Com o avanço da computação e a facilidade de acesso a bens, serviços e produtos, os indivíduos acabam por tomar conhecimento de informações que circulam na mídia, principalmente, sobre criminalidade. O que leva à população a necessidade de compreender o universo discursivo dos termos que são usados na comunicação policial, no qual estão inseridos.
A terminologia empregada pelos policiais tanto civis, como militares no registro de ocorrência policial é de extrema importância; seja dentro do universo técnico-jurídico, como fora dele, pois é através da linguagem que os conceitos que presidem o ordenamento da sociedade se conformam, se estabilizam e se transmitem.
Sendo que Costa (2009) salienta, ainda, que a Polícia Civil passa a ser, muitas vezes, a instituição para a qual é feito uma espécie de desabafo daquela parcela da sociedade que é vitimizada, pois a maioria das pessoas que acorre a uma Delegacia de Polícia (DP) sabe que não terá de volta o bem que foi subtraído, ou a vida de quem se foi devolvida, através do ato legal, que é o registro de ocorrência, principalmente pela falta de provas, vestígios ou indícios que apontem para uma pessoa suspeita da autoria.
Segundo a autora, essas pessoas, muitas vezes, querem apenas que alguém as escute, por isso, registram a ocorrência. Entretanto, esse registro não fica estanque na Delegacia de Polícia, pois mesmo sem provas, vestígios ou indícios, ele deve ser investigado para apontar quem cometeu a ação criminosa, gerando assim, uma série de documentos necessários para que a denúncia seja oferecida, os quais somam as peças que compõem o procedimento policial. Ademais, os dados processados na ocorrência policial resultam em dados estatísticos, que se prestam à
análise criminal, de onde são difundidas as informações que circulam na mídia sobre os crimes, e que dão origem aos índices de criminalidade que motivam os projetos de gestão necessários à atividade policial.
O órgão responsável pelo registro do Boletim de Ocorrência policial (BO), é a Polícia Civil do RS, doravante PC/RS, que é a responsável por proceder ao registro nas Delegacias de Polícia (DPs). A Brigada Militar (BM) faz o registro nos locais onde ocorrem os fatos. Quando há um fato típico e a BM é chamada ao local, os policiais militares (PMs) realizam o registro em um formulário e depois o encaminham digitalizado para a PC/RS.
A Polícia Civil, por sua vez, faz o registro nas Delegacias quando as pessoas para lá se deslocam a fim de comunicar algum fato criminoso ocorrido. Em relação aos registros de ocorrência, destacamos que a elucidação de um fato é desencadeada através da ocorrência policial, que corresponde ao registro das declarações de quem é depoente nesse procedimento. Para isso, o policial civil ou militar preenche os campos do boletim de ocorrência com os dados da pessoa que está procedendo à comunicação e, no campo histórico, deve ser registrada a narrativa detalhada pelo comunicante, por meio da qual são feitas as investigações que, conforme o caso, elucidam a autoria.
O discurso policial nos BOs acontece em um espaço de interação entre o depoente e o escrivão ou o comunicante e o policial militar que, ao relatar os fatos criminosos, pretende narrar e descrever enfaticamente a fala do comunicante e/ou da vítima, caracterizando a sua área de especialidade com a presença de termos típicos da sua área de atuação.
Os registros de ocorrências policiais BOs foram definidos como discursos de denúncia do cidadão contra um fato criminoso, que deseja com este documento medidas judiciais.
Grandes partes das decisões judiciais tomadas nos nossos tribunais têm justamente base no que existe de concreto no boletim de ocorrência presente nos autos, daí se pode ter uma ideia do grande reflexo que este instrumento provoca em todo um ordenamento processual e democrático existente no nosso país e nas relações sociais entre os indivíduos de toda a nação. (Araújo, 2007)
Essa afirmação fundamenta a importância do BO para o processo penal. O campo do histórico, objeto de nossa investigação, agrega a narrativa dos fatos
comunicados pelo cidadão. O estudo da terminologia policial baseado nesse documento demonstra os termos peculiares da área policial, inseridos no contexto.
É extremamente relevante esclarecermos que tanto a BM, como a PC/RS evidenciam a linguagem especializada policial nos BOs, a partir das declarações de um comunicante que é leigo da área. Segundo Costa (2009), como o histórico é o registro, realizado pelos policiais contém termos específicos da sua área de especialidade, uma vez que este documento é encaminhado a outros policiais, a fim de desencadear investigações. A partir desses documentos temos os primeiros passos norteadores de instrução, que irão auxiliar os procedimentos de investigação dos policiais e servirá como instrumento de justiça a juízes, promotores e advogados, bem como, os órgãos governamentais que tem permissão para acesso eletrônico às informações do registro.
É importante ressaltar também que compete ao poder judiciário julgar as infrações às regras, dizendo se houve ou não, em maior ou menor grau, infrações penais. Compete ao Ministério Público a tomada de iniciativas no que diz respeito à provocação da ação penal, ou seja, a realização dos Processos Judiciais. Os promotores instigam o pronunciamento judicial por meio da denúncia e por meio da queixa, tendo em vista que se trata de relatos de ocorrências criminais que apresentam os infratores e o contexto em questão.
Além disso, para que o Poder Judiciário e o Ministério Público possam realizar a sua função de forma eficiente, faz-se necessário que a Polícia Civil e a Brigada Militar possam também ser esclarecedores na narração dos fatos nos BOs, evidenciando assim, sua função de forma significativa. Na realidade, a PC/RS se apresenta como a organização responsável pela apuração de casos concretos de infrações penais e também de fatos considerados como não normais. Para isso, a PC/RS fornece ao Ministério Público os elementos necessários à organização dos relatos, uma vez que são eles, os policiais, que possuem atribuições e recursos para a referida questão.
Além disso, salientamos que os termos devem ser analisados nos seus contextos reais de ocorrência. Os esforços para definir o que é um termo e examinar qualquer distinção entre diferentes tipos de termos são irrelevantes se o contexto não for considerado (Pearson, 1998). O que percebemos também nas palavras de Krieger e Finatto (2004):
(...) o exame do comportamento das unidades terminológicas em seu real contexto de ocorrência, compreendendo que estas unidades aparecem de maneira natural no discurso, não constituindo uma língua à parte, como inicialmente se julgava. Consequentemente, os termos sofrem os efeitos de todos os mecanismos sintagmáticos e pragmáticos das cadeias discursivas que dão suporte à comunicação especializada. (Krieger e Finatto, 2004)
Cabe salientar também, que o texto de especialidade pode ser definido de acordo com critérios externos, que são a temática e a perspectiva segundo a qual o objeto é abordado, a situação de comunicação, os usuários e também a funcionalidade do texto; ou através de critérios internos, que correspondem às características referentes aos recursos lexicais, morfológicos, sintáticos, estilísticos e marcas na macroestrutura. Nesse sentido, os termos são uma das características mais evidentes de um texto especializado. O texto especializado deve ser descrito e caracterizado com a observância de todas as suas dimensões; porém a noção de especialidade deveria poder definir-se a partir de um estudo linguístico e estrutural (Ciapuscio, 2003)
Os termos diferem das palavras quando vistos através dos critérios pragmáticos e comunicativos (Cabré, 1993). Eles não compõem um sistema lexical independente, por isso, têm uma forma fonética e gráfica em conformidade com a estrutura fonológica de cada linguagem em que são empregados. Sua formação e flexão obedecem às leis morfossintáticas comuns, agrupando-se em classes gramaticais, combinando-se em sintagmas e orações, respeitando as regras usuais de distribuição e organizando-se para formar textos que seguem os princípios gerais de redação de textos orais ou escritos de todo o gênero.
Cabré (1999) nos elucida que os termos, além da categoria nominal, tradicionalmente estabelecida, na linguagem especializada podem assumir outras categorias gramaticais, já que compartilham das mesmas categorias que o léxico comum, ainda que as palavras eminentemente funcionais, como preposições, conjunções, artigos e pronomes, não comportem caráter terminológico. Nesse prisma, os verbos somam um dos traços peculiares que configuram a especificidade dos termos empregados na linguagem jurídica (Maciel, 2001). Segundo Costa (2009), os verbos performativos, isto é, aqueles que realizam, pela enunciação, a
ação que exprimem, ao realizarem ações específicas do mundo jurídico, ativam o valor jurídico de seu sujeito e seus complementos.
Nesse sentido, a Terminologia tem e muito a contribuir para dar a conhecer sobre a unidade lexical especializada caracterizadora desta tipologia textual jurídica em análise: os registros de ocorrências policiais.