CAPÍTULO 1 – NEOLIBERALISMO E MIGRAÇÃO NORDESTINA EM SÃO
1.2. O sujeito neoliberal e o processo migratório
Durante muito tempo, as caracterizações sobre o Neoliberalismo estiveram centradas na ideia de mínima intervenção do estado na economia e a defesa do livre mercado. No entanto, com o avanço dos estudos sobre o Neoliberalismo, autores como Dardot e Laval (2016) passam a enfatizar que mais do que minimizar a ação do estado, o objetivo central do neoliberalismo reside na difusão de uma mentalidade que determina que todos devem se comportar como uma empresa privada.
Diante disso, podemos dizer que “o neoliberalismo, antes de ser uma ideologia ou uma política econômica, é, em primeiro lugar, e, fundamentalmente, uma racionalidade” (DARDOT E LAVAL, 2016, p.17), a partir de uma especificidade assinalada pelos dois autores.
a racionalidade neoliberal que realmente se desenvolve nos anos 1980-1990 não é a simples implementação da doutrina elaborada nos anos 1930. Não passamos com ela da teoria para a prática. (...) Trata-se aqui não da ação de uma monocausalidade (da ideologia para a economia ou vice-versa), mas de uma multiplicidade de processos heterogêneos que resultaram, (...) nesse “efeito global” que é a implantação de uma nova racionalidade governamental. (DARDOT e LAVAL, 2016, p.31).
Essa nova racionalidade pode ser observada na própria definição que os autores nos trazem, no qual afirmam que “o neoliberalismo pode ser definido como o conjunto de discursos, práticas e dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens segundo o princípio universal da concorrência” (DARDOT e LAVAL, 2016, p.17). Eles
também defendem a ideia que, no Neoliberalismo, a competição e a concorrência ocorrem em todos os campos da existência humana.
Nessa fase do capitalismo neoliberal, quando até mesmo os Estados passam a seguir a lógica empresarial da concorrência, podemos observar duas importantes mudanças que são apontadas por Queiroz (2018): a relativização do papel do Estado como entidade integradora de todas as faces da vida coletiva e o fato de todas as dimensões do Estado passarem a ser geridas pela ótica da concorrência. Sendo assim, “o Estado passa a ser mais uma entidade que busca maximizar seus resultados, como uma empresa” (QUEIROZ, 2018, p.187).
Além disso, o que queremos reforçar é que não é apenas o Estado que passa a funcionar seguindo essa mesma lógica, mas toda a sociedade que passa a ser tratada como mercado, no qual, conforme já referimos anteriormente, cada indivíduo é uma empresa, É nesse contexto que se desenvolve o chamado sujeito neoliberal que, conforme sintetizam Dardot e Laval (2016, p.322), “é o homem competitivo, inteiramente imerso na competição mundial”.
Ainda sobre essa nova realidade baseada na concorrência e na competitividade, destacamos que “a competição introjeta-se até na esfera da subjetividade dos indivíduos. A vida passa a ser vista como uma empresa – um capital a ser continuamente valorizado –, na qual o indivíduo é empreendedor de si mesmo” (QUEIROZ, 2018, p.189).
Segundo Safatle (2015), esse anseio empresarial de si foi a motivação psicológica que o neoliberalismo precisava para consolidar a sociedade no modelo empresa. A partir dessa consolidação, o discurso do herói assume novos contornos e passa a ser atribuído aquele indivíduo que consegue ser produtivo em todas as esferas da sua vida e que está sempre buscando se aperfeiçoar, se superar, como uma forma de se manter competitivo e superior aos outros indivíduos.
Conforme destacam Dardot e Laval (2016, p.327)
(...) o efeito procurado pelas novas práticas de fabricação e gestão do novo sujeito é fazer com que o indivíduo trabalhe para a empresa como se trabalhasse para si mesmo e, assim, eliminar qualquer sentimento de alienação e até mesmo qualquer distância entre o indivíduo e a empresa que o emprega. Ele deve trabalhar para sua própria eficácia, para a intensificação de seu esforço, como se essa conduta viesse dele próprio, como se esta lhe fosse comandada de dentro por uma ordem imperiosa de seu próprio desejo, à qual ele não pode resistir.
Esses mesmo autores propõem um questionamento na perspectiva de compreender o porquê dos trabalhadores se submetem a essa lógica de trabalho. E nos lembra que a resposta é bem simples: por medo. A crescente precarização dos direitos trabalhista faz com que os
indivíduos se submetam a empregos cada vez mais instáveis e insatisfatórios. O receio de serem demitidos e verem o seu poder de compra diminuído, eles terminam aceitando as regras da empresa e produzindo assim “um aumento considerável do grau de dependência dos trabalhadores com relação aos empregadores” (DARDOT e LAVAL, 2016, p.323).
Ao transformarmos o sujeito no principal responsável pelo seu êxito no trabalho e na vida, também transferimos para ele os riscos e a responsabilidade, caso ocorram, pelo seu fracasso. Essa transferência tem duas consequências benéficas para os empregadores: a possibilidade de exigir cada vez mais comprometimento e disponibilidade dos empregados e a capacidade de moldar os indivíduos a se tornarem mais resistentes e capazes de suportarem essa nova jornada de trabalho.
Em outras palavras, a lógica de trabalho no Neoliberalismo,
consiste em promover uma “reação em cadeia”, produzindo “sujeitos empreendedores” que, por sua vez, reproduzirão, ampliarão e reforçarão as relações de competição entre eles, o que exigirá, segundo a lógica do processo autorrealizador, que eles se adaptem subjetivamente às condições cada vez mais duras que eles mesmos produziram. (DARDOT e LAVAL, 2016, p.324)
Tal realidade pode ser observada, de modo cada vez mais frequente, nos dias atuais, em empresas como a Uber, o iFood e a Rappi. Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, publicado pelo jornal O Estado de S.Paulo, “quatro milhões de pessoas trabalham para essas plataformas no Brasil hoje” (BBC NEWS BRASIL, 2019).
Ainda sobre esse vertiginoso crescimento dos aplicativos, Putti (2019), afirma que
Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, apps como Uber, iFood e Rappi seriam os maiores “empregadores” brasileiros caso se unissem em uma única companhia. Nos últimos anos, diante do aprofundamento da crise econômica e da destruição das vagas formais, esse grupo de empresas virtuais, em geral sediadas no exterior, passou a intermediar a oferta de trabalho intermitente e mal remunerado para 4 milhões de entregadores e motoristas. Mais famoso entre os aplicativos, o Uber virou até sinônimo da precarização do mercado. Muitos acadêmicos denominam essa nova fase das relações capitalistas de “uberização” do trabalho.
Tais empresas se utilizam da lógica neoliberal e, sobretudo, da ideia de “empresários de si” com o objetivo de angariar cada vez mais indivíduos para trabalhar em suas plataformas. Esses homens e mulheres terminam por sucumbir aos “empregos de aplicativos”, pois essa solução se apresenta como a única naqueles casos em que foram demitidos de empregos com carteira assinada que lhes garantiam direitos e proporcionavam uma certa segurança, e não conseguem recolocação no mercado de trabalho formal.
Devido à inexistência de garantias e direitos aos seus trabalhadores, essas empresas estão sendo alvo de críticas por parte da sociedade. Ao serem questionadas sobre as suas políticas trabalhistas pela BBC NEWS BRASIL, as respostas dessas empresas (Quadro 2) se concentravam em exaltar a flexibilidade e autonomia que esse tipo de emprego proporciona, sem citar as perdas que esses indivíduos sofrem.
Quadro 2 – Respostas dadas pelas empresas sobre as suas políticas trabalhistas
Fonte: https://epocanegocios.globo.com/Empresa/noticia/2019/05/dormir-na-rua-pedalar-30-km-e- trabalhar-12-horas-por-dia-rotina-dos-entregadores-de-aplicativos.html
Ao analisarmos as respostas dadas pelas empresas, podemos perceber as contradições existentes entre sua política trabalhista e a realidade. No caso da Uber, a principal contradição diz respeito ao fato dela se assumir como uma renda extra, embora se saiba que, na maioria das vezes, o trabalho na empresa termina sendo a única opção dos trabalhadores. Isso implica em jornadas de trabalho cada vez maiores de, no mínimo, 12 horas e durante todos os dias da semana, já que aceitar essas condições de trabalho é a única maneira de garantir um faturamento mensal razoável.
Já no caso da Rappi, ao exaltar a flexibilidade de seu método de trabalho, a empresa evidencia o caráter autônomo da sua atividade, porém omite o fato de que a responsabilidade dos riscos e das falhas também é dos próprios trabalhadores. Em entrevista concedida à revista Época Negócios, a pesquisadora da UNICAMP, Ludmila Costhek Abilio, destaca que: "Esse processo é de informalização, que vem tirando as garantias e proteções. Agora, é o trabalhador quem entra com os meios de produção, além de arcar com os custos e com os riscos da atividade”, e complementa afirmando que "supostamente, a pessoa trabalha onde e quando quer, mas a verdade é que ela está trabalhando cada vez mais. (...). Não me parece que as escolhas sejam tão amplas assim".
A Uber respondeu aos questionamentos da BBC News Brasil com a seguinte nota: "O Uber Eats é uma empresa que oferece oportunidades a profissionais autônomos que podem se beneficiar da tecnologia para gerar renda extra ao toque de um botão. Os entregadores parceiros são autônomos, escolhem como e quando utilizarão o aplicativo como geração de renda".
A Rappi afirmou: "Estes, profissionais autônomos, atuam por conta própria, portanto, podem se conectar e desconectar do aplicativo quando desejarem. A flexibilidade permite que esses profissionais usem a plataforma da maneira que quiserem e de acordo com suas necessidades. Não há relação de subordinação, exclusividade ou cumprimento de cargas horárias".
Já o iFood afirma que "está testando estruturas com espaço para descanso, recarrega de celular e banheiros". Também diz que "outras ações incluem campanhas que estimulam boas práticas entre os parceiros de entrega por meio de vídeos educativos".
Por fim, o que percebemos no pronunciamento do iFood é que eles acreditam que oferecendo espaço para descanso e algumas outras comodidades já estão cumprindo o seu papel e oferecendo garantias suficientes para os seus trabalhadores. Porém, o que conseguimos perceber é que os bônus mascaram a ausência de direitos que foram suprimidos desde a reforma trabalhista aprovada em 2017, no Brasil, pelo presidente Michel Temer.
Essa realidade tão difundida na sociedade atual nos interessa a partir do momento que conseguimos perceber que essa lógica neoliberal também afeta os movimentos migratórios e os sujeitos migrantes. As mudanças podem ser percebidas tanto nas sociedades de origem, quanto nas de destino.
Segundo afirma Zanella (2016):
As reformas institucionais deste processo que incluíam o corte de despesas sociais de base, leis de mercado mais flexível e privatização, inclusive dos serviços básicos como a água, saúde, moradia, transporte e educação, contribuíram para a produção de diversas tensões sociais, do aumento do desemprego e de trabalhadores/as no setor informal da nova população urbana, agravando, assim, a situação de mendicância e de extrema pobreza nas cidades.
Nessa perspectiva, podemos dizer que o neoliberalismo gerou sentimentos de insegurança e vulnerabilidade nos indivíduos que influenciou no aumento no fluxo migratório. Afinal, as pessoas se encontravam em situações cada vez mais precárias e não tinham ajuda dos Estados, que se eximiam de suas responsabilidades, sendo a migração a única solução em busca de melhores condições de vida.
Do ponto de vista das sociedades receptoras, observamos situações adversas, tais como algumas que são citadas por Zanella (2016): criminalização das imigrações, a superexploração e flexibilização do trabalho, a discriminação e xenofobia, a negação de direitos, e a abstenção de responsabilidade dos Estados frente às mortes e violações decorrente do atravessamento das Fronteiras. Sendo assim, podemos dizer que o imigrante se sente abandonado e sem apoio de políticas públicas que possa ajudá-lo a sobreviver, fazendo com que ele se submeta a condições de vida precárias e pautando sua trajetória sem a dependência do Estado.
Nesta dissertação, a lógica neoliberal aparece a todo o momento nas falas de Janaína, cuja trajetória é focalizada no nosso estudo. Ela é uma mulher migrante nordestina que viveu até os seus 37 anos na cidade de Bonança, em Pernambuco. Vítima de violência de gênero ela viu na migração para São Paulo a solução do seu sofrimento e, apoiado pelos seus filhos, decidiu mudar para a capital paulista. Ao chegar à cidade Janaína se vê sozinha e sem amparo.
As políticas públicas que deveriam auxiliá-la nesse momento inicial são inexistentes, e o caráter neoliberal da cidade faz com que a entrevistada não saiba como proceder e sobreviver às condições precárias a serem enfrentadas por que aqueles que chegam sozinhos.
Sobre sua chegada a São Paulo, Janaína afirma que:
“Daqui cheguei com a mão na frente e outra atrás, sozinha, vim para casa de uma irmã minha, só que quando chegou aqui essa irmã minha bebia, pintava e bordava os sete. Aí eu não suportei tá dentro da casa dela, que eu já vivi com um alcoólatra aí para mim eu me assustava, chorava, sentia já a tapa no pé do ouvido já, então para mim não dava. Fiquei ainda uns meses, aí uma vizinha tava lá, disse que ia me ajudar, fazer umas faxinas, ia arrumar pra mim, eu consegui fazer amizade com as pessoas daí em diante eu consegui fazer amizade, aluguei um cantinho para mim”. (JANAÍNA, 2019)
A partir dessa fala da entrevistada, já conseguimos perceber que a solução para a sua vida de imigrante era, sobretudo, individual, ou seja, ela dependia de si mesma para enfrentar as situações que se apresentavam e seguir em frente. Tal filosofia, enraizada na mentalidade neoliberal, fez com que Janaína buscasse a qualquer custo a sua superação.
Essa busca por superação no percurso migratório de Janaína também evidencia outra dimensão subjetiva – relacionada à necessidade de provar ao ex-marido que ela poderia vencer na vida e dar aos filhos um motivo para se orgulharem dela - E, apesar de seu esforço ser individual, quando sua história se cruzou com a do coletivo teatral “Estopô Balaio” ela se sentiu amparada. Foi possível observar isso quando, na entrevista, Janaína fala que o processo produtivo da peça e do curta metragem se assemelhava a uma sessão de terapia, lembrando que: “E eu dizia pra ela, falava como se estivesse, tipo, desabafando com um psicólogo”.