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O sintagma determinante e a estrutura do DP

U M FALANTE ADULTO AO ESCOLHER UM DETERMINANTE DURANTE O SEU DISCURSO PRECISA CONHECER AS FUNÇÕES SEMÂNTICO PRAGMÁTICAS INTRÍNSECAS A ESTA CATEGORIA FUNCIONAL O PRESENTE CAPÍTULO

II. O DETERMINANTE E O CONCEITO DE DEFINITUDE

1.1 O sintagma determinante e a estrutura do DP

O DP (Determiner Phrase) desempenha importante função na construção da referência dentro da sentença, sendo fundamental para a compreensão do enunciado.

Como vimos, o determinante possui não apenas inúmeras funções semântico- pragmáticas, como também função sintática. Lyons (1999) afirma que definitude, stricto

sensu, não é uma noção semântica ou pragmática, mas uma categoria gramatical, semelhante

ao tempo verbal, à marca de número ou à marca de gênero.

Desde 1970 até meados da década seguinte (1980) assumia-se a proposta de Chomsky (1970, 1986) de que uma categoria lexical, como um sintagma nominal, abrigava expressões nominais. Tais expressões nominais podiam ser complexas, ou seja, compostas por um Determinante + Nome, como em [o garoto], ou simples, em outras palavras, uma expressão nominal nua (ou nome-nu) em que o determinante não antecede o nome, como em [garoto]. Estes dois tipos de expressões teriam como projeção máxima um NP, sendo analisadas da seguinte maneira:

(27) O garoto

(28) Garoto

Mais tarde, a partir do trabalho de Abney (1987), surgiu uma nova configuração representacional em que a projeção máxima de sintagmas como os apresentados em (27) e (28) não mais seria o NP, mas um DP, ou sintagma determinante.

Abney (1987) se baseia na teoria de Princípios e Parâmetros, e propõe uma análise em que os determinantes seriam investigados como categorias funcionais nucleares que selecionam um elemento lexical, ou seja, o sintagma nominal.

Desta forma, a hipótese do DP, como ficou conhecida a proposta de Abney (1987), parte do princípio de que o nome teria uma projeção funcional que, no caso, tomaria como complemento um NP. Vejamos, em (29), a nova configuração representacional do sintagma determinante [o garoto].

(29) O garoto

Ao assumir o DP como projeção máxima, o autor dá continuidade ao modelo X- barra de Chomsky (1980). Na teoria X-barra, em sua primeira formulação, previa-se que o determinante ocuparia a posição de especificador do sintagma nominal, sendo o nome (N) analisado como núcleo deste sintagma.

Assim como a categoria funcional de tempo verbal, T, cuja função é localizar um evento no tempo, seleciona como complemento uma categoria lexical, o VP, a categoria DP seleciona a categoria lexical NP, e o seu núcleo D possui a função de indicar a definitude de um nome, ou N. Em (30), podemos observar as semelhanças entre as representações de um DP e de um TP (Tense Phrase).

(30) a) [saiu] b) [o garoto]

Abney (1987) traz evidências de línguas como o turco, o húngaro, o esquimó e o maia para demonstrar que o DP é o local onde os traços gramaticais de número, gênero e pessoa se acomodam. Vejamos o exemplo (31), com dados da língua esquimó yup’ik.

(31)14

a. angute – m kiputa-a-Ø man – ERG buy-OM-SM15 „the man bought it‟

b. angute-m kuiga- Ø man-ERG river-SM „the man’s river‟

Nos exemplos apresentados em (31), é possível notar que esta língua possui além das marcas de gênero, número e pessoa presentes no DP, o sintagma de posse também possui concordância.

Abney (1987), então, propõe o DP como uma categoria semelhante ao INFL na sentença. Vejamos a representação em (32), em que podemos observar a posição onde traços como concordância (AgrP, de Agreement) são atribuídos ao NP por meio do determinante.

(32)

O elemento AGR, dentro do DP, semelhante ao que ocorre com AGR verbal, possibilita a checagem de caso com o especificador e o controle da concordância morfológica do complemento NP. O determinante na estrutura do sintagma nominal e a flexão na estrutura da sentença apresentam, portanto, funções semelhantes; enquanto o determinante especifica a referência de um sintagma nominal por selecionar um nome, a flexão funciona de modo bastante semelhante em relação ao verbo.

14 Exemplo retirado de Abney (1987: 39).

Como podemos ver no fragmento do texto, a seguir, o autor estabelece um paralelismo entre o sintagma nominal, por meio do DP, e o sintagma verbal, através do VP. Ou seja, da mesma forma que a projeção verbal abrange um VP dominado por projeções funcionais (AgrP ou IP, por exemplo), a projeção nominal também pode ser tomada como projeção do núcleo N, igualmente dominada por projeções funcionais (D e AgrP, no caso).

The function of the determiner is to specify the reference of a noun phrase. The noun provides a predicate and the determiner picks out a particular member of that predicate’s extension. The same function is performed in the verbal system by tense, or Inflection. The VP provides a predicate, that is, a class of events, and tense locates a particular event in time.

Abney (1987:50)

Outros autores, tais como Longobardi (1994), compartilham a ideia de que o DP seja a projeção máxima de um sintagma nominal e que o seu núcleo estabeleça a referencialidade e a definitude desse sintagma. Desta forma, assume-se que a estrutura do DP abrigue várias projeções funcionais que possibilitam a checagem de traços como número, concordância de gênero, além da definitude.

Longobardi (1994) analisa a estrutura do sintagma nominal do italiano, com base na estrutura do CP. O autor supõe a presença de movimento da posição do nome para a posição do determinante, de forma a checar traços de referencialidade e definitude, e, partindo desta suposição, compara dados do italiano com dados do inglês.

O autor traz evidências que favorecem sua suposição acerca do movimento de núcleo de N para D, que se realiza abertamente em línguas românicas, e de forma encoberta em línguas como o inglês, dependendo dos parâmetros fixados na sintaxe da língua. Algumas variedades românicas, afirma o autor, admitem variação no uso do artigo quando ocorre junto a nomes próprios, como no italiano. Em línguas como o inglês, o comportamento dos nomes próprios e do determinante é diferente, pois os nomes próprios se apresentam obrigatoriamente como nomes-nu. Vejamos os exemplos em (33a), para o italiano, e em (33b), para o inglês.

(33)16 a.

Il Gianni mi ha telefonato Italiano

[O Gianni me telefonou]

Gianni mi ha telefonato

[Gianni me telefonou]

b.

John called me yesterday

[João me ligou ontem]

* The John called me yesterday [O João me ligou ontem]

Com base neste tipo de sentenças, como as apresentadas no exemplo (33), Longobardi (1994) afirma que todo sintagma nominal em posição de argumento deve ser um DP, mesmo na ocorrência de nomes-nu, como nos exemplos do inglês.

Uma das principais contribuições dos estudos de Abney (1987), assim como dos demais pesquisadores que assumiram e desenvolveram a sua ideia, como Longobardi (1994), foi a de sinalizar a importância e a necessidade do licenciamento de uma categoria D na estrutura do sintagma nominal.

1.1.1 Sobre o DP no Português Brasileiro

Há um extenso debate sobre o funcionamento de línguas com e sem determinantes. Como vimos na seção anterior, Longobardi (1994) assume que todas as línguas, mesmo aquelas que não produzem o determinante de forma aberta, devem ter argumentos nominais projetados como DP completo.

Todavia, Bosckovic (2005 apud Cyrino & Espinal, 2006) assume a hipótese da existência de dois tipos distintos de línguas: de um lado línguas como o francês moderno que apresentam o determinante marcado; e do outro, línguas sem o determinante, como o russo.

O português brasileiro (PB) parece não funcionar tipicamente como nenhum dos dois tipos de línguas propostos por Bosckovic (2005 apud Cyrino & Espinal, 2006), uma vez que apresenta aparente opcionalidade quanto ao uso do determinante, licenciando a ocorrência

de nomes-nu em todas as posições argumentais. Os exemplos em (34) trazem algumas das possíveis ocorrências de nomes-nu no PB.

(34)17

a. Brasileiro é trabalhador. b. Brasileiros são trabalhadores. c. Criança lê revistinha.

d. Coreano vende roupa pra brasileiro. e. João é médico.

Outra característica particular do PB refere-se à marca de número dentro do DP. Segundo Costa & Figueiredo Silva (2006), diferentemente do português europeu (a saber, PE), em que há concordância com todos os elementos dentro do DP, no PB, número pode ser marcado ou no núcleo ou em todos os elementos pré-nominais.

Costa & Figueiredo Silva (2006) argumentam que o PE apresenta o mesmo padrão de concordância de número dentro do DP, o qual pode ser observado na maioria das línguas românicas. A pluralidade é expressa em todas as categorias capazes de abrigar este tipo de morfologia, tais como nomes, determinantes, quantificadores, adjetivos, demonstrativos e possessivos. Vejamos os exemplos, em (35), utilizados pelos autores para caracterizar este padrão de concordância.

(35)18

a. Os/estes/alguns/uns livros muito bonitos. b. Os primeiros livros da biblioteca.

c. Os meus livros.

d. Todos os meus primeiros livros bonitos.

No PB, por outro lado, a marca de plural, dentro do DP, pode ocorrer apenas no determinante; nomes e adjetivos podem não apresentar a marca de plural, como é observado no exemplo em (36).

17 Cyrino & Espinal (2006: 2-4)

(36)

a. Os/estes/alguns/uns livros muito bonito.

Na literatura, segundo Costa & Figueiredo Silva (2006) e Cyrino & Espinal (2006), são reconhecidas, ao menos, duas variedades dialetais do PB: de um lado está uma versão mais conservadora e formal, em que se observa concordância em todos os itens dentro do DP; e do outro, uma versão mais informal, o chamado português falado, com concordância de número em pelo menos um item do DP. Nos exemplos em (37), temos em (37a) um exemplo para a primeira variedade, em (37b) e (37c), são apresentados exemplos para a segunda versão do PB, e, em (37d), o que se vê é um exemplo de construção que não é observada em nenhuma das duas variedades da língua.

(37)

a. Os primeiros livros da biblioteca. b. Os primeiros livro da biblioteca. c. Os primeiro livro da biblioteca. d. * O primeiros livro da biblioteca.

Um mesmo falante pode fazer uso de ambas as variedades dialetais do PB, optando por uma ou por outra, dependendo da situação ou contexto discursivo. Para Costa & Figueiredo Silva (2006), é possível que se trate de um caso de gramáticas de competição, uma vez que cada variedade é usada em situações diferentes, abrindo a possibilidade de se isolar, claramente, cada uma delas.

A oposição entre as posições pré-nominal e pós-nominal dentro do DP parece ser fator decisivo para o estabelecimento dos padrões de concordância. Os autores citam Menuzzi (1994 apud Costa & Figueiredo Silva, 2006), ao afirmarem que os marcadores de plural podem, opcionalmente, aparecer em outros elementos pré-nominais; porém, se o nome não é marcado como plural, nenhum elemento pós-nominal pode exibir esta marca.

Um provável padrão que pode ser estabelecido quanto à marca de número no DP é aquele que mostra esta marca no adjetivo, como apresentado no exemplo (37b). Adjetivos pré-nominais podem ou não exibir a morfologia de plural, no entanto, a marca de número aparece marcada no determinante.

Em outros contextos, é o determinante que pode perder esta marca, como na presença de um possessivo. Ao contrário do adjetivo, com o possessivo, ambos, tanto o

determinante e o possessivo, podem apresentar a marca de plural, como ocorre no exemplo (38a). No entanto, se apenas um deles exibir esta marca, ela estará no possessivo e não no determinante, como em (38b).

(38)

a. Os meus livro. b. O meus livro. c. * Os meu livro.

Em resumo, o uso do determinante, bem como os itens presentes dentro do DP parecem funcionar de forma peculiar no PB, quando o comparamos com as demais línguas românicas, incluindo o PE. Como resultado, há um grande número de pesquisas destinadas à sua caracterização e um forte interesse sobre o funcionamento do DP nesta língua. O que se tem certeza é que esta suposta opcionalidade quanto ao uso do determinante não se dá de forma aleatória, ao contrário, o uso do determinante está firmado em regras gramaticais rígidas. O mesmo se pode afirmar acerca da marca de plural dentro do DP.