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Parte I O Poder 1 Porto de abertura:

5. Os chefes e o poder cordial:

Sobre esta trilha, aqui esboçada, da rotação de perspectiva da dominação pessoal é aceitável construir uma imagem historicamente ancorada das figuras quase míticas (melhor seria dizer ‘mitificadas’) e certamente enigmáticas dos chefes jagunços. Tentar-se-á, aqui, aproximar-se de uma interpretação que parta dos subsídios da obra e que, assim, revele-os em sua ligação fundamental com elementos do substrato histórico utilizado na matéria do romance, em grande parte já comentados até aqui. Este procedimento será de fundamental importância no decorrer da argumentação proposta neste texto, que é o de percorrer as diversas camadas que a noção de modernidade adquire em Grande sertão: veredas. Por isso, anuncia-se de antemão que os significados atrelados às figuras dos chefes estarão

longe de ser exauridos neste trecho da análise – com efeito, ater-se-á à maneira como este tema se coaduna com a discussão ampla sobre o patriarcalismo –; no entanto, creio que a estabilização de elementos como a coragem, a violência e a lealdade, no espectro da discussão já alcançada até aqui, em torno da figura dos chefes acaba por torná-los importantes pontos de gravidade ao redor do qual se aglutinam muitos dos problemas que envolvem o romance: por isso, a procura pelo dimensionamento dos elementos básicos que eles congregam servirão de fundamento para a posterior análise.

Talvez o principal destes fundamentos seja o funcionamento do mito na obra de

Guimarães Rosa. Esta questão é reconhecida por praticamente toda a crítica especializada no autor e também neste trabalho ela se ergue como um desafio, dada sua complexidade. De maneira ampla, creio ser possível identificar os traços gerais de duas tendências no trato do problema dos chefes: aportes que, ou aproximam-nos de figuras mitológicas (cf. RONCARI, 2004), ou partem de critérios teóricos da filosofia política para julgar sua relevância no texto de Rosa (cf. STARLING, 1999). De modo geral, trata-se de exames que recaem na tendência natural de agregar significados às potentes personagens do romance; em outras palavras, a sedução que estes chefes exercem sobre o narrador e sobretudo a tendência de guiar o encadeamento da trama, tendo como norte os deslocamentos horizontais dos chefes jagunços no enredo, acabariam por contaminar o olhar crítico, que também se deixaria conduzir pela movimentação destas personagens. O que aqui se propõe, portanto, é menos o vislumbre dos significados que a eles se podem atribuir e mais a atenção aos termos do labor mítico que é operado em Grande sertão: veredas.

O problema dos chefes jagunços, logo de início, oferece uma resistência básica à sua classificação sob balizas estreitas. De fato, longe de ser um truísmo, a primeira dificuldade está em discernir sua natureza proprietária da jagunça. Eles são ambas as coisas, mas não são redutíveis a nenhuma das categorias. Conseqüentemente, a identificação rápida com a classe latifundiária, como ocorre na análise de Willi Bolle (2004), por exemplo, para se sustentar, necessita partir da premissa de que todo o romance deve ser construído sob o pressuposto da dissimulação, uma vez que, pertencentes à classe proprietária, os chefes camuflariam seu discurso e inventariam guerras para cooptar

jagunços como mão-de-obra. Neste sentido, a própria narrativa de Riobaldo, por se tratar de um ex-jagunço e, no momento da narração, um fazendeiro assentado, seria um “discurso de

legitimação”, fala através da qual se entreveria “alegoricamente a historiografia de toda

uma classe” (BOLLE, 2004, p.184, grifo no original). Não é, de certo, falsa a afirmação de que o romance joga importantes luzes sobre as estruturas de poder da classe proprietária e, conseqüentemente, do país; contudo, partir já de antemão de um pressuposto de que a obra se nutre de um elemento ludibriante é retirar, a um só tempo, a potência de transfigurar literariamente os subsídios históricos dos quais o romance se utiliza como matéria-prima, bem como tolher da crítica o papel de desconstruir a composição sui generis da obra e desvendar seus caminhos criativos percorridos.

Contudo, se todos os principais chefes que servem de referência no romance são também fazendeiros – Joca Ramiro, Zé Bebelo, Ricardão, Hermógenes e Medeiro Vaz –, é inegável que, para se desentranharem estas figuras enigmáticas é preciso desvendar a maneira como ocorre a fusão de elementos que, na composição social do sertão do Brasil, são distintos. Para isso, é interessante notar o contraste entre o tratamento da figura patriarcal em Grande sertão: veredas e Sagarana, por exemplo. Talvez a primeira novela da obra de estréia de Guimarães Rosa, “Traços biográficos de Lalino Salãthiel ou A volta do marido pródigo”, apresente rudimentos que elucidem a disposição dos componentes que subsidiam a confecção dos chefes jagunços.

Nesta novela, a figura do malandro Lalino percorre as muitas camadas do universo do mundo interiorano para, ao fim, encontrar perfeito encaixe dentro do esquema de coação política do Major Anacleto. Este, por sinal, adquire traços que se assemelham muito aos de Selorico Mendes: trata-se claramente de um proprietário cujas prerrogativas políticas estão longe de ser meros reflexos de sua vontade e devem, portanto, passar por um complexo esquema de mediação e cooptação de votos para se realizarem. É precisamente neste esquema que se insere Lalino, o qual, agindo de forma oblíqua e dissimulada, acaba servindo aos propósitos do Major de maneira indireta: sua simpatia havia atraído para os domínios da casa-grande o senhor Doutor Secretário do Interior. Quando da chegada do funcionário do governo, o Major Anacleto lhe diz:

Ah, que honra, mas que minha honra, senhor Doutor Secretário do Interior!... Entrar nesta cafua, que menos merece e mais recebe... Esteja à vontade! Se execute! Aqui o senhor é vós... Já jantaram? ô, diacho... Um instantinho, senhor Doutor, se abanquem... Aqui dentro, mando eu – com suas licenças –: mando o governo se sentar... P’ra um repouso, o café, um licor... O mano Laudônio vai relatar! Ah, mas Suas Excelências fizeram boa viagem? (S, p.147-148, grifos meus)

A maneira vacilante (que beira a gagueira) com a qual é representada a fala do fazendeiro – aliada à exagerada reverência – demonstra como o latifundiário já perdera, de certo, a proeminência que antes exercia sobre o espaço público brasileiro. Contudo, é de se notar, como já apontara Luiz Roncari (cf. RONCARI, 2004, p.37-38), que a cordialidade ainda restava, de certo transformada, como o principal preceito da atuação política do proprietário de terras. Neste sentido, a dominação pessoal se expressa numa dupla mão: o primeiro mecanismo se baseia na tentativa de encurtar as distâncias entre o funcionário – do qual se quer extrair o apoio – e o fazendeiro. Assim, no misto de respeito excessivo e demonstrações de hospitalidade, seu intento é de trazer as relações para dentro de seus domínios – local onde o fazendeiro mandava ‘o governo se sentar’ – e, conseqüentemente, para perto do coração (cf. HOLANDA, 1995).

O outro lado da mesma engrenagem revela-se após a despedida do secretário, mas para ser compreendido necessita de uma contextualização prévia: Lalino, quando decide partir para a cidade em busca da realização de suas quimeras, praticamente vende a mulher para o espanhol Ramiro, que lhe emprestaria o dinheiro que lhe faltava para ir embora em permuta do direito de ficar com sua companheira. Quando retorna, porém, Lalino quer a mulher de volta e, ao envolver-se com Major Anacleto, coloca-o em situação difícil, já que, por mais que não pudesse contar com os votos dos espanhóis, estes eram seus amigos. Quando a ex-mulher de Lalino, Maria Rita, vem chorar aos pés do fazendeiro para que este intercedesse contra o espanhol – pois seu amor estava verdadeiramente com Eulálio –, o Major, num primeiro momento, oferece a proteção paternal que se esperava de sua figura patriarcal. No entanto, encontra-se dividido: “É uma história feia, mas... Nem o Eulálio não

tem culpa também, não... Foi só falta de juízo dele, porque no fundo ele é bom.. Mas, que diabo! O espanhol é boa pessoa... Arre!” (S, p.145). Todavia, quando pergunta sobre Laio e ouve que ele foi visto bebendo com um doutor, imagina logo que se trata de um deputado da oposição, ao qual Eulálio estaria contando suas estratégias políticas. Então, diante da suposição da traição de seu subordinado, sua opinião muda drasticamente: “Qual! história... Vitalina! Ó Vitalina!... Não deixa as meninas ficarem mais junto com essa mulher! Não quero mau exemplo aqui dentro de casa!... Mulher de dois homens!... Imoralidade! Indecência!” (Idem, p.146).

Ao descobrir, no entanto, que se tratava do já comentado secretário do governo, o qual Eulálio havia conseguido cooptar, seu humor reverte-se novamente: afirma o narrador que “Major Anacleto chama Lalino, e as mulheres trazem Maria Rita, para as pazes. O chefão agora é que se ri, porque a mulherzinha chora de alegria e Lalino perdeu o jeito” (Idem, p.149). A novela se encerra de maneira harmônica, apesar de todos os indícios de fraturas no poder patriarcal. Certamente o caráter ladino e escorregadio de Lalino13 oferece o dispositivo formal que possibilita que as reversões entre proteção, repreensão e anuência ocorram de maneira quase automática e sem gravidade (o que inclusive contribui para que a personagem do Major se revista de um tom bufo). Da mesma forma, os rompimentos dos laços de lealdade são facilmente encarados em matizes leves: a raiva do Major pela possível traição de Laio é facilmente revertida em sentimento paternal quando aquele descobre que, por seus meios tortos, acabara ajudando-o. O desfecho da novela termina por revelar a outra faceta do domínio cordial em sua forma transfigurada: logo após firmar a reunião de Lalino e Maria Rita, Major Anacleto brada, convocando seus ‘bate-paus’: “– Estevam! Clodino! Zuza! Raymundo! Olhem: amanhã cedo vocês vão lá pros espanhóis, e mandem aqueles tomarem rumo! É para sumirem, já, daqui!... Pago a eles o valor do sítio. Mando levar o cobre. Mas é para irem p’ra longe!” (Idem, p.149).

Em outras palavras, as tensões presentes na relação de amizade que o Major mantinha com os espanhóis passam por dois diferentes momentos: o primeiro, quando o                                                                                                                

fazendeiro se vê em situação difícil, pois não queria romper o laço cordial que mantinha com os estrangeiros; e o segundo, no qual a confirmação do sucesso dos interesses políticos do proprietário frente ao governo lhe permite facilmente trair os elos amigáveis e fazer a lealdade reverter-se em violência. Uma violência que, por sinal, harmoniza o fechamento do conto, dado que funciona como válvula de escape à inoperante máquina cordial sustentada a duras penas pelo Major Anacleto.

Nota-se, assim, que o quadro esboçado da estrutura de poder patriarcal, cujo princípio de dominação pessoal apresenta-se roto em ambas as extremidades, tende à

traição quando os interesses do fazendeiro são colocados em jogo. De fato, o que se

observa é a permanência residual de elementos típicos da cordialidade sertaneja – sobrevivência de uma estrutura material que nivelava por sua rusticidade as relações sociais – em um novo arranjo de relações que, para se manterem, devem se sobrepor aos laços de lealdade. Neste sentido, a figura de Lalino reveste-se de curiosa importância, uma vez que sua malandragem acaba por ter menos um valor conteudístico e mais operacional no contexto da trama. Isto é, através de sua malandragem o leitor é convidado a percorrer os meandros do poder cordial, enxergar suas fraturas e, sobretudo, vislumbrar as maneiras como o patriarcalismo se mantém no sertão, embora gravemente tensionado. Esta tensão provém precisamente de um só processo, que conta com duas faces: trata-se, em sentido lato, da modernização dos modos de se produzir riqueza e reproduzir poder no interior do Brasil. Ambas as camadas deste processo atingem sobretudo o princípio de poder cordial sertanejo: a lealdade enquanto laço de reciprocidade, que unia, por exemplo, os espanhóis ao Major, dá lugar a outro tipo de lealdade, que caracteriza o vínculo que atrela o fazendeiro a Lalino, ou o fazendeiro a seus jagunços. Por outro lado, ao mesmo tempo em que o fazendeiro acaba concentrando em torno de si os nexos ético-morais que regem as relações sociais do universo rural, este centro é invadido pelo poder público e centralizado, que exige que o poder se reproduza não mais como emanação da vontade do patriarca, mas que passe por uma complexa rede de mediações.

Lalino se insere exatamente nesta teia, fazendo da relativa inoperância do poder do Major o seu instrumento de trabalho e sua moeda de troca. É possível afirmar, neste

sentido, que os fios míticos, tanto no contexto da novela de Sagarana como em Grande

sertão: veredas, acompanham o gradativo movimento de enrijecimento do centro ético do

sertão. No caso de “A volta do marido pródigo”, o procedimento mítico atrela-se sobretudo à malandragem de Lalino, que, na figura de agregado à fazenda do Major, atravessa as diversas camadas deste centro ético cindido de maneira incólume. Os mesmos procedimentos míticos, que acompanham o percurso de Lalino na trama, por fim jogam sua luz sobre a figura do Major, dando-lhe de certo matizes bufas, mas restituindo-lhe a centralidade e a diferença, sobretudo através de seu desfecho a um só tempo harmônico e violento: seus jagunços, seguindo as ordens do fazendeiro, saem para expulsar os espanhóis de suas terras, reafirmando um novo acerto cordial que não prevê espaço para relações horizontais: “E os bate-paus abandonam o foguinho do pátio, e, contentíssimos, porque de há muito tempo têm estado inativos, fazem coro: ‘Pau! Pau! Pau!/ Pau de jacarandá!.../

Depois de cabra na unha,/ quero ver quem vai tomar’” (S, p.149, grifos no original).

Na novela de Sagarana, portanto, torna-se muito claro o local onde o mito se instala: precisamente no vazio aberto entre o fazendeiro e seus agregados. Este local, traduzido em termos éticos, diz respeito ao espaço onde se dá o manejo da lealdade e a articulação violenta como forma de tratamento da diferença entre proprietário e dependente: neste sentido se percebe de que maneira se coadunam a matiz bufa do Major Anacleto e a malandragem de Lalino. Ambas as características dizem respeito à separação entre aquele que comanda os destinos da violência e aquele que a executa, encarnando Lalino o papel claro de mediador nos arranjos políticos. Se, neste caso, os processos mitificantes garantem uma apresentação clara, porém sem ruídos, deste cenário ético, em

Grande sertão o mito nascerá do mesmo local, porém com uma tonalidade inteiramente

diversa. Por motivos que se tornarão claros à frente, o mito na obra de 1956 parece assumir uma tarefa formal que transborda o verniz que atenua a rotação de perspectiva no eixo da cordialidade sertaneja.