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A professora responsável diretamente pelo desenvolvimento do processo de alfabetização das crianças é uma profissional com formação na escola Normal, curso Adicional e graduação em Pedagogia.

Exerce sua profissão há 33 anos na Rede Municipal de Ensino, tendo atuado como professora de sala de leitura, professora de sala de recurso – cujo trabalho é destinado a alunos com necessidades educacionais especiais – e durante um longo tempo dedicou-se à docência na Educação Infantil e em turmas de alfabetização.

Pertence, aproximadamente, há 25 anos ao corpo docente dessa Unidade Escolar, sendo uma professora respeitada pela comunidade local pelo trabalho e pelo cuidado que dispensa às crianças.

Segundo relato realizado na entrevista12, a professora participa, desde sua entrada na Rede de Ensino, de vários cursos e seminários de formação continuada sobre leitura, literatura, letramento e alfabetização. Participou durante três anos do curso de Formação do PNAIC e do curso de Formação para o Time de Professores Alfabetizadores13.

A professora busca desenvolver um planejamento elaborado juntamente com a outra professora do segundo ano, organizando práticas para o ensino da leitura e da escrita a partir de diferentes gêneros textuais que envolvem conhecimentos sobre as diferentes áreas de ensino – Língua Portuguesa, Matemática, Ciências, História e Geografia.

A partir dos diferentes textos adotados, a professora busca desenvolver atividades significativas que favoreçam a realização de reflexões sobre o sistema linguístico. Realiza

12Entrevista concedida à pesquisadora Iara Maravalha Freire. Rio de Janeiro, 2019. (43 min).

13 Projeto de formação continuada elaborado à época pela Gerência de Alfabetização da Subsecretaria de Ensino

da Rede Municipal de Educação do Rio de Janeiro, destinado aos professores alfabetizadores que, por adesão, fizeram parte do Time, entre o período de dezembro/2017 a dezembro/2018.

mediações constantes, ensinando as crianças como se estrutura e se realiza a escrita. Ao propor atividades de produção textual inicialmente conversa com as crianças sobre a proposta, criando um momento em que os conhecimentos sobre o tema a ser abordado naquela produção circule e se amplie, favorecendo a elaboração de conhecimentos pelas crianças para realizarem suas produções. No entanto, por vezes percebemos que é oferecido às crianças um roteiro para a elaboração do texto em que basta apenas responder as lacunas oferecidas, sendo enfatizada a produção a partir da formação de frases. Fato endossado no relato realizado na entrevista e que apresento a seguir:

“Eu tenho um trabalho mais ou menos amarrado. Eu falei para você que trabalho de uma forma no 1º ano. No 2º ano eu sistematizo de outra forma. Porque eu vejo como sendo gradativo. Ele começou aquilo, agora eu tenho que ampliar. Então, eu amplio no 2º ano e amplio mais ainda no 3º. Aquilo que eles produziam lá atrás, pequenas frases, pequenos textos. Eu tenho que ampliar isso e eles agora podem falar, me revelar muito mais coisas [...].”

Em todas as produções realizadas, a professora lembrava às crianças que, ao terminarem de escrever, deveriam fazer suas revisões, sempre considerando as questões ortográficas, lendo o que escreveram e fazendo os ajustes necessários, reescrevendo para que finalizassem os textos.

Utiliza diferentes recursos pedagógicos, sempre possibilitando e favorecendo um clima de interação e interlocução entre as crianças e todos os profissionais que naquele espaço se encontram. Estimula que as crianças falem, conversem com seus pares e se ajudem mutuamente. Durante a entrevista, ela explica essa conduta junto à turma, como revelamos a seguir:

“Eu costumo dizer, já disse isso em encontros para as colegas, que eu já era vygotskyana ou seguia a linha de Vygotsky antes de eu conhecer. De ser apresentada a ele. Porque eu sempre, sempre, sempre apostei na monitoria e depois que vim a conhecer a ZDP, a zona de desenvolvimento proximal, e a perceber que meu aluno está aqui (faz um movimento com as mãos), mas ele pode chegar aqui (novamente, recorre à encenação com as mãos para dar o sentido do que deseja dizer) que ele está na zona real e na zona proximal. [...] Eu digo a eles que isso é muito bom. Enquanto eu ajudo o próximo, eu estou sendo ajudada também.”

Nessa dinâmica ela acaba conhecendo melhor as crianças e possibilita que se conheçam bem entre si. A professora demonstra todo um envolvimento com as questões sociais e emocionais das crianças e seus familiares. Demonstra, também, uma grande preocupação com o aprendizado das crianças e por várias vezes compartilha com a pesquisadora suas inquietações com relação ao processo de apropriação da escrita por parte de algumas crianças que não

transcorre como o desejado e pede orientação pedagógica. Eu, enquanto pesquisadora, busquei de forma muito cuidadosa, delinear meu papel assumido naquele momento para que a pesquisa não fosse comprometida.

Pelo observado, a professora busca estabelecer uma prática dialógica, pois é oferecido às crianças um trabalho com diferentes textos, momentos de conversas, discussões de diferentes assuntos. As crianças trazem indagações e curiosidades de diferentes aspectos. Embora a professora tenha um planejamento bem delineado, os discursos das crianças são ouvidos e trazidos para o centro da conversa para que seja ouvido e discutido por todos, por vezes fugindo um pouco da proposta planejada. Quando a professora não consegue responder sozinha, dialoga com a pesquisadora e por várias vezes recorre junto com as crianças à pesquisa no Google, de forma a aproveitar todas as oportunidades para a ampliação dos conhecimentos. Fato bem ilustrado como observado na aula do dia 02 de setembro de 2019.

Fonte: Caderno de campo

É conveniente esclarecer que a professora também organiza e utiliza práticas de sistematização para a aquisição do código com base nas famílias silábicas, realizando ditado de palavras oriundas das sílabas trabalhadas e frases isoladas. A partir de seu depoimento, na entrevista, fica evidenciado o porquê dessa forma de sistematização. Como pode ser observado:

“Eu vejo que meu trabalho é um somatório da linha construtivista sim. Vamos trabalhar textos significativos, essa leitura de mundo, trazer coisas que estão no mundo. Para eles. Mas se eu apresentar só no macro e não esmiuçar aquilo ali não rola. Eu tenho que vir para o micro e é nessa hora que entra a palavração, a silabação e o próprio fônico.”

A professora contava a história “A biribinha” e conversava com a turma sobre diferentes sentimentos. Em um determinado momento, o aluno Guilherme diz estar muito magoado. A professora, então, responde que logo após a história irão conversar. Mas a criança não aguenta esperar o final da conversa e menciona que seu coração é negro. Que seu irmão lhe disse isso. Guilherme se mostrava muito triste. A professora imediatamente conversou com a turma sobre o relato do menino e me pediu que eu fizesse, naquele momento, uma pesquisa no Google para mostrar a Guilherme como é um coração de verdade. Utilizando o celular pesquisei e apresentei para as crianças a imagem de um coração. O celular ia circulando entre as crianças e a professora ia explicando sobre o funcionamento e a importância desse órgão para o funcionamento do corpo humano. Durante o ocorrido, o aluno Yan disse ter pesquisado no Google que o coração da galinha bate cinco vezes mais rápido que o coração de um ser humano. A professora o chama de aluno-pesquisador e, então, sugere que todos os demais alunos cheguem à casa e façam uma pesquisa sobre esse órgão humano.

Além dessa professora, atuam com a turma mais quatro professoras para atendimento às áreas de Educação Física, Artes, Inglês e Sala de Leitura.

Embora eu tenha participado de diferentes momentos realizados por essas outras professoras, observando as atividades desenvolvidas envolvendo as práticas de oralidade, leitura e escrita e o movimento de interação na rotina daquela turma, priorizei estar presente na escola nos dias em que a professora alfabetizadora atuava em tempo integral com as crianças. Essa escolha se deu pelo fato de o foco primordial de minha pesquisa ser compreender que indícios nos textos escritos das crianças evidenciam marcas de estilo relacionadas à autoria a partir das propostas de produção textual realizadas.

Figura 7 – A professora e as crianças no momento de contação e dramatização de histórias - 2019. Fonte: Arquivos da Pesquisa.