2 GRAZIANO, 1999; ANDION, 2007.
1.5 MODELO DE ANÁLISE
1.6.2 Objetivos Específicos
1- Mapear os novos atores (ONGs, movimentos sociais, e aportes públicos (crédito, secretarias, fóruns) existentes nos municípios desde a década de 1990.
2- Construir uma “linha do tempo” da trajetória de cada grupo (GPL e GPC) considerando as origens, as motivações, o número de membros, as parcerias, os aportes públicos e os projetos efetivados.
3- Verificar qual a compreensão da rede enquanto “estratégia- rede”, ou seja, como modo de mobilização em prol de uma causa considerada comum.
4- Tendo em vista a importância da dimensão política, será verificada a relação dos nós com os atores do âmbito do estado que trabalham com o desenvolvimento rural, tais como Epagri, Secretarias de Agricultura, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Comissão de Agricultura, e também com atores da sociedade civil, tais como MST, ONGs, fóruns.
5- Destacar indícios dos resultados da pesquisa possíveis de serem generalizáveis à Rede Ecovida de Agroecologia, em seu conjunto.
1.7 JUSTIFICATIVA
Conforme a revisão de literatura, pode-se colocar que existe uma diversidade de pesquisas mostrando os benefícios da agricultura familiar, em especial da agroecologia, por ser mais sustentável e equitativa. Assim como seus principais desafios, em termos de
dificuldade na comercialização, falta de políticas públicas e de maior apoio institucional etc. No entanto, há poucas análises empíricas voltadas para a compreensão dos padrões relacionais vigentes nessas experiências e dos seus impactos na dinâmica dessas inovações. Embora os estudos sobre redes tenham se ampliado, ainda está presente em alguns casos certo idealismo em relação a essas estruturas, existindo poucas análises consistentes baseadas em dados empíricos. No caso dos estudos sobre redes de agroecologia, em geral, tem se limitado a aspectos pontuais como gênero, trabalho, comercialização, sendo raros os que utilizam a metodologia de análise de redes sociais. Segundo Lugo-Morin (2011, p. 03),
existe una carencia de una agenda de investigación en el análisis de redes sociales en el marco de una problemática rural latinoamericana. Esta afirmación es secundada secundada por Núñez-Espinoza (2008), que propone em su estudio una agenda de investigación para una problemática concreta del desarrollo rural enfocada en la construcción de redes sociales de comunicación y su importancia para el desarrollo rural en zonas marginadas de América Latina. Além disso, as pesquisas5 com esse perfil tem conferido ênfase às mediações (ONGs, fóruns, movimentos sociais etc), tendendo a desconsiderar a diversidade de atores envolvidos nesses processos.
Considerando esses aspectos, a inovação desta pesquisa consiste em procurar ir além das análises pautadas nas potencialidades e desafios dessas inovações, procurando explicar por que se estruturam de uma forma e não de outra, e qual o significado dessa estrutura reticular na dinâmica dessas iniciativas. Para tal, além da análise de dados convencionais, a pesquisa faz uso da análise relacional, tendo por pressuposto que as relações sociais condicionam as dinâmicas desses processos. Com isso, lança luzes em outros aspectos de difícil alcance por análises focadas nos atributos dos atores, que em geral, tendem a propiciar leituras fragmentadas e, não raro, descritivas dessas experiências.
Um dos fatores que contribuiu para a construção dessa análise, pautada nas estruturas relacionais, foi a realização, pela autora desta pesquisa, de cursos na modalidade e-learning na Universidade
5 Exemplos ilustrativos são: “A rede, os nós, as teias – Tecnologias Alternativas
na Agricultura” (ABRAMOVAY, 2000); “Redes Emancipatórias: nas lutas contra a exclusão e por direitos humanos” (SCHERER-WARREN, 2012).
Bolivariana do Chile e ARSChile (http://www.arschile.cl/site/). Ambos versaram sobre redes e gestão de redes sociais, sendo o primeiro denominado “Análise e Gestão de Redes Sociais” e o segundo, “Análise e Gestão de Redes Sociais em Projetos de Desenvolvimento Rural”, tendo sido efetuados em 2006 e 2011, respectivamente.
Afora a contribuição teórica, em termos práticos esta pesquisa poderá contribuir para ajustes na performance dos atores implicados nessas dinâmicas, assim como nas políticas públicas. Como já referido, a sustentabilidade e a organização em rede são cada vez mais consideradas na construção de novas modalidades de desenvolvimento. Dessa forma, torna-se fundamental o fortalecimento das experiências que sinalizam nessa direção, pois o que de fato conta, em termos de difusão dessas inovações, são os bons exemplos, os quais passam a constituir-se como polos irradiadores.
1.8 METODOLOGIA
O presente trabalho se insere no âmbito de pesquisas do Núcleo Transdisciplinar de Desenvolvimento e Meio Ambiente (NMD) da Universidade Federal de Santa Catarina, mais especificamente na linha de pesquisa sobre Desenvolvimento Territorial Sustentável na Zona Costeira Catarinense. O NMD, desde sua fundação em 1987, tem privilegiado pesquisas nessa região, a qual vem sendo considerada a sua região laboratório. Em função da trajetória pessoal e profissional da autora, filha de agricultores familiares e estudiosa de temas do âmbito rural, a inserção nessa região privilegiou a zona rural. As pesquisas exploratórias iniciaram em fins de 2009 e início de 2010, tendo por eixo norteador as populações em situação de vulnerabilidade social.
Com base na revisão de literatura, em especial nos estudos de caso realizados nessa região6 e entrevistas exploratórias, a princípio o município de Imaruí foi selecionado para análise. Isso porque além de apresentar o menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da região, tem um dos maiores índices de população residente no meio rural, tendo sido no passado um polo agrícola do local. De forma semelhante aos demais municípios da zona costeira catarinense teve um significativo êxodo rural com a consequente desagregação das atividades tradicionais, agricultura e pesca. A pesquisa exploratória
6 Entre os principais, podem se destacar: PEREIRA, 2010; CORDEIRO, 2010; ADRIANO, 2006; SANTIN, 2005; ARAÚJO, 2008; BITENCOURT, 2006; VIEIRA et al, 2007.
nesse município teve uma duração média de quatro meses em que foram visitados sindicatos de pescadores, de trabalhadores rurais, propriedades agrícolas, instituições e órgãos públicos como prefeitura municipal, Epagri, entre outros. De modo geral, o que se pode perceber foi um descrédito por parte da população em termos de revitalização do local e de investimentos em inovações.
No princípio chamou atenção uma ONG inserida há pouco no município, o IPPS (Instituto de Políticas Públicas e Sociais) que parecia ser protagônica e, principalmente, um diferencial em relação às demais organizações existentes. Porém, com o passar do tempo foi possível perceber que os objetivos da ONG não convergiam com os pressupostos desta pesquisa em termos de priorizar novas modalidades de desenvolvimento, na perspectiva do Desenvolvimento Territorial Sustentável. Posteriormente, através de informações da comunidade local foi possível tomar conhecimento de uma comunidade na divisa do município de Imaruí com Laguna que estava investindo na produção agroecológica, sendo um diferencial na região. Ao visitar o local verificou-se um significativo entusiasmo por parte dos moradores com as experiências em agroecologia que estavam se desenvolvendo na comunidade. A partir disso, como referido na introdução desta pesquisa, o direcionamento do trabalho tomou um novo rumo, sendo a Rede Ecovida de Agroecologia tomada por locus de análise.
Após definida a unidade de análise foi intensificado o acompanhamento das atividades7 da Rede Ecovida, como participação em reuniões, audiências públicas, visitas aos grupos do Núcleo Litoral Catarinense, entre outros. Com base no material coletado, na observação direta, nas conversas com os agricultores, foram selecionados para análise dois grupos do referido núcleo, de Paulo Lopes (GPL) e de Joinville (GPC), em função de aspectos já mencionados na problemática desta pesquisa. Desse momento em diante, o trabalho em campo limitou-se a esses grupos, com a participação em suas diversas atividades, ordinárias e extraordinárias. Quando não era possível comparecer em alguma reunião dos grupos, era solicitada a ata do encontro, a fim de tomar conhecimento das discussões e atividades propostas. Além disso, foram coletados dados referentes à fontes indiretas ou secundárias, específicos aos dois grupos, como documentação, folhetos, publicações etc. Assim como dados primários
7 Essas atividades estão mais detalhadas na parte referente à análise dos dados do quarto capítulo dessa tese, incluindo fotos, fala dos agricultores, dos mediadores, representantes de entidades e órgãos públicos, entre outros.
através da observação direta, da participação em reuniões e da aplicação de entrevistas semi-estruturadas, conforme modelos no Anexo 1. Acompanhando as entrevistas foram aplicados questionários para a coleta de dados relacionais e dos atributos dos atores, contendo lista fechada de atores (para redes sociocêntrica) e lista aberta (para as redes egocêntricas) (NÚÑEZ-ESPINOZA, 2008; LEMIEUX & OUIMET, 2008).
No segundo semestre de 2011 foi iniciada a aplicação das entrevistas, mas ainda de cunho exploratório, conforme modelo no Anexo 1, e no primeiro semestre de 2012 foram aplicadas as entrevistas e os questionários definitivos. Primeiramente foram entrevistados 26 agricultores, sendo 11 do GPC, e 15 do GPL. Desse total, 4 agricultores do GPL responderam apenas as entrevistas, tendo se recusado a responder os questionários. Outros 6 agricultores (4 do GPC e 2 do GPL), embora integrantes dos grupos, não foram localizados, e/ou não atenderam a solicitação. Após, foram entrevistados as mediações, e representantes das instituições públicas, tais como Prefeituras, EPAGRI, CIDASC, CEPAGRO, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, de ambos os municípios. A seleção dessas entidades e instituições foi decorrente da sua referência por parte dos agricultores e da sua importância para o local. Embora o IFSC – Campus Garopaba tenha importância para essa região, em nenhum momento os agricultores fizeram referência a esse Instituto, não tendo, portanto, sido incluído no rol de atores entrevistados.
Em relação à análise dos dados, primeiro foi efetuada a transcrição de todo material coletado, que importou em aproximadamente cem páginas. Após, tendo por referência o modelo de análise desta pesquisa, foram utilizadas algumas técnicas para análise dos dados. Para os dados convencionais foram criados blocos temáticos, segundo os principais eixos exposto no referido modelo, parte dos quais integram os diversos tópicos dispostos no quarto capítulo desta tese. Para os dados relacionais foi utilizado o software Ucinet 6, e as métricas de ARS (densidade, centralidade, clique etc), as quais estão apresentadas no primeiro capítulo, na parte sobre dados relacionais. A fim de facilitar a leitura e compreensão das estruturas gráficas, os questionários para dados relacionais foram inseridos no quarto capítulo, seguindo a sequência de análise de cada matriz proposta.