• Nenhum resultado encontrado

O objeto do conflito: disputa da posse ou propriedade pelo direito à moradia

A maior parte das decisões não discute a demanda por moradia como fato motivador da lide, sendo que a maioria se restringe a afirmar que o centro do conflito é apenas a posse. Está presente mais comumente o temor com os danos que podem ser ocasionados ao patrimônio dos autores, ainda que não haja a alegação de uma perda em função de um projeto econômico específico.

A relação entre demanda de moradia e a ocupação do imóvel é levantada em alguns casos pelos autores ou pelos réus, no sentido de afastar ou afirmar a relação, respectivamente. Já nas decisões, a utilização do imóvel para moradia é citada eventualmente, porém não como problema social a ser enfrentando no conflito, mas como um dos elementos relativos à perda da posse:

A presente ação de reintegração de posse, ao que tudo indica, é de força velha, pois o esbulho ocorreu há mais de ano e dia. Tal conclusão se extrai da própria narrativa da petição inicial, segundo a qual o imóvel ‘foi invadido durante o período em que os herdeiros ocupavam-se com toda a documentação decorrente do falecimento do insti- tuidor da herança’, e que, inclusive, os esbulhadores já “construíram casas’ (fls. 50, Caso 21).

O esbulho é perfeitamente caracterizado porque os réus confessam que fixaram resi- dência no bem sem qualquer oposição da proprietária ou de quaisquer outras pessoas, posse esta que atribuem de boa-fé e desprovidade de clandestinidade, provando-se, ainda, a perda da posse da autora (fls. 301, Caso 01).

Da mesma forma, o esbulho possessório é manifesto pelas fotos constantes às fls. 32/50, na qual se vê uma retroescavadeira fazendo a limpeza do terreno e vários tijolos empilhados, o que sugere a iminência de construção de casas em favor de terceiros, o que culmina em óbice o exercício da posse do terreno pelas postulantes desde a data de 20.11.2013, conforme noticiado à autoridade policial às fls. 20, portanto, o caso se trata de posse nova, o que viabiliza a concessão de liminar (fls 55-56, Caso 02).

Em alguns casos, há preocupação com a realização de loteamento irregular nos ter- renos:

O laudo pericial elaborado pela PEFOCE74 constitui prova suficiente da presença dos requisitos da liminar possessória, pois relata e retrata através de fotografias a derrubada de muro de proteção recente, bem como noticia a tentativa de demarcação de lotes. Em tais circunstâncias deve o Poder Judiciário deferir tutela de urgência pois rapidamente se instalam invasores e erguem-se instalações sem qualquer atenção às limitações da Administração Pública (fls. 136, Caso 12).

Depreende-se dos autos que a Demandante está sofrendo prejuízos, pois na área invadida poderá ser feita edificações, bem como vendas ilegais de lotes, o que dificultará a recuperação do bem (fls. 45, Caso 13).

Na maioria dos casos estudados, o que se sabe das “motivações” dos ocupantes é conhecido por meio dos discursos dos autores, assim reproduzidos na parte dos relatórios das decisões judiciais75:

74 PEFOCE é a Perícia Forense do Estado do Ceará.

75 Uma decisão judicial é composta por três partes: relatório, em que explica os acontecimentos do processo, fundamentação, em que expõe os motivos da sua decisão, e dispositivo, em que dá a decisão propriamente dita.

Destarte, no dia 01/03/2013, por volta das 15:00 horas, uma gangue de vândalos ten- tou invadir a propriedade dos requerentes, chefiados pelos individuo (sic) acima iden- tificado, desrespeitando a divisa que faz o terreno com a via pública, adentrando no mesmo e tentando roçar uma pequena área de terra, fazendo à queimada do local, ameaçando fazer ali a construção de casebres e lotear a propriedade alheia, em afronta direta ao inquestionável direito de propriedade dos Requerentes, contudo foram re- chaçados pelo autor, mas permanecem vulneráveis a novas tentativas de invasão de seu terreno, caracterizador da turbação (fls. 23, caso 17).

[...] não foram individualizados por serem vários réus e por tal atitude representar risco à sua integridade física, uma vez que não se sabe a intenção das pessoas que atualmente estão na posse do bem (fls. 30, caso 05).

Que ditos invasores, cerca de trinta pessoas desconhecidas, alguns de alcunhas já re- feridas, apossaram-se de seu imóvel, expulsando-o, além das ameaças de morte (fls. 16, caso 16).

Que mesmo tentando uma solução pacifica para desocupação dos imóveis, a mesma restou infrutífera, dada a intransigência dos invasores, fazendo com que os autores registrassem a ocorrência junto ao 34º DP, lavrando-se BO de nº 134-16065/2013. Ocorre que os autores se dizem deveras preocupados com a situação que se apresenta, já que os invasores estão demarcando os terrenos invadidos e, inclusive, tendo cons- truído um barracão e madeira no local, necessitando, pois, de ação urgente para coibir tais atos, sob pena de tornar-se uma situação de difícil reparação (fls. 72, caso 18). Prossegue aduzindo que recentemente foi surpreendida pela ação de invasores que derrubaram muros e cercas existentes no imóvel sob o argumento de que necessitavam de local para morar. Refuta a requerente o argumento dos invasores/réus alegando que na contestação apresentada na aludida ação de usucapião todos os mesmos réus possuem endereço próprio. Relata a promovente que buscou solução amigável junto aos invasores/demandados, sem, no entanto, lograr êxito ante as demonstrações de agressividade e ameaças aos funcionários da autora. […]. Na referida certidão o meirinho constata a invasão por parte dos requeridos no terreno sob a posse da requerente, fornecendo fotos para melhor compreensão deste Juízo (fls. 51/67). Certifica também a existência de 15 (quinze) quinze barracos e de peças de cimento impedindo parte da entrada do terreno após o muro, bem como a derrubada de uma árvore, tipo mangueira, bastante antiga devido ao seu espesso tronco. Verificou, ainda, a presença de invasores, juntamente com suas famílias e de pessoas de melhor nível social/educacional tomando a frente de uma reunião, bem como um carro vermelho utilitário de frete e um táxi estacionados na frente da área invadida (fls. 77-78, caso 03).

Em outros casos, os juízes também manifestam a sua visão sobre as motivações dos réus, na fundamentação das decisões, como no caso 12, dizendo que “Não por mera coincidên- cia, os invasores optaram por bairro de maior valorização desta Fortaleza, de acordo com o que noticiado na imprensa” (fls. 136), ou:

Assim, resta cristalino que a posse dos Requeridos é injusta diante da ofensa ao art. 1.200 do Código Civil Brasileiro, restando incontroverso nos autos que conseguiram a posse de forma clandestina, com o uso da força, ressaltando que cortaram as cercas que delimitavam o terreno nas escondidas, na calada da noite (fls. 45, caso 13).

A demanda de moradia levantada pelos réus nos casos julgados será discutida no próximo capítulo. Nos processos não julgados, como o caso 11, os réus informam que estão no imóvel desde o dia 01 de agosto de 2010 (a petição inicial foi feita no dia 09 de agosto do mesmo ano), que o ocuparam pela necessidade de moradia e que a área está desocupada sem demarcação há mais 20 anos. No caso 21, os réus informam que moram no local, onde existe uma comunidade consolidada há mais de 40 anos, e que a casa pertence à família desde quando sua avó comprou uma parte do terreno. No caso 22, os réus informam que o imóvel já estava ocupado dois anos antes do ajuizamento da ação, que a ocupação iniciou com três pessoas e que foi crescendo nesse período. No caso 25, em que a comunidade é autora da ação, eles afir- mam também usar o imóvel para fins de moradia há mais de um ano. No caso 26, parte dos réus informam ter a posse adquirida para moradia há mais de 30 anos, quando um terreno ainda era um alagado, sendo que todos os requeridos morariam no local há, pelo menos, cinco anos.

A compreensão da dinâmica social e econômica da produção informal das cidades seria fundamental para lidar com os casos concretos de conflitos. Diante da “informalidade institucionalizada” no acesso à terra é fundamental saber se a ocupação se dá no âmbito de uma situação de demanda por moradia ou não, o que deveria ensejar o tratamento diferenciado pelo Poder Judiciário, pela existência de direitos sociais a serem tutelados.

Mas, a invisibilidade dos réus no conflito impede o conhecimento da situação indi- vidual e coletiva dos sujeitos que demandam moradia. Sem o seu protagonismo no litígio, fazem apenas parte da maioria da população mundial que não é sujeito de direitos humanos, mas ape- nas “objeto de discursos de direitos humanos” (SANTOS, 2013, p. 42)

Na falta de uma política urbana que tenha por base o planejamento urbano com participação comunitária, em muitos casos, a ação judicial é a porta de entrada no Estado sobre a demanda social. É ela que mostra a tensão ocasionada por um vazio urbano numa região em que há demanda por moradia. Como o Poder Judiciário também não tem uma política para isso, via de regra, não haverá porta de saída. A demanda será “pacificada”, sem a preocupação com a efetivação dos direitos econômicos, sociais e coletivos em pauta.

Elementos importantes para a implementação de uma política habitacional e fundi- ária passam ao largo da solução do conflito fundiário. Do ponto de vista das famílias, são ques- tões como origem territorial, perfil do(a) chefe de família, a demanda por moradia conside- rando-se gênero, raça/etnia, idade, condição física, intelectual/mental, escolaridade, ocupação econômica, dentre outras. Do ponto de vista do imóvel, está o tipo de utilização dado ao longo

dos anos, a sua possibilidade construtiva, bem como as demandas do entorno, que podem ser não só de moradia, como de outros equipamentos econômicos e sociais.

Como um dos poderes do Estado, o Judiciário também é responsável pela garantia dos objetivos fundamentais da República previstos no art. 3º da CF/88, dentre os quais está a erradicação da pobreza e da marginalização, a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Para tanto, um passo inicial importante seria implementar as diretrizes definidas pelo Conselho Nacional de Justiça a fim de redimensionar o conflito fundiário no âmbito judi- cial. É necessário também avançar nos mecanismos democráticos de participação dos deman- dados no processo, reconhecidos como sujeitos coletivos de direito (WOLKMER, 2001) e na discussão da demanda social subjacente ao conflito.

O reconhecimento da flexibilidade das formas jurídicas, que podem ter origem es- tatal ou não estatal, assim como a integração de ação entre os Poderes, pode ser um caminho para viabilizar o acesso à justiça dos grupos e das comunidades.