DETERMINANTES DA APD: REVISÃO DA LITERATURA
2. A complexidade dos determinantes da ajuda
2.2. Os recipient needs
No que respeita aos recipient needs, a maioria dos estudos operacionalizou o conceito a partir da variável “nível de rendimento per-capita”, procurando estabelecer a relação entre volume da ajuda e nível de pobreza dos países receptores. Em princípio, quanto maior o nível de rendimento per-capita de um dado país, menor o volume da ajuda recebido pelo mesmo, isto se o objectivo real da ajuda for o combate à pobreza.
Esta variável procura, de um modo bastante pragmático, verificar se as necessidades dos receptores estão no centro da decisão de afectação do volume de ajuda. Todavia, limita-se à vertente económica das necessidades, deixando de lado outras dimensões do desenvolvimento. As restantes vertentes da pobreza não são abrangidas pelo rendimento per-capita, o que limita a análise e nos afasta da real dimensão do problema.
Importa, pois, aprofundar a questão da limitação desta variável enquanto factor de análise da pobreza das nações receptoras de ajuda. A visão simplista das sociedades poderá levar-nos a imagens hipotecadas da realidade. Partir do pressuposto de que o rendimento per-capita nos dá uma medida correcta do nível
57 de pobreza de uma sociedade é esquecer que existe um conjunto de outras dimensões cruciais para o desenvolvimento 53.
Todavia, as limitações quanto à formalização, quantificação e operacionalização deste conceito amplo de pobreza, e o próprio âmbito do trabalho em curso, levam-nos a assumir esta variável como uma medida satisfatória para observar as necessidades (pelo menos económicas) dos países receptores da ajuda.
Como forma de complementar a visão moneymetrics da pobreza, alguns modelos passaram a incluir variáveis capazes de fornecer outra perspectiva das necessidades dos países alvo da ajuda, como, por exemplo, a taxa de mortalidade infantil (variável posteriormente testada no modelo inicial de ALESINA e DOLLAR (1998)).
TRUMBULL e WALL (1994)54 testaram um modelo para a década de oitenta que incluía variáveis como “taxa de mortalidade infantil” e “direitos políticos e civis”, observando que estes factores eram estatisticamente significativos e alargando os horizontes do vector recipient need.
WALL (1995)55 confirmou que países com baixo nível de rendimento per
capita tendem a receber níveis superiores de APD per capita, apesar de não
53 Em primeiro lugar, referir-se-á que existe o problema da aplicabilidade universal da economia,
nomeadamente em países subdesenvolvidos. A contabilidade nacional precisa pressupõe a existência de uma economia mercantil quantificável, ou seja, inexistência de amplos sectores informais, economias de parentesco, autoconsumo e, por outro lado, institutos de estatística fiáveis e conhecedores da realidade alvo da sua análise. O que se passa nestes países é que se recorre frequentemente a estimativas, levando-nos a comparar realidades com aproximações. As organizações internacionais tentam a todo o custo mercantilizar sociedades tradicionais, a fim de poderem quantificar e comparar. Desta forma, o reverso da moeda da simplificação e operacionalização é a distorção de resultados e o afastamento do real.
Em segundo lugar o que está em causa é a própria dimensão da pobreza. A pobreza não pode ser analisada unicamente sob o ponto de vista da despesa e/ou produção, isto é, exclusivamente sob o ponto de vista da quantificação de bens e serviços produzidos e consumidos. Esta posição simplista e harmonizante afasta-se dos grandes problemas sociais, da especificidade dos contextos, da subjectividade do bem-estar de cada indivíduo.
A discussão acerca da problemática enunciada é ampla e afasta-se do objectivo desta dissertação. Contudo, podemos destacar a teoria do prémio Nobel da Economia Amartya Sen, para demonstrar a limitação da análise da pobreza enquanto simples quantificação de bens consumidos. Para este autor, a superação da pobreza prende-se com a própria possibilidade de realização dos indivíduos, em contextos específicos. Development as Freedom, processo de expansão das reais oportunidades ao dispor das pessoas, desenvolvimento enquanto expansão das capacidades. Ora, esta visão emancipadora da realidade transmite-nos valores que não são obrigatoriamente quantificáveis (emoções, sentimentos, espírito crítico, imaginação…), pelo que a operacionalização do bem-estar multidimensional se torna muito limitada. Acerca da “Capability Approach” ver FUKUDA-PARR, Sakiko (2003) The Human Development
Paradigm: Operationalizing Sen's Ideas On Capabilities, Feminist Economics, Taylor and Francis Journals, vol. 9(2- 3), pages 301-317, January e SEN, Amartya (2000). Development as Freedom, Anchor Books, New York.
54 TRUMBULL, W.N. e WALL, H.J. (1994), Estimating Aid-allocation Criteria with Panel Data,
Economic Journal 104, pp. 876-822, in NEUMAYER, Eric (2003) a).
55 WALL, H.J. (1995), The Allocation of Official Development Assistance, Journal of Policy Modeling
58 encontrar no seu modelo uma relação positiva entre ajuda e taxa de mortalidade infantil e direitos políticos e civis.
Por outro lado, BANDYOPADHYAY e WALL (2006), no que respeita às variáveis relacionadas com os recipient needs, concluíram que a ajuda alocada no pós Guerra Fria respondeu negativamente ao PNB pc e positivamente à taxa de mortalidade infantil.
Como se pode observar na tabela 7, os factores respeitantes às “necessidades dos beneficiários” conheceram uma atenção especial nos estudos de alguns autores. Variáveis como a “esperança média de vida”, a “taxa de mortalidade infantil”, “a taxa de alfabetização/ensino primário” e o “consumo calórico diário” foram sendo utilizadas em alguns modelos como forma de capturar um maior número de dimensões da pobreza.
BERTHÉLEMY e TICHIT (2003) estudaram a performance dos fluxos de ajuda de 22 doadores do CAD da OCDE, respeitante a 137 beneficiários, num período compreendido entre 1980 e 1999. Concluíram que a performance política tem vindo a ser progressivamente compensada pelos países doadores, em termos de volume de ajuda. Assim, à análise típica dos determinantes da ajuda baseada nos recipient needs vs donor interests, foi adicionado um novo grupo de variáveis com um peso cada vez maior denominado, na maioria dos casos, de
good-governance.