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O setor pesqueiro e o compromisso com o desenvolvimento sustentável.

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G. Estabelecimento da documentação e do arquivo

2.6. Responsabilidade Social

2.6.6 O setor pesqueiro e o compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Ao se abordar o tema do desenvolvimento sustentável relacionado à indústria da pesca, inevitavelmente nos deparamos com a questão dos reservatórios naturais de pescado, visto que a exploração deste recurso de forma a satisfazer as necessidades do presente, sem comprometer a capacidade das gerações futuras em consumirem o pescado, constitui-se em um desafio bastante atual.

Trabalhos como os de Halpern et al. (2008), Worn et al. (2006) e Myer e Worn (2003) apontam para a situação preocupante do status do estoque de peixes marinhos, afirmando que estes recursos estão sobre explorados e que a perda marinha da biodiversidade está comprometendo cada vez mais a capacidade do oceano em fornecer alimentos e manter a qualidade de água.

Há uma crescente conscientização global sobre as consequências da exploração excessiva e sobre a necessidade de programação do desenvolvimento das práticas de gestão das pescas. Não há dúvida de que a pesca sustentável é da maior importância para todos os interessados. Ambas as formas de gestão de pesca: tradicional e a emergente eco-certificação/ eco-rotulagem podem facilitar a concretização do desenvolvimento sustentável da pesca. Atualmente, o mundo precisa de ambas, visto que medidas tradicionais têm sido lentas em lidar com a enormidade do problema. O efeito sinérgico da equação precisa ser realçado (SHELTON, 2009).

Para Erwann (2009), a rotulagem ecológica permite responder, pelo menos parcialmente, a questão da sobre exploração dos recursos de pesca. Entretanto, não importa em quanto o preço suba, com a aceitação dos consumidores, por certo número de peixes com rótulo ecológico. Isto, obviamente, não resolve por si só todos os problemas da sobre exploração e torna-se “a solução”.

Este tipo de passo, em conjunto com apoio da indústria poderia tornar-se, para os produtores, uma oportunidade para a continuidade de suas atividades tanto de um

ponto de vista econômico e também ecológico. Assim a rotulagem ecológica poderia tornar- se o fiador para o estabelecimento de um sistema duradouro de exploração do recurso. Destacando-se o Marine Stewardship Council (MSC) 5como um exemplo de certificação para pescado que foi obtido de forma sustentável.

De acordo com a FAO (2009), embora seja geralmente percebida como um fato que tem apenas impactos negativos, a mudança climática poderia dar ao setor um impulso adicional positivo para a sustentabilidade. Por exemplo, a resistência e adaptação dos ecossistemas aquáticos, dos sistemas de produção da pesca e aquiculturaaquicultura e das comunidades que dependem dos recursos aquáticos podem aumentar com a aplicação dos princípios e abordagens de governança e ordenação adequadas. Estas abordagens incluem práticas de manejo adaptativo e de precaução, com base nos incentivos sociais, econômicos, políticos e institucionais adequados.

Entretanto, além da questão da exploração dos recursos da pesca como desafio colocado à sustentabilidade do setor, outros aspectos relacionados com as atividades posteriores à pesca e que incluem o processamento, armazenamento, embalagem, transporte e eliminação dos resíduos após o consumo comportam necessidades para uma adequada gestão dos três pilares do desenvolvimento sustentável.

A comercialização do pescado é de especial interesse, visto que, nesta operação, há emissões particularmente elevadas por kg do produto comercializado, que são transportados via aérea. O transporte aéreo intercontinental pode produzir uma emissão de 8,5 kg de CO2 por kg de peixes transportados. Este montante corresponde a aproximadamente 3,5 vezes as emissões produzidas pelo uso do transporte marítimo e mais de 90 vezes a derivada do transporte local de peixes em uma distância a menos de 400 km. Neste aspecto melhorar a eficiência do uso do combustível, energia e das etapas pós-pesca iriam reduzir a emissão de CO2, enquanto ocorre uma aproximação das metas o desenvolvimento sustentável (FAO, 2009).

Côte et al. (2008) advertem que o processamento de pescado selvagem ou de aquicultura, pode ser melhorado. Assim, alguns processos são ineficientes e resultam em largas quantidades de resíduos sólidos e líquidos, que simplesmente são enviados para aterros sanitários e para o ambiente. Outros tipos de resíduos possuem valor, podendo ser canalizados para o fabrico de óleos e farinhas ou produtos com interesse farmacêutico e cosmético.

No Brasil, o Regulamento de Inspeção Industrial de Produtos de Origem Animal (RIISPOA), artigo 470, determina que os resíduos resultantes de manipulações de pescado, bem como o pescado condenado, devem ser destinados ao preparo de subprodutos não comestíveis.

Thin Van Ha et al. (2009) estudaram a aplicação dos princípios do networking eco- industrial no setor da aquicultura em uma província localizada no Vietnam, como uma nova ferramenta para a melhoria da sua competitividade, viabilidade econômica e para saúde ocupacional e proteção ao ambiente. Existem seis setores neste networking eco-industrial que incluem criação, alimentação, processamento do pescado, produção de medicamentos veterinários, processamento de subprodutos de pescado e tratamento dos resíduos. Os setores interagem entre eles e, formam uma rede de troca de material. Os resultados do estudo demonstraram que o networking eco-industrial criou impactos positivos em termos de aumento da competitividade, melhorias das condições sócio-econômicas e ambientes mais limpos.

Segundo Seafood International (2009) organizações do setor são convidadas a avaliarem as suas credenciais ambientais e compará-las com algumas empresas selecionadas

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como “favoritas”, devido às práticas ambientais incorporadas em suas estratégias. Além do apelo com caráter de sensibilização feito pelo artigo, o fato de terem sido selecionadas no mundo inteiro, apenas seis indústrias processadoras de pescado e oito da produção (pesca e aquicultura) com práticas “ambientalmente responsáveis” confirma a necessidade da incorporação efetiva, pelas organizações do setor, da gestão ambiental como parte de sua estratégia.

Côte et al. (2008) afirmam que a indústria da pesca ainda está longe de atingir o objetivo da sustentabilidade; entretanto ressaltam que os esforços devem continuar a fim de que se alcance este objetivo, através da eco - eficiência, da produção mais limpa na pesca moderna e do aumento da compreensão dos sistemas ecológicos naturais e dos sistemas humanos de produção e consumo.

No Brasil algumas iniciativas rumo à sustentabilidade da atividade da pesca podem ser citadas:

SEBRAE (2008) destaca que são inúmeros os produtos que podem ser obtidos a partir da tilápia. Entender sua importância é de grande valia para o sucesso e a lucratividade desse cultivo, sobretudo no caso de micro e pequenos produtores.

Os produtos mais conhecidos são os filés de tilápia, in natura ou congelados, que o consumidor encontra em pontos de venda. Segundo SEBRAE (2008), o aproveitamento das aparas de tilápia; assim como da pele, deve ser encarado como um mecanismo de retorno financeiro.

Na cidade de Juiz de Fora em Minas Gerais, foi criada uma empresa de nome Só Tilápia76. Esta empresa é especializada em produtos que tem a tilápia como matéria-prima, entre elas, o couro.

A Só Tilápia Alimentos Ltda. foi criada em 2003 através de uma idéia em família de se aproveitar a tilápia evitando assim um desperdício de 70 % que antes eram jogados fora. A carne da tilápia é utilizada pela empresa para criar um mix de salgados e alimentos, a carcaça e as vísceras são usadas na fabricação de uma ração balanceada e rica em nutrientes que servem de alimento para a própria tilápia e para outros animais. A pele é trabalhada para a fabricação de couro que é utilizado na criação de roupas e acessórios exóticos.

A figura 07 ilustra algumas dessas peças.

Figura 07– Amostras de acessórios fabricados a partir do couro de tilápia. Fonte: Só Tilápia, 2007.

SEBRAE (2008) ainda destaca uma empresa Mar & Terra que possui uma fazenda com 162 hectares em Itaporã/ MS, onde desenvolve tecnologias através de pesquisas que lhe

dão algum domínio das várias etapas da produção e comercialização do pescado. Os peixes são depurados em tanques com água decantada e reutilizada para serem abatidos através de um processo que elimina o sofrimento dos animais: estes são depositados em tanques com água gelada e insensibilizados antes do abate. Na sequência, são separadas e aproveitadas todas as partes: o filé destinado à exportação; as vísceras, que são transformadas em ração; e o couro, que é higienizado por detentos do presídio da cidade mato-grossense de Dourados e que chegam a receber R$ 500,00 mensais por este trabalho. A empresa Mar & Terra também procurou parcerias com pequenos produtores locais, a fim de estimular a geração de empregos, de renda e o desenvolvimento da região, que é do seu próprio interesse.

Os resíduos, resultantes da filetagem da tilápia, representam em média 70 % do peso total do peixe inteiro. A cabeça, carcaça e vísceras constituem 54 % dos resíduos, a pele 10 %, as escamas 1 % e as aparas dorsais, ventrais e resultantes do corte em “V” do filé, 5 %.

Normalmente esses resíduos, à exceção das escamas, são destinados à produção de farinha e óleo de tilápia, utilizados na fabricação de rações para peixes, suínos e aves; ou mesmo tratados como resíduos. Vidotti (2006) realizou pesquisa de desenvolvimento de produto,polpa condimentada, feita a partir das aparas da filetagem das tilápias, ou seja, de tudo o que constitui a “carne” da tilápia e não apenas o filé. A partir dos resultados dessa pesquisa, já fazem parte da merenda escolar na região de São José do Rio Preto/SP, diversos pratos elaborados com a polpa condimentada da tilápia, obtida com as aparas moídas e homogeneizadas em equipamento simples e de baixo custo.

Outra inovação foi o desenvolvimento de mortadela e salsicha feitas de tilápia, pelo professor Ricardo Targino Moreira, em sua tese de doutorado na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp. A idéia acaba por beneficiar também aos produtores, que ganham uma alternativa para agregar valor à tilápia e, sobretudo à população que não tem acesso a uma importante fonte de proteínas causa da distribuição deficiente e onerosa, que eleva o preço para o consumidor (SUGIMOTO, 2005).

49 3. MATERIAL E MÉTODOS

A metodologia abordada, incluindo o tipo de pesquisa a ser utilizado, o universo, as técnicas de coleta e tratamento dos dados e, finalmente, as limitações do estudo são apresentadas neste item.

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