3 TROCA DE OLHARES: SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E ESPORTE
3.2 POSSIBILIDADES DE OLHAR O ESPORTE
3.2.3 Esporte Educacional
3.2.3.2 Oficinas de Esporte
A prática esportiva, conforme já pontuado, está presente no cenário escolar em múltiplas facetas. Neste subcapítulo, irei discorrer sobre as propostas teóricas dos autores da Pedagogia do Esporte sobre a pedagogização do esporte na escola. As propostas fazem parte das preocupações com os processos de iniciação esportiva e treinamento de base. Assim, no primeiro momento, irei situar a atualidade das discussões dos autores da Pedagogia do Esporte e, em seguida, pontuar aspectos pertinentes à proposta didático-pedagógica da iniciação esportiva.
No decorrer do tempo, o desenvolvimento da pedagogia esportiva deu-se em função da fragmentação dos movimentos, separando-os em partes descontextualizadas do todo. Havia o pensamento de que somando todas as partes se chegaria ao objetivo da totalidade dos elementos que envolvem a prática esportiva.
Há o enraizamento das propostas de ensino dos esportes, a partir do método tecnicista, que atribui uma série de características negativas ao trato com este conhecimento no espaço escolar. No desejo de avançar sobre este tema, os autores da chamada Pedagogia do Esporte posicionam-se a favor das preocupações educacionais nas práticas esportivas na escola.
Os autores pedagogia do esporte também têm constatado a importância dos jogos desportivos coletivos para a educação de crianças e adolescentes de todos os segmentos da sociedade brasileira, uma vez que sua prática pode promover intervenções quanto à cooperação, convivência, participação, inclusão, entre outros.
A pedagogia do esporte busca estudar esse processo, e as ciências do esporte, em suas diferentes dimensões, identificaram vários problemas: busca de resultados em curto prazo; especialização precoce; carência de planejamento; fragmentação do ensino dos conteúdos; e aspectos relevantes, que tratam da compreensão do fenômeno na sua função social. (OLIVEIRA; PAES, 2004, s. p.)
Com a preocupação de compreender o ensino dos jogos esportivos como um “processo na busca de aprendizagem”, Paes e Oliveira (2004) pontuam a necessidade da discussão da pedagogia da iniciação esportiva ancorada nos autores desta área, para que as propostas das oficinas esportivas e suas práticas institucionalizadas na escola estejam articuladas aos princípios pedagógicos.
Para Reverdito e Scaglia (2009), a Pedagogia do Esporte tem que aceitar a responsabilidade de educar o ser humano, comprometendo-se com a potencialização de sujeitos humanos, que possam reconhecer as diferenças, e ensinando-os a partir de sua condição humana.
Uma dezena de autores traz as suas propostas para o ensino dos esportes coletivos e, de um modo geral, a preocupação em considerar que a criança não é uma simples miniatura do adulto, e requer procedimentos sistematizados e orientados de forma coerente para o aprendizado, está presente em todos eles. De forma reduzida, irei apresentar a essência do pensamento de alguns autores que são referência na Pedagogia do Esporte.
Um dilema com o qual nos defrontamos, ao pensar nos processos de iniciação esportiva, reside na preocupação em respeitar as etapas e possibilitar o aprendizado dos elementos que compõem o jogo objetivado, tendo as atividades de caráter lúdico como pressuposto metodológico. Os processos de iniciação esportiva correspondem a uma importante etapa no aprendizado das estruturas que compõem o esporte objetivado. Algumas características das crianças envolvidas devem ser consideradas para a organização do trabalho pedagógico.
De acordo com Oliveira e Paes (2004), as atividades de caráter lúdico devem fazer parte do rol de vivências iniciais dos alunos, nos primeiros anos de contato com a modalidade, por se considerar que são condicionantes característicos desta fase do desenvolvimento motor. A faixa etária de 7 a 11 anos, aproximadamente, é considerada a fase sensível aos estímulos motores, assim, devem ser características deste momento de aprendizado vivências que possibilitem estímulo às capacidades coordenativas. A segunda fase, compreendida entre 12 e 13 anos, representa o momento de oportunizar aos jovens a vivência de elementos de todas as modalidades, ampliando seu repertório motor, a partir da variabilidade de atividades, sem a
especialização em uma modalidade esportiva, mas aprendendo a conhecer a lógica interna de cada uma.
A terceira fase, correspondente à faixa etária aproximada de 13 a 14 anos, conclui as etapas da iniciação esportiva para os autores e possui, como características, automatização e refinamento das aprendizagens anteriores, considerando-se as aproximações do jovem com uma ou algumas modalidades esportivas de seu interesse. Em síntese, a Figura 2 apresenta as propostas apontadas, considerando como exemplo o basquetebol.
Idade Biológica Idade escolar Fases do
desenvolvimento esportivo
Idade cronológica Categoria
disputada no
basquetebol
Pubescência Sétima e sexta séries
Iniciação esportiva III
13 – 14 anos Mirim e infantil
Primeira Idade Puberal Quinta e sexta séries Iniciação esportiva II
11 – 12 anos Pré-mirim e mini.
Primeira e Segunda Infância Primeira a quarta série. Iniciação esportiva I 7 – 10 anos Atividades recreativas. Figura 2: Fases da Iniciação Esportiva.
Fonte: Oliveira e Paes (2004, s.p.).
Knijnik (2004, p. 76), ao tecer comentários sobre os processos de iniciação esportiva, situa a importância de ser organizada num “clima de absoluta ludicidade”. Para tanto, estruturou três conceitos básicos, a saber: atividade de oposição, automatismo inconsciente e jogar para aprender. Para o autor, a atividade de oposição deve ser utilizada por representar a dinâmica do handebol, onde uma equipe se opõe a outra e colabora entre si. Quando considera o jogar para aprender, corrobora a necessidade da criança vivenciar jogos que se aproximem do esporte objetivado, no que se refere à organização, ao funcionamento e combinados. Os automatismos inconscientes implicam “realizar movimentos sem que grande parte de nossa atenção mental esteja voltada para eles” (KNIJNIK, 2004, p. 79). Articulado às brincadeiras, a criança estabelece relações com o mundo e aprende de forma inconsciente.
Greco e Benda (1998) fazem considerações a respeito da Iniciação Esportiva Universal, apresentando, como opção capaz de associar o estímulo aos comportamentos técnico e tático, o método situacional, que consiste em jogadas básicas extraídas de situações- padrão de jogo, oportunizando vivências reais das modalidades, em diferentes fases e planos, inter-relacionando capacidades técnicas, táticas e cognitivas, na busca por soluções de tarefas-
problemas, criadas em experiências de aprendizagem orientadas pela tomada de decisão para a aquisição da capacidade de jogo, que para os autores é a
interação do desenvolvimento das diferentes capacidades que compõem o rendimento esportivo em uma situação de jogo. Com a execução da técnica, após a estruturação mental de uma ação tática, a decisão da criança depende do seu estágio de conhecimento tático e técnico, do seu potencial físico, do seu estado psicológico, no momento de concretizar sua ação. Estes elementos ocorrem simultaneamente, o que mostra a complexidade de se realizar uma ação motora em um jogo. (GRECO; BENDA, 1998, p. 59)
Para Kroger e Roth (2002, p. 10), o processo de iniciação esportiva dá-se na rua, nas experiências infantis. Estruturam sua proposta de Escola da Bola e sistematizam o ABC da iniciação esportiva. A aprendizagem dos elementos básicos para a prática esportiva se dará a partir de jogos e desafios motores. A letra “A” representa jogos orientados para a situação, onde os envolvidos devem aprender “a jogar com a liberdade, reconhecer e perceber situações de forma correta e compreendê-las do ponto de vista tático”.
O que os autores consideram o “B” refere-se à orientação para as capacidades coordenativas que envolvem aspectos referentes ao aprendizado rápido e certo, ao controle do movimento de forma precisa e à possibilidade de variar a ação em função da situação- problema apresentada. Esta capacidade constitui a “base decisiva da inteligência sensório- motriz: quem possui um alto nível coordenativo pode aprender movimentos novos de forma mais fácil”.
A letra “C” faz referência à orientação para as habilidades. Não trata do treino das técnicas esportivas, mas do desenvolvimento de “conceitos de estruturas ou elementos comuns aos esportes”, para que, numa etapa seguinte, sejam apresentadas as possibilidades de transferir estas aprendizagens para a estruturação dos aspectos técnicos a serem alcançados posteriormente (KROGER; ROTH, 2002, p. 12).
FORMA DE APROXIMAÇÃO OBJETIVOS CONTEÚDOS E MÉTODOS
A: Orientação para a situação Aprender a jogar Somente jogos em forma de elementos táticos para construir o jogo
B: Orientado para as capacidades Melhoria da coordenação com a
bola Melhoria da coordenação e dos jogos em elementos para construir a melhoria das informações motoras necessárias C: Orientado para as habilidades Melhoria das atividades básicas
de domínio da bola Exercitar as técnicas básicas necessárias aos elementos que permitirão desenvolver-se com mais possibilidades técnicas Figura 3: ABC da Iniciação Esportiva Fonte: Kroger e Roth (2002, p. 12).
Dentre as propostas encontradas, chama a minha atenção a sistematização dos jogos de invasão, de Reverdito e Scaglia (2009), a partir do pensamento complexo, de Edgar Morin. Nesta proposta, o professor tem que gerir desordem nas experiências de aprendizagem dos alunos, considerando a lógica complexa que orienta as ações durante um jogo. À medida que o aluno consegue perceber os aspectos estruturantes da atividade, o professor intervém no jogo, modificando um ou vários aspectos, proporcionando a necessidade de readaptação do aluno frente à situação apresentada durante a aula.
Apresentei apenas alguns autores que fazem referência aos processos da iniciação esportiva e fica evidente a preocupação e o compromisso com as questões educacionais em todos. O objetivo não está na detecção ou busca desenfreada por talentos esportivos, mas propor atividades que possam criar as condições necessárias para que, no futuro, caso este seja o desejo do aluno, poder seguir nas experiências da modalidade e, caso não seja, poder ser admirador ou praticante na dimensão do lazer.
Não considero, entretanto, que as reflexões sobre o ato pedagógico do esporte como conteúdo das aulas de EF sejam exclusivas delas, assim como as propostas oriundas da Pedagogia do Esporte. Percebo que o aprofundamento no campo da esfera interna do ensino das modalidades esportivas é mais pertinente aos autores da Pedagogia do Esporte, enquanto os autores, que discutem o esporte como conteúdo das aulas de EF, centram suas reflexões na busca de um trato crítico ao esporte de alto rendimento e de outras possibilidades de sua contemplação e utilização no cenário escolar.
O texto que inicia este capítulo traz o pensamento de Schiller acerca da necessidade de ampliarmos a nossa compreensão sobre o ato pedagógico e o uso dos aspectos que estão ao nosso redor. Optei por estabelecer um olhar para o esporte, nas esferas do alto rendimento e da participação (lazer) e no campo educacional, apresentando a discussão que orienta seu uso nas aulas de EF e nas oficinas de esporte. Ao invés de pensar na negação das oficinas de esporte, penso ser necessário refletir sobre os motivos que levam as escolas a pensar em substituir as aulas de EF pelas oficinas e garantir a presença do professor de EF nos dois espaços, pois, por mais que se questione, o esporte ainda é o conteúdo mais utilizado pela EF no espaço escolar, necessitando a sensibilidade para não ficarmos ouvindo o ruído monótono de uma roda que não traz os elementos do que acreditamos essencial à educação na contemporaneidade.
Nesta caminhada, já pensei em muitas coisas, inclusive em nada... Desisti do que pensei inicialmente a partir do olhar dos mais experientes, Agora, tento traçar um caminho sem o desejo de determiná-lo
E à medida que eu for seguindo, refazendo, sempre que necessário... Construindo, desconstruindo e reconstruindo no avançar do processo Para que possamos chegar à elucidação dos objetivos traçados...
E fazer dessa dissertação escrita no ir e vir do interior à capital... um sucesso! Os caminhos metodológicos traçados para elucidar a problemática apresentada Versam sobre uma perspectiva dialética de inspiração fenomenológica, Tendo o estudo de caso como abordagem metodológica
Localizando a investigação na Universidade do Estado da Bahia Trabalhando com os docentes que ministram disciplinas técnico-esportivas Entrelaçando análise documental e entrevista como instrumento de coleta de dados E se valendo da análise do discurso como pressuposto para validar os resultados