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CAPÍTULO 4. A IDENTIDADE DOCENTE: AS RELAÇÕES DA FORMAÇÃO COM AS

4.5 O PERFIL GERAL DOS PROFESSORES-ALUNOS ENTREVISTADOS

4.6.3 O Ser professor: as imagens e as compreensões

Ao partir-se para uma investigação que tem a identidade profissional docente no seio de sua análise a partir da perspectiva dos próprios professores, torna-se pertinente apreender as imagens e compreensões que os professores-alunos egressos do Programa Rede UNEB 2000 revelam sobre o que significa “ser professor”. Para depois sim, instigar-lhes a fazerem essa mesma leitura sobre si mesmos enquanto professores, que trazem, também, em sua identidade profissional em construção, as marcas da formação de nível superior em Pedagogia.

A seguir apresentar-se-á os sentidos centrais colhidos das narrativas dos professores- alunos entrevistados sobre o “ser professor”.

4.6.3.1 O professor “uma peça-chave no mundo”

Olha... “Ser professor...” é como eu tenho pensado ultimamente. É uma doação. [...] Então, eu acho que quem é professor tem que se doar, eh... ser professor é uma doação. E quem é, é porque se permitiu essa doação e dentro de si e tem assim... um afeto pela profissão. Porque se não tivesse não ficava. (Professora-aluna Margarida)

Porque tendo um ofício, descobrir que ser professor é se dedicar ao que tá fazendo, se não se dedicar não vale a pena. Por isso eu continuo até hoje. (Professor-aluno Lírio)

É possível perceber a visão “sacerdotal” da profissão docente nos fragmentos de fala acima em que se explicita que se não houver doação e afeto, ou seja, um apego emocional à profissão, o sujeito não permanece nela.

Observa-se aí, principalmente na fala de Margarida, que há uma compreensão de que a tarefa de “ser professor” no contexto em que a docente vive é difícil e sacrificante, sendo assim, pensar a profissão pela perspectiva da “doação” é uma alternativa para conviver com a complexidade que a cerca.

A professora Margarida é mãe de três crianças na faixa etária dos dois aos cinco anos, trabalha três turnos, - ela concedeu a entrevista no turno noturno numa das escolas que trabalha, pois não dispunha de um outro momento – e ainda atua em dois municípios diferentes o que requer que a mesma se desloque mais de quarenta quilômetros diariamente para trabalhar. A própria condição de trabalho da professora Margarida revela os motivos que a conduzem a essa compreensão de docência como “doação”. Em sua fala, revelou em vários momentos que precisa sacrificar a família para dar conta do trabalho.

Assim, eu vejo o professor como uma peça chave no mundo. [...] Porque o professor é que dá embasamento pra todas as outras profissões, sem falar que ele tem o poder nas mãos de transformar o mundo com o conhecimento, com vivência. Mesmo porque, hoje, a sociedade transferiu muita coisa pra educação. Então, a cada dia que passa, o professor tem tido uma responsabilidade maior sobre o mundo, sobre a sociedade em geral. (Professora-aluna Gardênia)

Pra mim ser professor é algo mágico. Eu não consigo imaginar um professor desvinculado assim de uma magia muito grande. De uma paixão muito grande, de um envolvimento com as pessoas. É como se fosse o sábio que durante as aulas fosse encaminhando as pessoas, direcionando pensamentos. Assim, eu sou apaixonada mesmo. Sou apaixonada pela educação e acredito que o professor é alguém assim que nunca pode faltar na vida de uma pessoa. São assim... pessoas insubstituíveis neh? Mas eu acho que o professor é realmente insubstituível. Tem que ter na vida de todas as pessoas. (Professora-aluna Acácia)

Mas... ser professor para mim, pessoalmente, é um sentimento muito forte. [...] Eu acredito que o papel do professor é uma extensão da casa, certo? Eu acredito que a primeira escola é a escola da nossa casa, são os nossos pais. Então o professor, eu acredito que ele deve ser o educador, tanto pra vida, é.. profissional do aluno como também na vida pessoal, que isso interfere, queira ou não queira na personalidade do aluno. A forma como o professor trata as crianças vai definindo a conduta deles, eles tem um certo entendimento ali da formação. (Professor-aluno Girassol)

As afirmativas acima revelam uma forte identificação profissional dos entrevistados com a docência. O envolvimento, a “paixão” pela profissão, a consciência de que a profissão docente é essencial para a sociedade são marcas das falas dos professores-alunos entrevistados. A profissão docente, principalmente no Ensino Fundamental da Educação Básica proporciona relações interpessoais intensas entre professores e alunos, nessa relação não somente os conteúdos intelectivos estão envolvidos, há nessa fase inicial da vida escolar o desenvolvimento de aprendizagens atitudinais.

As narrativas dos professores-alunos confirmam o importante papel do professor na construção da identidade dos seus alunos. O professor Girassol fala que o professor também educa “para a vida” e que ele poderá até interferir na conduta, na formação dos valores de seus alunos. Arroyo reafirma a dimensão valorativa do trabalho docente ao afirmar que, "podemos aprender a ler, escrever sozinhos, podemos aprender geografia e a contar sozinhos, porém não aprendemos a ser humano sem a relação e o convívio com outros humanos que tenham aprendido essa difícil tarefa." (ARROYO, 2009, p. 54).

Nessa etapa da Educação Básica, o trabalho docente prioriza muito a formação de valores na interação com os educandos. Esse contexto torna o trabalho docente ainda mais humanizador, há uma relação maior de dependência do aluno para com o professor.

O professor trabalha diretamente com a formação humana, com questões relacionadas à convivência constante com alunos, com pessoas. O professor trabalha com o dinamismo da vida, contribui para a formação de pessoas, esse fator é algo preponderante no momento em que os docentes pensam sobre o “ser professor”, pois se trata de uma profissão que tem como objeto a relação direta com as pessoas, o que traz uma conotação de atividade também marcada pelo “afeto”, como afirmou Acácia, pela “magia” e pela “paixão”. Nessa perspectiva Tardif afirma que, “o objeto do trabalho dos professores são seres humanos individualizados e socializados ao mesmo tempo. As relações que eles estabelecem com seu objeto de trabalho são, portanto, relações humanas, relações individuais e sociais ao mesmo tempo.” (2002, p.128).

4.6.3.2 Ser professor é proporcionar conhecimento

Ser professora é você dar oportunidade ao aluno de ter o conhecimento. Dele aprender. Em diversas situações, a gente respeitar essas situações, contornar diversas situações os problemas que se tem, mas em prol da aprendizagem neh? A gente tem que ter aquele foco no aprender. (Professora-aluna Açucena)

Então conhecimento e algo que é inerente, ou seja, é algo que precisa estar relacionado intimamente com o ser professor.[...] É... o ser professor, na minha opinião, né, é algo assim que está bastante relacionado com o conhecimento. O professor, embora ele não seja o transmissor do conhecimento, mas ele é alguém que precisa ter um determinado nível de conhe... conhecimento, pra que ele possa, é, construir, né, o seu próprio conhecimento, hum, em contato com os alunos, e também ajudar os alunos na construção dos seus próprios, do seu próprio conhecimento.(Professor-aluno Crisântemo)

A relação do professor com o conhecimento é uma relação a vida toda investigativa, buscando novos saberes, confrontando novas ideias. [...] Eu acho que o papel do professor é ajudar o outro, é conseguir fazer com que aquela outra pessoa abra os olhos pra ela se tornar uma pessoa mais cidadão, tomar conhecimento dos seus direitos enquanto pessoa. (Professora-aluna Hortência)

Nas narrativas aqui apontadas o papel do professor está mais centrado na tarefa de proporcionar conhecimento, mas um conhecimento que além de instruir também prioriza a formação de valores para que o educando possa exercer sua cidadania. O professor é apontado como um sujeito que pode produzir saberes e que se torna um referencial para os seus alunos.

Observa-se que cada professor concentra sua imagem sobre a profissão docente estabelecendo parâmetros diferentes, porém a imagem de um sujeito que proporciona conhecimento é elemento comum na maioria das falas. Isso corrobora para que a identidade profissional docente se (re)afirme socialmente como um profissional de relevância para o desenvolvimento social.

A “imagem” do professor apresentada nas narrativas acima, é de um profissional que é sujeito de sua ação, que se apropria de conhecimento, o que revela uma compreensão a respeito do papel do professor como um profissional que participa ativamente da construção cultural da sociedade. Refletindo sobre essa perspectiva do trabalho docente centrado no papel de transmissor do saber, Tardif afirma.

A grande importância dessa perspectiva reside no fato de os professores ocuparem, na escola, uma posição fundamental em relação ao conjunto dos agentes escolares: em seu trabalho cotidiano com os alunos, são eles os principais atores e mediadores da cultura e dos saberes escolares. Em suma, é sobre os ombros deles que repousa, no fim das contas, a missão educativa da escola. (2002, p.228)

4.6.3.3 Ser professor é contribuir com a transformação do ser humano

Ser professora assim é contribuir, neh? Na minha opinião, no meu conceito ser professora é contribuir assim com a transformação do ser humano, neh? Com a essência do ser humano. Quer dizer, assim como se fosse... pra mim é como se fosse uma religião. Entendeu? É como se fosse uma religião de... Poxa. Eu sou capaz de poder conseguir... de transformar aquele ser em outra... em outro ser diferente, de estar contribuindo as minhas experiências, de estar buscando as experiências dele, a partir do que ele sabe. Então é nesse sentido. Entendeu? De transformação. (Professora-aluna Rosa)

Constatou-se também uma visão do professor como um sujeito dotado de “poderes” que lhe confere possibilidades de transformação social. Porém, é necessário pensar que a transformação social do sujeito requer um conjunto maior de ações. O trabalho do professor, embora seja um trabalho que está intrinsecamente ligado à formação do indivíduo em sua dimensão intelectual e atitudinal, onde a formação de valores está centrada, não contempla todas as necessidades que esse indivíduo apresenta.

Acredita-se que essa visão é reflexo dos estudos amplamente divulgados pelas teorias reprodutivistas que colocavam a responsabilidade pela transformação social a cargo do professor. É fato que o professor tem um papel muito importante na emancipação do sujeito, mas diante dos estudos e das discussões atuais em torno da educação é necessário compreender que uma verdadeira transformação social requer uma ação estrutural em que a educação é compreendida apenas como um dos elementos para tal.

Outra questão a ser apontada é a respeito dos limites impostos pelo currículo escolar, na maioria das vezes, pré-estabelecido, em que o trabalho do professor acaba sendo direcionado a intencionalidades específicas como determinam as diretrizes do sistema de ensino em que o profissional docente está inserido, pois segundo Lawn (2001) “a identidade dos professores deve ajustar-se à imagem do próprio projeto educativo da nação”. E segundo Ball (2004) nos países emergentes as diretrizes de ensino são direcionadas pelas instituições financeiras do capital e visam a promoção de uma educação que prioritariamente forme trabalhadores eficientes. As questões voltadas à transformação social ficam em segundo plano.