• Nenhum resultado encontrado

LISTA DE QUADROS

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2023

Share "LISTA DE QUADROS "

Copied!
87
0
0

Texto

(1)

UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUÍSTICA APLICADA MESTRADO EM LINGUÍSTICA APLICADA

Deise Leite Bittencourt Friedrich

RECONHECIMENTO TERMINOLÓGICO EM NARRATIVAS POLICIAIS SOB UM OLHAR SEMIÓTICO

São Leopoldo – RS Dezembro, 2011

(2)

Deise Leite Bittencourt Friedrich

RECONHECIMENTO TERMINOLÓGICO EM NARRATIVAS POLICIAIS SOB UM OLHAR SEMIÓTICO

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Linguística Aplicada.

Orientadora: Profa. Dra. Maria da Graça Krieger

São Leopoldo – RS 2011

(3)

Ficha catalográfica

Catalogação na Fonte:

Bibliotecária Vanessa Borges Nunes - CRB 10/1556 F911r Friedrich, Deise Leite Bittencourt

Reconhecimento terminológico em narrativas policiais sob um olhar semiótico / por Deise Leite Bittencourt Friedrich. – 2011.

89 f.: il., 30 cm.

Dissertação (mestrado) — Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada, 2011.

Orientação: Profª. Drª. Maria da Graça Krieger.

1. Terminologia policial. 2. Reconhecimento

terminológico. 3. Semiótica. 4. Boletim de ocorrência policial.

I. Título.

CDU 801.3

(4)
(5)

Todo pasa y todo queda, pero lo nuestro es pasar, pasar haciendo caminos, caminos sobre la mar.

Caminante, son tus huellas el camino y nada más.

Caminante, no hay camino. Se hace camino al andar.

Antonio Machado ( Poeta sevillano, Cantares, poema XXIX)

(6)

Especialmente ao meu amado marido, por seu afeto e compreensão constantes.

(7)

AGRADECIMENTOS

Percorrer este caminho não foi nada fácil; mas chegar neste momento e agradecer a aqueles que tornaram minha caminhada mais suave, é uma forma de gratidão.

Em primeiro lugar, agradeço a minha estimada orientadora Profa. Dra. Maria da Graça Krieger, por ter me acolhido e me ensinado muito mais do que as Ciências do Léxico poderiam prever. Pelo ser humano incrível que ela é; dotada de uma singeleza, simplicidade e determinação constante em nos guiar com muita sabedoria.

Aos meus queridos pais pelo apoio e carinho ao longo dos anos.

A Profa. Dra. Adila Beatriz Naud de Moura por seu incentivo, carinho, sua alegria e dinamismo; tanto no grupo Termilex, como fora dele. Obrigada por sua amizade.

A estimada amiga Doutoranda do PPGL da UFRGS, Maria Izabel Plath da Costa por me permitir compartilhar de sua amizade, pelas trocas teóricas, pelos risos e por sua leitura atenta e crítica deste trabalho.

A querida amiga Doutoranda em Literatura Comparada do PPGL da UFRGS, Tatiana Prevedello, por sua amizade.

Aos meus queridos colegas de pesquisa, por me permitirem mudar meu ponto de vista em relação ao meu objeto, em especial aqueles que me acompanharam antes da seleção e depois: Eliane Iensen, Úrsula Pletsch, Cleiton Rabello, Ana Salgado, Márcio Santiago e demais membros do Termilex e, em especial: Rejane Ferreira pelo nosso companheirismo nas aulas, nas apresentações de trabalhos, nos cafés, nas angústias, nos risos e na reta final. E, agradeço imensamente a Doutoranda do PPGLA/UNISINOS, Fani Adorne pelos saberes semióticos e terminológicos compartilhados, por seu carinho e amizade.

Ás professoras deste programa de Pós-Graduação, pelos ensinamentos proporcionados durante o curso.

Aos policiais da Civil e da Brigada Militar pela oportunidade e pela acolhida em seu ambiente de trabalho.

(8)

RESUMO

A terminologia empregada pelos policiais tanto civis, como militares no registro de ocorrência policial é de extrema importância; tanto dentro do universo técnico- jurídico, como fora dele; pois é através da linguagem que os conceitos que presidem o ordenamento da sociedade se conformam, se estabilizam e se transmitem. Para o profissional da área policial, a familiaridade com o conteúdo e a forma dos termos permite sua prática na área; para o público leigo, a compreensão do léxico especializado contribui para a observância das normas que garantem a ordem e a convivência harmônica na sociedade. Em razão dessa importância, o objetivo principal dessa dissertação é identificar a organização da narrativa e a terminologia dos boletins de ocorrência da Polícia Civil, bem como, contribuir para fazer avançar o conhecimento dessas unidades lexicais. Com base em uma abordagem que envolva as teorias do texto e do discurso que ultrapasse os limites da frase. Para isso, escolhemos como bases teórico-metodológicas a Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) e a Teoria Semiótica de Algirdas Julien Greimas. A semiótica por oferecer um olhar mais refinado e detalhado perante a constituição dos textos e dos discursos. A TCT em seus princípios por permitir analisar o termo como uma unidade lexical da língua natural que integra as comunicações especializadas.

Verificou-se que os fatos descritos na análise dos dados do corpus, e também na tabulação e levantamento dos termos, revelam a realidade dessa linguagem especializada, tendo em vista que os policiais que elaboram os textos especializados empregam termos específicos para enquadrar a ação efetuada pelo infringente da lei, bem como os demais envolvidos, como mostrou o encadeamento da lógica narrativa.

Palavras-chave: Terminologia Policial. Reconhecimento Terminológico. Semiótica.

Boletim de Ocorrência Policial.

(9)

RESUMEN

La terminología utilizada tanto por los policiales civiles como militares en el registro de denuncia policial es de extremada importancia. Tanto dentro del universo técnico jurídico, como fuera de él, pues es a través del lenguaje que los conceptos que rigen el ordenamiento de la sociedad se conforman, se estabilizan y se transmiten. Para el profesional del área policial, la familiaridad con el contenido y la forma de los términos les permiten su práctica en el área; para el público lego, la comprensión del léxico especializado contribuye para la observancia de las normas que garantizan el orden y la convivencia pacífica en la sociedad. Debido a esta importancia, el objetivo principal de este trabajo es la identificación de la organización narrativa y de la terminología de la Policía Civil, así como contribuir a promover el conocimiento de las unidades léxicas, con un enfoque que arrolle a las teorías del texto y del discurso que va más allá de los límites de la frase. Para ello, elegimos como bases teóricas y metodológicas la Teoría Comunicativa de la Terminología (TCT) y la Teoría Semiótica de Algirdas Julien Greimas. La Semiótica por ofrecer una visión más precisa y detallada de la constitución de los textos y de los discursos. La TCT en sus principios, por permitir analizar el término como una unidad lexical de la lengua natural que compone las comunicaciones especializadas. Se verificó que los hechos descritos en el análisis de los datos del corpus, y también en la tabulación de los términos y de la encuesta revelan la realidad de este lenguaje especializado, dado que los policiales que producen los textos emplean términos especializados específicos para enmarcar la acción realizada por aquél que infringe la ley, así como los demás involucrados, como mostró el hilo de la lógica narrativa.

Palabras clave: Terminología Policial. Reconocimiento Terminológico. La Semiótica.

Informes de Denuncia Policial.

(10)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Gêneros textuais por domínios discursivos e modalidades. ………..41 Quadro 2 – Listagem dos termos seguidos de sua frequência. ………. 77

(11)

LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Quadro Semiótico da Narrativa Policial ... 55 Figura 2 - Tela do programa UNITEX demonstrando o levantamento dos termos... 76 Figura 3 - Distribuição de frequência dos termos mais recorrentes nos BOs... 79

(12)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ...12

1.1 Objetivos da Pesquisa ...15

Objetivo Geral ...15

Objetivos Específicos ...15

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ...17

2.1 A Terminologia ...18

2.2 O Objeto de Estudo da Terminologia: O Termo Técnico-Científico ...21

2.3 As Correntes Terminológicas ...25

2.4 O Texto Policial e a Terminologia ...29

2.5 Terminologia e Texto ...33

2.5.1 Gênero e Tipologia Textual do BO ...38

2.6 A Teoria Semiótica de Algirdas Julien Greimas ...42

2.6.1 Estruturas Fundamentais ...43

2.6.1.1 Estruturas Narrativas ...43

2.6.1.2 Estruturas Discursivas ...45

3 PRINCÍPIOS TEÓRICOS-METODOLÓGICOS ...51

3.1 O Corpus ...51

3.2 Análise do Corpus ...53

4. PROCEDIMENTOS ANALÍTICOS ...54

4.1 Análise dos BOs no Plano da Narratividade e Discursividade ...54

4.1.1 O Boletim de Ocorrência (BO): Esquema Narrativo 1 ...58

4.2 O Reconhecimento Terminológico nos BOs ...60

4.5 Tabulação dos Termos com o Unitex ...75

5 CONCLUSÃO ...80

6 REFERÊNCIAS ...83

7 ANEXOS ...86

(13)

Muito diferente do que ocorria em épocas passadas, atualmente, o uso e o conhecimento das terminologias não são mais vistos como privilégio de profissionais da área. Mas, devido às grandes mudanças no processo de divulgação da informação cada vez mais crescente, o leigo é condicionado a conhecer a linguagem no contexto das comunicações especializadas.

Com o avanço da informática e a facilidade de acesso a bens, serviços e produtos, os indivíduos acabam por tomar conhecimento de informações que circulam na mídia, como é o caso, da criminalidade. O que leva à população a necessidade de compreender o universo discursivo dos termos que são usados na comunicação policial, no qual estão inseridos.

A terminologia empregada pelos policiais tanto civis, como militares no registro de ocorrência policial é de extrema importância; tanto dentro do universo técnico-jurídico, como fora dele; pois é através da linguagem que os conceitos que presidem o ordenamento da sociedade se conformam, se estabilizam e se transmitem.

Costa (2009) delimita a área especializada policial e identifica a terminologia jurídico-policial, desdobrando os seus usuários diretos em especialistas e semi- especialistas e também, situa a polícia civil no âmbito da Secretaria da Segurança Pública-SSP, como mostraremos mais adiante.

Para o profissional da área policial, a familiaridade com o conteúdo e a forma dos termos permite sua prática na área; para o público leigo, a compreensão do léxico especializado contribui para a observância das normas que garantem a ordem e a convivência harmônica na sociedade. Em razão dessa importância, o objetivo principal dessa dissertação é identificar a terminologia dos boletins de ocorrência da Polícia Civil, bem como, contribuir para fazer avançar o conhecimento dessas unidades lexicais; com uma abordagem que envolva as teorias do texto e do discurso que ultrapasse os limites da frase.

O estatuto terminológico de uma unidade lexical pode ser justificado se levarmos em conta os elementos constitutivos desse texto especializado, o Boletim de Ocorrência Policial (BO). Para tanto, se faz necessário verificar como está

(14)

configurada a relação de sentidos entre os termos e os aspectos da narrativa nesse texto de especialidade.

Com um enfoque epistemológico, que viabilize analisar o contexto de ocorrência dos termos e a narratividade do B.O, as situações de comunicação assumem papel relevante no reconhecimento da terminologia empregada nesta tipologia textual.

Para isso, escolhemos como bases teórico-metodológicas a Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) e a Teoria Semiótica de Algirdas Julien Greimas. A semiótica por oferecer um olhar mais refinado e detalhado perante a constituição dos textos e dos discursos. A TCT em seus princípios por permitir analisar o termo como uma unidade lexical da língua natural que integra as comunicações especializadas. Optamos pela TCT de viés comunicativo e textual, porque prioritariamente, consideramos os termos não apenas como nódulos cognitivos, mas também, como unidades linguísticas naturais, caracterizados por serem unidades do conhecimento que assumem valor especializado e que se atualizam no discurso (Krieger & Finatto, 2004, p.78).

Desse modo, acreditamos que essas teorias possam nos auxiliar no reconhecimento da terminologia no registro de ocorrência policial. Já que a semiótica é entendida como uma teoria que busca explicar os sentidos do texto pela análise, em primeiro lugar, de seu plano de conteúdo e pelos mecanismos de organização e estruturação da narrativa, que faz do texto um “todo de sentido”, como um objeto de comunicação que se estabelece entre um destinador e um destinatário. O discurso como lugar, ao mesmo tempo, do social, da articulação da narrativa e discurso, isto é, o discurso constituído sobre estruturas narrativas que o sustentam (Greimas & Courtés, 1999).

Cabe salientar também, que não temos a pretensão de fazer uma análise exaustiva das narrativas. Objetivamos, sim, dar conta de como se apresenta esse universo discursivo policial, analisá-lo sob a luz da semiótica greimasiana, privilegiando os fatos narrados, a fim de buscar o reconhecimento da terminologia nesse gênero textual.

Para isso, como corpus desta pesquisa, foram selecionados 200 históricos de boletins de ocorrências policiais realizados pela Polícia Civil, para fins de exemplificação escolhemos alguns mais relevantes para nosso trabalho, a fim de

(15)

apreender a construção e o funcionamento do texto narrativo com vistas a reconhecer as particularidades que o engendram.

A trajetória teórica adotada será apresentada no capítulo 1, TERMINOLOGIA E SUAS IMPLICAÇÕES: FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA. Neste capítulo, será explicitada a Terminologia enquanto área de estudos, sua teoria e aplicação, o objeto inicial de estudos, bem como sua aproximação com as Teorias do Texto e do Discurso. Para tanto, salientamos algumas obras dos autores considerados relevantes para nosso estudo, na Terminologia temos: Cabré (1993 e 1999), Krieger et. al (2001), Krieger (2007) e Krieger & Finatto (2004). Na semiótica A. J. Greimas (1993), avançando nas questões de gênero Marcuschi (2008) além do estudo da Terminologia de Cunho Comunicativo e Textual (TCT).

A seguir, no capítulo 2, A SEMIÓTICA DE ALGIRDAS JULIEN GREIMAS, apresentamos uma síntese desta teoria a fim de dar conta dos processos de significação, pois como nos diz o autor, todo e qualquer texto subjaz uma organização narrativa. Será apresentado o projeto semiótico greimasiano de análise do texto. Descrevemos inicialmente, de forma sucinta, as três etapas do percurso gerativo do sentido: a das estruturas fundamentais, a das estruturas narrativas e a das estruturas discursivas. Logo após, na seção acerca da narratividade, abordamos mais detalhadamente a descrição da organização da narrativa dos registros de ocorrências policiais e o reconhecimento da terminologia, por ser este o percurso mais significativo em nossa investigação.

No capítulo 3, CONSTITUIÇÃO DO CORPUS apresentamos a seleção dos textos para este trabalho e, o critério da relevância na seleção dos boletins que foram analisados: foram escolhidos 200 BOs, que foram cedidos por Delegacias do RS (DPRs) e pela Brigada militar do RS (1ª BPM). Foram levados em consideração os tipos de delitos mais frequentes em nossa sociedade: homicídio, lesão corporal e demais delitos relacionados a Lei Maria da Penha. A aplicação de tal critério conduziu à seleção de um bom número de ocorrências, as quais foram selecionadas para exemplificação.

Realizada a seleção dos boletins de ocorrência, estes foram digitalizados e, a fim de não comprometer a identificação dos envolvidos nos fatos, optamos por colocar apenas a inicial de cada nome em maiúscula ao invés dos nomes verdadeiros. Foi, também, realizada uma classificação dos mesmos, por tipos de

(16)

delitos e fatos, a fim de termos uma melhor visualização de como está configurado o quadro das ocorrências.

O BO caracteriza-se, essencialmente, como um documento por meio do qual o escrivão e o policial da brigada militar registram os acontecimentos e as circunstâncias relacionados às ocorrências policiais. Ou seja: todo fato que, de qualquer forma, afete ou possa afetar a ordem pública e exija a intervenção policial por meio de ações e/ou operações.

Por fim, no capítulo 4, ETAPAS METODOLÓGICAS DE ANÁLISE, apresentamos os BOs analisados do ponto de vista da semiótica, a fim de evidenciar os componentes que engendram esse tipo de texto. Contamos também com uma ferramenta computacional UNITEX, que nos auxiliou a mapear a presença dos termos, a fim de melhor identificação e seleção dos mesmos; bem como, o quadro de levantamento de termos e o gráfico que vem a comprovar o uso dessa terminologia e suas regularidades neste texto de especialidade.

E, no capítulo 5, CONCLUSÃO, temos os comentários finais acerca da abordagem que foi realizada na análise das narrativas dos boletins de ocorrência, bem como, as sugestões para trabalhos futuros.

1.1 Objetivos da Pesquisa

Objetivo Geral

Identificar, na organização da narrativa dos boletins de ocorrência policiais (BOs), alguns dos termos técnicos que a compõe.

Objetivos Específicos

· Verificar as diferenças macroestruturais dos históricos de BOs produzidos pela Polícia Civil e pela Brigada Militar.

(17)

· Identificar os principais actantes desse processo através das estruturas discursivas dos BOS.

· Estabelecer relações entre a organização narrativa dos BOs e a presença de termos técnicos.

Diante disso, procuramos verificar através da análise da narrativa como um termo técnico-jurídico se constitui em um nódulo cognitivo e discursivo na comunicação especializada de um registro de ocorrência policial; tanto o que é realizado pela Polícia Civil (PC/RS), como o da Brigada Militar (BM/RS). Com base nesta escolha, pelo escopo teórico adotado e explicitado na introdução do trabalho, esperamos que o modelo de análise seja capaz de dar conta da organização da narrativa boletim de ocorrência, para que possamos atingir os objetivos propostos.

Dando continuidade ao trabalho, evidenciaremos no próximo capítulo, os pressupostos teóricos que serviram de ancoragem para esta investigação.

(18)

“Aportes trazidos pela Linguística e pelas Teorias do Texto e do Discurso têm contribuído para reorientar a reflexão das unidades lexicais especializadas.”

Maria da Graça Krieger (Temas de Terminologia p.37)

Como já mencionamos anteriormente, o objetivo essencial de nossa investigação é identificar a presença de termos técnicos utilizados pela Polícia Civil nos históricos dos boletins de ocorrência policial (BO). E, em um segundo plano, de buscar o reconhecimento da terminologia1 através das diferenças macroestruturais nos históricos dos boletins de ocorrência produzidos pela Polícia Civil e pela Brigada Militar neste relato policial.

Além disso, esperamos contribuir para avanços mais significativos na área dos estudos terminológicos, que levem em conta as dimensões conceituais, linguísticas e pragmáticas dos termos técnicos - jurídicos da tipologia textual BOs.

Cabe salientar também que, buscamos na dimensão semiótica um olhar para os termos em seu contexto discursivo, uma vez que, graças a essa dimensão, podemos aliar os subsídios teóricos da Terminologia com os estudos da Teoria Semiótica greimasiana.

É por esta razão, que essas considerações são necessárias para explicitar nosso propósito em investigar os fatos narrados nos boletins de ocorrência, a fim de buscar um melhor entendimento sobre o registro policial e sua configuração enquanto gênero textual dentro de uma área de especialidade e, a relevância com os estudos terminológicos e discursivos. Pois, ao desvendar a organização dessa narrativa é que se pode estabelecer uma relação significativa de sentidos, que nos levou ao reconhecimento da terminologia, ali contida.

1Segundo Krieger (2001), o termo “terminologia” pode ser grafado de duas formas: I) quanto se tratar de um conjunto de termos, é grafada com t minúsculo; II) quando o termo se referir à disciplina ou ao campo de estudos, é grafada com T maiúsculo.

(19)

2.1 A Terminologia

O engenheiro austríaco Eugen Wüster é considerado, pela maioria dos investigadores, como o “pai” do que podemos considerar como Terminologia moderna e, ao mesmo tempo, fundador da escola de Viena. Paralelamente à escola austríaca surgem outras duas: a escola Soviética e a escola Tcheca. Essas três escolas possuem como denominador comum o fato de que o conceito é considerado como ponto de partida da análise terminológica. Wüster expõe suas primeiras reflexões sobre o tema nos anos 1930 e, finalmente, em 1979, de forma póstuma, seu discípulo e colaborador Helmut Felber publica Introdução à Teoria Geral da Terminologia e à Lexicografia Terminológica, obra que fora baseada nas aulas que Wüster havia ministrado na Universidade de Viena entre 1972 e 1974, postulando, assim, os fundamentos da Teoria Geral da Terminologia (TGT).

Não fica sem explicação, por parte de Wüster, esta denominação do enfoque original da Teoria Terminológica estabelecida por ele mesmo. Nesse sentido, argumenta sua preferência em padronizar os léxicos especializados para privilegiar a eficácia das comunicações técnicas e científicas. Em relação ao que vem a ser Terminologia, ele esclarece que se trata: (1) do conjunto do léxico de uma área e produto da compilação dela mesma, (2) do estudo particular de um campo determinado em uma língua determinada e (3) do estudo de um grande número de campos de especialidade em diversas línguas - o que faz referência ao “estudo científico fundamental da terminologia” (Wüster, 1998), já que considera que a ambiguidade e a polissemia da palavra Terminologia não ajudam a distinguir entre (2) e (3). Mesmo assim, insiste em que a TGT não constitua a soma das teorias de cada uma das terminologias especializadas, mas que transpasse os domínios especializados e das línguas naturais ao abstrair os princípios comuns a todas elas.

Entretanto, a Terminologia não é uma área de recente criação, uma vez que o seu nascimento foi paralelo ao da ciência e das técnicas. Podemos considerar que a Terminologia como campo de estudos surgiu oficialmente na metade do século XX.

No entanto, não há como negar que a Terminologia como estudo científico existe desde o momento em que surge o tratamento lexicográfico da língua de especialidade. O que bem nos elucida Rondeau (1984):

A Terminologia não é um fenômeno recente. Com efeito, tão longe quanto se remonte na história do homem, desde que se manifesta a linguagem,

(20)

nos encontrarmos em presença de línguas de especialidade, é assim que se encontra a terminologia dos filósofos gregos, a língua dos negócios, etc.

De fato, o que é novo, é sabermos do caráter duplo da Terminologia enquanto campo de conhecimento teórico e aplicado. O próprio Eugen Wüster, que fundamentou a TGT2, já evidenciava o caráter interdisciplinar desse campo, o que nos leva a uma aproximação com a Linguística, já que possui suficiente peso e relevância, como entidade pertencente às ciências da linguagem.

Ressaltamos, sobretudo, a afirmação de Sager (1990) ao dizer que:

A terminologia diz respeito ao estudo e ao uso de sistemas de símbolos e signos linguísticos empregados para a comunicação humana em áreas de atividades de conhecimentos especializados. É, primeiramente, uma disciplina linguística (...) Tem caráter interdisciplinar, uma vez que também toma emprestados conceitos e métodos da semiótica, epistemologia, classificação, etc.3

Já Krieger (2001) nos diz que a dimensão linguística da Terminologia enquanto área de estudos se ocupa da natureza, da constituição dos termos e da multiplicidade de aspectos do seu funcionamento, caracteriza-se por sua natureza multidisciplinar - o que nos leva a estudar os termos num processo comunicacional, com todas suas implicações e efeitos próprios do funcionamento da linguagem.

A fim de confirmar a importância da Terminologia enquanto ciência, que em comunhão com o trajeto do pensamento revive acontecimentos que são demarcados por termos, que vão suscitar novos conceitos em uma nova realidade (PLG II, 2006), valemo-nos das palavras de Émile Benveniste:

A constituição de uma terminologia própria marca, em toda ciência, o advento ou o desenvolvimento de uma conceitualização nova, assinalando, assim, um momento decisivo de sua história. Poder-se-ia mesmo dizer que a história particular de uma ciência se resume na de seus termos específicos. Uma ciência só começa a existir ou consegue se impor na medida em que faz existir e em que impõe seus conceitos, através de sua denominação. Ela não tem outro meio de estabelecer sua legitimidade senão por especificar seu objeto denominando-o, podendo este constituir uma ordem de fenômenos, um domínio novo ou um modo novo de relação entre certos dados. O aparelhamento mental consiste, em primeiro lugar, de um inventário de termos que arrolam, configuram ou analisam a

2 Essa teoria se tornou um marco na história da área, está registrada em obra póstuma intitulada Introdução à Teoria Geral da Terminologia e à Lexicografia Terminológica. Ver Krieger & Finatto (2004).

3 Terminology is concerned with the study and use of the systems of symbols and linguistics signs employed for human communication in specialized areas of knowledge and activities. It is primarily a linguistic discipline (...) It is inter-disciplinary in the sense that it also borrows concepts and methods from semiotics, epistemology, classification, etc.

(21)

realidade. Denominar, isto é, criar um conceito, é, ao mesmo tempo, a primeira e última operação de uma ciência.

Contrasta o conteúdo da subdivisão proposta por Wüster com a segmentação tripartida que atualmente se faz dos estudos da Terminologia. Nesse sentido, ela parece ter sofrido uma evolução em seu planejamento de origem, pois hoje podemos perceber diferentes concepções dentro da própria Terminologia, independentemente dos pontos de vista que possam ser adotados para sua investigação.

É inegável a contribuição de Wüster enquanto fundador da TGT, mas ele apenas quis ocupar-se do termo de forma prescritiva, imaginando uma língua estática e uniforme, onde o termo seria instrumento de reconhecimento padrão de uma terminologia especializada, a qual deveria dar-se a reconhecer como um rótulo, uma etiqueta denominativa ou simplesmente um conceito, parte significante da unidade lexical.

Contrariando o paradigma clássico da Terminologia, Cabré (1999a) argumenta que não é necessário que uma matéria se justifique por si mesma; mas, que os argumentos funcionais e sociais possam convertê-la em matéria científica a partir do momento em que se defina o objeto de estudo e a forma que utilizaremos para explicar seus fenômenos. Defende a ideia de que é possível explicar a terminología desde uma teoría da linguagem e formando parte de seu objeto.

Nesse sentido, percebemos os termos como parte das línguas naturais que são significativos e que emergem de maneira natural dentro de um discurso de especialidade. Concebemos os termos como unidades lexicais dos sistemas linguísticos, caracterizadores de uma comunicação profissional, que cobram sentido na relação que estabelecem em seu contexto discursivo.

Nas palavras de Cabré (1993), verificamos um amparo quanto à face dos termos, seu funcionamento e reconhecimento:

Como qualquer outra unidade significativa de um sistema linguístico, os termos formam parte de um sistema estruturado, no qual ocupam um determinado nível (o nível das unidades léxicas) e se relacionam, por um lado, com as demais unidades do mesmo nível, e por outro, com as unidades dos demais níveis, participando conjuntamente da construção do discurso.

(22)

O que se faz necessário é perceber que os estudos terminológicos avançaram, possibilitando ver os termos como unidades lexicais naturais dos sistemas linguísticos, que possuem um valor especializado nos domínios técnico- científicos, o que nos permite analisá-los à luz de diversas teorias.

A TGT deixou seu legado ao delimitar o campo do conhecimento e, mesmo que tenha visto o termo apenas como representação de um conceito, essa concepção serviu para que muitas outras correntes de estudos terminológicos surgissem e deixassem seu ponto de vista em relação ao seu objeto de estudo.

2.2 O Objeto de Estudo da Terminologia: O Termo Técnico-Científico

Nos estudos de Cabré (1999), os termos são sempre tematicamente específicos, de modo que não há termo sem um âmbito que o acolha; tampouco há um âmbito especializado sem uma terminologia que o caracterize. Além disso, o termo é uma unidade de significação que comunica o conhecimento de uma área temática, nesse sentido, um conhecimento especializado. O que bem pode ser confirmado nas palavras de Krieger (2001): “cabe à Terminologia compreender os modos de manifestação linguística e discursiva da dimensão conceitual dos termos, voltando-se ao exame dos enunciados definitórios”. Estes, de diferentes maneiras, cumprem a função de expressar, linguística e discursivamente, o componente cognitivo dos termos, já que a definição terminológica deve ser um componente integrante dos estudos da área.

Nas palavras de Gouadec (1990), “o termo é uma unidade linguística que designa um conceito, um objeto ou um processo” e ainda acrescenta que “o termo é a unidade de designação de elementos do universo percebido ou concebido”. Por sua vez, Cabré (1993), explica que “para os especialistas, a terminologia se constitui no reflexo formal da organização conceitual de uma especialidade e um meio inevitável de expressão e comunicação profissional”.

Conforme mencionamos anteriormente, a Terminologia avançou em seus estudos e, mesmo situando-se como um campo de saber que possui uma identidade própria, que tem o termo como seu objeto de estudos, de reflexão e de tratamento, isto não impediu que se possa perceber o termo e a definição como faces de uma mesma moeda. O que bem esclarece Alan Rey (1979):

(23)

As palavras definição e termo são ligadas por um traço comum: elas designam na origem o estabelecimento de um limite, de um fim (definir) e seu resultado (termo). No plano nocional, para que um nome tenha direito ao título de termo, é necessário que ele possa, enquanto elemento de um conjunto (uma terminologia), ser distinguido de outro. O único caminho para exprimir esse sistema de distinções recíprocas é a operação dita definição.

Nesse sentido, concordamos com as palavras de Krieger (2004) que bem nos elucida: a unidade terminológica é, simultaneamente, elemento constitutivo da produção do saber, quanto componente linguístico, cujas propriedades favorecem a univocidade da comunicação especializada.

Assim, podemos afirmar que nenhum domínio de especialidade, desde aquele que se dedica às mais profundas especulações, até aquele que se ocupa de atividades materiais, subsiste sem o recurso de uma terminologia. Com razão, Benveniste afirma que “uma ciência só começa a existir ou consegue se impor na medida em que impõe seus conceitos através de sua denominação” (PLG II, 2006).

Considerando essas visões, é possível refletir sobre o termo. Buscamos estabelecer uma ligação entre os pressupostos teóricos abraçados e a abordagem da investigação do reconhecimento da especificidade do termo no texto especializado, posto que esta pesquisa está alicerçada na concepção de que os elementos que constroem a especificidade do termo podem ser depreendidos pelo exame do contexto de uma situação peculiar de comunicação.

De acordo com os estudos desenvolvidos pela Escola de Viena, durante algum tempo os termos foram considerados como a marca distintiva prioritária da linguagem de especialidade. Hoje, no entanto, no âmbito de uma concepção comunicativa mais ampla, sem desprezar o caráter representativo dos termos, as terminologias são vistas como um dos elementos que configuram as linguagens de especialidade.

Sob essa perspectiva, portanto, a ênfase não é posta nas palavras usadas, mas em quem as usa, nas condições de uso e, principalmente, nas características temáticas e pragmáticas do universo que as envolve. Assim, também, a fronteira entre as unidades lexicais da língua geral e das linguagens de especialidade torna- se cada vez mais tênue. Por essa razão, há uma dificuldade de detectar a

(24)

especificidade dos termos na tarefa de separar o léxico geral e o léxico especializado. Conforme Krieger (1998):

[...] as novas terminologias confundem-se, em larga medida, com o chamado léxico comum da língua. Tanto é assim que cresce o número de sentidos terminológicos nos verbetes da lexicografia da língua comum.

Com isso, os termos revelam sua naturalidade aos sistemas linguísticos de várias formas, a iniciar pela consonância aos padrões morfossintáticos das línguas que os veiculam, independentemente de serem originais ou corresponderem a estruturas neológicas.

Dessa forma, o leigo também passa a usar, os termos, antes considerados científicos ou técnicos e reservados à comunicação restrita dos especialistas:

Em realidade, os termos técnicos e/ou científicos deixaram de se configurar como uma “língua à parte”; já não são mais facilmente identificados, como ocorria quando, ao modo das nomenclaturas, correspondiam a palavras muito distintas da comunicação ordinária e permaneciam praticamente restritos aos diferentes universos comunicacionais especializados. Hoje, os termos circulam intensamente, porque ciência e tecnologia tornaram-se objeto de interesse das sociedades, sofrendo, consequentemente, processo de vulgarização favorecidos pelas novas tecnologias da informação. (Krieger; Maciel;

Finatto, 2001)

A forma do termo, na maioria das vezes, permanece a mesma, enquanto o conteúdo se transforma. Assim, o signo linguístico percebido pelos sentidos pode permanecer constante, mas o significado que ele exprime pode mudar. Essa mudança vai depender dos traços específicos selecionados, de acordo com a configuração temática de cada campo especializado.

O contrário também pode ocorrer, quando o conteúdo do termo não muda, mas sua forma sofre alterações. Nesse caso, as mutações são decorrentes de exigências da transmissão da mensagem. Nesse sentido, o motivo da mudança é o propósito de adequar a informação à natureza do canal utilizado, ao tipo de texto escolhido, à formalidade do registro, à intenção do destinador e às necessidades e desejos do destinatário.

É consenso que o termo é a unidade lexical “profissionalmente marcada”

(Cottez, 1994). Da mesma maneira como a palavra é a unidade da língua comum, o termo se constitui na unidade das linguagens de especialidade. O conjunto de termos de uma área representa o conhecimento dessa área; por isso, ao mesmo tempo em que expressa de modo privilegiado seus conceitos, também os veicula.

(25)

Com efeito, por meio da terminologia é possível acessar, referenciar e comunicar o saber de um dado campo de especialidade. Por essa razão, os termos são, simultaneamente, unidades de conhecimento, expressão e comunicação especializada.

Segundo Maciel (2001), os termos fazem parte da competência linguística do usuário da língua, de modo que não se pode falar de duas competências linguísticas, uma geral e outra especializada, mas de uma única competência à qual se acrescenta o conhecimento especializado adquirido. Nessa aquisição, os termos funcionam como vetores bidirecionais, posto que, ao mesmo tempo, tornam possível o acesso a um universo cognitivo novo e servem para comunicar a informação adquirida. A articulação desses dois processos tem lugar na comunicação entre especialistas, entre especialistas e leigos, ou, ainda, entre leigos e mediadores, tais como professores de linguagens de especialidade, profissionais da tradução, do jornalismo de um lado e o público em geral, do outro (Cabré, 1999).

Assim, é a língua que constrói a ponte, permitindo o acesso ao conhecimento de um conceito, à sua identificação, construção, discussão e aceitação pela comunidade especializada. É, também, através dela que se instaura a transformação do conceito ou sua revogação plena, pois, como já nos habituamos a testemunhar no mundo da ciência e da técnica, os conceitos, tais como os termos, também sofrem transformações.

Assim, temos como postulados norteadores neste trabalho:

· o termo é uma unidade linguística de significação especializada, de dimensão cognitiva e função comunicativa, utilizada na realização natural de uso da língua comum em situação especializada;

· a situação comunicativa em que se utiliza a linguagem de especialidade atualiza o valor especializado do termo, tanto o que é realizado pela BM, quanto o realizado pela PC/RS;

· a “narratividade” dos boletins de ocorrência é capaz de fazer descobrir e explicar a organização dessa linguagem de especialidade;

Feitas essas considerações sobre os termos, cabe salientar que estes podem ser vistos sob diferentes perspectivas, e que podem ser definidos de acordo com os postulados de diferentes escolas de pensamento.

(26)

Nesta pesquisa, a abordagem adotada é ancorada basicamente na dimensão linguística evidenciada pela Terminologia, em que, se fez uma aproximação entre a Teoria Comunicativa da Terminologia (TCT) em sintonia com a Teoria Semiótica greimasiana a fim de dar respaldo à descrição das condições de produção e de apreensão do sentido do texto B.O, na busca do reconhecimento da terminologia através das diferenças macroestruturais dos boletins policiais produzidos pela Polícia Civil/RS e pela Brigada Militar/RS.

Assim, concebemos os termos como elementos naturais das línguas naturais que participam da constituição dos discursos e, para dar conta de toda essa complexidade constitutiva, é que nos propomos a olhar as narrativas policiais em um contexto linguístico-pragmático de uma comunicação especializada. Assim posto, cabe, na sequência, apresentarmos os estudos de Texto aliados aos estudos da Terminologia.

2.3 As Correntes Terminológicas

A Terminologia, desde sua sistematização por Eugen Wüster, conforme salientamos anteriormente, ao longo dos anos passou por renovações quanto a sua abordagem. Nesse sentido, temos o nascimento de diversas correntes terminológicas: a socioterminologia de Gaudin (1993), a terminologia sociognitiva de Temmerman (2000), a terminologia textual de Bourigault e Slodzian (1999) e a Teoria Comunicativa da Terminologia (Cabré, 1993 e 1999). Cabe ressaltar que não temos a intenção de discorrer detalhadamente sobre cada uma das Terminologias, mas sim, de mostrar suas principais características, a fim de justificar a opção que fizemos por nosso escopo teórico.

Na socioterminologia de Gaudin, temos como princípio norteador a variação linguística dos termos como um fenômeno sociodiscursivo a ser descrito, ou seja, a noção de que uma língua de especialidade não é um subconjunto estruturalmente homogêneo, mas que apresenta um conjunto de variedades em função dos usos e das situações variáveis e históricas. Portanto, para Gaudin, a variação é o ponto que norteia o desenvolvimento da Socioterminologia, uma vez que chama atenção “para a necessidade de efetivar o diálogo interdisciplinar entre as áreas de conhecimento afetas à problemática terminológica”, como ensinam Krieger e Finatto (2004).

(27)

Salientamos a importância dessa corrente Terminológica; porém, não iremos adotá- la por concebermos da visão de termo que está contemplada na TCT.

Já na proposta de Bourigault e Slodzian (1999), temos o texto como ponto de partida, a fim de que a descrição textual seja realizada. O termo, então, passa a ser visto como produto dessa análise, que será efetuada pelo terminológo. Para amparar esta abordagem, seus autores criam condições para bem descrever e validar os termos. Optamos por não escolher essa Teoria como ancoragem teórico- medotológica, por esvaziar o estatuto de termo já fortalecido pela TCT.

A Terminologia Sociocognitiva de Rita Temmerman (2000), que ancora seus paradigmas na hermenêutica, enfatiza os termos como unidades de representação e compreensão, que funcionam como modelos cognitivos para a produção das denominações. As unidades terminológicas são vistas em constante processo evolutivo, e são passíveis de sinonímia, polissemia e processos metafóricos. Como bem menciona Temmerman (2000): essa propriedade evolutiva reflete “o poder das palavras de (se) mover”, mostrando, assim, os diferentes papéis da linguagem na constituição dos saberes. Não optamos por essa abordagem por não concordarmos com a visão de Temmerman ao rejeitar a concepção de conceito e de significado, ainda que estejamos num fazer cognitivo, que é, por sua vez, intrínseco da própria linguagem.

Numa outra vertente, temos o grupo IULATERM, do Instituto de Linguística Aplicada da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, que, liderado por Maria Teresa Cabré, investe em uma pesquisa reflexiva no sentido de construir cooperativamente um modelo teórico, que permita superar as insuficiências da TGT, dando conta das unidades terminológicas como unidades de conhecimento, significação, denominação e comunicação especializada no quadro do discurso especializado real (Cabré, 1999).

Para isso, o grupo coordenado por Cabré examina a Terminologia à luz de três pilares: o cognitivo, o linguístico e o comunicacional. Sob essa ótica, propõe a elaboração de princípios que configuram uma nova teoria, que não invalida a TGT, mas que defende pressupostos que sejam aplicáveis a todas as áreas do campo do conhecimento, da técnica e da vida profissional. Enfatiza, acima de tudo, uma Terminologia mais adequada à visão da linguagem de especialidade, como uma realização da língua comum em situações cuja especificidade possa ser bem definida pela intenção e as características dos interlocutores.

(28)

Essa perspectiva postula que é necessário entender os termos da forma como eles ocorrem nas mais diversas situações comunicativas, pois do mesmo modo que as palavras do léxico comum, eles são unidades dotadas de significado, que se inserem de forma natural no discurso especializado.

Se para a TGT o termo estava restrito ao significante, para a TCT ele é considerado como o elemento que melhor expressa a dimensão linguística da terminologia, posto que é tomado como um signo e, portanto, constituído de significado e significante

Nos postulados da TCT, as unidades lexicais especializadas, isto é, os termos, além de se caracterizarem como unidades formais e funcionais que fazem parte de um sistema gramatical, são também unidades de comunicação e referência.

Por esse motivo, a linguagem especializada pode ser considerada como parte do léxico da língua comum, integrado a competência do falante, à medida que ele adquire conhecimentos específicos da área. Dessa forma, os elementos da linguagem especializada adquirem dimensões poliédricas que abrange as seguintes faces: linguística, cognitiva e social.

A linguagem especializada é um continuum da linguagem geral, apesar de diferirem na intenção comunicativa e na finalidade de enunciar (Hoffmann, 1998), convergindo assim, com os pressupostos da TCT, que considera ambas as linguagens, especializada e geral, diferenciadas pela situação em que são utilizadas, conforme entendem Krieger e Finatto (2004), Cabré (2001), Bevilacqua (1996). A linguagem especializada é intrínseca à determinada área de conhecimento e gira em torno de uma temática específica, ao passo que a linguagem geral entorna o que é geral, sem recorte ou direcionamento a certa área do saber.

Para Hoffmann (1998), linguagem especializada é o conjunto de todos os recursos linguísticos que se utilizam num âmbito de comunicação, delimitado pelo que faz a especialidade, para garantir a compreensão entre as pessoas que trabalham naquele âmbito.

Cabré afirma que podemos conceber as unidades terminológicas como um conjunto de traços associados a unidades léxicas caracterizadas por sua natureza denominativa-conceitual. Essas unidades são, portanto, dotadas de capacidade de referência e podem exercer funções distintas quando integradas no discurso. Os itens lexicais, por sua vez, podem se constituir em núcleos predicativos ou em argumentos dos predicados (Cabré, 1999).

(29)

Os termos formam parte da linguagem natural, por isso, uma unidade lexical pode assumir o caráter de termo em função do seu uso em um contexto e situação determinados, caracterizando-se por fatores pragmáticos, pela temática específica e usuários especializados, pela situação comunicativa mais ou menos formalizada e por um discurso profissional e científico. Essas unidades lexicais por sua vez, devem ser analisadas em seus contextos reais de ocorrência. Os esforços para definir o que é um termo e examinar qualquer distinção entre diferentes tipos de termos são irrelevantes se o contexto não for considerado (Pearson, 1998). Nas pesquisas norteadas pelos pressupostos do trabalho linguístico baseado em corpus, que é o caso de nossa pesquisa, o contexto é importante para as pesquisas informatizadas em diferentes domínios, porque permite a extração semiautomática de termos e de contextos (SLODZIAN, 2000). Destacamos a importância do contexto para a análise dos termos, em conformidade com que apontam Krieger e Finatto (2004):

(...) o exame do comportamento das unidades terminológicas em seu real contexto de ocorrência, compreendendo que estas unidades aparecem de maneira natural no discurso, não constituindo uma língua à parte, como inicialmente se julgava. Consequentemente, os termos sofrem os efeitos de todos os mecanismos sintagmáticos e pragmáticos das cadeias discursivas que dão suporte à comunicação especializada. (KRIEGER e FINATTO, 2004)

No âmbito da Terminologia, seguimos as perspectivas de viés comunicativo e textual , já que não pretendemos postular normas para padronizar os termos policiais usados no boletim de ocorrência. O nosso objetivo é identificar esses termos para, em conformidade com a linguagem em uso que é registrada nos textos produzidos pelos policiais, explicar a forma como eles ocorrem, são utilizados e entendidos nessa linguagem especializada.

Foi nesse sentido que optamos pela TCT em nosso trabalho, pois nos permite ver o termo como uma unidade da língua comum que é também representante de um conceito temático, juntamente com as funções pragmáticas assumidas na comunicação.

Assim, as unidades lexicais podem ser visualizadas como elementos integrantes e integralizadores do caráter comunicativo que os termos desempenham no discurso. Tal fato nos impulsiona para o desenvolvimento de uma nova visão de comunicação especializada, o texto de especialidade, falado ou escrito, pertencente ao domínio público, expandindo a interação entre leigos e especialistas para além

(30)

das fronteiras estritas das relações profissionais e, ainda mais, tornando-o parte da vida cotidiana do usuário da língua.

Por nos propormos a tratar as unidades lexicais dentro de uma situação comunicacional e discursiva, a seguir destacaremos a extrema relevância do reconhecimento do termo e da articulação de estudos entre a Terminologia e o Texto.

2.4 O Texto Policial e a Terminologia

Com o avanço da computação e a facilidade de acesso a bens, serviços e produtos, os indivíduos acabam por tomar conhecimento de informações que circulam na mídia, principalmente, sobre criminalidade. O que leva à população a necessidade de compreender o universo discursivo dos termos que são usados na comunicação policial, no qual estão inseridos.

A terminologia empregada pelos policiais tanto civis, como militares no registro de ocorrência policial é de extrema importância; seja dentro do universo técnico-jurídico, como fora dele, pois é através da linguagem que os conceitos que presidem o ordenamento da sociedade se conformam, se estabilizam e se transmitem.

Sendo que Costa (2009) salienta, ainda, que a Polícia Civil passa a ser, muitas vezes, a instituição para a qual é feito uma espécie de desabafo daquela parcela da sociedade que é vitimizada, pois a maioria das pessoas que acorre a uma Delegacia de Polícia (DP) sabe que não terá de volta o bem que foi subtraído, ou a vida de quem se foi devolvida, através do ato legal, que é o registro de ocorrência, principalmente pela falta de provas, vestígios ou indícios que apontem para uma pessoa suspeita da autoria.

Segundo a autora, essas pessoas, muitas vezes, querem apenas que alguém as escute, por isso, registram a ocorrência. Entretanto, esse registro não fica estanque na Delegacia de Polícia, pois mesmo sem provas, vestígios ou indícios, ele deve ser investigado para apontar quem cometeu a ação criminosa, gerando assim, uma série de documentos necessários para que a denúncia seja oferecida, os quais somam as peças que compõem o procedimento policial. Ademais, os dados processados na ocorrência policial resultam em dados estatísticos, que se prestam à

(31)

análise criminal, de onde são difundidas as informações que circulam na mídia sobre os crimes, e que dão origem aos índices de criminalidade que motivam os projetos de gestão necessários à atividade policial.

O órgão responsável pelo registro do Boletim de Ocorrência policial (BO), é a Polícia Civil do RS, doravante PC/RS, que é a responsável por proceder ao registro nas Delegacias de Polícia (DPs). A Brigada Militar (BM) faz o registro nos locais onde ocorrem os fatos. Quando há um fato típico e a BM é chamada ao local, os policiais militares (PMs) realizam o registro em um formulário e depois o encaminham digitalizado para a PC/RS.

A Polícia Civil, por sua vez, faz o registro nas Delegacias quando as pessoas para lá se deslocam a fim de comunicar algum fato criminoso ocorrido. Em relação aos registros de ocorrência, destacamos que a elucidação de um fato é desencadeada através da ocorrência policial, que corresponde ao registro das declarações de quem é depoente nesse procedimento. Para isso, o policial civil ou militar preenche os campos do boletim de ocorrência com os dados da pessoa que está procedendo à comunicação e, no campo histórico, deve ser registrada a narrativa detalhada pelo comunicante, por meio da qual são feitas as investigações que, conforme o caso, elucidam a autoria.

O discurso policial nos BOs acontece em um espaço de interação entre o depoente e o escrivão ou o comunicante e o policial militar que, ao relatar os fatos criminosos, pretende narrar e descrever enfaticamente a fala do comunicante e/ou da vítima, caracterizando a sua área de especialidade com a presença de termos típicos da sua área de atuação.

Os registros de ocorrências policiais BOs foram definidos como discursos de denúncia do cidadão contra um fato criminoso, que deseja com este documento medidas judiciais.

Grandes partes das decisões judiciais tomadas nos nossos tribunais têm justamente base no que existe de concreto no boletim de ocorrência presente nos autos, daí se pode ter uma ideia do grande reflexo que este instrumento provoca em todo um ordenamento processual e democrático existente no nosso país e nas relações sociais entre os indivíduos de toda a nação. (Araújo, 2007)

Essa afirmação fundamenta a importância do BO para o processo penal. O campo do histórico, objeto de nossa investigação, agrega a narrativa dos fatos

(32)

comunicados pelo cidadão. O estudo da terminologia policial baseado nesse documento demonstra os termos peculiares da área policial, inseridos no contexto.

É extremamente relevante esclarecermos que tanto a BM, como a PC/RS evidenciam a linguagem especializada policial nos BOs, a partir das declarações de um comunicante que é leigo da área. Segundo Costa (2009), como o histórico é o registro, realizado pelos policiais contém termos específicos da sua área de especialidade, uma vez que este documento é encaminhado a outros policiais, a fim de desencadear investigações. A partir desses documentos temos os primeiros passos norteadores de instrução, que irão auxiliar os procedimentos de investigação dos policiais e servirá como instrumento de justiça a juízes, promotores e advogados, bem como, os órgãos governamentais que tem permissão para acesso eletrônico às informações do registro.

É importante ressaltar também que compete ao poder judiciário julgar as infrações às regras, dizendo se houve ou não, em maior ou menor grau, infrações penais. Compete ao Ministério Público a tomada de iniciativas no que diz respeito à provocação da ação penal, ou seja, a realização dos Processos Judiciais. Os promotores instigam o pronunciamento judicial por meio da denúncia e por meio da queixa, tendo em vista que se trata de relatos de ocorrências criminais que apresentam os infratores e o contexto em questão.

Além disso, para que o Poder Judiciário e o Ministério Público possam realizar a sua função de forma eficiente, faz-se necessário que a Polícia Civil e a Brigada Militar possam também ser esclarecedores na narração dos fatos nos BOs, evidenciando assim, sua função de forma significativa. Na realidade, a PC/RS se apresenta como a organização responsável pela apuração de casos concretos de infrações penais e também de fatos considerados como não normais. Para isso, a PC/RS fornece ao Ministério Público os elementos necessários à organização dos relatos, uma vez que são eles, os policiais, que possuem atribuições e recursos para a referida questão.

Além disso, salientamos que os termos devem ser analisados nos seus contextos reais de ocorrência. Os esforços para definir o que é um termo e examinar qualquer distinção entre diferentes tipos de termos são irrelevantes se o contexto não for considerado (Pearson, 1998). O que percebemos também nas palavras de Krieger e Finatto (2004):

(33)

(...) o exame do comportamento das unidades terminológicas em seu real contexto de ocorrência, compreendendo que estas unidades aparecem de maneira natural no discurso, não constituindo uma língua à parte, como inicialmente se julgava. Consequentemente, os termos sofrem os efeitos de todos os mecanismos sintagmáticos e pragmáticos das cadeias discursivas que dão suporte à comunicação especializada. (Krieger e Finatto, 2004)

Cabe salientar também, que o texto de especialidade pode ser definido de acordo com critérios externos, que são a temática e a perspectiva segundo a qual o objeto é abordado, a situação de comunicação, os usuários e também a funcionalidade do texto; ou através de critérios internos, que correspondem às características referentes aos recursos lexicais, morfológicos, sintáticos, estilísticos e marcas na macroestrutura. Nesse sentido, os termos são uma das características mais evidentes de um texto especializado. O texto especializado deve ser descrito e caracterizado com a observância de todas as suas dimensões; porém a noção de especialidade deveria poder definir-se a partir de um estudo linguístico e estrutural (Ciapuscio, 2003)

Os termos diferem das palavras quando vistos através dos critérios pragmáticos e comunicativos (Cabré, 1993). Eles não compõem um sistema lexical independente, por isso, têm uma forma fonética e gráfica em conformidade com a estrutura fonológica de cada linguagem em que são empregados. Sua formação e flexão obedecem às leis morfossintáticas comuns, agrupando-se em classes gramaticais, combinando-se em sintagmas e orações, respeitando as regras usuais de distribuição e organizando-se para formar textos que seguem os princípios gerais de redação de textos orais ou escritos de todo o gênero.

Cabré (1999) nos elucida que os termos, além da categoria nominal, tradicionalmente estabelecida, na linguagem especializada podem assumir outras categorias gramaticais, já que compartilham das mesmas categorias que o léxico comum, ainda que as palavras eminentemente funcionais, como preposições, conjunções, artigos e pronomes, não comportem caráter terminológico. Nesse prisma, os verbos somam um dos traços peculiares que configuram a especificidade dos termos empregados na linguagem jurídica (Maciel, 2001). Segundo Costa (2009), os verbos performativos, isto é, aqueles que realizam, pela enunciação, a

(34)

ação que exprimem, ao realizarem ações específicas do mundo jurídico, ativam o valor jurídico de seu sujeito e seus complementos.

Nesse sentido, a Terminologia tem e muito a contribuir para dar a conhecer sobre a unidade lexical especializada caracterizadora desta tipologia textual jurídica em análise: os registros de ocorrências policiais.

2.5 Terminologia e Texto

“Os elementos textuais e discursivos corroboram a determinação de unidades terminológicas, o componente pragmático das comunicações especializadas explica, muitas vezes, o funcionamento das terminologias.”

( Krieger)

Há que se considerar a inegável inter-relação entre o texto, o discurso e os termos. Mais do que nunca, entendemos que a Terminologia possui uma estreita relação com os sistemas linguísticos, textuais e discursivos. Como bem nos assevera Krieger (2008): se uma teoria da Terminologia procura oferecer princípios para apreender o estatuto terminológico de uma unidade lexical, os componentes cognitivos, linguísticos e pragmáticos da comunicação especializada ganham relevância. Na mesma linha, o reconhecimento dos mecanismos que engendram a organização narrativa dos textos e dos discursos são elementos que auxiliam largamente a identificar o estatuto terminológico de um item lexical. De acordo com a autora, se uma unidade lexical ganha estatuto de termo especializado no universo de discurso em que se insere, descrever esse universo é etapa metodológica indispensável no quadro dos procedimentos de identificação dessas unidades.

Colocadas essas considerações, recorremos aos estudos de Kocourek (1996), que nos diz que a problemática de reconhecimento dos termos e de seus traços característicos não se concentra em um ou outro nível de expressão linguística, mas se encontra dispersa em diferentes patamares: na área lexical, no aspecto semântico, na área textual e nos indícios pragmáticos. Vemos uma convergência nos estudos desse autor para a articulação a que nos propomos em

(35)

nosso trabalho, entre a Terminologia de Cunho Comunicativa e Textual (TCT) e os estudos do Texto e do Discurso em A. J. Greimas (1993), salientamos também alguns autores que serviram de ancoragem teórica em nossos trabalho: Barros (2008) e Marcuschi (2008).

Além disso, a TCT propõe o modelo das portas abertas que postula a Terminologia ao estar centrada sobre a base de uma teoria da linguagem, uma teoria do conhecimento e uma teoria da comunicação, permitindo que se possa ver o termo sob qualquer uma destas perspectivas. Uma vez que, a TCT admite o termo como unidade de forma e conteúdo (termos são signos linguísticos) que pode adquirir valor especializado, dependendo do uso. A Teoria Comunicativa da Terminologia abarca o princípio de integração de diversas teorias para análise dos diferentes aspectos de um termo.

Nesse sentido, em todo tipo de manifestação comunicativa, temos necessariamente um discurso imbricado. Nessas manifestações, é o texto um dos principais componentes da ação comunicativa verbalizada. A linguagem especializada se processa por meio de um vocabulário específico, que dentre as possíveis formas de expressão, se manifesta nos textos. Entendemos o texto do mesmo modo que Eco (1984), como um sistema semiótico bem organizado, um signo já é um texto virtual, e, num processo de comunicação, um texto nada mais é que a expansão da virtualidade de um sistema de signo.

O texto, como objeto de estudo, é passível de análise sob vários enfoques e metodologias, cuja investigação pode ocorrer em nível formal, funcional, gramatical, semântico, pragmático ou cognitivo. Também pode ser analisado pelo viés da produção, recepção, ou como resultado de um processo comunicativo. A análise do texto pode privilegiar determinado aspecto dos que foram citados. Nesta pesquisa, analisamos o texto como resultado de uma situação comunicativa especializada e, portanto, como texto especializado.

Hoffmann (1998), aponta que para adotar uma definição de texto especializado, é necessário considerar aspectos como autoria, objetivos e estratégia de comunicação. O texto especializado é o resultado de uma atividade comunicativa sócio-produtiva especializada, compondo assim, uma unidade estrutural e funcional, formada por um conjunto ordenado e finito de orações coerentes pragmática,

(36)

sintática e semanticamente, ou de unidades com valor de oração, que correspondem à realidade objetiva. (Hoffmann, 1998).

Como descreve o autor, a estrutura desse texto depende do seu autor, dos seus objetivos e da sua estratégia de comunicação, e tem peculiaridades que se realizam de várias formas, que podem aparecer na macroestrutura do texto, na relação estabelecida entre os elementos linguísticos do texto e na utilização de determinadas estruturas sintáticas, lexicais e morfológicas. O texto especializado deve ser descrito e caracterizado com a observância de todas as suas dimensões;

porém a noção de especialidade deveria poder definir-se a partir de um estudo linguístico e estrutural (Ciapuscio, 2003). De acordo com Costa (2009), é inquestionável que o texto especializado possa definir-se como tal segundo critérios funcionais, situacionais e temáticos. Entretanto, esses critérios, que são externos ou globais, têm seu correlato nos traços linguísticos; por isso, uma descrição dos textos especializados deve partir de uma concepção ampla e compreensiva do texto, que dê ênfase necessária no seu contexto real de uso.

Além disso, o texto de especialidade pode ser definido também de acordo com critérios externos, que são a temática e a perspectiva segundo a qual o objeto é abordado, a situação de comunicação, os usuários e também a funcionalidade do texto; ou através de critérios internos, que correspondem às características referentes aos recursos lexicais, morfológicos, sintáticos, estilísticos e marcas na macroestrutura. Nesse sentido, os termos são uma das características mais evidentes de um texto especializado.

Os textos especializados, segundo Costa (2009), representam um conjunto de características típicas contextuais (situacionais), funcionais e estruturais (gramaticais e temáticas). Dentre as suas características, destaca-se a forte coerência pragmática e semântica, pois o objeto de comunicação, em consonância com o sistema de conhecimentos, domina os elementos do texto e a sua distribuição (Hoffmann, 1998). Segundo o autor, o texto especializado é uma associação dos fatores funcionais ou comunicativos, com os linguísticos ou estruturais. A macroestrutura, que diz respeito às ideias, é característica essencial e está expressa na superfície como uma sucessão de subtextos, determinada pela função e pelo tema dos subtextos em relação à totalidade do texto, em uma espécie de relação hierárquica com a sua lógica narrativa.

(37)

Cabe destacar, que todo texto é constituído de sequências em que se percebe uma sucessão de ações que são passíveis ao nosso entender de serem explicáveis, através das relações na forma de diferenças e oposições que só podem ser reconhecias como valores, ou seja, através das relações das propriedades umas frente às outras. Dessa forma, explicitar os elementos constitutivos da narratividade dos boletins de ocorrência (BOs) nos levará para o reconhecimento mais refinado deste tipo de texto, levando-nos a identificar as especificidades desta área de especialidade, dentro deste cenário comunicativo, a qual se pretende traçar uma análise. E, como bem nos diz Barros (2008): o que ele diz e, como faz para dizer o que diz.

Ainda no âmbito dessa questão anteriormente explicitada reconhecer os meandros da semântica do plano narrativo para evidenciar a constituição da narratividade nos históricos dos boletins de ocorrência é de extrema importância.

Uma vez que, os termos apresentam particularidades no sentido de que a relação significante/significado reflete escolhas designativas motivadas. O que concordamos com as palavras de A. J. Greimas:

“la génération de la signification ne passe pas, d’abord, par la production des énoncés et leur combinaison en discours; elle est relayée, dans son parcours,par les structures narratives et ce sont elles qui produisent le discours senséarticulé en énoncés. Dès lors, on voit que l’élaboration d’une théorie de la narrativité qui justifierait et fonderait en droit l’analyse narrative comme un domaine de recherches méthodologiquement autosuffisant, ne consiste pas seulement dans le perfectionnement et la formalisation des modèles narratifs obtenus par des descriptions de plus en plus nombreuses et variées, ni dans une typologie de ces modèles qui les subsumerait tous, mais aussi, et surtout, dans l’installation des structures narratives en tant qu’instance autonome à l’intérieur de l’économie générale de la sémiotique, conçue comme science de la signification”. 4 O que também podemos perceber nas palavras de Marcuschi (2008), um texto também é uma proposta de sentido e ele não pode ser visto como uma virtualidade, mas sim, como uma realidade. Realidade esta que, a nosso ver, é uma realização linguística e terminológica, em um processo de interação comunicacional, em que os actantes se dão a conhecer.

É nesse ambiente discursivo-textual que se buscou descobrir mais sobre as relações de sentido e que terminologia temos nesse contrato de comunicação.

Nesse sentido, o ato de linguagem se converte em um duplo movimento: exocêntrico

4 Du sens: essais sémiotiques. Paris: Du Seuil, 1970, p. 159.

Referências

Documentos relacionados