2. O Direito das Crianças
2.1. Os Direitos Internacionais e Constitucionais das Crianças:
Criança, segundo o art.º 1º da CDC de 1989 será “todo o ser humano menor de 18 anos”, num preceito semelhante ao nosso art.º 122º CC, salvo se, segundo a lei aplicável, a maioridade se atingir mais cedo.
Com o que fica dito na breve abordagem histórica supra, essa “criança” passa de um objeto dos pais e do Estado para um sujeito autónomo de direitos, a serem protegidos legalmente. Concretamente, esses direitos encontram-se espelhados na mais variada legislação interna e mesmo na internacional, com uma tendência do Direito Contemporâneo para promover o desenvolvimento integral da criança, proporcionando- lhe uma vida adequada para isso.
Internacionalmente, o Estado português encontra-se, agora, vinculado à CDC. Como matrizes das análises a fazer adiante quanto às wrongful lifes, há artigos que não poderemos deixar de mencionar, sobretudo tendo em conta que logo o Preâmbulo da Convenção demonstra a necessidade de proteger as crianças, tendo em conta a sua vulnerabilidade, devendo essa proteção existir antes e depois do nascimento.
Desde logo, o art.º 2º proclama a ideia de não discriminação de qualquer criança, aplicando-se os direitos da Convenção a todas elas, sem exceção; o art.º 3º expressa o foco da legislação de menores recentemente, centrando-se no superior interesse da
criança, mencionando desde logo que todas as decisões deverão ter em conta esse
princípio - incluindo os tribunais - e o Estado deverá mesmo comprometer-se a garantir a proteção de qualquer criança e os cuidados necessários para o seu bem-estar; igualmente relevante nesta sede se apresenta o art.º 6º, ao reconhecer à criança não só um direito à vida mas também à sobrevivência e ao desenvolvimento, o que parece notar que já não falamos só de um simples direito a viver mas também de um direito a viver com qualidade e de forma a promover um verdadeira e benéfica evolução da
pessoa; concretamente para o tema da dissertação encontramos o art.º 23º quanto a crianças deficientes: essas terão direito a cuidados especiais que lhes permitam ter uma vida plena e decente, em condições dignas; ainda o art.º 24º, implica o direito da criança a gozar do melhor estado de saúde possível e a beneficiar de serviços médicos; e o art.º 27º fala mesmo de um nível de vida que a criança deverá ter (adequado ao seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social) a ser prosseguido pelos seus pais, eventualmente com a ajuda do Estado.
A nível interno, as mesmas noções, acabam por ser consagradas noutros preceitos significativos, nomeadamente constitucionais que, apesar de não serem específicos em relação aos menores, se aplicam a esses pelo princípio da igualdade do art.º 13º CRP. Logo o art.º 1º CRP, de forma quase genérica, foca a nossa atenção para o facto de a República Portuguesa se basear na dignidade da pessoa humana.
Mais concretamente para o caso em apreço mas intimamente relacionado com a dignidade humana, encontramos o direito à vida. Para além de um direito de valor quase absoluto e de nível privilegiado em relação aos outros, este é o direito mais questionado na apresentação que se segue.
Logo previsto no art.º 24º da CRP, o direito à vida, no nosso ordenamento jurídico, expressa-se pela imperatividade da inviolabilidade de qualquer vida humana, ganhando mais força ainda no seu nº2 com a proibição da pena de morte. Quer-me parecer, no entanto, tendo em conta a evolução das condições de vida e das ciências e tecnologia, que este direito já não poderá ser só visto enquanto a possibilidade de estar biologicamente vivo por qualquer forma – nomeadamente, por intermédio de máquinas55 - mas deverá, agora, também consistir num direito à vida com alguma qualidade, no que aos cuidados médicos diz respeito.
55
Atualmente, o critério para se apurar do termo da vida de uma pessoa será o da “morte cerebral” que se traduzirá na “comprovação da cessação irreversível das funções do tronco cerebral”. Vide Parecer Sobre o Critério de Morte (10/CNECV/95). No entanto, a ciência tem vindo a permitir, independentemente dessa cessação de funções cerebrais, que o corpo biológico da pessoa mantenha batimentos cardíacos, possibilitando uma vida somente do corpo físico da pessoa.
Esses avanços permitem também que alguém se mantenha vivo em condições que já não considera benéficas para si. Nesse sentido, e com os vários debates que têm vindo a fazer-se quanto às questões da Eutanásia, alguns Autores têm vindo a defender que não haverá um “dever de estar vivo” e que o direito à vida não deverá ser uma justificação para uma pessoa se ver obrigada a viver em condições dolorosas e penosas, promovendo-se um direito à vida com um mínimo de qualidade, a nível de saúde.
No art.º 25º, a CRP consagra o direito à integridade pessoal, sendo valorizada tanto a nível moral como físico. Esse direito não se poderá desligar do direito ao desenvolvimento da personalidade do art.º 26º, todos eles aplicáveis igualmente às crianças.
Encontramos, no art.º 69º, a referência concreta à infância, tendo as crianças direito a uma proteção, tanto pela sociedade como pelo Estado, contra tudo o que possa comprometer o seu desenvolvimento integral, nomeadamente os casos exemplificados no artigo; e há ainda uma proteção especial da juventude no art.º 70º.
O CC também dispõe de algumas normas sobre as crianças. Segundo o seu art.º 122º, como já se referiu, será “menor” quem ainda não tiver 18 anos, num dispositivo semelhante ao do art.º 1º da CDC. No entanto, com a alteração de 2017, a nova redação da LPCJP estende o conceito de “criança ou jovem”, o mais tardar até aos 25 anos, caso a pessoa ainda esteja em processo educativo.
Partindo do CC, depressa se nota que a menoridade é considerada uma incapacidade de exercício (art.º 123º) a suprir pelo progenitores ou, subsidiariamente, por tutela (art.º 124º). Atualmente, esse suprimento deverá ser visto como uma forma de proteger os menores que, pela sua falta de experiência na vida, terão pessoas de confiança a tratar das suas questões, no seu melhor interesse.
Esta incapacidade irá durar até aos 18 anos da criança ou até à sua emancipação (art.º 132º), salvo a exceção prevista no art.º 133º. Mas esta incapacidade como forma de proteção do menor quase de si próprio e da sua inexperiência remete-nos para a figura das responsabilidades parentais, ficando essas a cargo dos seus progenitores, pelas regras dos art.ºs 1877º ss. A questão das responsabilidades parentais, no entanto, será melhor estudada infra quanto à legitimidade para proposição da ação.