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OS EFEITOS DA SUPRANACIONALIDADE SOBRE A SOBERANIA DOS

4 SUPRANACIONALIDADE

4.3 OS EFEITOS DA SUPRANACIONALIDADE SOBRE A SOBERANIA DOS

Para que se possa melhor compreender os efeitos da supranacionalidade sobre o modelo do Estado soberano, causados pelos processos integracionistas, é cabível retomar alguns pontos já mencionados.

De acordo com Matias (2005, p. 418), a soberania pode ser entendida como o próprio poder estatal, isto é, como um conjunto de competências que um Estado detém, ou como uma qualidade desse poder, que, necessariamente, deve ser supremo em seu interior e independente em seu exterior. Como conjunto de competências, entende-se que a transferência de algumas dessas competências para outros órgãos limitaria de certo modo a soberania dos Estados, que não mais estariam aptos a exercer determinados poderes. Como supremacia ou independência, caso exista um poder interno ou externo que possa colocar certos limites aos poderes estatais, da mesma forma acarretaria algumas conseqüências sobre a soberania das nações, visto que, apesar de não abrirem mão de suas competências, passariam a ter que se subordinar aos limites impostos por outro poder.

Para Silva e Silva (2002)1, a soberania é caracterizada historicamente por

ser um poder uno, inalienável e indivisível. Essa noção foi objeto de revisão e reformulação no decorrer dos anos, conforme os fenômenos da globalização e da mundialização do capital foram impondo às nações a adoção e integração de normas jurídicas advindas do ordenamento jurídico internacional.

Conforme Stelzer (2003, p. 93), a globalização ocasionou uma considerável readaptação de valores e conceitos. Ademais de criar condições para o surgimento de novas categorias históricas como a da supranacionalidade, com a globalização econômica observou-se uma profunda revisão do atual significado de soberania e Estado, na sociedade contemporânea. A supranacionalidade além de ser uma realidade, já vem se tornando algo necessário.

Na sociedade contemporânea, segundo Silva e Silva (2002), não é mais possível se admitir a soberania como algo absoluto e ilimitado, visto que a interação

entre os países, integrantes ou não de um mesmo bloco econômico, resulta em relações jurídicas complexas, as quais acabam originando conflitos de interesse entre os Estados-membros. Existindo conflitos, qualificados por uma pretensão resistida, é imprescindível que haja um órgão com jurisdição sobre os Estados para solucionar esses conflitos. Esta necessidade de se sujeitar à decisão de um organismo com jurisdição sobre as nações contribuiu para o surgimento do conceito de supranacionalidade, tornando maleáveis, dessa forma, os aspectos que até então integravam a noção de soberania dos Estados-partes.

Na visão de Silva e Silva (2002), esse foi o meio que os países europeus encontraram para solucionar os conflitos surgidos em decorrência das relações integracionistas. Uma Comunidade de nações surgiu, na qual estas abriram mão de determinadas competências soberanas, que passaram a ser exercidas por órgãos comunitários. Dessa forma, a União Européia, ao subordinar os Estados a um ordenamento jurídico comum, contribuiu de forma decisiva para a revolução no conceito clássico de soberania,

Conforme Gomes (2003, p. 147), o conceito de soberania, em virtude do novo cenário mundial e da formação dos processos de integração, encontra-se relativizado, não sendo mais admitida a existência de uma soberania absoluta e ilimitada, justamente pela necessidade que as nações têm de promover em conjunto algumas políticas exigidas atualmente.

Para Gomes (2003, p. 147), a relativização do conceito de soberania não se trata de uma construção jurídica da atualidade, visto que há muitas décadas já se admitia a limitação da soberania em benefício da ordem internacional, amparados na “igualdade jurídica dos Estados” e na unidade entre direito internacional público e direito interno.

De acordo com Raymundo (2003, p. 163), a soberania, pensada em termos atuais, é oposta à noção clássica, pois, com a integração internacional, observa-se a limitação da esfera jurisdicional interna de cada Estado, assim como surge a necessidade de se ampliar o processo de colaboração intergovernamental.

Conforme Matias (2005, p. 440), os processos integracionistas não estão fazendo com que haja a perda da efetividade do poder estatal. O que se verifica é que está havendo uma repartição de algumas funções estatais com organismos supranacionais.

Verifica-se, segundo Raymundo (2003, p. 164), que a nova soberania é exercida coletivamente. Os países limitam suas próprias competências soberanas, transferindo-as para instituições em relação às quais não possuem controle direto. Dessa forma, a transferência de parcelas de soberania corresponde à renúncia de parte do poder decisório, no tocante a determinadas questões de interesse comum ao bloco, para órgãos comunitários, e, por outro lado, ocorre a limitação de áreas de tomada de decisão do Estado em benefício da instituição supranacional. A expressão “limitação de soberania” equivale a dizer que, em determinadas áreas, os países-membros não podem mais decidir livremente, já que transferiram seus direitos soberanos para a Comunidade supranacional.

Para Raymundo (2003, p. 164), na União Européia, por exemplo, para alcançar os objetivos integracionistas desejados pelos países-membros, estes se sujeitaram a um poder supranacional. Tal poder é completamente direcionado à consecução dos objetivos comunitários. Não há perda de soberania, o que ocorre são restrições em relação às decisões pertinentes ao processo integracionista.

Sohier e Megret (1967 apud STELZER, 2003, p. 122) afirmam que “tal transferência de poder não traz nenhum inconveniente no plano político, pelo contrário, oferece vantagens apreciáveis para uma execução rápida, sincronizada, correta e efetiva do direito comunitário”.

Neste sentido, Lequesne (2004 apud FURLAN, 2008, p. 118) destaca: Tornar comum a soberania (pooled sovereignty) resultante desse processo não provoca a diminuição do papel do Estado, mas, ao contrário, reforça-o, favorecendo sua adaptação às imposições do meio internacional.

Segundo Silva (1999, p. 44), em certo grau de integração regional, o exercício da soberania passa a ser feito, necessariamente, de modo compartilhado entre todos os países-membros pertencentes à Comunidade e vice-versa.

Para Reis (2001, p. 79):

O que se propõe, portanto, para a formação de uma Comunidade de Estados não é a perda da soberania – o que, como já vimos, é impossível, pois a soberania não é algo que se possa ter em maior ou menor medida – mas sim o que se convencionou chamar de soberania compartilhada. O Estado ou é soberano, ou não é. O processo de integração, quando atinge níveis mais avançados, importa na criação dos chamados órgãos supranacionais, os quais são investidos, pelos Estados, de poderes para atuar em campos específicos, em que a soberania de cada Estado membro é compartilhada por todos.

De acordo com Stelzer (2003, p. 23), a possibilidade da transferência de parcelas de soberania, contudo, apenas foi possível graças à mutação que o próprio conceito de soberania sofreu no decorrer dos anos. Salienta-se que se o conceito de soberania “continuasse preso à idéia de poder absoluto e intangível, a partir de um ato de transferência de soberania, o Estado deixaria de existir ou a transferência não se completaria”. Em virtude da globalização e outras variáveis, a soberania passou a ser diluída na teoria e na prática, o que possibilitou a transferência de parcelas de soberania, sem abalar a imagem do Estado na sociedade internacional.

Conforme Gomes (2003, p. 144), a delegação de poderes ou competências soberanas é algo intrínseco à noção de supranacionalidade. Por meio desse instituto, os países-membros, de forma livre e por um ato de soberania, delegam aos órgãos comunitários poderes constitucionais para legislar sobre determinada matéria. Cabe salientar que a delegação, diferentemente da transferência, é temporária, decorrendo de tratado internacional, o que possibilita às nações reaver tais poderes posteriormente. A transferência de poderes constitucionais, por sua vez, possui caráter definitivo, não podendo mais os países- membros retomá-los.

Para Lupi (2001, p. 283), a transferência corresponde à transmissão da titularidade da soberania, sem que possa ser retomada. Já a delegação equivale somente à transmissão do exercício da soberania, permanecendo a titularidade com o delegante.

Segundo Gomes (2003, p. 145), com a delegação de poderes ou de competências constitucionais, os países-membros os conservam originariamente, porém os transferem temporariamente aos organismos supranacionais, e durante o tempo em que durar a delegação, os Estados se abstêm de legislar em relação às matérias correspondentes.

De acordo com Gomes (2003, p. 147), por meio do instituto da delegação de poderes constitucionais e da supranacionalidade, os países-membros têm condicionado o seu poder de atuação sobre certas matérias, tornando-se simples destinatários das políticas comunitárias. Entretanto, deve-se questionar se esses condicionamentos poderiam levar à limitação ou perda do poder soberano às nações ou se decorreriam da sua competência soberana para firmar e ratificar tratados internacionais, e, em conseqüência, obrigar-se a cumprir compromissos assumidos livremente em âmbito internacional.

No que concerne à delegação de soberania, Stelzer (2003, p. 124) ressalta que trata-se de uma tese em que a passagem dos poderes soberanos para a organização internacional se deu a título precário, o que significa que é possível a recuperação por parte dos Estados desses poderes, se assim o desejarem. Por essa razão, nega a noção de supranacionalidade, que apenas é estabelecida quando se opera a transferência de soberania em caráter definitivo.

Para Stelzer (2003, p. 122), dois efeitos decorrem da transferência de parcelas de soberania: um de natureza política, a partir dos ambiciosos objetivos integracionistas transferidos pelos Estados-membros e assumidos pela Organização; outro, no que concerne à aptidão jurídica de o direito comunitário orientar e superar as legislações internas de cada membro. Não poderia ser de outra maneira, visto que, com parcela de soberania transferida, da mesma forma os anseios políticos dos Estados e a capacidade de regulação normativa e judicial também foram transferidos.

Em relação às formas de transferência de soberania, Stelzer (2003, p. 127) destaca: 1) uma transferência em termos gerais, visando o êxito dos objetivos integracionistas comunitários; 2) transferência de competências atribuídas exclusivamente às instituições comunitárias, que se limitam apenas a determinados assuntos.

Segundo Stelzer (2003, p. 122), o poder supranacional é derivado da transferência de parcelas de soberania por parte dos Estados integrantes a uma instituição comunitária. Nesse sentido, ao reunir as diversas frações de soberania, a organização comunitária legitimou a sua atuação sobre os países-membros, visando sempre alcançar os objetivos integracionistas. Dessa forma, os países-membros concordaram em se sujeitar a um novo ordenamento jurídico que dá as diretrizes e que se sobrepõe à ordem interna, tendo seu cumprimento garantido por um tribunal comunitário.

Em suma, a supranacionalidade se resume aos seguintes aspectos, segundo Lupi (2001, p. 317): a) o conceito de supranacionalidade pressupõe uma nova figura de titularidade do poder, que se encontra acima dos Estados; b) o conceito pressupõe a transferência de poderes soberanos; c) os objetivos comuns predominam sobre os individuais, e o objetivo comunitário integra o conceito.

Antes de finalizar, é cabível ressaltar alguns pontos principais em relação aos efeitos causados pela supranacionalidade.

Primeiro, de acordo com Raymundo (2003, p. 162), com o desenvolvimento dos processos integracionistas, a questão da soberania estatal passou a requerer uma percepção diferente, pois o surgimento instituto das limitações formais dos poderes soberanos nos Estados implica na necessidade de revisão e reformulação do conceito clássico de soberania. A soberania não pode ser estática, tem que ser dinâmica e se adaptar às mudanças que vão ocorrendo nas diversas sociedades existentes.

Segundo, o conceito de soberania clássico, de acordo com Gomes (2003, p. 148), diante da nova ordem mundial precisa ser reformulado, pois a realidade mundial denota que as nações contemporâneas não adotam políticas isoladas, agindo, por vezes, em conjunto, por meio dos blocos econômicos.

De acordo com Gomes (2003, p. 147), é importante salientar a relativização do conceito de soberania no âmbito comunitário, visto que para muitos, a supranacionalidade e a delegação de competências soberanas ocasionariam a renúncia dos poderes pelos países-membros.

Terceiro, conforme Matias (2005, p. 424), a soberania como poder estatal ou como qualidade desse poder, também pode ser afetada pelos efeitos causados pela supranacionalidade. Quando o Estado consente, por exemplo, que uma moeda comum seja criada e administrada por um banco central comunitário, ele está transferindo a um outro órgão alguns de seus poderes. Nesta situação, mesmo sendo voluntária a transferência de poderes, o Estado sofre limitações em sua soberania ao se submeter a uma autoridade superior e independente que ele mesmo ajuda a criar.

Quarto, em se tratando da participação dos Estados em organizações internacionais, segundo Matias (2005, p. 423), a limitação ao poder estatal é bastante acentuada, mesmo sendo essa participação resultante da vontade das nações. Os efeitos das organizações internacionais sobre a soberania são visivelmente notados, pois, ao criarem órgãos de natureza supranacional, essas organizações contribuem para um dos aspectos mais marcantes do paradigma da sociedade global. A primazia dos ordenamentos jurídicos comunitários advindos de órgãos supranacionais em processos de integração e a possibilidade de que tais órgãos sejam dotados de autonomia e de uma autoridade que se sobrepõe à das nações que delas fazem parte, produzem efeitos sobre a supremacia e sobre a

independência destas nações, que, conseqüentemente, estão alterando o modelo do Estado soberano.

Quinto, no atual cenário político mundial, caracterizado por uma soberania compartilhada, conforme Matias (2005, p. 431), os Estados participam ativamente do processo de diluição de sua própria soberania, ao adotarem regras internacionais que restringem sua liberdade. Porém os Estados não estão perdendo com isso, pelo contrário, estão tornando mais ampla a sua atuação no cenário internacional, e as vantagens obtidas compensam as possíveis limitações à sua soberania.

Por fim, em relação às limitações de soberania, Deutsch (1978 apud STELZER, 2003, p. 85) afirma que:

A soberania, com apenas algumas limitações, parecerá mais atraente à maioria dos governos, do que a submissão à hegemonia de qualquer grande potência ou coalizão parcial de grandes potências. E o aumento, ao invés da redução, das capacidades e do prestígio da Nação-Estado parecerá mais prática e mais desejável à maioria de seus governos e povos.

De acordo com Stelzer (2003, p. 122), cabe destacar também que o processo de criação de grandes espaços de integração demandaria determinados sacrifícios dos países envolvidos: inicialmente, a necessidade de as nações transferirem parte de sua soberania para a organização comunitária que teria a incumbência de enfrentar as dificuldades existentes no cenário mundial e viabilizar os projetos nacionais, e, em seguida, para assegurar a plenitude do alcance destas metas, a Comunidade passou a ser dotada de capacidade de regulação normativa e judicial.

Para Stelzer (2003, p. 169), no processo integracionista comunitário, as nações transferem definitivamente parcelas de suas competências soberanas, visando a consecução de objetivos ambiciosos que dificilmente seriam alcançados se tivessem que agir isoladamente. Dessa forma, a necessidade de satisfação desses objetivos comuns possibilitará o desenvolvimento de um complexo de solidariedade de fato, que será a essência da irreversibilidade do processo integracionista. Para tanto, é imprescindível a aceitação de regras comuns produzidas a partir de perspectivas comuns e sobre a existência de interesses igualmente comuns. Citando Pescatore, Mello (1993 apud STELZER, 2003, p. 86) afirma que “o que caracteriza a integração é uma nova interpretação da soberania do Estado, criando algo supranacional marcado pela idéia de solidariedade”.

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