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Capítulo 1 – A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS NO BRASIL

1.3 A Educação de Jovens e Adultos no início do século XXI

1.3.2 Os desafios da EJA no contexto brasileiro atual

A partir das experiências no campo da educação de jovens e adultos vivenciadas no país na segunda metade do século XX, a UNESCO, em 2008, elaborou um documento chamado Alfabetização de adultos no Brasil: lições da prática. O documento, além de apresentar uma série de fatos e informações históricas e quantitativas sobre a EJA, lista um rol com os principais desafios a serem enfrentados no desenvolvimento de políticas e programas de alfabetização. São eles: 1º) assegurar o direito de todos à alfabetização de qualidade; 2º) incorporar uma concepção ampliada de alfabetização; 3º) estimular a participação social; 4º) promover a formação dos alfabetizadores; 5º) considerar a diversidade dos educandos e dos contextos de aprendizagem; 6º) elaborar e distribuir materiais didáticos, e promover a leitura; 7º) incorporar uma cultura de avaliação (op. cit.: 77-165). Abaixo, discorreremos sucintamente sobre cada um dos desafios apontados.

O primeiro desafio – assegurar o direito de todos à alfabetização de qualidade – está relacionado ao fato de que a alfabetização deve implicar a participação ampliada do cidadão em diversas áreas da vida: social, cultural, política, econômica, conforme indica a Agenda para o Futuro da Educação de Adultos (apud UNESCO, 2008:77). De acordo com o documento da UNESCO, no Brasil, um em cada dez jovens e adultos vive em condição de analfabetismo absoluto. É preciso, portanto, resgatar os direitos educativos que foram violados, articulando a alfabetização de jovens e adultos a outras políticas sociais (de saúde, assistência, trabalho e renda), aperfeiçoando a gestão dos programas de alfabetização, criando condições de ensino e aprendizagem apropriadas e promovendo a continuidade do processo de alfabetização.

O segundo desafio – incorporar uma concepção ampliada de alfabetização – tem relação com o fato de que o processo de alfabetização favorece a inclusão em um conjunto amplo de práticas comunicativas e é, sobretudo, um processo de conquista de cidadania (UNESCO, 2008:88-89). Logo, para superar esse desafio, é preciso avançar em direção a uma concepção ampla de alfabetização, inovando em três direções articuladas entre si: a ampliação dos tempos de aprendizagem, a organização do próprio processo ensino- aprendizagem e a adoção de uma perspectiva integral de formação.

38 O terceiro desafio – estimular a participação social – sempre se constituiu em um dos principais objetivos dos programas de alfabetização das camadas populares. Esses programas visavam, entre outros, conscientizar seus participantes sobre as estruturas sociais produtoras de desigualdades, de forma a cultivar valores e incentivar atitudes que conduzissem à transformação dessas estruturas (UNESCO, 2008:97). Nesse sentido, o campo da formação de jovens e adultos contribuiu para que o sistema educacional assimilasse conteúdos até então desconsiderados nos currículos convencionais.

O quarto desafio – promover a formação dos alfabetizadores – advém do fato de que, nos programas de alfabetização de jovens e adultos (que sempre se constituíram no principal agente alfabetizador de adultos no Brasil), é muito comum que a ação alfabetizadora seja realizada por pessoas com diferentes perfis de formação. Os agentes educativos desses programas, em sua maioria, não têm sequer habilitação para a docência. Esse fato, inclusive, foi apontado por pesquisadores como um dos problemas que afetam a qualidade dos resultados dos programas de alfabetização e educação de jovens e adultos (UNESCO, 2008:105). Os profissionais da educação que atuam nos programas de alfabetização, ainda que tenham habilitação para o magistério, muitas vezes, não receberam formação específica para atuar em processos de alfabetização de jovens e adultos.

Nesse sentido, Zandomênico (2015:228) destaca que, nas escolas que oferecem a modalidade, os professores que atuam na EJA, em geral, são os mesmos professores que atuam no ensino regular, e que a realidade da EJA, muitas vezes, é apresentada a esses professores por meio de sua experiência em sala de aula. Isso significa que o ensino para jovens e adultos não é, em muitos casos, uma modalidade de ensino conhecida pelos professores que nela irão trabalhar. Esses professores desconhecem as peculiaridades da EJA e não são preparados previamente para o trabalho com jovens e adultos. Esse fato traz consequências para o professor, que precisa aprender por si só as especificidades da EJA e a melhor maneira de lidar com elas, e para os alunos, que sofrem as consequências da falta de preparação prévia dos professores.

O quinto desafio – considerar a diversidade dos educandos e dos contextos de aprendizagem – se mostra especialmente relevante no contexto brasileiro, cuja população é tão diversificada. Diante dessa situação, é preciso que haja flexibilidade para ajustar as políticas e os programas aos contextos e à diversidade das populações a serem alfabetizadas: idosos, indígenas, populações rurais e ribeirinhas, pessoas com necessidades educativas especiais, população prisional, entre outros. Além disso, é preciso considerar, ainda, que os alunos da EJA têm um modo e um tempo próprio de aprendizagem:

39 Os assuntos que lhes interessam aprender na escola (e que são indicados pelos documentos norteadores da EJA) não são necessariamente os mesmos que interessam e que são indicados aos alunos do ensino regular. As razões que justificam esses fatos são incontáveis: a experiência de vida dos alunos da EJA, nos diversos setores (acadêmico, familiar, social, econômico); os objetivos que pretendem alcançar com o estudo; o tempo de que dispõem para essa atividade dentro e fora da escola; a disposição física e mental para assistir às aulas (que, em geral, ocorrem no turno noturno, após os alunos terem trabalhado ao longo de todo o dia), entre tantos outros. (...) para um ensino mais eficaz na EJA, é preciso que a metodologia de ensino voltada a esse alunado seja apropriada a esse público, assim como o todo o trabalho do professor seja voltado para as necessidades específicas dos alunos dessa modalidade.

(Zandomênico, 2015:227)

Essa multiplicidade de contextos é que torna o sexto desafio – o de elaborar e distribuir materiais didáticos e promover a leitura – tão complexo. Some-se a essa complexidade o fato de, nos últimos anos, a alfabetização ter sofrido atualizações que acarretaram a agregação de novos valores e funções sociais a esta etapa da escolarização. Dessa forma, as cartilhas de alfabetização passaram a ser consideradas insuficientes para atender as novas demandas sociais (UNESCO, 2008:139). Sobre os desafios da elaboração do livro didático voltado para o público jovem e adulto, o documento da UNESCO afirma:

O principal desafio da produção de livros didáticos para alfabetização de jovens e adultos consiste na concretização de propostas pedagógicas que abarquem as necessidades dos sujeitos envolvidos, as realidades locais e a diversidade cultural constitutivas dos grupos sociais que buscam aprender a ler e a escrever na vida adulta ou juventude. Outro desafio consiste na concretização de um conceito amplo de alfabetização, que não se restrinja ao domínio do sistema alfabético, mas que se constitua em uma via para participar com autonomia de práticas sociais letradas, assumindo papéis variados.

(UNESCO, 2008:143) Por fim, o sétimo e último desafio da EJA na atualidade consiste em desenvolver uma cultura de avaliação. Conforme já mencionado no início deste capítulo, segundo o documento referido, é possível, a partir da avaliação e do registro sistemático de informações, planejar, tomar decisões criteriosas e corrigir rumos durante a implementação

40 das políticas e programas educativos. As práticas de avaliação na gestão pública oferecem critérios (de mérito, utilidade, efetividade, relevância e qualidade) para a escolha de prioridades de investimento e permitem verificar os resultados à luz das metas estabelecidas no planejamento. Não obstante essa constatação, a maior parte das ações de alfabetização de jovens e adultos é desenvolvida sem monitoramento, o que reflete a pouca tradição brasileira na avaliação sistemática das políticas. É preciso, portanto, incorporar uma cultura de avaliação apropriada aos objetivos desse campo educacional (UNESCO, 2008:155-156).

Ressaltamos, por fim, que, além das lições aprendidas com as experiências educacionais voltadas para o público jovem e adulto, as pesquisas científicas voltadas para essa modalidade de ensino, sob diferentes enfoques, também podem contribuir sobremaneira para a superação dos desafios impostos à EJA. Na seção a seguir, veremos que aspectos relativos à Educação de Jovens e Adultos têm se constituído objeto de estudos científicos.