FACTORES PSICOSSOCIAIS/
4.1. Hipóteses Gerais
4.2.5. Operacionalização das dificuldades de leitura: PROLEC-R
A PROLEC-R é uma bateria desenvolvida por Cuetos, Rodriguez e Arribas (2009), com vista a avaliar o desempenho na leitura a nível do reconhecimento de letras, processos léxicos, sintáticos e semânticos.
Este instrumento foi inicialmente validado em Espanha através de uma amostra de 920 sujeitos (crianças de ambos os sexos com idades compreendidas entre os 6 e os 12 anos e com uma escolaridade do 1º ao 6º ano do ensino básico), recolhida nos principais distritos de Espanha.
Rui Manuel Carreteiro 151 No presente estudo, foi utilizada a versão Portuguesa, em desenvolvimento por Figueira, Lopes & Almeida (no prelo), traduzida por uma equipa constituída por
elementos com formação em Psicologia (Psicologia da Educação) e em Língua Portuguesa (Linguística), com consultoria de elementos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, com formação em Língua Espanhola (Figueira, Lopes, Serra
& Almeida, 2011). A versão Portuguesa utilizada conservou o número de provas (Tabela
4.2) e os critérios da bateria original, sendo todas as provas pontuadas de 0 (em caso de erro) a 1 (em caso de a certo).
Tabela 4.2.
Estrutura da bateria de provas PROLEC-R
Processo Provas
I - Identificação de letras 1. Nome ou Som de Letras
2. Igual-Diferente
II - Processos léxicos 3. Leitura de Palavras
4. Leitura de Pseudopalavras
III - Processos sintáticos 5. Estruturas Gramaticais
6. Sinais de Pontuação
IV - Processos semânticos 7. Compreensão de Frases
8. Compreensão de Textos
9. Compreensão Oral
Considerando que, perante a incapacidade de identificar letras, será muito difícil ler um texto, antes de avaliar outros processos de leitura, é necessário assegurar que a criança reconhece todas as letras, isoladas ou agrupadas, de maneira rápida e sem dificuldade (Freitas, Alves & Costa, 2007). Assim, com vista a avaliar a identificação de letras, a PROLEC-R dispõe de duas provas: Nome ou Som de Letras (constituída por 23 letras do alfabeto, em que 3 servem de exemplo e são vogais, e as outras 20 são
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cronometradas) e Igual-Diferente (constituída por 20 pares de palavras e pseudopalavras, dos quais 10 pares são iguais e 10 são diferentes). O objetivo da prova “Nome ou Som de Letras” consiste em verificar se a criança reconhece todas as letras ou o som correspondente. O objetivo da prova “Igual-Diferente” consiste em avaliar a capacidade da criança segmentar e identificar as letras que compõem as palavras.
No que se refere aos processos léxicos, a prova “Leitura de Palavras” consiste na apresentação de uma lista de 40 palavras com estrutura silábica variável, variando, igualmente, quanto à dimensão e frequência. Segundo Figueira, Lopes, Serra e Almeida (2011), na contagem de sílabas fonéticas, foram consideradas “palavras curtas” as compostas por duas sílabas e “palavras longas” as compostas por três ou mais sílabas. Já a frequência das palavras foi avaliada com base na CORLEX (contendo um total de 7771619 ocorrências), sendo a prova constituída por 13 palavras muito frequentes (ocorrência igual ou superior a 40 por milhão), 14 palavras de frequência média e 13 palavras pouco frequentes (ocorrência igual ou inferior a 5 por milhão), com diversas complexidades silábicas (Figueira, Lopes, Serra & Almeida, 2011). Segundo as autoras, esta prova revela-se fundamental para a avaliação da leitura, já que o tempo despendido no reconhecimento de palavras interfere nos processos de compreensão.
A prova “Leitura de Pseudopalavras” procura avaliar a capacidade que a criança tem na leitura de palavras sem significado, sendo constituída por uma lista de 40 pseudopalavras cuja leitura é novamente cronometrada. Segundo as autoras, trata-se de uma prova importante uma vez que, segundo a literatura, os mecanismos que operam na leitura de palavras regulares podem diferir daqueles que são usados na leitura de palavras irregulares ou sem significado. Na elaboração desta prova, as autoras seguiram
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pseudopalavras foram obtidas substituindo letras ou mesmo sílabas da palavra
precipitante ou mãe (a partir da lista de palavras adotada).
No que concerne aos Processos Sintáticos, a prova “Estruturas Gramaticais” (composta por 16 frases, cada uma com quatro imagens associadas, em que apenas uma corresponde ao conteúdo da frase, funcionando as restantes como distratoras) visa avaliar a capacidade do leitor para realizar processamento sintático de frases com diferentes estruturas gramaticais. Figueira, Lopes, Serra e Almeida (2011) justificam esta prova com o facto de as palavras isoladas, por si só, não serem suficientes para transmitir mensagens e proporcionar aquisição de novas informações, pelo que, para uma avaliação completa da leitura, é necessária a introdução dos sinais de pontuação e das estruturas gramaticais.
Assim, a bateria inclui uma prova de pontuação (Sinais de Pontuação) na qual é apresentado um texto (com 11 sinais de pontuação, que, por vezes, se repetem – ponto
final, vírgula, ponto de exclamação, ponto de interrogação, travessão, dois pontos, ponto e vírgula), sendo cronometrado o tempo de leitura.
Segundo Cuetos et al. (2009), os processos semânticos encontram-se formados por três subprocessos (extração do significado, integração na memória e processos inferenciais) e revelam-se importantes na extração de informação da mensagem do texto e integração nos conhecimentos armazenados na memória a longo prazo, para posterior utilização. Este facto justifica a avaliação dos processos semânticos através de 3 provas: Compreensão de Frases (composta por 16 frases, das quais em 9 a criança deve ler e
executar a ação correspondente e nas restantes 7 a criança deverá ler, identificar e dizer
qual a imagem que lhe corresponde), Compreensão de Textos (composta por 4 textos,
dois mais curtos e dois mais longos, de tipo narrativo e expositivo, de conteúdos mais ou menos familiares, que a criança deve ler com vista a responder posteriormente a 4
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questões sobre cada um) e Compreensão Oral (composta por dois textos expositivos, um mais curto e outro mais longo, ambos com conteúdos pouco familiares, que a criança ouve com atenção para poder posteriormente responder a 4 questões sobre cada um dos textos).
No que concerne à consistência interna, Cuetos e colaboradores (2009) calcularam os valores de alfa de Cronbach com base no número de acertos em cada uma das provas, obtendo valores entre .48 e .79, que os autores classificam como satisfatórios. De um ponto de vista menos clássico, os autores terão também recorrido à Teoria de Resposta ao Item (TRI) e, embora não tenham utilizado esta modelação para efeitos de correção ou obtenção de pontuações, o uso do Modelo de Rasch sugere que todas as provas da PROLEC-R, exceto a Compreensão Oral, revelam ter máxima precisão (theta < 0).
Considerando encontrar-se ainda em desenvolvimento, a versão Portuguesa da PROLEC-R não dispõe ainda de dados normativos ou psicométricos, pelo que se passam a referir os dados relativos às análises de consistência interna obtidos na presente investigação para cada uma das provas:
a) Nome ou Som de Letras, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .660 (M = 17.04 e SD = 1.52), conforme consta no Anexo 4.34;
b) Igual-Diferente, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .869 (M = 17.24 e SD
= 3.55), conforme consta no Anexo 4.35;
c) Leitura de Palavras, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .971 (M = 35.16 e
SD = 8.83), conforme consta no Anexo 4.36
d) Leitura de Pseudopalavras, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .971 (M =
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e) Estruturas Gramaticais, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .844 (M =
14.08 e SD = 2.78), conforme consta no Anexo 4.38;
f) Sinais de Pontuação, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .828 (M = 8.14 e
SD = 2.85), conforme consta no Anexo 4.39;
g) Compreensão de Frases, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .624 (M =
14.79 e SD = 1.83) que beneficia da remoção do item 4, passando a um alfa de
Cronbach de .751, conforme consta no Anexo 4.40;
h) Compreensão de Textos, revela um coeficiente alfa de Cronbach de .790 (M =
10.69 e SD = 3.51), conforme consta no Anexo 4.41 e
i) Compreensão Oral, revela um coeficiente alfa de Cronbach inicial de .302 (M =
3.97 e SD = 1.66) que beneficia da remoção dos itens 1, 2, 3 e 4, passando a um alfa de
Cronbach de .615, conforme consta no Anexo 4.42;
A análise de coeficientes de correlação revela ainda algumas correlações interessantes, que se passam a referir (Anexo 4.43):
- Apesar de pertencerem ao processo de identificação das letras, as provas de “Nome
ou Som de Letras” e “Igual-Diferente” não apresentam uma correlação estatisticamente significativa;
- Porém, as provas “Leitura de Palavras” e “Leitura de Pseudopalavras”,
pertencentes aos processos léxicos, apresentam uma correlação elevada positiva e estatisticamente significativa entre si (r = .806, p = .000, n = 108);
- As provas que avaliam os processos sintáticos apresentam uma correlação positiva
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- As provas que avaliam os processos semânticos apresentam uma correlação
positiva moderada e estatisticamente significativa, entre si (.515 ≤ r ≤ .639, p = .000, n = 109);
- As provas Leitura de Palavras e Leitura de Pseudopalavras apresentam uma forte
correlação positiva e estatisticamente significativa com a generalidade das outras provas (.485 ≤ r ≤ .806, p = .000, n = 109), à exceção da prova Igual-Diferente);
- A prova Igual-Diferente não apresenta correlação significativa com nenhuma das
outras provas (.140 ≤ p ≤ .838).