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Origem da proposta de formação do PNAIC

No documento barbaralimagiardini (páginas 110-114)

CAPÍTULO III UMA VISÃO DO PNAIC PELA ABORDAGEM DO CICLO

3.2 O PNAIC EM TEXTOS

3.2.2 Origem da proposta de formação do PNAIC

Segundo a Coordenadora Geral da UFJF e a Coordenadora Geral da UFPE, a proposta de formação do PNAIC surgiu no contexto das ações da Rede Nacional de Formação Continuada de Professores de Educação Básica. Nesse sentido, ambas assim afirmam:

No governo Lula, foram criados os Centros da Rede Nacional de Formação. E o que o governo solicitou para esses Centros? Política de Formação de Professores. Daí, esses Centros inicialmente é que foram convidados para pensarem na política, então, no Pró-Letramento, a gente vê que houve uma grande participação do estado de Minas Gerais porque um dos fascículos foi escrito pelos professores da UFMG que já tinham escrito o material para o Estado, o pessoal do Ceale que escreveu o CBC [...]. O Pacto surgiu também com isso, a solicitação de que os Centros de Referência assumissem esse trabalho, afinal de contas, era um dos objetivos da criação dos Centros trabalhar com a formação continuada de professores. (COORDENADORA UFJF)

O PNAIC surgiu por uma avaliação do MEC de que havia problemas com o processo de alfabetização inicial. Algumas propostas foram discutidas pela equipe deles. [...] Recorreram aos projetos que tinham sido submetidos ao MEC no Edital da Rede Nacional de Formação de Professores. Eles, então, dentre os projetos, selecionaram o que tinha sido encaminhado pela UFPE. (COORDENADORA UFPE)

A Rede Nacional de Formação Continuada de Professores de Educação Básica, instituída em 2004, foi composta por um conjunto de instituições de ensino superior públicas, federais e estaduais, com a finalidade de contribuir para a melhoria da formação docente, articulada a pesquisa e produção acadêmica. Por meio dessa parceria, os Centros de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação (Centros) das instituições se responsabilizariam pela formulação de propostas e pela elaboração de materiais, e o MEC se incumbiria do suporte técnico e financeiro aos cursos. Foram priorizadas cinco áreas de atuação: Alfabetização e Linguagem; Educação Matemática e Científica; Ensino de Ciências Humanas e Sociais; Artes e Educação Física; Gestão e Avaliação da Educação. A área Alfabetização e Linguagem envolveu cinco universidades: Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Universidade Estadual de Ponta Grossa – UEPG; Universidade de Brasília – UNB; Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (BRASIL, 2008).

Cabral (2015), ao falar dos materiais do PNAIC, aponta a origem do Programa atrelada à proposta de formação da UFPE:

Um ponto fundamental para uma boa aceitação ao PNAIC foi a qualidade dos materiais. Tendo como base um projeto de formação para professores

alfabetizadores organizado pelo Centro de Estudos em Educação e Linguagem – CEEL, da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, e por convidados de

outras universidades [...]. O resultado foram cadernos de formação, jogos pedagógicos e demais materiais de linguagem acessíveis, preocupados com as concepções teóricas que embasam o Programa. (CABRAL, 2015, p. 155, grifou-se)

Documento do PNAIC (BRASIL, 2015, p. 20) também aponta o CEEL/UFPE, como mentor da proposta de formação do PNAIC: “[...] Convidamos o Centro de Estudos em Educação e Linguagem – CEEL da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE para elaborar uma proposta para a formação, inicialmente pensada para dois anos”. O CEEL/UFPE tem como objetivo:

[...] contribuir para a melhoria da formação docente através da formação continuada de professores de Língua Portuguesa nos mais diversos níveis de ensino, bem como o desenvolvimento de pesquisas em áreas relacionadas ao ensino da língua materna. A importância social deste Centro está no trabalho de integração das suas ações através de projetos direcionados a professores de diferente áreas, gestores em educação e às secretarias municipais e estaduais de educação43.

43 O Ceel/UFPE. Disponível em: < http://www.portalceel.com.br/apresentacao/#ancora>. Acesso em: 15 jan.

No entanto, resta dúvida sobre a forma como o CEEL/UFPE recebeu centralidade nesse processo: submissão de projeto em edital da Rede, como afirma a Coordenadora da UFPE, ou convite para elaborar a proposta, como explicitado em material do PNAIC?

Como já exposto, o CEEL é um dos cinco Centros que compõem a Rede Nacional de Formação Continuada na área de Linguagem e Alfabetização. Como hipótese para o caso de ser o CEEL o responsável por pensar as bases de formação do PNAIC, e não outro Centro que também atua nessa área, coloca-se o fato de que, a princípio, a ideia era que a formação se destinasse aos estados do Nordeste mais o Pará, este da região Norte. Dessa forma, o CEEL/UFPE é o Centro de Formação que se situa nesse contexto e que pode conhecer melhor as demandas de formação e alfabetização da região.

De acordo com a Coordenadora da UFPE, o projeto de formação foi apresentado para apreciação, em vários momentos, para públicos diversos, sobretudo Diretorias do Ministério da Educação, Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). Considerando as demandas apontadas por esses atores, foram feitas alterações no projeto inicial. Em seguida, o projeto foi apresentado para as universidades que participaram do Pró-Letramento, as quais indicaram sugestões, posteriormente incorporadas ao documento.

A participação dos secretários municipais de educação e representantes da Undime é apontada em material do Programa, o qual assim dispõe:

No segundo semestre de 2012, a Secretaria de Educação Básica – SEB/MEC, com o objetivo de discutir as estratégias de mobilização dos estados, Municípios e do Distrito Federal para a adesão ao programa, realizou reuniões com cada um dos secretários de educação dos 26 estados e o Distrito Federal, assim como os respectivos Presidentes estaduais da Undime. Essas reuniões possibilitaram a construção da identidade local do PNAIC, respeitando as formações em andamento, construindo articulações com a nova proposta e incluindo formadores com experiência nas propostas de formação das universidades. (BRASIL, 2015, p. 19 - 20)

A Coordenadora da UFPE também informa que, após a aprovação do projeto, foi realizada uma chamada para as universidades a fim de que estas se envolvessem na produção dos cadernos de formação. Todos que manifestaram interesse participaram da construção dos materiais.

Segundo a Coordenadora da UFJF, “[...] No primeiro ano, todas as universidades que estavam na reunião no Ministério da Educação foram convidadas para escrever. Algumas aceitaram, escreveram e mandaram seus artigos, que foram publicados”. Ainda de acordo com

seu relato, a Coordenadora da UFPE atuou dinamizando o processo de construção dos materiais de formação:

Sempre trabalhou em equipe, e a capacidade dela de agrupar as ideias das universidades e de dialogar com as pessoas é muito grande. Ela não é assim: “Ah!

Eu sou a mentora, pensei assim, vai ser assim”. Não, é uma pessoa ultra-aberta,

muito interessante a postura dela. (COORDENADORA UFJF, grifou-se)

Assim sendo, foi evidenciado pelas entrevistas, pelos documentos do PNAIC e por Cabral (2015) que a origem da proposta de formação do PNAIC está atrelada ao Centro de estudos em educação e linguagem (CEEL) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). De acordo com a Coordenadora da UFJF, o CEEL/UFPE também dinamizou o processo de organização dos materiais didáticos da formação. Na conferência “Conquistas e desafios do PNAIC 2013 – 201544”, a Coordenadora do PNAIC na UFPE, dentre outras atribuições, é apresentada como Coordenadora da equipe de elaboração dos cadernos do PNAIC.

Analisando-se o surgimento da proposta de formação do PNAIC, considera-se interessante sua concepção ter emergido de um centro de estudos que atua na área de alfabetização e linguagem, assim como a participação de outras universidades e instâncias representativas dos profissionais da educação no desenho do Programa. Ademais, julga-se positivo o fato de as universidades serem responsáveis pela proposição de ações de formação continuada, tendo em vista suas experiências com formação inicial, além dos conhecimentos acumulados em termos de pesquisa sobre a formação docente. Também é positiva a preocupação em envolver o Consed e a Undime para se pensar nas relações da proposta do PNAIC com outras que já estão em andamento nos contextos locais.

Todavia, os dados utilizados para a composição deste tópico não revelam a participação dos professores alfabetizadores na concepção do Programa. Isso pode demonstrar elementos de uma racionalidade técnica na qual os professores universitários figuram como os intelectuais, os experts, os pensadores, e os professores da educação básica atuam como executores, implementadores de ações definidas por outrem. Em termos de política pública, a separação entre os que pensam e os que fazem, assim como as propostas de cima para baixo, pode provocar resistências no campo da prática e atuações diferenciadas daquelas previstas pelos formuladores. Como o PNAIC lida com isso? Como supera a distância entre educação superior e educação básica? Como os professores reagem as normatizações e orientações do Programa? Indagações pertinentes que serão apreciadas ao longo deste trabalho.

No documento barbaralimagiardini (páginas 110-114)