1 A FERRAMENTA COMPUTACIONAL DLNOTES2 E AS RELAÇÕES ENTRE
2.3 ONTOLOGIA PARA O GÊNERO ARTIGO DE OPINIÃO NA FERRAMENTA
A partir dos conceitos teóricos delineados neste capítulo, elaborou-se uma ontologia12 para leitura do gênero artigo de opinião na ferramenta computacional DLNotes2, conforme Figura 12. Essa ontologia foi utilizada para elaboração das atividades que serão aplicadas na pesquisa e anotação da estrutura argumentativa do gênero em estudo.
Como escolha metodológica, optou por denominar como ontologia a estrutura de base elaborada 12
para analisar um gênero de tipologia argumentativa, o artigo de opinião, na ferramenta computacional DLNotes2. No entanto, essa estrutura não passou pela validação da área da ciência da computação e trata-se de uma tipologia de textos argumentativos replicada para o gênero em análise, de modo a sistematizar o trabalho didático desenvolvido na aplicação da pesquisa.
Figura 12 – Ontologia para anotação da macro e microestrutura do gênero artigo de opinião
Fonte: a autora (2018).
Essa ontologia foi elaborada a partir da descrição de aspectos da macro e microestrutura do gênero. Primeiramente, foi realizado um estudo em teóricos que versam sobre argumentação acerca da macroestrutura, conforme descrito no item 2.2.1, dividindo-a em introdução (apresentação do tema/problema); desenvolvimento (argumentos e contra-argumentos); conclusão (confirmação da tese e/ou reformulação da tese); tese e antítese (considerando que eles elementos poderiam aparecer em qualquer parte do texto). Em seguida, foram selecionados alguns tipos de argumentos que poderiam ser reconhecidos no gênero artigo de opinião, de acordo com o item 2.2.2. Por fim, houve, a partir da classificação de Antunes (2010), a seleção dos operadores argumentativos que poderiam ser encontrados e classificados no texto, conforme item 2.2.3. Toda essa estrutura é tomada como base para elaboração do curso sobre leitura e interpretação do gênero artigo de opinião, desde o material teórico até as atividades de anotação. A partir dessa ontologia, esperava-se que os participantes do curso se atentassem tanto para o reconhecimento da estrutura do gênero quanto para como os tipos de argumentos utilizados na construção da argumentação.
No próximo capítulo, serão abordados conceitos teóricos acerca da concepção, dos objetivos e das estratégias de leitura tomados como base para os direcionamentos metodológicos na aplicação do curso sobre argumentação na fase
de coletas de dados da pesquisa. Também serão delineados os pressupostos sobre leitura nos meios analógicos e digitais pra compreensão de como a prática de leitura pode apresentar modos de agir específicos nesses dois meios.
SÍNTESE DO CAPÍTULO
Neste capítulo, foi abordado o conceito de argumentação com base na Nova Retórica: a argumentação como o campo do verossímil e as estratégias para persuadir o outro à adesão da tese apresentada, de modo a estabelecer a base teórica que irá fundamentar o curso sobre argumentação ofertado para coleta de dados da pesquisa.
Além disso, houve a descrição da organização da macroestrutura e da microestrutura do gênero artigo de opinião. Na primeira, a partir da proposta adaptada de Fiorin (2015), composta pela apresentação da tese, antítese, argumentos, contra-argumentos e conclusão, bem como a classificação as categorias argumentativas e tipos de argumentos. Na segunda, por meio das classificações de Antunes (2010), o emprego dos operadores argumentativos como recursos linguísticos que estabelecem relações de sentido entre as proposições, direcionando o caminho da argumentação. Esses fundamentos foram tomados como base para elaboração de ontologia para as práticas de leitura e anotação do gênero artigo de opinião no meio analógico e digital, este último na ferramenta computacional DLNotes2.
3 LEITURA E PRODUÇÃO DE SENTIDOS
Neste capítulo, será descrita a concepção de leitura que considera a construção de sentidos a partir da interação autor-texto-leitor, bem como a definição dos objetivos e das estratégias de leitura, com base em Solé (1998; 1996) e Koch e Elias (2013). Além disso, serão abordadas noções gerais acerca da leitura em meios analógico e digital, a partir de Chartier (1998), Bignotto (1998), Soares (2002) e Ribeiro (2006).
Alguns estudos que se debruçaram a refletir sobre a importância do trabalho com leitura e escrita ao final da educação básica e ingresso no ensino superior, bem como em exames nacionais e internacionais, indicam que os estudantes, após o ensino médio, ainda apresentam dificuldades nas práticas escriturais e leitoras (LOPES; CARVALHO, 2012). No Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), em 2015, nos resultados gerais de leitura, o Brasil alcançou 407 pontos em um total de 1000. Conforme os dados do exame, os estudantes apresentaram uma evolução ao recuperar e localizar informações durante a leitura. No entanto, ainda há dificuldades em situações nas quais é preciso integrar e interpretar, ou seja, estabelecer relações entre os segmentos textuais e atribuir sentido a informações implícitas (BRASIL, 2016).
No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM – 2017), esses dados preocupantes acerca do desempenho dos participantes em leitura também são confirmados. A média nacional dos estudantes no eixo “Linguagens e códigos” foi de 510,2 pontos num total de 1000 (BRASIL, 2018). Nesse eixo, uma das competências exigidas é “confrontar opiniões e pontos de vista sobre as diferentes linguagens e suas manifestações específicas” (BRASIL, 2017). Nessa competência, o estudante é solicitado a reconhecer diferentes gêneros verbais e não verbais de base argumentativa; relacionar em textos argumentativos diversas opiniões, temas e recursos da língua; inferir quais são as intenções do autor e o seu público-alvo, por meio da análise dos procedimentos empregados; e reconhecer diferentes estratégias argumentativas empregadas para convencimento do leitor. No trabalho com leitura, a ser realizado nesta pesquisa, os participantes deverão reconhecer os diferentes argumentos empregados pelo autor para defesa de um posicionamento, estando de acordo com uma das competências leitoras exigidas em um exame certificação de conhecimentos do ensino básico.
Além disso, Moura e Martins (2012) afirmam que a leitura é fundamental para a construção de conhecimentos e exercício social da cidadania, uma vez que amplia o conhecimento de mundo, permite o acesso à informação, auxilia na autonomia, propicia a reflexão crítica e o debate. Ao mesmo tempo, a leitura é uma questão linguística, pedagógica e social, uma vez que é papel da escola e dos professores fornecerem condições para que os estudantes se tornem leitores proficientes. Portanto, ao mediar a leitura, é preciso ter a compreensão que ela é “uma atividade social, dinâmica que exige do leitor, além dos conhecimentos linguísticos, experiências de mundo para processar as informações contidas no texto” (p. 89). As autoras também enfatizam que ler não é um ato individual, mas uma atividade colaborativa entre alunos e professores.
De acordo com Kleiman (2004), há uma diversidade de enfoques a serem adotados no trabalho com leitura. Em uma perspectiva de leitura como prática social, ela está relacionada à situação de comunicação, ou seja, diz respeito à história dos sujeitos, ao perfil da instituição em que estão inseridos, ao grau de formalidade ou informalidade do texto e pelos objetivos de leitura. Ainda, segundo a autora, há duas abordagens principais acerca da leitura, a psicossocial e a sócio-histórica. A primeira, surgida na década de 1970, nas áreas da Psicolinguística e Psicologia Cognitiva, estava centrada no leitor e nos processos cognitivos envolvidos na compreensão da língua escrita. Na década de 1980, essa vertente passa a sofrer influência da Linguística Textual e há uma preocupação, também, com o texto e os mecanismos que lhe conferem textualidade, por exemplo, a tipologia textual.
A segunda vertente, a abordagem sócio-histórica, surge na década de 1990 sob a influência dos estudos do letramento. O objetivo de pesquisa dessa linha teórica era analisar a leitura “como prática social, específica de uma comunidade, os modos de ler inseparáveis dos contextos de ação dos leitores, as múltiplas e heterogêneas funções da leitura ligadas aos contextos de ação desses sujeitos” (KLEIMAN, 2004, p. 15). Essa concepção leva em consideração a construção social dos saberes situados em eventos de interação, textos multissemióticos e a abordagem de gêneros complexos.
A partir desses pressupostos iniciais, nesta pesquisa, são levados em consideração aspectos voltados para a textualidade do gênero artigo de opinião e as práticas de letramento, uma vez que será verificado como os sujeitos realizam a leitura em meios analógico e digital, podendo configurar diferentes estratégias a
serem adotadas pelos leitores. Desse modo, no curso de leitura e compreensão de processos argumentativos no gênero artigo de opinião, aplicado na coleta de dados desta pesquisa, apesar de haver um enfoque na compreensão da micro e macroestrutura textual, foi também levada em conta a temática abordada nos artigos trabalhados, de modo que ela seja significativa para o público participante da pesquisa, estudantes do ensino superior. Além disso, foram levados em consideração os sentidos e hipóteses levantadas pelos alunos ao realizarem as atividades de leitura, anotação e interpretação.