CAPÍTULO 2 ESPAÇO: PRODUÇÃO E CIRCULAÇÃO
3.1 O uso da logística e sua difusão no Brasil
A logística se estabelece como uma forma de circulação contemporânea, utilizada principalmente por grandes corporações. Ela é o setor de uma empresa, ou uma empresa prestadora de serviço, responsável por gerenciar e coordenar fluxos de informações e de mercadorias, setores de armazenagem, e transporte de maneira integrada:
Logística é um ramo de atividade econômica que lida, de forma coordenada e racional, com o controle e a movimentação dos fluxos de mercadorias e serviços, procurando integrar mais de uma atividade relacionada à movimentação de mercadorias, entre as quais: transporte, armazenamento, controle de estoques entre outras. Cada um desses itens
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realizados separadamente não é logística (SILVA JUNIOR, 2009, p. 258).
Castillo (2004, p. 6) compreende a logística como:
[...] o conjunto de processos, procedimentos e ações que visa organizar e otimizar o movimento de produtos desde o fornecimento de insumos até o consumo final. Implica no acompanhamento do produto em seu movimento, gerenciamento de estoques, jus-in-time/justi-in-place, importação/exportação e outros serviços vinculados ao armazenamento, distribuição e agregação de valor aos fluxos matérias (certificação, embalagem, etiquetagem etc.),
Nesse sentido, a logística é um ramo empresarial que tenta organizar os fluxos de informações e mercadorias de maneira a satisfazer a entrega o quanto mais ágil a seu destino final. Tem o objetivo de facilitar os fluxos dos produtos desde a obtenção de "matéria-prima até o ponto de consumo final, assim como dos fluxos de informação que colocam os produtos em movimento, com propósito de providenciar níveis de serviços adequados aos clientes a um custo razoável" (BALLOU, 1993, p. 20). E, segundo Ballou (1993), o processamento de pedidos, a manutenção de estoques e os transportes são atividades importantes dos serviços logísticos.
Os primeiros conhecimentos sobre essa atividade iniciam-se na década de 1960 nos Estados Unidos (BALLOU, 1993), com os primeiros cursos de graduação em Logística que surgiram nas Universidades de Michigan e Ohio. Essa década compreende o início do paradigma logístico-telemático33, no qual a telemática (informática, satélites, televisão,) ganha um grande incremento e, no setor de transportes, a criação do contêiner é decisivo para o estabelecimento da intermodalidade (SILVA JUNIOR, 2009). Conforme Silva Junior (2009), a partir desse momento o planejamento logístico, com base nas tecnologias da informação e das telecomunicações (TIC), emerge como o principal instrumento corporativo para a obtenção da velocidade e da competitividade. O autor mostra que, no Brasil, o primeiro terminal de movimentação de contêineres só foi instalado em 1981, denominado Terminal de Contêineres do Porto de Santos da Margem Esquerda (Tecon).
Na década de 1970, época de grande difusão do meio técnico-científico- informacional e de crise do modelo fordista34 no mundo, que abre oportunidade para um
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Silva Junior (2009) dedica um capítulo de sua tese de doutorado a falar do paradigma logístico-telemático.
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Sistema de trabalho e produção criado em 1903 por Henry Ford imposto em sua firma Ford Motor
Company (baseado em produção em massa, de automóveis, grandes estoques, firmas verticais, etc), com
agregações do modelo Taylorista (divisão do trabalho, linhas de montagem), de Frederick W.Taylor. Alguns dos motivos de sua decadência foi sua grande concentração de trabalhadores em fabricas, os quais se
73 novo modelo de trabalho e produção, o sistema Toyotista, de modelo horizontal com firmas terceirizadas, nas quais diversas partes de um mesmo produto já não são exclusivamente feitas pela mesma empresa. Este fato traz uma especialização regional produtiva, ou seja, nesse novo padrão de produção as empresas transnacionais dividem sua produção no nível mundial, causando, assim, especializações entre os lugares e uma nova divisão internacional do trabalho é imposta.
No sistema Toyotista, o modelo de produção flexível caracteriza-se por mercadorias personalizadas; sistema de zero estoque; com a fabricação do produto depois de já vendido; o sistema just-in-time; visando sempre maior velocidade com entrega na hora certa. E por fim a logística se torna fator essencial para integrar os mercados, desde as etapas de pré-produção, produção e ao seu destino final, a porta do consumidor. Então o sistema de produção passa por um processo de reestruturação (MONIÉ, 2003, SILVA JUNIOR, 2009, PINTO, 2010). E assim, a partir de 1970, o modelo Toyotista35 se liberta de suas fronteiras nacionais para conquistar o mundo, mostrando-se como modelo de produção hegemônico na contemporaneidade.
No caso da agroindústria, Belik (1994) mostra que a reestruturação na indústria de alimentos se deu amplamente nos anos de 1970 em países desenvolvidos. E nesta mesma década, no Brasil, o autor afirma que, mesmo com significativa expansão da agroindústria processadora nos anos de 1970 e 1980, não se pode falar em reestruturação plena, mas de muitas transformações no setor alimentar (BELIK, 1994). Podemos indicar, então, que a década de 1970 é o início da caminha ao processo de reestruturação da agricultura e que esse processo se intensifica em finais dos anos de 1985 até 1990, quando são mais intensas as parcerias e fusões na indústria agroalimentar com empresas estrangeiras (BELIK, 1994). A logística apresenta-se, neste momento, como grande diferencial destas empresas de alimentos, pois estas precisam cada vez ter agilidade no escoamento de seus produtos, tanto no sentido de fazer em menos tempo a cadeia produtiva de um produto, ou seu circuito espacial, para poder realizar a mais-valia em menos tempo, como pela perecibilidade dos alimentos, que necessitam de agilidade na exportação. Esse novo tipo de produção abre, assim, as portas para um novo tipo de circulação, pautado na velocidade e
mobilizavam em greves contra o sistema, e também o avanço das tecnologias como a automação, que já não condizia com o antigo padrão de produção (PINTO, 2007).
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Sistema de organização do trabalho e da produção capitalista, criada por Kiichiro Toyoda dono da Toyota e por Taiichi Ohno engenheiro industrial da Toyota, primeiramente atendeu a industria têxtil da Toyota, depois se expandiu para o ramo de automóveis personalizados, esse modelo teve vários reajustes desde 1947 até 1970 (PINTO, 2007).
74 eficiência na qual, conforme Silva Junior (2009), a logística é uma forma de circulação contralada principalmente pelos atores hegemônicos.
Santos (2006, 2008a, 2011) enfatiza que em cada período histórico é possível contemplar inovações nos sistemas técnicos e de engenharias (grandes objetos fixos, biotecnologia, indústria, transportes e comunicações). E, também, em cada período, é possível ver as transformações nos sistemas normativos (leis, acordos, etc.). Essas inovações logo se adaptam ao processo produtivo e na circulação de pessoas, bens, informações, produtos e mercadorias, com maior ou menor intensidade, segundo o local e o país que se instalam. Como o caso da reestruturação na indústria de alimentos que se deu de maneira diferente no Brasil e nos países europeus e norte americano.
Neste sentido, o da criação de sistemas técnicos e de engenharia, é que no próximo item mostramos brevemente a provisão de infraestrutura de transporte e comunicação no Brasil do século XX.