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Parte II O desenvolvimento da vinculação no primeiro ano de vida do bebés prematuro

Capítulo 6 Análise dos resultados

6.1. Observação das 52/54 semanas

Conforme indicámos no capítulo anterior, quando os bebés atingiam as 62/64 semanas de idade gestacional, eram observados juntamente com as suas progenitoras ao longo dos três episódios da Situação de Still-Face.

O comportamento das crianças na Situação de Still-face

Considerando as variáveis do comportamento infantil, podemos verificar

(figura 6.1) que, globalmente, as respostas das crianças variaram em função dos

episódios. No caso da Orientação Social Positiva (Fmedidas repetidas= 36.30; P=.000) verifica-se uma diminuição sensível da incidência média de resposta do primeiro para o segundo episódio (P=.000)1 com uma recuperação no terceiro (P=.000). Esta

recuperação não chega, porém, a reinstituir os níveis inicialmente observados, já que entre o primeiro e o terceiro episódio as diferenças permanecem significativas (P=.024). No que concerne à Expressão Negativa (Fmedidas repetidas= 38.68; P=.000), os resultados apresentam configuração inversa, notando-se um aumento das médias do primeiro para o segundo episódio (P=.000) e uma diminuição do segundo para o Os níveis de significância estatística das diferenças entre os episódios foram calculados mediante o teste de Bonferroni.

terceiro (P=.000). As diferenças entre este episódio e o primeiro continuam, à semelhança do que sucedeu anteriormente, a ser significativas (P=.000). Finalmente, no que toca às Actividades de Regulação de Estado (Fmedidas repetidas= 32.78; P=.000), as tendências observadas revelam idêntico perfil. Assim, a média referente ao segundo episódio contrastou, de forma clara, com as apuradas no primeiro (P=.000) e terceiro (P=.000), observando-se, igualmente, diferenças significativas entre estes dois últimos episódios (P=.005).

Orientação Expressão Regulação de positiva negativa estado

Figura 6.1- Médias das pontuações relativas às escalas de Orientação Social Positiva, Expressão Negativa e de Actividades de Regulação de Estado em função dos episódios da

Situação de Still-Face.

Os resultados parecem, pois, confirmar que a disrupção do curso normal da comunicação diádica exerce efeitos perturbadores sobre o comportamento dos bebés. De facto, no segundo episódio da Situação de Still-face, assiste-se a uma diminuição dos seus níveis de envolvimento positivo com o parceiro de interacção a par do aumento da expressividade negativa e das respostas de regulação de estado.

Este padrão possui correlatos fisiológicos susceptíveis de serem verificados a partir de marcadores da actividade autonómica. Efectivamente, tomando como linha de base a média de batimentos cardíacos por minuto (BPM) durante o primeiro episódio, constata-se (cf. figura 6.2) um incremento sensível do ritmo cardíaco no segundo episódio que perdura, aparentemente, sem diminuição maior ao longo do terceiro. Embora analisando com alguma cautela, a literatura sugere que o aumento da actividade cardiovascular surge muitas vezes, em resposta a estímulos aversivos, estando associada, entre outros factores, à experiência psicológica do stress (Light & Obrist, 1983; Soares, Lopes dos Santos, Jongenelen, Henriques, Silva, Figueiredo, Mascarenhas, Machado, Neves, Serra, Silva, Cunha, & Costa, 1997; Soares, Silva, Cunha, & Lopes dos Santos, 1998; Spangler & Grossmann, 1993). Figura 6.2- Ritmo cardíaco médio no segundo e terceiro episódio da Situação de Still-face considerando como linha de base os valores do BPM durante o primeiro episódio.

Q- r m

5. f "-"

3« / 2« / o- m -1 I

Io episódio 2o episódio 3o episódio

Se em termos gerais foi possível identificar um padrão de variação do comportamento relacionado com os episódios, as análises revelaram, igualmente, uma certa consistência intra-individual das respostas das crianças. De facto, como se

pode apreciar no quadro 6.1, os valores obtidos pelos bebés nas escalas comportamentais de Orientação Social Positiva, de Expressão Negativa e de Actividades de Regulação de Estado estão positiva e significativamente correlacionados entre os três episódios da Situação de Still-face. Quer isto dizer que os bebés que nos primeiros três minutos evidenciaram mais respostas incluídas nas categorias de orientação social positiva, de expressão negativa ou de regulação de estado também as manifestaram nos dois episódios subsequentes.

Quadro 6.1. Coeficientes de correlação (rho de Spearman) entre os três episódios da

Situaçãde Still-face em função de cada escala.

ORIENTAÇÃO SOCIAL POSIT

Io episódio 2o episódio 3o episódio

Io episódio 1.000 — —

2o episódio .510** 1.000 —

3o episódio .717** .395* 1.000

EXPRESSÃO NEGATIVA

1° episódio 2o episódio 3o episódio

Io episódio 1.000 — —

2o episódio .677** 1.000 —

3o episódio .754** .572** 1.000

ACTIVIDADES DE REGULAÇÃO DL ESTADO

*

Io episódio 2o episódio 3o episódio

Io episódio 1.000 — —

2o episódio .757** 1.000 —

3o episódio .829** .640** 1.000

* pT"ÕÕ6r^*™P= .000 "**

Curiosamente, essa consistência parece, também, sobressair quando examinamos as relações entre os vários tipos de comportamento em cada um dos

três episódios. Com efeito, a leitura do quadro 6.2 permite-nos destacar os seguintes aspectos:

1- A pontuação obtida pelas crianças na escala de Expressão Negativa tendeu a variar de forma inversa à das escalas de Orientação Social Positiva e das

Actividades de Regulação de Estado;

2- Essa relação foi, sempre, mais forte entre a Expressão Negativa e as

Actividades de Regulação de Estado;

3- A associação entre as medidas referentes à Orientação Positiva e às

Actividades de Regulação de Estado só atingiram níveis de significância estatística

nos dois primeiros episódios, não sendo possível rejeitar a hipótese nula no terceiro.

Quadro 6.2. Coeficientes de correlação (rho de Spearman) entre os valores das diferentes

escalas do comportamento infantil em função dos três episódios da Situação de Still-face.

Orientação positiva Expressão negativa Regulação de estado Orientação positiva 1.000 -.293* .305*

Expressão negativa Regulação de estado

1.000

-.737** 1.000

Orientação positiva Expressão negativa Regulação de estado

Orientação positiva Expressão negativa Regulação de estado

1.000 — — -.677** .301* 1.000 -.737** 1.000 Orientação positiva Expressão negativa Regulação de estado

Orientação positiva Expressão negativa Regulação de estado

1.000 — — -.319* .132 1.000 -.595** 1.000 *P>.05; **P=.000

Os resultados sugerem, pois, a existência de diferenças inter-individuais com alguma estabilidade ao longo das diversas condições. Em face disto, torna-se pertinente interrogarmo-nos até que ponto tais diferenças reflectem a presença de organizações comportamentais distintas.

A fim de melhor esclarecermos a questão, quisemos verificar se seria possível identificar grupos de crianças tendo em conta as suas características de comportamento. Nessa ordem de ideias, recorremos ao método da análise dos clusters que, conforme é sabido, permite detectar classes homogéneas entre conjuntos de objectos definidos pela marca da heterogeneidade. Pese embora o facto de as operações de clusterização não se basearem em nenhuma teoria matemática, a verdade é que muitas abordagens consideram-nos como procedimentos descritivos de inegável alcance heurístico e hermenêutico (Everitt, 1993).

Uma vez que o espaço de dispersão das escalas de comportamento dos bebés não possuíam limites coincidentes, decidimos uniformizar a extensão da sua variabilidade, padronizando os resultados de cada uma delas. De acordo com este procedimento, as notas padronizadas (standard scores) obtêm-se por transposição dos pontos de uma distribuição amostrai para uma outra na qual o valor da média é fixado em zero e o do desvio padrão em 1.00 (Guilford & Fruchter, 1973). Esta transformação dos resultados tem a virtude de gerar medidas uniformes entre diferentes escalas, o que facilita a visualização das tendências verificadas e uma percepção mais diferenciada dos vários clusters.

Operando sobre os valores padronizados das escalas de Orientação Social

Positiva, de Expressão Negativa e de Actividades de Regulação de Estado nos três

método k-means. Após vários ensaios, optámos pela extracção de três grupos uma vez que tal solução nos pareceu ser aquela que possibilitava uma melhor discriminação entre os padrões de comportamento dos bebés (ver figura 6.3).

1,2- -1,2* ■ Grupo 1 D Grupo 2 D Grupo 3 Ep 1 Ep 2 Ep3 Orientação Social Positiva

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