3 O TRABALHO FINAL
3.2 A CRIAÇÃO DAS CENAS
3.2.1 Os elementos sonoros
O estudo sobre os grupos de teatro de sombras, nacionais e internacionais, tornou possível perceber a importância da música na montagem dos espetáculos de sombras. A partir de então, passou-se a dar mais atenção aos sons, a voz e à música, o que auxiliou na criação do clima das cenas e indicou em muitos momentos a ação dos personagens.
Tanto na etapa de (re)descoberta da sombra como na criação das cenas utilizou-se a música (reproduzida por um aparelho de som) como estímulo à criação. Nas cenas também foram explorados os sons, como de vento, do mar, de pássaros e trovão. A música serviu para indicar momentos como de alegria ou tensão, sempre complementando as cenas criadas.
O uso da voz (ação vocal) nas oficinas serviu para explorar diálogos, produzir sons e onomatopeias. De acordo com Burnier (2001, p. 58), “ação física” e “ação vocal” são indissociáveis, já que
as ações físicas são as bases concretas sobre as quais o ator poderá construir sua arte; tudo deve passar por elas, ou estar embasado nelas. Elas são as expressões concretas de algo, ou as provocadoras de uma in-pressão. Toda técnica de ator deve trabalhar com esta dialética: de um lado a vida e, de outro, a forma; como operacionalizar, no âmbito da arte, o necessário contato entre elas.
A ideia de “ações físicas” compreende também a “ação vocal”. “A ação vocal é o texto da voz e não [só] das palavras.” Além de “o que dizer” é preciso considerar “o como dizer, criando uma poesia em que o texto desse como” passa “a ser mais relevante” do que as próprias palavras.” (BURNIER, 2001, p. 56). Essa compreensão serviu para auxiliar a direção dos participantes e enriquecer o trabalho de atuação do ator.
Já a inserção da música nas várias cenas e os significados múltiplos que decorrem dessa prática, constituiu importante plano de análise da criação cênica. “Música é manifestação de crenças, de identidades, é universal quanto à sua existência e importância em qualquer que seja a sociedade. Ao mesmo tempo é singular e de difícil tradução, quando apresentada fora de seu contexto ou de seu meio cultural.” (OLIVEIRA PINTO, 2001, p. 223). Diferentes músicas foram exploradas: música instrumental, clássica, eletrônica e MPB. Para o participante DP, “é melhor fazer as cenas com a música, ela dá todo um clima na cena. Quando fazemos a cena sem música fica um vazio.” Mesmo não sendo compostas para o espetáculo, as músicas serviram como importante estímulo à criação, sugerindo diversas sensações.
A música no teatro de sombras pode suscitar sensações e a imaginação juntamente com as imagens em movimento. Para os participantes, ela teve um papel fundamental na composição das cenas, principalmente na forma como ela pode realçar uma imagem ou estabelecer um clima na cena.
Ana Maria Amaral (1996, p. 271), ao analisar o trabalho do grupo francês Amoros &
Agustín, aponta que: “Assim como a luz age sobre a imagem, a imagem atua ou age sobre o
música devem dialogar em perfeita harmonia, evitando-se assim que um elemento predomine sobre outro. Nesse sentido, os elementos sonoros estão em função do espetáculo de sombras e não ao contrário.
Durante o trabalho foi preciso atentar para os detalhes de cada elemento na cena. Do trabalho do ator-animador, passando pelos diferentes materiais e elementos, até a utilização da música e da voz, que deviam estar em consonância com a proposta do trabalho final.
Num dado momento percebemos que a voz inicialmente usada era “estridente”. Uma forma de contornar essa situação foi sugerida pelo participante CR: “É preciso partir da respiração e da intenção para se fazer a voz das silhuetas na cena”. Percebeu-se que o uso da voz no teatro de sombras, assim como no teatro em geral, faz sentido quando está em consonância com os outros elementos do espetáculo.
O diálogo ou o texto falado também precisa de certos cuidados, já que, “Não é um trabalho apenas ao nível do que se diz, mas como se diz. (AMARAL, 1996, p. 270). E assim como o corpo do ator tem no palco uma tensão diferente da vida quotidiana, o mesmo ocorre com a voz e as palavras no teatro. Foi preciso destacar que “Podemos falar um mesmo texto dizendo coisas diferentes.” (BURNIER, 2001, p. 55). Uma cena bem elaborada pode ser prejudicada por um texto falado inadequadamente. É preciso estar atento para que os elementos estejam em harmonia, de forma a valorizar e enriquecer o espetáculo, já que “Vários componentes da ação física [...] encontram um correlato na ação vocal.” (BURNIER, 2001, p. 55). A “intensidade e a espacialidade da ação vocal” são exemplos claros, pois “correspondem ao movimento da ação física. A intensidade nos dá a força e o volume da ação vocal, e a espacialidade, a maneira como a voz ocupa o espaço.” (2001, p. 57). A “ação da voz” pode também ter “diferentes altura e musicalidades”.
A musicalidade da ação vocal é resultante de um conjunto de elementos, como pontuação, pausas, efeitos de causalidade vocal, que determinam o dinamoritmo da ação. Outro elemento a ser considerado é a articulação, o fato de emitir, mais ou menos articuladamente, os sons das palavras. A articulação, no entanto, faz parte da musicalidade da ação vocal. (BURNIER, 2001, p. 57).
Para Burnier (2001, p. 57), uma ação vocal é “a ação que a voz faz no espaço e no tempo”. São essas relações que fazem com que voz passe a fazer sentido na cena e no espetáculo por meio da atuação do ator.
Contudo, as cenas criadas dispensaram os diálogos, pois conforme observou a participante JR: “A imagem no teatro de sombras é tão expressiva que até pode dispensar um narrador”. A opção em não utilizar o “texto falado” foi uma escolha do grupo, seguros de que
as imagens, os sons, a música e a animação eram suficientes para estabelecer a comunicação com o público.