FACTORES PSICOSSOCIAIS/
2.2. Parentalidade e psicopatologia
As famílias desempenham um papel fundamental no desenvolvimento e na manifestação do comportamento das crianças (Baumrind, 1991; Chan, Bowes & Wyver, 2009; Parke & Buriel, 2006). As relações precoces são frequentemente identificadas como fundamentais para o desenvolvimento infantil (Baumrind, 1978; Bornstein, 2002; 2006; Maccoby, 2000; Sroufe, 2000) e a qualidade dos cuidados parentais chega mesmo a ser considerada como a variável mais importante para o desenvolvimento das crianças (Sroufe, 2002).
O papel da parentalidade no bem-estar psicológico tem sido estudado por vários autores ao longo das últimas décadas (Amato, 1994; Amato & Ochiltree, 1986; Buri, Kirchner & Walsh, 1987; Canavarro, 1999; Dekovic & Meeus, 1997; Dmitrieva, Chen, Greenberger & Gil-Rivas, 2004; Doyle & Markiewicz, 2005; Farrell & Barnes, 1993; Gecas, 1971; Gecas & Schwalbe, 1986; Roberts & Bengtson, 1993; Steinberg, 2001; Wilkinson, 2004).
Vários estudos sugerem que as representações acerca do envolvimento parental afetam de forma clara, positiva ou negativamente, o bem-estar psicológico das crianças e adolescentes (Amato, 1994; Amato & Ochiltree, 1986; Buri et al., 1987; Flouri & Buchanan, 2003; Gecas, 1971; Gibson & Jefferson, 2006; Roberts & Bengtson, 1993), particularmente no que concerne à autoestima, autoconfiança e relacionamento interpessoal (Amato, 1994; Amato & Ochiltree, 1986; Buri et al., 1987; Dekovic & Meeus, 1997; Dmitrieva et al., 2004; Flouri & Buchanan, 2003; Gecas, 1971; Gibson & Jefferson, 2006; Roberts & Bengtson, 1993; Wilkinson, 2004).
Em talvez um dos primeiros estudos sobre parentalidade, Gecas (1971) verificou que os comportamentos parentais de suporte se encontravam positivamente relacionados
Rui Manuel Carreteiro 117 com as autoavaliações das crianças. Por outro lado, num estudo com 85 estudantes universitários, 72 pacientes médico-cirúrgicos e 66 funcionários públicos, Clayer, Rosse e Campbell (1984) concluem que os estilos parentais interferem com as dimensões de personalidade. De acordo com Belsky (1984), as experiências de infância dos pais influenciam o comportamento parental, através do impacto (ainda que indireto) que a sua história de desenvolvimento tem na sua personalidade.
Ao realizar um estudo longitudinal com 471 participantes adultos, Amato (1994) concluiu que quer o relacionamento pai-filho quer o relacionamento mãe-filho se encontram positivamente relacionados com o crescente bem-estar psicológico das crianças, tendo inclusivamente registado que, nos casos de divórcio, a correlação entre a proximidade do pai e a satisfação pela vida era significativamente mais fraca. Na mesma linha, num estudo realizado por Ghazinour, Richter, Emami e Eisemann (2003), comparando cidadãos suecos e refugiados, constatou-se que os estilos parentais bem como características da personalidade se revelam fundamentais na explicação do aparecimento de manifestações patológicas.
A relação da criança com os seus pais desempenha um papel fundamental na compreensão do seu desenvolvimento comportamental e psicossocial (Cummings, Davies & Campbell, 2000). Não obstante, de acordo com Ruchkin, Eisemann, Koposov e Hagglof (2000), embora os estilos parentais sejam um fator etiológico importante nos problemas de comportamento, constituem apenas parte de um complexo sistema mais amplo. Por conseguinte, segundo os autores, a avaliação da predisposição para problemas comportamentais não se deve cingir aos estilos parentais. Um trabalho realizado por Eisemann e U Umeå (1988) revê a literatura disponível sobre a associação entre estilos parentais e o desenvolvimento de psicopatologia nas crianças, propondo um modelo interativo que relaciona o aparecimento de distúrbios psicopatológicos com
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a vulnerabilidade individual, eventos de vida e os fatores biológicos, fisiológicos e sociais.
De uma forma geral, a literatura refere uma relação entre estilos parentais e problemas do comportamento exteriorizantes e interiorizantes (Berkien, Louwerse, Verhulst & van der Ende, 2012; Caron, Weiss, Harris & Catron, 2006; Chen, Liu & Li, 2000; Dwairy, 2008, 2010; Gracia, Lila & Musitu, 2005; Granic & Patterson, 2006; Jaursch, Losel, Beelmann & Stemmler, 2009; Javo, Ronning, Heyerdahl l & Rudmin, 2004; Lamborn et al., 1991; Muris, Meesters & van der Berg, 2003; Pereira, Canavarro & Cardoso, 2009; Pettit et al., 2001).
Ao estudar a relação entre fatores familiares negativos (tais como vinculação insegura e estilos parentais adversos) e o comportamento de 327 crianças dos 9 aos 12 anos, Roelofs, Meesters, ter Huurne, Bamelis e Muris (2006) concluíram que as atitudes parentais percecionadas pelas crianças, com especial destaque para a rejeição e ansiedade, influenciavam a variância de comportamentos interiorizantes e exteriorizantes.
Rosa-Alcázar, Parada-Navas e Rosa-Alcázar (2014) estudaram a relação entre a psicopatologia, a perceção dos estilos parentais e a autoestima de 935 adolescentes espanhóis, verificando diferenças em todas as variáveis. Quando comparadas com os rapazes, as raparigas revelaram menos sintomas psicopatológicos e uma perceção dos estilos parentais mais adaptativa.
No entanto, ao investigar a relação entre estilos parentais e psicopatologia numa amostra clínica de 64 crianças com idades entre os 8 e os 18 anos, Muris, Bögels, Meesters, van der Kamp e van Oosten (1996) não encontraram nenhuma associação entre estilos parentais e comportamentos interiorizantes.
Rui Manuel Carreteiro 119 Um grupo de investigadores sob a égide de Carlo Perris tem vindo a realizar diversas investigações com vista a compreender o papel das ralações afetivas com os pais, nomeadamente dos estilos parentais, na saúde mental do indivíduo. Para o efeito criaram um instrumento de autoavaliação, denominado por EMBU que permite avaliar a perceção do indivíduo sobre o relacionamento com os pais durante a infância e adolescência, nas dimensões de suporte emocional, rejeição e sobreproteção (Canavarro, 1999).
Através dos seus estudos, Perris (1994) procurou criar uma abordagem concetual específica na compreensão da ocorrência dos diversos distúrbios psicopatológicos (Fig. 2.3).
Figura 2.3.
Abordagem conceptual da Psicopatologia (adaptado de Perris, 1994)
O modelo geral oferecido fundamenta-se numa complexa articulação entre variáveis culturais, biológicas e psicossociais, cuja interação poderá resultar em manifestações psicopatológicas. Para clarificar a influência das relações afetivas estabelecidas com os pais durante a infância no desenvolvimento da psicopatologia, Perris (1994) descreve várias etapas, patentes na Figura 2.4.
Determinantes Biológicos Determinantes Psicológicos Determinantes Sociais Vulnerabilidade Individual Distúrbio Psicológico Acontecimentos Traumáticos Cultura
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Figura 2.4.
Mecanismos através dos quais as práticas educativas disfuncionais conduzem à psicopatologia (adaptado de Perris, 1994)
Segundo Belsky, Fearon e Bell (2007), a literatura revela relações entre a qualidade da parentalidade que as crianças recebem e o desenvolvimento de problemas extrínsecos, com os dados a documentarem repetidamente efeitos adversos da parentalidade coerciva e conflituosa e consequências benéficas da parentalidade calorosa, sensível e apoiante. Os pais influenciam o desenvolvimento e sucesso académico, desportivo ou musical dos seus filhos, sendo o seu suporte essencial para o sucesso (Delforge, Le Scanff & Fontayne, 2007).
Com base nos dados empíricos, parece não haver dúvida relativamente ao impacto dos ambientes educativos da criança numa variedade de situações, desde o funcionamento adaptativo e sucesso escolar até um conjunto de situações problemáticas, tais como abuso de drogas, comportamento agressivo e ansiedade em crianças e adolescentes (Marquez-Caraveo, Hernandez-Guzmán, Villalobos, Pérez-Barrón & Reys-Sandoval, 2007). Determinantes Psicossociais do Comportamento Parental Comportamento Parental Disfuncional Experiências negativas do relacionamento com os pais
Esquemas disfuncionais sobre si próprio
Distúrbio Psicopatológico
Acontecimentos Activadores
Rui Manuel Carreteiro 121 Os estudos que relacionam a personalidade com estilos parentais tendem a informar que pais com índices elevados de neuroticismo e baixos de extroversão tendem a ser mais rejeitantes e controladores sendo menos calorosos (Arrindell et al., 1999, cit in Aluja, Barrio & García, 2006). Por outro lado, o psicoticismo materno correlaciona- se negativamente com afetividade emocional e, além disso, a impulsividade e a procura de sensações (sensation seeking) por parte das mães correlacionam-se com o controlo exercido pela mesmas (Kraft e Zuckerman, 1999, cit in Aluja, Barrio & García, 2006). Da mesma forma, pais extrovertidos e sociáveis revelam mais apoio.
Martín, Bergen, Roeger e Allison (2004) registaram, no caso dos rapazes, uma associação significativa entre a depressão e a sobreproteção paterna e, no caso das raparigas, a ausência de cuidado materno. Na mesma linha, ao analisar a relação entre estilos parentais e perturbações de ansiedade e depressão em seis estados europeus, Heider, Matschinger, Bernet, Alonso e Anger-meyer (2006) registam um padrão homogéneo no qual o baixo cuidado paternal/maternal surge associado a perturbações de humor.
Mais recentemente, um estudo realizado por Iglesias e Romero (2009) revelou uma relação entre a baixa aceitação e implicação parental e a depressão adolescente bem como entre o estilo autoritário e as alterações exteriorizantes.
Ao estudar 54 pacientes com anorexia, Russell, Kopec-Schrader, Rey e Beaumont (1992) verificam que, quando comparados com o grupo controlo, os respectivos pais obtiveram pontuações mais elevadas no fator de cuidado e menos elevadas na sobreproteção.
No que concerne ao consumo de substâncias, Pons e Berjano (1997) defendem que o comportamento parental de reprovação e castigo é o fator com maior poder discriminativo para o consumo de álcool em adolescentes e Villar, Luengo, Gómez e
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Romero (2003) constatam que os adolescentes que percebem os pais como permissivos relativamente às drogas têm maior consumo de tabaco, álcool e cannabis. No que concerne à conduta antissocial, os mesmos autores descrevem uma correlação positiva com o estilo permissivo e negativa com o estilo democrático.
Famílias de crianças com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) e famílias de crianças com problemas de comportamento, partilham algumas características com famílias disfuncionais, estando os padrões parentais frequentemente associados ao comportamento disruptivo (Lindahl, 1998). Segundo os autores, a literatura sugere que os padrões de controlo coercivo são mais frequentes nas interações entre pais e filhos com PHDA ou problemas de comportamento.
Num estudo realizado com crianças com PHDA e problemas de comportamento, Lindahl (1998) verificou que as famílias de crianças com PHDA ou alterações do comportamento eram semelhantes às demais em termos de funcionamento marital e familiar, diferindo, no entanto, em termos de rejeição-coerção que se revelou mais elevada no grupo com PHDA. Lindahl (1998) obteve, também, resultados na linha de Stothamer-Loeber (1986, cit in Lindahl, 1998) que encontraram falta de envolvimento e negligência parental em crianças com problemas de comportamento