A comunidade de Capela tem sua origem datada no período colonial, através da resolução n° 837 de 09 de junho de 1882. Nessa data, a cidade de Ceará-Mirim/RN é elevada à condição de vila e por meio da Lei municipal n° 2, de 30 de novembro 1892 que estabelece Capela, Murú (sic) e Extremoz como distritos recém-cidade.
É provável que o nome da comunidade tenha relação com o antigo engenho, devido a sua importância socioeconômica no período1. Não irei adentrar nas discussões, pois os únicos registros desse período são frutos de histórias de ancestrais, transmitidas oralmente, de geração em geração. Ao longo do tempo essas narrativas estão sendo apagadas devido não serem registradas oficialmente, perdendo-se assim, com a morte anciãos da Comunidade.
Figura 1 – Ruínas do Engenho Capela
Fonte: Ferreira (2013)
Os relatos e histórias orais transmitidas pelos ancestrais sobre a comunidade descrevem sua a importância no cenário político colonial. No território onde atualmente Capela está localizada, no período de expansão colonial existia engenho, casa grande e cartório. Esses relatos também demostram a importância de Capela na região, pois alguns chegam até a narrar visitas de figuras importante do império, bem como a possibilidade de o lugar ser sede da nova cidade.
Quando conversava nas rodas com homens e mulheres de distintas gerações sobre as narrativas a respeito da comunidade eles destacavam o quanto a localidade foi importante para o desenvolvimento da cultura açucareira de Ceará-Mirim/RN. Eram rodas onde estava senhores e senhoras na faixa etária dos 80 anos dialogando com pessoas na
1 Mais informações sobre esse período disponível em:
https://franciscoguiacm.blogspot.com/2017/02/engenho-capela-em-ceara-mirim.html. Acesso em 13 de set. de 2020.
faixa etária dos 50 a 40 anos.
Nossas conversas não tinha dia ou hora marcadas naturalmente surgiam seja em um tarde ao encontrarem-se para colocar os papos em dias ou mesmo vistas, enquanto investigadora que buscava reconstruir a história de Capela sempre os questionava sobre a fundação e desenvolvimento do local ao qual pertencemos.
Figura 2 – Casarões Do engenho Capela
Fonte: Ferreira (2013)
Capela pode ser dividida em dois períodos ao longo da sua história: o colonial e o contemporâneo. No primeiro momento, no qual os moradores habitavam a região próxima às margens do rio que cruza a Comunidade, foram construídos casas e engenhos nas proximidades desse rio. Atualmente a tendência de construções distancia-se cada vez mais desse rio.
Ao escrever sobre esse contexto histórico e visitar esses espaços é impossível não recordar tempos remotos: lembranças das mulheres lavando louças e roupas no rio da ponte, ou mesmo das visitas que, quando criança, realizava nas ruinas do engenho Capela; o medo dos fantasmas; os trabalhos de crianças e mulheres descascando mandiocas para produzir farinha; as histórias contadas por meus ancestrais sobre a chegada à comunidade de Capela; as dificuldades diante das desigualdades sociais que naquele período pareciam tão normais etc.
Neste período todas as atividades econômicas giravam em torno da monocultura açucareira, sendo assim nessa região as formas da exploração de trabalho vão desde o regime escravocrata ao regime de trabalho assalariado. As atividades centravam-se em
trabalhos agrícolas, sendo heterogêneas as formas de contrato. O agricultor, junto com as plantações são os personagens principais e responsáveis por manter a visão de espaços rurais tradicionais.
Em relação aos contratos de trabalho dos trabalhadores rurais, em contexto de assalariamento, Ianni (2004) enumera as formas de contrato existente no meio rural, sendo esses os sitantes: pequenos proprietários de terras que trabalham diretamente na terra; os arrendatários, que alugam território para uso em determinado período, desenvolvendo atividade agrícola; os parceiros, fazendo uso da terra a partir da oscilação da produção; os empreiteiros, tendo o compromisso de realizar determinada tarefa ao longo da produção e por fim, os camaradas. Desses trabalhadores elencados anteriormente consigo identificar a existência na comunidade de Capela de sitiantes e arrendatários, bem como aqueles que trabalhavam em fazendas e, ao desenvolverem essas atividades, estabeleciam acordos e passavam a morar dentro da fazenda, junto com a família.
Certa tarde sai com destino ao sitio de Francisco senhor de aproximadamente 70 anos que antes de morar em Capela trabalhava e morava junto com a família em uma fazenda localizada próximo a Capela. Ele relatou que por muitos anos morou nesta fazenda com a família por motivos de trabalho, deitado na rede de balanço, o mesmo descrevia que tinha uma casa muito precária em Capela e que desejava mora só que para ter que mora com dele e da então mulher iam passa muita fome sem trabalho e terra para plantar na comunidade.
Outras histórias foram apareceram de trabalhadores que moravam em fazenda e posteriormente migraram para Capela, no entanto também havia aqueles que apresentavam histórias de sempre estiveram ali e desse lugar nunca tinha saído. O que todos mesmo partindo de trajetórias diferente era o sentimento de pertencimento ao lugar e as narrativas a respeito da comunidade.
Figura 1 – Rio da Ponte
Fonte: Barbosa (2019)
Esclareço que estou pontuando esse momento histórico por três fatores. O primeiro diz respeito à preservação das memórias dos ancestrais, segundo para demonstrar as mudanças que ocorreram dentro da comunidade e por fim descrever as origens da população para nos capítulos que seguem pensar as protagonistas dessa dissertação a partir da perspectiva interseccional.
2.2. A comunidade de capela: uma visão sobre instituições e estruturas na