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E, NOS Nossos DIAS, se quer que o pais seja industrial, e em tal sentido se ordena a política econômica, nos primeiros tempos não se queria que fôsse agrícola, mas de mineração. Foi isso um grande obstáculo à agricultura. Antes ainda, nos primórdios, outros obstáculos havia. Os índios não viviam na fase venatória, nem no período de economia apropriativa, é certo. Mas, não podiam desprezar a caça. De tempos mais primitivos, haviam ficado hábitos, ainda hoje não totalmente desaparecidos, inclusive o das caçadas, que, de resto, forneciam grande contingente à alimentação. Isso deixava às mulheres as principais atribuições agrícolas, exercidas em natureza rude, indomável, sôbre a qual mesmo a robustez dos homens teria de ser empregada sem restrições. Além dêsse desvio do principal elemento, a caça exercia contra a agricultura outra influên-cia maléfica: mesmo admitindo-se que a fauna brasileira não é tão intensa, como geralmente se imagina e se diz, qualquer mata poderia fornecer vitualhas suficientes ao sustento de uma tribo, por tempo indeterminado, sobretudo considerando-se que não se usavam armas de fogo, causadoras, pelos estampidos, da emigração das espécies animais; de modo geral, a caça era sempre abundante, do mesmo modo como· a agricultura era sempre difícil. Bastava, pois, a lei do menor esfôrço, para impedir insistências na luta contra um obstáculo às lides rurais, se a comida vinha pelos próprios pés até às proximidades da panela. Isso, não apenas no período anterior ao descobrimento. t.sse obstáculo persistiu no regime colonial, e ainda hoje existe, embora mitigado. Como êle, outro mais ou menos da mesma natureza, e talvez tendo nêle sua causa única:o nomadismo. "População antes escassa e distribuída com densidade pouca, a percorrer, pouco sedentária, planícies e florestas", diz Caló-geras em Formação Histórica do Brasil. Não seria tanto assim.
A época do descobrimento, o nomadismo não desaparecera, mas se mitigara muito. Depois do descobrimento, a nucleação maior, por meio de alianças, teve de acentuar-se naturalmente, em defesa do
OBSTÁCULOS - 131 silvícola contra a preia, contra as desumanidades dos que realizavam as entradas. Entretanto, não se pode negar que ainda existe certo hábito da inquietude, certo prazer pela liberdade de movimentos, embora a lei do menor esfôrço tendesse a reter as tribos nas mesmas aldeias, por causa das habitações: que se~pr~ dava1!1 trabalho para refazer-se; por causa da mandioca, CUJO ciclo nao é assim tão rápido; enfim, por causa mesmo das condições em que decorria a atividade agrícola, pois não era muito fácil abrir florestas, fazer clareiras na selva, para novas plantações. A inconstância, porém, continuava na massa do sangue, em proporção suficiente para causar danos à agricultura. Como ainda hoje, quando, nas fazendas do interior, os salariados chegam de repente, não se sabe de onde, e de repente se despedem, ou apenas desaparecem, também não se sabe para onde. "Os homens e as mulheres - diz Saint-Hilaire - são geralmente industriosos. Procuram imitar o que vêem aos portuguêses, e timbram seu amor-próprio em sobrepujá-los. Incons-tantes, porém, irrequietos e preguiçosos, abandonam freqüentemente um trabalho começado, e não perderam êsse caráter de imprevidência que tinham no âmago de suas florestas." Depois de outras infor-mações, prossegue: "De tudo o que ficou dito, é fácil deduzir que às ocupações fixas e regradas da agricultura êsses homens devem preferir a vida indolente e irregular dos caçadores." "O problema da agricultura está ligado ao do erratismo dos nossos indígenas"
- diz Estêvão Pinto em Os Indígenas do Nordeste. Roquete Pinto julga que, na época da colonização, já havia desaparecido a atividade nômade dos silvícolas brasileiros. Na primeira parte da presente obra, tivemos ocasião de expor nossa opinião a êsse respeito. O Padre João de A~pilcueta Navarro afirmava, em 1550, 9ue os arborícolas não tinham "morada certa, mudando-se de aldeia todos os anos", logo que devastavam as circunvizinhanças ou quando lhes apodrecia a "palma dos tetos". Roquete Pinto é que estará certo. A má observação do Padre Aspilcueta Navarro é por demais evidente.
Em um ano não se devasta a natureza pujante do Brasil, a qual terá dado apenas a primeira safra de mandioca. Também em um ano não apodreceria o teto das habitações, e seria muito mais fácil colocar novo teto do que refazê-las completamente, em outro lugar.
Deveria haver, como bem diz Estêvão Pinto, repetindo expressão de Alejo Vignati, o nomadismo local. De resto, o nomadismo verda-·
deiro teria tornado impossível a agricultura. A existência desta - sôbre o que não restam dúvidas - confirma a hipótese de Roquete Pinto. Não existia o nomadismo a ponto de impedir a agricultura, mas existiam resquícios, suficientes a prejudicá-la, a impedir seu desenvolvimento, embora insuficientes a classificar como nômades os indígenas, à época do descobrimento e nos anos que se seguiram.
Muito mais que a caça e o nomadismo juntos, o que sobretudo prejudicou a agricultura no início da vida colonial, e por muito
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tempo, foi o antagonismo entre silvícolas, portuguêses e paulistas.
Dos quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta baianos, que os de 1500 viram no litoral, na "quinta feyra deradeiro de abril", diz o Caminha que "amdavam já mais manços e seguros amtre nós, do que nós amdavamos amtreles". Sim, porque, por hipótese, selvagens eram os índios. O que contam Pero Vaz de Caminha, e todos os demais cronistas, prova suficientemente que o íncola brasi-leiro acolheu de braços abertos o ádvena. Quando surgia entre êles um Caramuru, que não desmentia pelas crueldades seguintes as boas intenções com que se apresentara, levavam a estima à idolatria.
Os jesuítas sempre conseguiram tudo dêles, inclusive grande amizade.
Entretanto, foi feroz a guerra feita ao alienígena. Os selvagens irrompiam de supetão, matavam os que podiam, e destruíam intei-ramente as lavouras. Os livros dos cronistas estão cheios disso.
Os mesmos índios baianos, que tanto haviam progredido nos mis-teres agrícolas com o Caramuru, destruíram plantações sem conta, quando, afastado o seu protetor, Francisco Pereira Coutinho começou a demonstrar-lhes os verdadeiros sentimentos dos colonizadores. "Con-tinuavam as violências contra os índios - narram as Memórias Históricas, e Políticas da Província da Bahia, - tão pouco acos-tumados a sofrer atos de severidade e rigor; e Diogo Alvares, qual outro Las Casas no México e Peru, incessantemente implorava a favor de seus antigos amigos e colonos: tudo, porém, foi surdo às suas rogativas, e êle mesmo, tachado de importuno e suspeito, foi logo preso por ordem de Coutinho, levado para bordo àe um dos navios surtos no pôrto, e separado de sua mulher, a qual, nutrindo aquêle espírito nobre que esporeia os ânimos e as ações ilustres, concitou os seus conterrâneos à vingança, chamando em seu auxílio os tamoios e mais tribos do Recôncavo; nenhuma recusou; esque-ceram-se até antigas dissensões, e o amor da pátria e da liberdade, que são de grande aprêço entre os índios, os fêz incorporar e reunir em uma só família, homogênea em princípios e em desejos.
Recresceu o ardor da vingança com a falsa notícia da morte de Diogo, e a heroína sua mulher mais e mais insuflava os ânimos já assaz dispostos e preparados à repulsa dos opressores. Os sítio;
das imediações da Graça e Vitória foram o primeiro teatro das hostilidades, e os indígenas, que outrora se aterravam do estrondo do tiro de uma espingarda, já não temiam os efeitos dos canhões:
incendiaram os estabelecimentos agrícolas; mataram um filho de Coutinho e êste depois de longa e inútil resistência, viu-se obrigado com os seus a buscar a salvação em os navios, fugindo para os Ilhéus, que Jorge de Figueiredo começava a povoar, e levando consigo prêso a Diogo Alvares."
. D?s mais épicos, dos mais emocionantes, dos mais expressivos ep1sód1os da história do Brasil, êste, em que vemos índios agricul-tores se levantarem sob o comando de uma índia heróica, e expulsar da terra o seu maior homem - maior quanto ao poderio, quanto
OBSTÁCULOS 13 3 à riqueza, quanto à pos1çao, quanto à autoridade, se bem que o menor de todos quanto aos sentimentos. Demonstra êsse episódio que os agricultores brasileiros são capazes - pois o foram ainda no período primordial - de ação conjunta, de ação solidária.
E' realmente notável que, aos incitamentos de Paraguaçu, se tenham incorporado e reunido "em uma só família, homogênea em princípios e desejos", íncolas desde todos os tempos separados pelas mais profundas dissensões. Fizeram isso, porque tiveram alguém na chefia, tiveram mentor. Nem outra coisa é a que falta aos agricultores brasileiros, ainda hoje.
Na segunda metade do século do descobrimento, os lusos já possuíam razões fortíssimas para temer o que haviam temido os da esquadra de Cabral: o contacto com o íncola, pois entre êste e aquêles estava cavado o abismo do ódio, que sucedeu à acolhedora simpatia de 1500. O episódio acima referido não é único. Com outros iguais se poderiam encher páginas e capítulos. Não é necessário. Refiramos, todavia, aquêle, do valente Ajuricaba, mobi-lizando contra o português todo o sertão amazônico, fazendo formar ombro a ombro tribos inimigas desde todos os tempos, para enfrentar o adversário comum, que só aparecia na selva para escra-vizá-los ou destruí-los. Lembremos apenas a altivez, o heroísmo, o caráter, a envergadura de Ajuricaba, que, derrotado, prêso, acor-rentado dentro do navio, ainda encontrou meios de atirar-se ao Amazonas, preferindo o suicídio à morte certa pelo inimigo. Em tais condições, a agricultura se tornou quase impossível, porque os colonos não pensavam muito em praticá-la, os índios só pen-savam em defender-se e, ardendo em vingança, destruíam as planta-ções que encontravam. Referindo-se ao conceito português, segundo o qual o único meio de civilizar os indígenas seria distribuí-los como escravos pelas casas dos colonos, Saint-Hilaire opina, judicio-samente, que, mesmo "pondo de parte a injustiça e a barbaridade dessa dispersão, que não seria outra coisa senão o restabelecimento da escravidão para êsses índios, é evidente que a medida só tenderia a extinguir completamente tal raça e, por conseguinte, é contrária aos interêsses do Estado, ao qual tanto convém aumentar a população do distrito. Deve-se, pois, deixar os índios reunidos; mas, não é dando-lhes por vizinhos soldados, aventureiros e mulheres públicas que se poderá civilizá-los realmente, e fazer dêles homens úteis.
Para atingir êsse escopo, é preciso tirar êsses desgraçados do embrute-cimento em que estão mergulhados, e chamá-los, na medida do possível, a uma vida inteligente e moralizada. Mas de que servirá alguns homens generosos darem-se ao trabalho de instruí-los e arrancá-los à selvageria, se outros vêm em massa corrompê-los por maus exemplos, e abusar da inferioridade dos selvagens para enga-ná-los e reduzi-los a uma espécie de escravidão!"
Mais adiante se verá como os papéis se inverteram, tudo em prejuízo da agricultura. Quando entravam os portuguêses, na preia
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do íncola, êste é que destruía as plantações daqueles, a título de vingança. Quando entravam os bandeirantes, com os mesmos obje-tivos, destruídas eram as plantações do íncola, pelos bandeirantes, como meio de facilitar a erradicação. Em todos os tempos, a agricultura foi o melhor elemento de fixar o homem à terra.
Conseguintemente, destruí-la é enfraquecer os liames entre seus dois elementos constitutivos.
A todos êsses fatóres negativos, há a acrescentar-se que dois séculos duraram as lutas de conquista, os embates pela posse do país.
Franceses no sul, holandeses no norte. Ainda no século do desco-brimento, tivemos a Confederação dos Tamoios, constituída por todos os índios habitando o território entre o Rio de Janeiro e São
" Vicente, contra o português, a favor do francês. Ainda aí surge
uma figura grandiosa de ameríndio, o valente Juguanharo, que só não venceu Tibiriçá, aliado dos portuguêses, porque os soldados dêste eram outros índios, também valentes. Na seqüência dos
emba-tes, entretanto, tê-lo-ia derrotado, se não fósse a intervenção de Nóbrega, na parlamentação de Iperoig, onde Juguanharo expôs aos jesuítas todos os motivos do ódio indígena contra os portuguêses, por êles tão bem recebidos inicialmente. De resto, os jesuítas foram sempre a salvação dos lusos, valendo-se nos momentos aflitos, como mediadores. Nunca os índios deixaram de ouvir as palavras boas dêsses missionários, aos quais acabaram por entregar-se
discricionà-riamente. A expulsão dos jesuítas teve mesmo como caµsa êsse prestígio sôbre o aborígine, prestígio advindo todo da caridade, da brandura, com que o tratavam, e da valente defesa, que dêle faziam, contra os atentados e os crimes dos portuguêses e dos bandeirantes.
Mais uma oportunidade para repetir-se: os jesuítas foram os verda-deiros criadores da agTicultura brasileira; não só pela atuação orga-nizada, já referida em outro capítulo, como porque, se não tivessem servido de mediadores entre os índios e os colonos, nos embates bélicos, e não houvessem defendido aquêles contra a cupidez e a crueldade dêstes, ter-se-iam dizimado as populações, aborígine e alienígena, e devastado tôdas as lavouras.
Outro poderoso obstáculo à agricultura brasileira: a mineração.
No capítulo referente à falta de homens, vimos o governador Dom Rodrigo César de Meneses mandar construir presídios no interior, para recolher a êles, e recambiar ao litoral, os pretos conduzidos às minerações pelos senhores de escravos. Ainda aqui se poderia referir o princípio econômico, lembrado anteriormente, segundo o qual o despovoamento dos campos está em proporção direta com a diferença entre as rendas agrícolas e as rendas de outras atividades.
~rin~ípio tanto mais verdadeiro quanto mais caracterizados os mtmtos de exploração e não de colonização, como era o caso do Brasil. A mineração prejudicava a agricultura de duas maneiras:
pelo despovoamento das regiões agrícolas; e pela mortalidade dos
OBSTÁCULOS - 135 trabalhadores rurais, a ela conduzidos. "Senhores de lavras havia -refere Taunay, na introdução da Hístória da Capitanía de S. Vicente, de Pedro Taques, que em menos de um ano perdiam cem e mais escravos, mortos pelos maus tratos, pela péssima alimentação. Ali, no Pilar, onde mal havia sustento para os ricos e senhores, se dava a repetição contínua dos fatos que a mitologia grega, com sua poderosa simbólica, concretizou na figura de Midas, morrendo à fome à margem do Pactolo. A ânsia de enriquecer em breve tempo fazia com que os senhores dos desgraçados negros nêles apenas vissem os instrumentos mui transitórios da fortuna. Que valia a vida de um escravo, se, em meses, ao dono dera excelentes proventos, se por dia rendia-lhe o trabalho seis, sete gramas de ouro!
Custava então um negro robusto 400 a 500 cruzados em têrmo médio: num mês de trabalho podia render ao seu senhor 120 cruzados líquidos, nas lavras medianamente "férteis". Durasse um ano e estava duas ou três vêzes pago. Viesse outro a tomar-lhe o lugar!" Perdura até hoje, no Brasil, essa mentalidade, que permite aplicar princípios econômicos a problemas sociais; êsse imediatismo, que deixa cortar a árvore para lhe colhêr os frutos. Acompanhemos Taunay mais um pouco: "Ao calor abr.asado~ ?e uma atmosfera de forno, ajuntava-se o rescaldo das galerias asfixiantes. Das falhas do terreno ou da ruptura das tôscas e improvisadas barragens desviadoras dos rios, súbitas torrentes irrompiam afogando os desgra-çados escravos. Engoliam os desmoronamentos do "ouro podre"
vítimas sôbre vítimas, prostrando os jactos de gases mefíticos e irrespiráveis trabalhadores às dezenas. Necessário era, freqüente-mente, obrigar um negro que penetrasse, como explorador, verda-deiro enf arJt perdu, num poço ou galeria empestada de gases letais.
Transido de horror, recusava-se o desventurado ao serviço, e afinal, depois de chibateado ferozmente, perante os parceiros espavoridos, tá ia ao encontro da morte, do lenitivo à crueldade dos brancos inexoráveis. Assim, pois, o arraial goiano, votado à misericordiosa intercessão da Mãe dos Homens, realizava a reprodução de um canto do inferno à superfície da terra, tal qual como em todos os lugares onde o ouro surgiu para o desencadeamento de misérias sem conta. E no entanto tal a fôrça dos preconceitos obliteradores da razão que o bom e brando Pedro Taques indigna-se de que das minas fugissem cativos, de que nas imediações do arraial houvesse quilombos! E' com verdadeiro horror que nos relata a revolta dos escravos de seu parente José de Almeida Lara, com o máximo prazer que nos conta o extermínio de quilombos pela tropa de Bartolomeu Bueno do Prado, cujos sinistros troféus foram S. 200 pares de orelhas de negros!"
São Paulo por pouco não se despovoava, tendo-se despovoado quase completamente os campos, embora a capitania ganhasse no total de habitantes. Lembre-se que Minas Gerais pertencia ainda a São Paulo. Assim, os movimentos demográficos operavam-se
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dentro da mesma província, inicialmente, indo os próprios governa-dores fixar residência em Mariana, no hoje Estado de Minas.
Já
em 1788 o Marechal José Arouche de Toledo Rendon escrevia que"a Capitania de S. Paulo, sendo a mais antiga de tôdas as do Brasil, se acha no miserável estado em que se vê. Outras que foram colônias desta, descobertas pelos antigos paulistas, se acham hoje com outra população, outro comércio e outra agricultura". A popu-lação do Brasil central subiu inopinadamente de 200. 000 para 2. 500. 000 habitantes. Calcule-se o dano incrível sofrido pela agri-cultura do norte. Do planalto paulista safam bandeiras para o Mato Grosso, para Goiás, para as Minas Gerais, para o sul; a agricultura arruinou-se de tal modo que os descendentes das altivas
"linhagens paulistas assentavam praça como soldados nas campanhas
do sul, ou iam morrer no longínquo Iguatemi. A própria província cai à condição de comarca do Rio de Janeiro.
Por outro lado, a mentalidade da metrópole bastaria, por si só, para fulminar as atividades agrárias. "Uma lei - diz o Dicio-nário Demográfico - proibia a saída dos gêneros do Brasil em navios estrangeiros, como se observa nas colônias das demais nações.
Uma ordem geral de 7 de fevereiro de 1701 proibiu o comércio de permutação entre as províncias do meio-dia e as do norte, e a província da Bahia se viu na impossibilidade de prover-se do necessário na de Minas, sua vizinha, por isso que dependia do govêrno do Rio de Janeiro. Uma nova ordem de 14 de novembro de 1715 proibiu à estabelecimento de novas destilações de ffle!aço, em razão de que aquela fabricação empeceria a venda no Brasil das aguardentes da metrópole." Até parece os tempos... atuais.
"O govêmo de Portugal - diz Calógeras, na Formação Histórica do Brasil - era verdadeiramente lamentável. O monarca, D. João V, de nada cuidava senão de se divertir e ostentar sua fortuna. Quase nada ficaria, merecedor de nota, dos milhões remetidos pela capi-tania do ouro: algumas construções muito discutidas, a criação do patriarcado de Lisboa, tesouros gastos em pura perda com favoritos de ambos os sexos." Naturalmente: a riqueza é a posse de coisas de valor, por homens de valor. "El-Rei - diz ainda Calógeras -tinh_a conselheiros de nível igual ao seu próprio." Nessas condições, podiam praticar, contra a agricultura brasileira, atos como êste, referido pelo mesmo autor: "Com o fito de evitar concorrência industrial que desviasse da mineração qualquer braço, ordenou Lisboa f6sse fechada qualquer fábrica ou estabelecimento das capitanias
~ineiras. Engenhos, fazendas de tabaco, e semelhantes foram proi-bidos." Depois disso, proibidas as atividades agrícolas; conduzidos os escravos para as minas, que restava a fazer no norte? Desceram os próprios agricultores, abandonaram os canaviais. tste foi o maior golpe jamais sofrido pela vida agrícola nacional, advindo da
~entalidade da metrópole, sem estadistas. Mui diferente a menta-lidade holandesa. Ainda não havia acabado o ouro das índias
OBSTÁCULOS -
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e do Japão; ainda não era tão necessário o nosso, embora a mine-ração já constituísse idéia dominante, e Usselinx escrevia que era um grande êrro "julgar que, entre os produtos da América -estamos acompanhando Simonsen, neste passo - desempenhem 0 ouro e a prata o papel principal. Que a navegação holandesa deve dirigir o seu curso para as índias Ocidentais, não em busca de metais preciosos e para descobrir minas, mas para fundar estabeleci-mentos coloniais e exercitar o comércio de trocas com os naturais.
Sem dúvida, a América produzia importante quantidade de ouro e prata. Seus melhores produtos, porém, eram o açúcar, madeiras de tinturaria, anil, cochonilha, couros", etc. Em uma palavra:
eram agrícolas as melhores possibilidades da América.
Também a escravidão criou à agricultura brasileira dificuldades até hoje não desaparecidas. Ver-se-á nisso um paradoxo, ante o que já se disse, sôbre as habilidades do negro, que constituiu o principal elemento humano na nossa vida agrícola, até ao advento da imigração sistematizada. Não há, entretanto, paradoxo algum, visto como os males, da escravidão advindos à agricultura, são de ordem social, não material apenas, nem principalmente. No capítulo referente à falta de homens, reproduziu-se trecho de Saint-Hilaire, mostrando a psicologia do fazendeiro que, feito mineiro e retornando depois à fazenda, em conseqüência do esgotamento das minas, não mais se dedicava à terra, considerava menos digno de atenção o labor agrícola. Também a escravidão emprestou à mentalidade brasileira cunho deplorável. Ela se foi, a escravidão. Mas, deixou em nós o errôneo conceito, segundo o qual é aviltante, menos nobre, o trabalho braçal, a faina agrícola. Cícero anatematizava as "pro-fissões mercenárias", isto é, as liberais, porque só considerava real-mente nobre a agricultura. Nós, ao contrário, preferimos qualquer profissão liberal à agrícola. Martius conta-nos que fazendeiros quase analfabetos mandavam os filhos para Coimbra, a se tornarem dou-tôres. Essa história continua. Continua essa falta de educação.
As pensões baratas constituem largo meio de vida nas nossas cidades universitárias, exatamente porque as populações rurais, e não as metropolitanas, é que fornecem os maiores contingentes às acade-· mias. São sobretudo os filhos de proprietários rurais que se fazem doutôres. As faculdades livres de Direito já atingiram os sertões, onde nunca chegou um curso agrícola. A existência da escravidão tornou impossível a do mercado de trabalho, e isso foi, sem dúvida, um mal imenso, para o país, em geral, mas para a agricultura em especial. Alinhando os motivos por que os abolicionistas queriam acabar com a escravidão, Nabuco mencionava êstes, em primeiro lugar: "Porque a escravidão, assim como arruína económicamente o país, impossibilita o seu progresso material, corrompe-lhe o caráter desmoraliza-lhe os elementos constitutivos, tira-lhe a energia e ~ resolução, rebaixa a política; habitua-o ao servilismo, impede a imigração, desonra o trabalho manual, retarda a aparição das