O processo de produção de texto pode ser entendido como um acontecimento existente na comunicação concreta que se constitui através da construção de sentidos nas relações dialógicas estabelecidas entre enunciados no processo de interação verbal. Nesta perspectiva, o autor do texto é entendido como um sujeito ativo que assume uma atitude ativo-responsiva ao elaborar seu enunciado em resposta ao enunciado alheio.
No caso desse estudo, a autora-criança do discurso escrito enunciou respondendo a voz alheia da professora a partir de dada compreensão ativa. Com Bakhtin (2015, p. 272) aprendemos que toda compreensão plena real é ativamente responsiva e não é senão uma fase preparatória da resposta. Dessa compreensão resultam enunciados de concordância, aceitação, oposição, sempre elaborados com base em enunciados anteriores próprios e alheios que se relacionam com os novos enunciados dado ao contexto atual.
Como mencionado por Volochínov (2013, p. 166), “todas as enunciações se construirão precisamente com base em sua visão; suas possíveis opiniões e valorações determinarão a ressonância interna ou externa da voz – a entonação – e a escolha das palavras e sua composição numa enunciação concreta”. Assim, todo produtor de enunciado é autor na medida em que elabora seu próprio dizer, tendo como referência o já dito pelo outro e o novo dizer para ao outro. Autorar, nessa visão, não é dizer coisas que ninguém nunca disse, mas administrar as diversas vozes sociais, fazê-las confrontar, selecioná-las e arrumá-las de um jeito que ninguém fez (CARVALHO, 2012, p. 08).
Desse modo, apresento as análises das produções escritas, tendo sido selecionadas algumas produções textuais de um mesmo sujeito, por terem evidenciado as diferentes formas de representação e expressão de indícios relativos à posição enunciativa, à apropriação das vozes alheias e à atitude valorativa do autor. Esses indícios caracterizaram o desenvolvimento de um estilo próprio a partir das escolhas dos recursos expressivos utilizados na organização composicional, caracterizando um todo do trabalho estilístico com a linguagem escrita.
O elemento estilo constitutivo do gênero discursivo é relacionado à autoria do sujeito. Ao selecionarmos as produções, percebemos que alguns alunos, por não terem comparecido no dia de realização da produção textual analisada, não fizeram a atividade. Pontuamos que a ausência de algumas produções por alguns alunos não comprometeu a pesquisa, uma vez que as demais analisadas do mesmo autor nos permitiram indiciar a autoria em seus textos.
Logo após a análise dos textos, apresento um relato sobre os aspectos observados de cada autora-criança.
❖ Autora Anna Ester
Figura 18 – Produção escrita e reescrita do texto 1 de Anna Ester - 2019. Fonte: Material Didático Carioca da Criança.
Ao analisar o texto original e a reescrita realizada por Anna, percebemos que ela reorganizou e alargou seus enunciados no ato de sua reescrita.
Sugestão de leitura: O Coqueiro O coco tem água. O coqueiro tem coco. O coco é uma fruta. O coqueiro é alto. O coqueiro é baixo. Eu gosto de coco.
Sugestão de leitura: O Coqueiro O coco tem água. O coqueiro tem coco. O coco é uma fruta.
O coqueiro é alto e outros coqueiros são baixos.
O coqueiro é baixo.
Eu gosto de comer coco, de bolo de coco. Eu gosto de chupar bala de coco. O coqueiro é verde e bonito!
Na primeira versão, Anna enunciou os conhecimentos informativos que foram discutidos coletivamente na turma e expressou uma característica pessoal sua relacionada ao tema. Ao enunciar “EU GOSTO DE COCO”, Anna acaba apontando duas funções comunicativas na sua produção, uma vez que a finalidade discursiva de elaboração do texto era direcionada para a transmissão de informações sobre o tema ao leitor. E, ao ir tecendo seu discurso, acaba realizando uma descrição de caráter pessoal, dizendo um pouco de seus gostos, se colocando de forma valorativa diante do tema.
No ato de reescrever, Anna mantém informações que possivelmente, não poderiam deixar de serem ditas e amplia o seu discurso. Escreve seu texto buscando estabelecer uma conexão entre os enunciados do diálogo coletivo com informações sobre sua pessoa. Essas informações encaminham o leitor para um olhar direcionado para alguns aspectos de vida que circunda a autora.
Quando enuncia “EU GOSTO DE COMER COCO, DE BOLO DE COCO. EU GOSTO TAMBÉM DE CHUPAR BALA DE COCO”, Anna nos parece ter tido por intenção trazer uma complementação para o acabamento de sua produção, expressando sua apreciação sobre o fruto. Como mencionado por Bakhtin (2015, p. 265), na imensa maioria dos gêneros discursivos, o estilo individual não faz parte do plano do enunciado, não serve como um objetivo seu mas é, por assim dizer, um epifenômeno do enunciado, seu produto complementar. Anna destaca sua atividade criadora manifestando seu estilo singular ao se inserir no texto, descrevendo sobre si, expressando sua relação com o tema.
Aprendemos com Bakhtin (2015, p. 289) que o segundo elemento do enunciado que lhe determina a composição e o estilo é o elemento expressivo, isto é, a relação subjetiva emocionalmente valorativa do falante com o conteúdo do objeto e do sentido do enunciado. Ele é quem determina a escolha dos recursos lexicais, gramaticais e fraseológicos e, é essa expressividade que caracteriza o estilo individual. Ao escrever “O COQUEIRO É VERDE E BONITO” assume de forma explícita uma posição valorativa sobre o tema.
Figura 19 – Produção escrita do texto 2 de Anna Ester - 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
Marcando um estilo singular em sua produção, observamos que Anna expressa a narrativa resgatando os acontecimentos iniciais do conto, envolvendo os personagens principais. Anna, ao escrever “ERA UMA VEIS”, inicia sua narrativa expressando de forma direta uma marca típica das histórias infantis. Essa expressão enunciativa ao ser inserida no discurso autoral de Anna, mantém sua composição sintática e semântica e, a partir dessa expressão, é elaborado o todo da sua criação autoral.
Segundo Volochínov (2017, p. 250), “o enunciado autoral que incorporou outro enunciado em sua composição elabora as normas sintáticas, estilísticas e composicionais para a sua assimilação parcial, para sua inclusão na unidade sintática, composicional e estilística do enunciado autoral, mantendo [...] a independência do enunciado alheio, sem a qual a sua integridade seria imperceptível”.
Para finalizá-la, recorre a uma expressão de um acabamento com uma posição enunciativa avaliativa que aponta uma resolução positiva para o conflito instaurado na narrativa enunciando “FICOU TUDO BEM”. Aprendemos com Bakhtin (2015, p. 291) que as palavras em determinadas condições da vida político-social adquirem um peso específico, tornam-se enunciados exclamativos expressivos. Desta forma, Anna termina sua produção autoral deixando alguns indícios que podem nos apontar para a construção de um estilo individual.
Sugestão de leitura: O bololô
Era uma vez um amolador de facas. Ele contava mentiras e um dia ele contou que a filha dele fazia linha em ouro. E o cara contou que a filha fazia ouro e o rei e ficou tudo bem.
Figura 20 – Produção escrita do texto 3 de Anna Ester- 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
Percebemos que Anna, ao produzir seu texto escrito, assume uma posição ativo- responsiva em atendimento à orientação direcionada pela professora ao escrever “COMI BRIGADEIRO E, COMI CHOCOLATE EU COMI PIRULITO”, demonstrando em seu relato, a relação dela enquanto sujeito-narrador com o objeto do enunciado. É possível a compreensão de que ela esteja expressando um pouco de seus gostos e de suas preferenciais, revelando um estado de sua ação em decorrência de seu desejo.
Ao enunciar “EU FUI” ela marca uma posição do tempo e indicia o espaço do acontecimento ao escrever “NA FESTA”. Relata, talvez em reposta à alguma mediação, quem fez e o porquê do acontecido, explicitando de forma resumida um cenário do todo de sua enunciação. Assim, manifesta uma atitude de quem fala, enuncia para um interlocutor que era sua professora.
No entanto, percebemos pouca utilização de recursos valorativos que possam apontar para uma entonação mais expressiva de sua opinião sobre o fato vivido.
Sugestão de leitura:
Eu fui à festa e comi brigadeiro e comi chocolate. Eu comi pirulito e (que) a minha tia fez. Era a festa do meu primo.
Figura 21 – Produção escrita do texto 4 de Anna Ester - 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
A criança inicia sua narrativa já expressando uma posição enunciativa emotiva exteriorizando um sentimento, usando uma expressão de afeto, para quem se destina sua enunciação ao escrever “TIA IARA, EU GOSTO DE VOCÊ”. Coloca em destaque seu afeto pela pesquisadora na tentativa de buscar um vínculo com suas experiências na vida fora da escola. A partir dessa expressão sentimental, Anna marca um acontecimento de encontro com seu outro na perspectiva da arquitetônica da vida.
Em seguida, no encadear de suas ideias, expressa um acontecimento sociocultural de interação, marcando um determinado tempo e espaço do vivido, ao relatar sua ida a uma festa. Ao enunciar “ME FINAU DE SEMANA FOI MUITO BOM”, Anna exibe recurso modalizador avaliativo, expressando sua opinião sobre o objeto do discurso e, ainda usa um recurso extraverbal (desenha um coração) como parte integrante da produção de sentidos do seu discurso.
Ao escrever “EU ADOREI”, ela seleciona e utiliza um enunciado que assume um caráter expressivo de plenitude da sua emoção e satisfação diante do fato vivido. Aprendemos com Bakhtin (2015, p. 332) que “o enunciado pleno já não é uma unidade da língua [...] mas uma unidade da comunicação discursiva, que não tem significado mas sentido. Isso é, um sentido pleno, relacionado com valor – com a verdade, a beleza etc. – e que requer uma compreensão responsiva que inclui em si um juízo de valor.”
Sugestão de leitura:
Rio de Janeiro, 2 de setembro de 2019
Tia Iara, eu gosto de você e meu final de semana foi muito bom. Eu adorei. Eu fui à festa com a
minha mãe e eu comi
salgadinho.
Minha amiga Izabel e a Ana Julia e o meu irmão. Eu tia Anna Ester
Anna relata nomes de alguns sujeitos que compartilharam com ela desse momento tão expressivo de emoções, não podendo deixar de citá-los pela importância que possivelmente representaram para ela.
Figura 22 – Produção escrita do texto 5 de Anna Ester - 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
Atendendo à solicitação da proposta, Anna realiza na sua enunciação um julgamento de seu próprio comportamento, seguido de apreciação das atitudes de pessoas do seu universo social, tomando como base os eventos vivenciados no cotidiano.
Ao realizar seu texto escrito, usa para criar um efeito de sentido de afirmação da impossibilidade do acontecimento uma modalização21 deôntica, ou seja, uma expressão para marcar a obrigatoriedade da afirmação, argumentando para seus interlocutores “EU NUNCA MAGOEI NINGUÉM”. Podemos entender que esta expressão afirmativa pode ser derivada do fato que, em seu contexto sociocultural, essa atitude, esse comportamento é entendido como algo errado e que não deva acontecer ou mesmo pelo não reconhecimento de uma ação sua que possa ser entendida como causadora de mágoa em alguém.
Ela nos revela uma consciência social constituída na interação. Essa orientação social da vivência pode possuir diferentes graus de consciência, precisão e diferenciação, porém não
21 Modalizadores é um conjunto de marcas do percurso gerativo de sentidos, identificáveis no texto, que remetem
à instância da enunciação.
Sugestão de leitura:
Rio de Janeiro, 11 de setembro de 2019
Eu nunca magoei ninguém. Meu irmão já me magoou porque ele quebrou o meu brinquedo. Anna Ester
pode haver vivência sem ao menos uma orientação social valorativa (VOLOCHÍNOV, 2017, p. 208). Isso nos revela um determinado conhecimento de mundo que pode ser pautado em experiências sociais de cuidado, atenção e empatia com o outro nas suas diferentes relações.
Na ausência de um fato relacionado ao seu comportamento que possa atender à proposta realizada pela professora, Anna relata uma ocorrência cotidiana do ambiente familiar e encerra o seu discurso.
As cinco produções analisadas revelaram momentos em que foi possível observar as diferentes formas como Anna opera com a linguagem ao longo das produções, bem como suas tentativas para se colocar como sujeito na realização de seus enunciados, compondo um percurso de idas e vindas na constituição de sua posição de autora.
Diante da maneira como Anna vai elaborando as diferentes formas de organização de suas ideias, de seus conhecimentos culturais, como utiliza as palavras como “EU GOSTO TAMBÉM DE CHUPAR BALA DE COCO” (Texto 1) e os recursos expressivos como “EU ADOREI” (Texto 4) para entonar suas emoções, sentimentos de afeto, carinho e respeito constitutivos de seus enunciados, Anna manifesta indícios de desenvolvimento de seu estilo singular de escrita em todas as suas produções como observamos.
Anna vai demonstrando já ter compreendido o funcionamento do sistema alfabético, indiciando reflexões ao operar como observado com reelaborações, rasuras, repetições, hipersegmentações em “E O CARA COM TOU” (Texto 2), trocas de letras decorrentes de transcrições da fala para a escrita em “E A MINHA TIA FEIS” (Texto 3), sem contudo, comprometer o processo de produção de sentidos e a compreensão por parte de seu interlocutor.
❖ Autor Daniel
Figura 23 – Produção escrita e reescrita do texto 1 de Daniel - 2019. Fonte: Material Didático Carioca da Criança.
Como observado, Daniel realizou duas versões de sua produção. Realizou ambas as produções trazendo enunciados com informações discutidas coletivamente como “O COQUEIRO TEM COCO, A ÁRVORE DO COQUEIRO É ALTA”, caracterizando a dialogicidade natural de todo enunciado. O enunciado sempre se encontra às voltas e irradiado pelos ecos das vozes alheias (CASTRO 2009 apud BRAIT, 2016, p. 121), e com enunciados elaborados e valorados individualmente.
Na atividade de reescrita, preservou os discursos, realizando pequenas alterações na dimensão ortográfica. Com Nogueira (2017, p. 72), refletimos que a atividade de revisão textual
Sugestão de leitura: O coqueiro
O coqueiro tem coco. No coqueiro tem folhas. A árvore do coqueiro é alta. E a parte debaixo tem terra. Os cocos são gostosos.
Sugestão de leitura: O coqueiro
O coco tem coco. No coqueiro tem folha. A árvore do coqueiro é alta. E a parte de baixo tem terra. Os cocos são gostosos.
demanda, mesmo dos leitores mais experientes, distanciamento do texto anteriormente escrito, atenção focalizada em aspectos mais formais da escrita, além da habilidade de articular os processos de leitura e escritura, o que a torna ainda mais complexa no início da alfabetização. Diante dessa complexidade, decorre a necessidade de que o processo de reescrita se concretize com efetiva mediação, direcionando os aspectos a serem observados.
Daniel, expressa marcas de conhecimentos de suas experiências vividas no mundo concreto ao mencionar “E NA PARTE DE BAIXO TEM TERRA”. E para finalizar o seu discurso, enuncia “OS COCOS SÃO GOSTOSOS”, expressando uma opinião valorativa pessoal sobre o tema.
Figura 24 – Produção escrita do texto 2 de Daniel - 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
Na elaboração dessa narrativa, Daniel assume a posição de autoria ao reestruturar a história ouvida, mantendo os aspectos principais de seu conteúdo. A partir da compreensão surgida do diálogo que ele estabelece com o texto original, o discurso já citado, Daniel reflete e escolhe palavras e expressões para materializar seu discurso e concretizar o reconto da história.
Segundo Andrade (2013, p. 56), do ponto de vista do produtor do texto, podemos entender a reescrita como um discurso citado, dado que, para realizar a atividade, o aluno precisa se colocar no lugar de quem vai reproduzir o conteúdo de um texto, no discurso de outrem, sem esquecer a dialética presente no processo de enunciação.
Sugestão de leitura: Bololô
Era uma vez uma menina que transformava linha em ouro.
Adultos apareceram e foi o pai que falou que a filha dele transforma linha em ouro.
E o adulto foi falar com o rei dele. O rei falou para chamar o pai da filha. O pai falou para o rei:
– Sim, a minha filha transforma linha em ouro.
Para Volochínov (2017, p. 250), “o discurso alheio é concebido pelo falante como um enunciado de outro sujeito, em princípio totalmente autônomo, finalizado do ponto de vista da construção e fora do contexto em questão. É justamente dessa existência independente que o discurso alheio é transferido para o contexto autoral, mantendo ao mesmo, tempo seu conteúdo objetivo e ao menos rudimentos da sua integridade linguística e da independência construtiva inicial”.
Observamos que Daniel inicia sua enunciação com “ERA UMA VEZ” e acaba estabelecendo uma correlação de seu discurso com um enunciado típico do gênero. Mantém a autenticidade dessa expressão tanto no que se refere às questões linguísticas quanto a sua tipicidade com relação as histórias infantis.
Seus enunciados reproduzem a história ouvida e durante a sua narração, tendo por intenção assegurar os acontecimentos ouvidos, Daniel seleciona a palavra “ADULTO” que se refere a um personagem, que acreditamos ser pelo fato de ele não lembrar mais o nome citado no conto original.
Dá um acabamento a sua produção confirmando um episódio relativo à história ouvida. Acreditamos que, naquele momento, Daniel não tivesse o desejo, a intenção de se expressar, enunciando sua posição diante do conto ouvido.
Figura 25 – Produção escrita do texto 3 de Daniel - 2019.
Fonte: Portifólio da Turma.
Nesta produção, Daniel assume a autoria de seu texto à medida que necessita atender a uma proposta discutida coletivamente com a turma, com uma intencionalidade estabelecida
Sugestão de leitura: Rio, 19/08/2019
Eu comi doces que meu amigo me deu.
Eu vou comer doce na merenda. Eu adoro doces.
Eu gosto de doces. Eu gosto de sorvete.
Daniel Guilherme Farelli dos Santos
pela professora. Assume o papel de sujeito no seu texto que estabelece uma relação entre o tema proposto para a produção com seus gostos e acontecimentos cotidianos, que se configuram no todo do seu do enunciado.
Expressa um aspecto da sua subjetividade apontando para seus gostos e suas preferências ao registar “EU GOSTO DE DOCES”, “EU GOSTO DE SORVETE”.
Daniel registra a presença de outro sujeito no seu texto, embora não expresse maiores detalhes sobre esse outro, relatando um acontecimento de memória que marca um momento de interação quando diz ‘EU COMI DOCES QUE MEU AMIGO MIDA.” e uma intenção futura “EU VOU COMER DOCE NA MERENDA” marcando os tempos presente e futuro situados em um determinado espaço.
Nesse movimento constitutivo do texto, Daniel, para dar uma acentuação apreciativa nas suas predileções, escreve “EU ADORO DOCES.” utilizando um modalizador apreciativo indiciado na expressão “ADORO” que marca um sentido diferenciado nos seus gostos a partir de sua compreensão sobre a totalidade que essa expressão significa no seu enunciado e na constituição de sentidos pelo seu interlocutor.
Observamos que Daniel constrói seu texto seguindo determinado tipo de trabalho escolar, que propõe a organização do texto pautada na formação de frases. Este fato foi observado no texto e, também, durante o acompanhamento da pesquisa de campo, no momento de negociação da proposta da produção textual.
Daniel assumiu uma posição responsiva após compreender a proposição para a elaboração do texto seguindo um direcionamento, uma orientação dada pela professora. Em resposta à professora, que é sua interlocutora, fala por escrito explicitando conhecimentos e experiências singulares.
Além de seu registro escrito, Daniel registra desenhos tendo por função ilustrar sua produção, a partir da apresentação de uma sequência de imagens que podem ser correlatadas aos seus enunciados anteriores, nos parecendo ter se apoiado na experiência de produzir textos a partir de uma sequência de imagens.
Figura 26 – Produção escrita do texto 5 de Daniel - 2019. Fonte: Portifólio da Turma.
No texto de Daniel podemos observar que ele teve por intenção atender ao propósito da produção, como já observados em outros textos, a partir da compreensão de que era suficiente responder se já tinha magoado alguém.
Na realidade, a proposta era que a criança relatasse um acontecimento em que ela tivesse se sentido magoada por alguém. Caso ela não tivesse essa experiência para narrar, ela poderia recorrer a um fato em que ela tivesse magoado outro sujeito.
Daniel escreve se posicionando em direção ao outro, ou seja, se coloca no lugar de atender a uma solicitação direcionada para o seu leitor, a partir de uma autoavaliação do seu comportamento. Possivelmente, este episódio lhe tenha causado mais constrangimento do que ao próprio colega, visto que diante da oportunidade ele exterioriza o acontecido.
A proposta envolve uma produção escrita que exige um nível de exposição que demanda um conhecimento sobre a escrita numa situação particular na relação com um outro. Fica