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Tabulação dos Termos com o Unitex

No documento LISTA DE QUADROS (páginas 76-87)

4. PROCEDIMENTOS ANALÍTICOS

4.5 Tabulação dos Termos com o Unitex

O UNITEX é uma ferramenta computacional que foi desenvolvida por Sébastien Paumier da Universidade Marne-La-Valée (França) com o intuito de possibilitar o tratamento de textos em língua natural utilizando recursos linguísticos.

Como o programa UNITEX permite a separação dos textos por frases e se pode classificar cada uma das entradas lexicais em todas as possibilidades gramaticais, este sistema permitiu-nos verificar então, as terminologias mais recorrentes nos boletins de ocorrência analisados da PC/RS e da BM/RS; e, com isso nos possibilitou a elaboração de tabulações que procuramos mostrar quais são os termos mais e/ou menos recorrentes neste discurso de especialidade. Abaixo temos um exemplo de como foi realizado o procedimento de contagem de termos de cada BO. No caso, está sendo demonstrado a análise do BO1.

Figura 2 - Tela do programa UNITEX demonstrando o levantamento inicial dos termos.

Após analisarmos os BOs no software Unitex, confeccionamos uma tabela com a listagem dos termos mais recorrentes nos BOs. A tabela mostra os termos seguidos de sua frequência em ordem decrescente. Ao todo, encontramos 26 termos considerando a frequência mínima 3.

Quadro 2 – Listagem dos termos seguidos de sua frequência

Termos Contagem

vítimas 40

comunicante 24

agressores 23

arma 18

arma branca 12

arma de fogo 10

acusado 9

policiais 9

disparos 9

Desferidos ( disparos) 9

registro 8

indivíduo 7

testemunhas 6

lesões corporais 6

assaltos 5

medidas protetivas 5

meliantes 5

menores infratores 5

ameaças 4

crimes 4

furtos 4

golpe 4

requisições 4

apreensão 3

ocorrência 3

sangramento 3

Aos fatos relacionados temos: os termos, o meio e o objeto em posição de valor, pela diferença. Além disso, temos uma narrativa que vai classificando o fato por tipo de delito, actantes principais do ambiente externo (da elaboração do BO) em que temos como actantes: S1 comunicante e S2 escrivão, no ambiente interno próprio da narratividade temos os sujeitos S1 vítima e S2 agressor envolvidos em uma ação criminosa que é relatada pelo policial com o uso de uma terminologia que evidencia sua área de especialidade. Além disso, temos uma narrativa que vai classificando o fato por tipo de delito, o escrivão/PM que narra em 3ª pessoa o boletim de ocorrência instaura no modo de seu saber-fazer, um discurso especializado que se atualiza no uso, em que o foco assegura a categorização dos fatos criminais, dos sujeitos, caracterizando os procedimentos da análise o que nos permite confirmar sua identidade de texto técnico-jurídico, ancorado no uso de uma terminologia policial.

Abaixo demonstramos a fins de comprovação a frequência e as regularidades da terminologia presente na macroestrutura dos boletins de ocorrência. O que vem a validar o uso dos termos como parte integrante da linguagem de uma área da esfera jurídico-policial.

Cabe salientar também, que essa comunicação especializada se legitimou na observação do corpus, o que nos mostrou algumas formas cristalizadas tanto pelos verbos do presente da narrativa instaurados pelo policial produtor do texto, que indica o comunicante do relato, as adjetivações dadas à vítima e ao agressor e os verbos do pretérito perfeito do indicativo no desenrolar das ações. Exercendo a função de fórmulas para transmitir, de forma eficaz, a informação que devem comunicar. A eficácia a qual se prestam decorre da necessidade de embasar, com convicção, determinadas informações que irão sustentar os argumentos através da terminologia posta em uso pelos profissionais da área de especialidade dentro desta esfera jurídico-policial.

Além disso, foi possível após a seleção dos termos que compõe a narrativa dos boletins de ocorrência submetê-las aos olhares de especialistas da área que possuem formação policial e terminológica, os quais nos auxiliaram no reconhecimento dos termos, na compreensão dos dados levantados em nossa pesquisa. Além disso, a partir da tabela de listagem dos termos (pág. 77), foi possível elaborarmos um gráfico que apresenta os termos mais frequentes nos

boletins de ocorrência com seus índices de frequência. O eixo vertical (y) indica a contagem dos termos.

Observamos, que o termo “vítimas” é o de maior incidência aparece 40 vezes, confirmando assim como vimos pela semiótica esse como o principal actante da narrativa, relacionado com o objeto valor: o fato criminoso em disjunção com S2

(agressor) que se opera uma transformação de estado nesse S1 (vítima) descritas em um gênero textual que se legitima como técnico jurídico pelo uso da terminologia empregada nesse discurso de especialidade. Conforme o gráfico abaixo:

Figura 3 - Distribuição de frequência dos seis termos mais recorrentes nos BOs.

Como foi explicitado no primeiro capítulo deste trabalho, esta pesquisa teve por objetivo geral explicar a organização da narrativa dos boletins de ocorrência (BO), e elencar alguns dos termos técnicos que a compõe. Os objetivos específicos foram descrever a organização narrativa dos BOs pelo viés da semiótica greimasiana; verificar as diferenças macroestruturais dos históricos de BOs produzidos pela Polícia Civil e pela Brigada Militar; identificar os principais actantes desse processo através das estruturas discursivas dos BOS, e estabelecer relações entre a organização narrativa dos BOs e a presença de termos técnicos.

No término da pesquisa, podemos afirmar que os fatos descritos na análise dos dados do corpus, e também na tabulação e levantamento dos termos, revelam a realidade dessa linguagem especializada, tendo em vista que os policiais que elaboram os textos especializados empregam termos específicos para enquadrar a ação efetuada pelo infringente da lei, bem como os demais envolvidos, como mostra o encadeamento da lógica narrativa. Como exemplo desses termos, destacamos disparos, agressão, arma branca, arma de fogo e vítima. Em que pese o fato de serem termos técnicos da área policial, não trazemos a esta pesquisa a definição dos termos citados porque, além de não ser nosso objetivo delimitar as definições que são atribuídas a essa terminologia, não existe estudo científico que dê conta de repertoriar os termos empregados pela PC.

Os históricos dos BOs que foram analisados mostraram que o texto policial inicia com verbos no presente e em 3ª pessoa, a exemplo dos excertos comunicante relata, comparece nesta DP e apresenta nesta DPPA. Para evidenciar o acontecido (o fato criminoso em si) são empregados verbos no pretérito perfeito do indicativo, tais como foi vítima de, foi agredida, foi furtado, agrediu, efetuou golpe, etc.

Nos textos analisados, predomina o tempo verbal de transição entre os mundos narrado e comentado, haja vista o escrivão ter de narrar os fatos que o depoente está declarando, o que constitui uma narrativa. A organização dessa narrativa, analisada pelo viés da semiótica greimasiana, mostrou que no ambiente externo temos como actantes S1 comunicante e S2 escrivão (ou PM), e no ambiente interno, próprio da narratividade temos os sujeitos S1 vítima e S2 agressor,

envolvidos pelo desenrolar dos fatos narrados. A transição entre os mundos existe porque mesmo necessitando mostrar a sua imparcialidade na elaboração do BO, o escrivão não deixa de inserir no texto a sua competência terminológica, através do uso de termos técnicos, uma vez que a situação do depoimento mostra, além das declarações, o contexto do fato, contexto esse ao qual o escrivão tem acesso quando registra o depoimento. Cabe destacar que o registro da ocorrência corresponde ao primeiro relato do fato ocorrido, o que o torna rico em detalhes, cuja narrativa é ímpar.

As diferenças macroestruturais que existem entre os textos produzidos pela Polícia Civil e pela Brigada Militar foram apontadas na página 59, que mostra uma macroestrutura diferente nos textos elaborados pela Brigada Militar pelo seguinte:

enquanto que a PC depende da presença do comunicante, na Delegacia de Polícia, para registrar o BO, salvo os locais de crime, a BM desloca para o local onde o fato ocorreu, ou está ocorrendo, gerando, com isso, duas versões na estrutura da narrativa, marcadas pelas expressões versão da vítima, versão do policial, ou ainda, versão do acusado.

Identificamos que os fatos relacionam os termos, o meio e o objeto, considerando que o contexto especializado determina, além da macroestrutura textual, também os termos que são empregados, tais como disparos, agressão, arma branca e arma de fogo, e o tipo de delito cometido (lesão corporal, tentativa de homicídio, furto, dentre outros).

O gênero textual boletim de ocorrência policial legitima o contexto especializado e transmite o conhecimento da área de especialidade, uma vez que é empregado visando a persecução penal, como sendo a célula embrionária da ação penal que pode desencadear a sentença que é aplicada pelo Poder Judiciário.

Diante dos arrazoados aqui expostos, afirmamos que os objetivos propostos foram plenamente cumpridos. Não obstante ao cumprimento do que foi proposto, a presente pesquisa conforma uma pequena contribuição para os estudos que aliem o princípio de observar os termos em nível de relações textuais e discursivas, e que também considerem os sujeitos que compõem a trama dos textos jurídicos. A ciência da linguagem possui muitas áreas, que podem focalizar a área policial, que é pouco explorada nos estudos linguísticos em virtude do sigilo de determinados procedimentos, conformando, assim, uma via de mão dupla, beneficiando, de um lado, a instituição policial com pesquisas que certamente irão aprimorar o trabalho

prestado à esfera social, e, de outro lado, contribuir para o meio acadêmico através do estudo de uma área – policial - que começa a ser melhor entendida e consolidada, e que, segundo Costa (2009) é definida como área especializada jurídico-policial.

O cotejamento entre o Direito Penal e a linguística, no âmbito da terminologia e da semiótica, denota a função social dos estudos linguísticos, a partir do momento que estes exploram uma terminologia em textos ricos que estatuem a área especializada na qual são empregados. A Polícia Judiciária registra todas as suas diligencias através da escrita, por isso a máxima o que não está nos autos não está no mundo. Sendo assim, a pesquisa ora proposta tem a possibilidade de ser expandida para dar conta de descrever a macroestrutura de outros textos que são produzidos por essa polícia, tais como Ordem e Relatório de Serviço, Auto de Avaliação, Apreensão e Restituição, Relatório Final, Termo de Declaração, dentre outros, uma vez que tudo o que a Polícia Civil produz é registrado pelo ato de escrever, organizado cronologicamente, através de textos especializados que, em virtude da temática, dos usuários e da função, adquirem características peculiares;

ou de pesquisar a etimologia dos termos que são empregados pela Polícia Civil, de modo a contribuir com pesquisa que já está em fase de desenvolvimento, e que repertoria a terminologia policial em um glossário digital.

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