário de Notícias 91

Logo em seguida o que assistimos é um relato que reproduzia de forma um tanto tardia certo alinhamento a um ufanismo estadonovista (natural se pensarmos que ela procurava naquele espaço traçar a história do samba)

90 LIRA, Mariza. Crônica publicada em 13/9/1959 no Jornal Diário de Notícias. Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

91 Idem. Crônica publicada em 18/10/1959 no Jornal Diário de Notícias. Fonte: Hemeroteca

que tratou de suprimir o quanto pôde o samba malandro para dar lugar ao samba exaltação. Embora deslocado, ainda era um nacionalismo que fazia sentido se pensarmos que o desenvolvimentismo procurava um espaço para o Brasil na modernidade fazendo uso do discurso nacionalista. Era um Brasil potência não totalmente revelado no qual o samba tinha espaço nessa construção, embora muito em breve a bossa nova passasse a ocupar esse espaço simbólico.

E assim Ari sonhava livrar o samba da influência malsã das cenas de barracos, das descrições chocantes de infidelidade de cabrochas e valentias de malandros.

O samba não podia cantar desilusões, desgraças, misérias, coisas que entristecem ainda mais o já melancólico povo brasileiro. Não o satisfazia o samba- a característica musical do gigante Brasil- envolvido em tanta cena mesquinha, em tanto assunto de uma mediocridade dolorosa, em ritmo tão primário. Era preciso engrandecer o samba, fazê-lo grande, enorme, do tamanho dessa terra imensa como é a nossa.92

Mariza procurava dar destaque aqueles artistas como Silvio Caldas que, mesmo em meio a uma “fase lamentável de desagregação” do samba, ainda gravavam Ari Barroso. Ela volta a falar do compositor em 22/11/1959 salientando o caráter “higienizado” do seu samba que “abandonou os botecos” e “livrou-se da miséria”. E assim “o samba alindado invadiu a cidade, pintando cenas tradicionais, paisagens poéticas da sociedade carioca, erigindo monumentos da vida do Brasil grandioso”.93

Ao final da crônica, Mariza ressalta a cena musical contemporânea de maneira desalentada já que passa a perceber certa contaminação do samba com estrangeirismos como o “detestável bolero”, mas destaca o papel do crítico diante de uma audiência um tanto infantilizada que separa o “trigo de primeira categoria” nesse cenário desanimador.

Mas, o povo no seu primarismo de criança anseia evolução, inquieta-se e como tal faz travessuras, cria, às vezes, verdadeiros absurdos. Em meio à massa popular surgem revelações, mas também os medíocres improvisadores, os que pretendem forçar a popularidade sem lastro para alcançá-la.

92 LIRA, Mariza. Crônica de 18/10/59 do jornal Diário de Notícias. Fonte: Hemeroteca Digital da

Biblioteca Nacional.

93 Idem. Crônica de 22/11/1959 do jornal Diário de Notícias. Fonte: Hemeroteca Digital da

Isto vem se dando com as múltiplas adaptações e até irreverentes mutilações do samba. (...)

Na ânsia de novidade pretenderam adaptá-lo ao detestável bolero, numa nova forma-sambolero, que não gozou da preferência geral e à balada- sambalada! Até onde irá a confusão? Difícil prever-se porque felizmente para a música popular, há ainda muito trigo de primeira categoria, florescendo entre os compositores e interpretes que aqui serão apontados como merecem.

Mas nem tudo era pessimismo. Na última crônica que punha fim

a série sobre o samba intitulada, “Samba-Novos horizontes”, dá destaque a dois novos nomes da cena musical brasileira e do samba: Tom e Vinícius. Volta a refazer a jornada da evolução do samba que foi perdendo a “aspereza da África Selvagem”, passou de música mestiça, e nessa forma “findamente citadina foi que surgiu o samba carioca” e agora samba nacional. Seriam eles os novos nomes desse samba e sua crítica volta-se mais uma vez para a defesa do samba higienizado e livre das influências estrangeiras: “Na verdade sente-se que Tom e Vinícius pretendem livrar o samba de certas influências pejorativas e até de adaptações estrangeiras.”94

Ambos teriam cabedal para serem os continuadores de Sinhô, Noel, sobretudo, Ari Barroso já que não tinham vida boêmia, pelo menos é o que achava Mariza Lira na ignorância de quem não frequentava as noites cariocas: “Boêmios? Não gostam da noite, são casados e tem família. E assim vão correndo a vida.”95

Essa preocupação com os estrangeirismos a deturpar o samba tinha relação com uma cena musical complexa que se apresentava nos anos 1950 em que a música estrangeira invadia a cena musical. Diante de um cenário que não os agradava, muitos críticos buscaram no folclore e na glorificação do samba produzido na “Era de Ouro”, ou seja, nos anos 1930 uma tábua de salvação para a música nacional. Esse projeto foi cristalizado na fundação por Lúcio Rangel e Persio de Moraes da Revista da Música Popular com a qual Mariza Lira colaborou entre setembro de 1954 e setembro de 1956. Seus artigos não falavam propriamente do samba e giraram em torno do

94 LIRA, Mariza. Crônica de 29/11/1959 publicada no jornal Diário de Notícias. Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

folclore. Dessa maneira, Mariza criava para si certa armadilha conceitual, buscava com seus estudos folclóricos contribuir para a construção da noção de autenticidade da música nacional, mas isso a levava invariavelmente a analisar a cena musical contemporânea com certo traço de conservadorismo.

6. A crítica musical e a preservação da tradição: Revista da Música