DETERMINANTES DA APD: REVISÃO DA LITERATURA
2. A complexidade dos determinantes da ajuda
2.1. Os donor interests
Inúmeras obras subsequentes (ver tabela 7) analisaram a ajuda bilateral de vários países, na maioria dos casos os grandes doadores em valores absolutos, sendo evidente a existência de motivações políticas, económicas e estratégicas nas decisões de afectação de fluxos financeiros de ajuda externa. A visão idealista e altruísta da ajuda é constantemente confrontada com os resultados da maioria dos estudos acerca desta temática.
Porém, a especificação metodológica acerca do que é um “interesse estratégico” do doador varia de estudo para estudo, tornando a literatura algo fragmentada. Existe, de facto, um acordo comum sobre quais os factores que determinam a ajuda fornecida, mas o peso relativo de cada um é variável nos diversos estudos e, consequentemente, chegamos a conclusões contraditórias, o
47O COMECON (Council for Mutual Economic Assistance) foi fundado em 1949 e visava a integração
económica dos países do leste Europeu. Esta organização surgiu no contexto europeu do pós-guerra e da consequente devastação das economias do velho continente. O COMECON é considerado um instrumento de reconstrução dos países devastados pela 2ª Grande Guerra e uma resposta soviética ao plano edificado pelos Estados Unidos, o Plano Marshall.
48
Mesmo no seio da ajuda multilateral existem diferenças significativas entre os doadores. As motivações humanitárias, de real combate à pobreza, têm tido grande ênfase na ajuda prestada via Nações Unidas. Porém, a ajuda canalizada através dos bancos regionais de desenvolvimento, instituições de Bretton-Woods e Comunidade Europeia não é tão linear, apresentando um mix de motivações inerente, muito relacionadas com os interesses dos próprios Estados que compõem estas organizações (MARTINUSSEN, 2003:12).
54 que alimenta o debate entre os autores, revela a subjectividade dos métodos estatísticos e demonstra a existência de uma certa “carga ideológica” nesta temática.
A complexidade dos determinantes da ajuda é bem documentada no trabalho de SCHAEDER, HOOK e TAYLOR (1998). Os autores analisaram as motivações inerentes à ajuda prestada por quatro países industrializados - EUA, Japão, Suécia e França - a países da África subsariana, ao longo da década de oitenta. Concluíram que, no caso norte-americano, a ideologia e os interesses estratégicos relacionados com o alargamento de esferas de poder e influência eram factores cruciais. No caso japonês, os interesses económicos foram o factor crítico da política de ajuda externa desde o fim da II Guerra Mundial49. A APD sueca era guiada, essencialmente, por factores humanitários mas, também, por critérios ideológicos (tradição de solidariedade internacional com os países menos desenvolvidos, típica do like-minded group). Finalmente, no caso francês, os determinantes culturais assumiam um papel de destaque, o que se explica pelas relações históricas da francofonia. O “nacionalismo cultural” francês é fortemente incentivado pelo apoio às antigas colónias francesas e a países de língua oficial francesa.
É, pois, claro, que as origens das políticas de ajuda externa dos países industrializados do norte são complexas e variáveis. Apesar da partilha de valores democráticos por parte dos quatro doadores referenciados e de uma base económica e industrial de desenvolvimento comum, existem vincadas diferenças entre eles, explicáveis por backgrounds históricos e posições relativamente ao sistema internacional distintos, o que revela que as políticas de ajuda externa são influenciadas por diferentes combinações de interesses políticos externos (SCHRAEDER et al, 1998:13).
BERTHÉLEMY (2006 b):191) agrega os doadores em três “clusters” distintos: o “altruísta”, onde a intensidade do parâmetro comercial é reduzida (Áustria, Dinamarca, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia, Noruega e Suíça); o
49 Para COORAY e SHAHIDUZZAMAN (2004:2,7), o Japão tem vindo a apresentar um estilo próprio na
formulação da estratégia de cooperação, baseado na continuação da ideia de post-war economic recovery strategy, e na aposta num elevado grau de nacionalismo económico, mesmo num contexto de globalização.
55 “egoísta”, onde a variável comercial é fortemente significativa (Austrália, França e Itália); e o “moderadamente egoísta” (Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Japão, Reino-Unido e EUA50).
McGILLIVRAY e OCZKOWSKY (1992)51 analisaram os determinantes da ajuda do Reino Unido, tendo observado que, além de motivações humanitárias, as razões ligadas ao passado colonial são fortemente significativas na afectação da ajuda, nomeadamente para os países da Commonwealth.
QUINN e SIMON (2006:300) destacam também a importância do “passado colonial” na APD e na promoção dos interesses diplomáticos franceses, referindo que, após a descolonização, França perpetuou a sua esfera de influência nos territórios anteriormente colonizados, assumindo um papel de destaque no que respeita ao comércio, às finanças e ao investimento. Os autores afirmam ainda que este “neocolonialismo” foi uma forma de restabelecer o poder francês no mundo e uma estratégia geopolítica para competir com a preponderância americana e soviética, travando esta hegemonia.
Esta nova variável passou a assumir uma posição relevante nos estudos posteriores, sendo, grosso modo, estatisticamente significativa para a generalidade dos países ex-colonizadores. Como refere MARTINUSSEN (2003:9), «os governos das antigas potências coloniais (…) sentem que têm uma obrigação moral de ajudar as suas antigas colónias nos seus esforços para atingir o progresso económico e social. (…) Todavia, além do objectivo oficial da ajuda [leia-se, o combate à pobreza e os consequentes esforços de desenvolvimento], esta prioridade está também relacionada com a promoção dos seus próprios interesses económicos e comerciais, o que inclui a exploração dos recursos- naturais, matérias-primas e acesso aos mercados locais»52.
ALESINA e DOLLAR (1998) chegaram também à conclusão de que a maioria dos países doadores com um passado colonizador afecta um volume
50 O autor inclui no seu modelo dummys que visam medir a importância regional da América Latina e da
região asiática nas decisões de afectação de ajuda norte-americana e japonesa e que reduzem a intensidade da variável comercial, dado o correlacionamento entre ambas. Testando o modelo sem estas dummys, o autor conclui que os dois doadores se inserem no cluster “egoísta”.
51 McGILLIVRAY, M. e OCZKOWSKI, E. (1992), A two-part sample selection model of British bilateral
foreign aid allocation, Applied Economics, 24, 1311-19, in COORAY, N. S. e SHAHIDUZZAMAN, Md. (2004).
56 superior de ajuda às ex-colónias, partilhando, também, posições políticas e estratégicas. A observação do sentido de voto nas Nações Unidas foi fundamental para a análise, uma vez que as posições entre ex-colonizadores e ex- colónias são quase sempre comuns.
NEUMAYER (2003(b):659-662) confirmou, também, a validade estatística da variável “passado colonial”, verificando adicionalmente que alguns doadores afectam um maior volume de ajuda a países beneficiários que se encontram geograficamente perto. A distância é, portanto, um determinante a ter em conta. Outro determinante relevante neste estudo é a relação comercial entre doadores e beneficiários: o autor observou a existência de motivações desta ordem, ao analisar importações e exportações de beneficiários e doadores, respectivamente.