5. Modinha: a Moda Popular na Cidade
5.3 O surgimento da modinha
O termo modinha surgiu para designar as roupas feitas, a princípio, com tecidos em malha, direcionados à moda feminina. O sufixo –inha não teria, necessariamente, o sentido de uma peça de menor valor ou mais barata. Modinha também tem o significado de uma roupa feita com base em tendências recém-lançadas, de curta
duração e, exatamente por isso, deveria estar no mercado para consumo imediato, ter entre o design e a venda um curto período de tempo.
Pelas características de origem, os produtos
denominados modinha têm simplicidade de projeto, carecem de detalhes mais elaborados no feitio e são confecionados por materiais mais simples, de preferência a malha. Esses detalhes terminam por gerar produtos de valores mais baixos, voltados ao mercado popular, o mercado de modinha.
A moda assume um papel de expressiva relevância social e psicológica quando permite que a expressão do desejo se materialize em imagem, projetando-se através de cores, formas e emoções. O desejo de alcançar a imagem projetada, sonhada, muitas vezes é captado através do ideal de cinema ou televisão. Essa última, aliás, é referência constante das peças presentes no Beco da Poeira, que, ao seu modo, permite um democrático encontro com os desejos projetados pelo público menos favorecido. É uma democracia diferenciada. Ela não disponibiliza o nível de máximo luxo, e sim a popularização, fiel à sua realidade e ao público que atende. (Matos e Mota, 2010, p. 41).
De acordo com Norman (2004), os três níveis de
emoção em produtos resultam de exigências de projeto completamente diversas. A consciência mais reduzida no nível visceral determina efeitos principais na aparência de uma peça de roupa, por exemplo. O nível comportamental pode ser relacionado à experiência com o uso da roupa, como o conforto, por exemplo. Já em um nível mais intelectualizado e reflexivo, vestir uma peça pode estar ligada à autoimagem ou ao orgulho de portá-la. Sendo assim, ao estabelecer que a modinha origina produtos mais simples e de materiais mais acessíveis, embora completamente dentro das tendências (por um timing acelerado entre criação-produção-lançamento), pode-se afirmar que dois níveis mais perceptíveis são o visceral e o comportamental. Contudo, isso não significa que não haja o sentido de identidade presente na modinha, afinal existe uma identificação do público utilizador. Apenas o apelo visceral e o comportamental se fazem mais intensos.
O autor ainda discorre sobre os termos moda, estilo, voga e costume que, sob seu ponto de vista, expõem a fragilidade do lado reflexivo do design. Como os setores ligados à moda operam com a substituição das novidades, com a imitação e com sua consequente popularidade, os produtos mais vendidos e que fazem sucesso logo caem em desuso por quem os lança no mercado e são novamente substituídos, daí a instabilidade maior do nível reflexivo nessa cadeia de gostos. A
popularidade parece ser uma característica da rejeição por quem considera algo de “bom gosto”, então Norman (2004, p. 67) opina:
Deveríamos parar para considerar exatamente por que é popular. As pessoas encontram valor naquilo. Ela satisfaz alguma necessidade básica. . . . A mesma sentimentalidade que o mundo da arte ou design escarnece é a fonte da força e da popularidade de alguma coisa.
Essa consideração invocada pelo teórico vem também de uma reflexão sobre o papel desse público em números. Grande parte da população brasileira situa-se nas camadas mais populares e são números consideráveis para o mercado interno. A região Nordeste destaca-se no cenário nacional por essa população de classes C, D e E. Fortaleza e seu setor industrial têxtil originou um outro setor de representação notável: as confecções, principalmente as populares.
5.3.1 A modinha em exposição
O Beco da Poeira, a Feira da Sé, a Feira da Rua José Avelino e pontos informais de comércio popular da zona central da cidade são alguns dos representantes em venda de moda popular retalhista e também atacadista, pois suprem estoques de revendedores que se abastecem dessa produção para a revenda no próprio estado e em estados vizinhos.
Sapatos, cintos, bolsas, lingeries, roupas de dormir e confecções movimentam intensamente das seis às dezenove horas, consumidores de diversas partes do interior do Ceará, do Norte, do Nordeste e até
de outros países como o Cabo Verde, que costuma invadir os corredores apertadíssimos do Beco, em busca de peças com preço mais competitivo para revender. (Matos e Mota, 2010, p. 36).
A forma de apresentação desses produtos varia de acordo com o espaço destinado à venda. Quando o espaço é nas feiras, a improvisação dá o tom principal às exposições. As feiras, que acontecem em locais fixos, com horários prefixados, iniciam às madrugadas e permanecem até o início da manhã, quando abre o comércio formal, o qual, supostamente, tem na feira uma concorrente direta, sem os impostos e taxas pagos pelos pontos comerciais. Essa concorrência vista por parte dos comerciantes fixos em pontos comerciais ao redor da praça e da rua onde se encontram as feiras é ponto nevrálgico que o poder público enfrenta. Por vezes, os questionamentos são
Figura 7. Feira da Sé, em Fortaleza/ Ceará/Brasil Figura 8. Feira da Sé, em Fortaleza/ Ceará/Brasil
postos em conflitos, mas não resolvidos pelas partes. O certo é que os produtos são expostos de maneira informal, em caixas, empilhados, em cabides, com cada produtor em seu espaço, como mostram as figuras 7 e 8: Depois das feiras, os mercados se configuram como pontos de venda da moda popular produzida na cidade, com representatividade maior para o Mercado Central de
Figura 9.
Exposição de comércio informal no centro da cidade de Fortaleza
Fortaleza. Nele, além da venda de produtos artesanais típicos, alimentos, roupa de cama e mesa, bordados, rendas, funciona como outro local de escoamento da produção de modinha da cidade.
Com a sucessiva ampliação e/ou modificação das formas de venda desse setor de confecção, em consequência do crescimento do seu volume de vendas, iniciou-se um processo de se estabelecer no mercado de Fortaleza. Desse modo, fazendo parte não apenas da venda por ambulantes, em feiras, lojas surgem em bairros e no centro da cidade, algumas delas organizadas em shoppings, galerias ou centros
comerciais e dedicadas à moda popular. Assim, a modinha conquista seu espaço em vitrinas de lojas dedicadas exclusivamente a esse segmento.
Embora o setor destinado à moda popular possa exibir ambientes mais simplificados, com vitrinas improvisadas, a evolução desse segmento tem sido considerável, ao ponto de a cidade de Fortaleza contar, atualmente, com mais um centro comercial destinado exclusivamente à moda popular. Tal empreendimento é verticalizado com pisos que apresentam, cada um, uma segmentação dentro da modinha. A segmentação se reflete nos espaços de exposição (com ou sem vitrina),
Figura 10.
Shopping Central das fábricas, no centro da cidade de Fortaleza/
Ceará.
entre boxes (espaços simplificados com apenas um balcão que separa o espaço da loja com o corredor) e lojas (espaços mais desenvolvidos esteticamente e que contam com um espaço destinado à vitrina).
5.3.2 Relação entre os elementos das vitrinas e a modinha
Com a expansão do setor popular de moda, a modinha inicia uma representação de valores consideráveis
para as confecções fabricadas em Fortaleza. Além de figurar em vitrinas de pontos de venda específicos, o setor desencadeia um crescimento que vai de feiras e mercados para pontos de venda, galerias comerciais e verdadeiros shoppings populares na cidade de Fortaleza. Norman (2004, p. 67) chama a atenção para o domínio popular, quando afirma:
Deveríamos parar para considerar exatamente por que é popular. As pessoas encontram valor naquilo. Ela satisfaz alguma necessidade básica. . . . A mesma sentimentalidade que o mundo da arte ou design escarnece é a fonte da força e da popularidade de alguma coisa.
Portanto, de forma semelhante a outros ramos, as
confecções populares necessitam de olhares profissionais atentos para sua devida valorização, quer pelo setor produtivo, quer pelo público para o qual é talhada. Mower et al. (2012) propõem o exterior das lojas como um
espaço onde os indivíduos têm seu primeiro encontro com a experiência de compra. Por consequência, as vitrinas são as mediadoras dessa experiência, localizando- se à entrada do ponto de venda. No entanto, pequenos comerciantes podem ter suas limitações de orçamento para investir em seus negócios, especificamente no design de loja e de vitrina.
[...] para pequenos varejistas sem marcas fortes ou lojas de renome, o exterior da loja pode ter um papel crítico em construir uma primeira impressão de uma loja e atrair clientes. Quando decidem comprar de uma pequena boutique, clientes confiam em pistas como numa vitrina para ajudá-los formar uma impressão da loja e seus produtos antes mesmo de entrar. (Mower et al., 2012).
Além de exporem a importância da vitrina para a loja e sua imagem, as autoras discorrem sobre a contribuição desse
Figura 12.
Loja de modinha da Avenida Monsenhor Tabosa, na cidade de Fortaleza/Ceará
tipo de negócio para a imagem do centro de uma cidade e de suas centralidades. Nas figuras 11 e 12, vitrinas de modinha em dois locais de Fortaleza: o centro da cidade e a avenida Monsenhor Tabosa, respectivamente.
Ambas as vitrinas mostram exposições de produtos de modinha, com algumas diferenças. O primeiro espaço demonstra a coordenação de peças de roupas e acessórios, apresentados de forma intercalada. Suportes brancos (cubos) destacam as cores dos produtos, proporcionam organização e uma melhor altura para a observação. Um banner reforça a marca e/ou a coleção do momento com uma imagem. Os
Figura 11.
Loja de modinha no Shopping Central das Fábricas, no centro da cidade de Fortaleza/Ceará.
manequins, apesar de usados para exibirem as peças de roupas, não possuem detalhamento especial em maquiagem, expressões faciais ou uso de calçados para completar o look.
O segundo espaço, ainda que permita a visão de outros produtos na loja, concentrou a apresentação da vitrina em apenas uma tipologia de produto: blusas femininas. Contudo, não há uma hierarquia desses produtos, seja em cores, materiais ou formatos. Quase todas as peças parecem ser blusas artesanais em rendas, mas duas delas diferem em materiais e estampas. Por outro lado, os suportes também não demonstram unidade; as peças são inseridas tanto em bustos (em duas cores) quanto em cabides comuns para roupas. A despeito da simplicidade exibida pela vitrina da Figura 11, a vitrina apresentada logo a seguir, na Figura 12, demonstra de maneira quase óbvia uma improvisação do conteúdo exibido, passível de ser incrementado com relação a materiais, organização, cores e outros elementos que compõem uma vitrina, apresentam e reforçam uma marca.
5.3.3 O Centro Fashion de Fortaleza
Empreendimento privado lançado no ano de 2017, o Centro Fashion de Fortaleza reúne na região oeste da cidade um complexo comercial com área de 70 mil metros quadrados com espaço para aproximadamente 8.400 unidades destinadas à comercialização de moda popular. Destinado às vendas retalhistas e no atacado, abriga ainda serviços
Figura 13.
Centro Fashion de Fortaleza, circulação interna
que incluem desde hotel, estacionamento para motos, carros e ônibus, praça de alimentação e eventos, bem como segurança com câmeras de monitoramento10.
A direção do empreendimento declara uma visitação média mensal de 120 mil pessoas e destaca de forma significativa a presença de compradores das regiões Norte, Nordeste e de parte da região Sudeste do Brasil.
A implantação do Centro Fashion vem ao encontro da
demanda interna brasileira, transmite e reforça a vocação fabril direcionada à moda produzida na cidade de Fortaleza e de sua região metropolitana, que o abastecem. Outros centros menores existem nas proximidades do centro da cidade, mas o porte desse empreendimento e a maneira como foram distribuídas suas lojas são, de certa forma, inovadores.
Tal como os shopping centers, o Centro Fashion possui um composto de lojas, categorizadas por localização no edifício principal (o outro edifício é destinado ao hotel, utilizado por compradores de outros estados/cidades que precisam de mais tempo para suas compras). Cada piso possui uma cor correspondente e os corredores onde acontece a circulação de pessoas são identificados por nomes de ruas do centro histórico de Fortaleza. Do térreo, onde ficam as lojas mais simples, com produtos mais baratos e commodities, aos andares superiores, onde são encontradas lojas decoradas, climatizadas e com iluminação adequada ao espaço, o equipamento demonstra ser capaz de chegar próximo 10. Dados obtidos no endereço http://www.centrofashion.com.br/, acessado em 7/01/2019.
Figura 14.
Centro Fashion de Fortaleza, circulação interna
a um perfil amplificado da base da pirâmide, ou seja, de proporcionar escolhas desde os produtos mais simples aos mais sofisticados, fornecendo opções variadas de preços e estéticas.
Os valores praticados no Centro Fashion quanto à compra e aluguéis de pontos comerciais também refletem os pequenos negócios que o edifício abriga. Há tipologias diferentes desses pontos, para além do conjunto de lojas organizado pela administração do empreendimento. Esses valores estão de acordo com o tamanho do ponto, o que se repercutirá no tipo de loja que será projetada no espaço. Assim, podem ser encontrados nos corredores boxes, espaços diminutos, daí o nome relacionado à caixa; boxes duplicados, que dão a ideia de uma loja em formato de corredor; quiosques e lojas em tamanhos e formatos diversos. Há um limite para a exposição desses pontos, geralmente demarcado com uma fita amarela, que busca respeitar os espaços de circulação do público. No caso dos
Figura 15.
Box com limite externo para exposição
Figura 16.
Loja com espaço de vitrina e de circulação interna
Figura 17.
Quiosque de venda de acessórios localizado no espaço de circulação interna.
boxes, esse limite funciona como espaço máximo em que se aceita um tipo de móvel de exposição ou de manequins que, ao fim do dia, são guardados no espaço do box (Figura 15).
ver uma certa semelhança com as exposições praticadas em feiras e nos centros de cidades. Os produtos e os manequins, em grande parte, estão bem à mostra e à mão do cliente, o que favorece a mediação de compra e venda. Característica básica do comércio popular, a
Figura 18.
Centro Fashion de Fortaleza - lojas com manequins à entrada
Figura 19.
Centro Fashion de Fortaleza - box com produtos expostos em partes de manequins.
visibilidade e o contato com os produtos são praticados e, naquele centro comercial proporcionam o surgimento de curiosas exposições, que aproveitam ao máximo o espaço disponível e a passagem do público (Figuras 18 e 19). O estabelecimento desse tipo de organização na malha urbana de Fortaleza, além de seguir uma vocação comercial inerente à cidade, vem consolidar uma habilidade na industrialização de produtos ligados à moda. A união de ambos com um foco especial na moda popular proporciona uma amplitude comercial sem precedentes, que movimenta uma cadeia produtiva e ainda exporta para outras localidades brasileiras.