• Nenhum resultado encontrado

Os irmãos que se reúnem para participar da eucaristia

Especificamente neste caso da perícope da I Apologia (65.1-4; 66.1), a narrativa se refere a uma celebração que acontece logo após o batismo de um converso. O banho de purificação parece continuar o argumento sobre a imitação dos demônios por meio da estátua de Coré sobre a fonte das águas.Após fazer profissão de fé, o converso passa pelas águas e é encaminhado aos “irmãos”. Para se compreender quem são os “irmãos” que se reúnem é preciso entender como Justino utiliza o vocábulo grego .

De modo geral, significa simplesmente “cada um de dois ou mais filhos ou descendentes com um ou ambos os pais em comum”801 ou “filho de uma mesma mãe”. Mas a

800 MARCOVICH, M. op. Cit. 2005. pp. 125-127.

801 Cf. FRIBERG, T.; FRIBERG, B.; MILLER, N. F. Analytical lexicon of the Greek New Testament.Victoria, B.C.: Trafford, 2005.

palavra assume facilmente o significado de “pessoa que pertence ao mesmo grupo étnico”802. O mesmo vocábulo grego aparece no Didaque (4.8), na Apologia (15.7) de Aristide de Atenas, na Petição em favor dos Cristãos (32.5803) de Atenágoras, no Apologeticum (39.8) de Tertuliano e em Octavius (9, 2; 31, 8) de Minucius Felix. Na LXX utilizada por Justino, aparece como a tradução do termo hebraico

ח ָא

. O apologista faz uso da palavra grega algumas vezes quando cita a Bíblia Hebraica, como no Diálogo com Trifão 91.4 citando Dt 33.13-17, no Diál. 98.1-5 citando o Sl 22, ou no Diál. 139.3 citando Gn 9.24.

A primeira ocorrência dos termos equivalentes aparece em Gn 4.2, quando nasce o “irmão” de Cain, Abel. Os descendentes do povo de Israel (Dt 27.7) ou da mesma tribo também são chamados “irmãos” (Nm 16.10). O conceito de “irmãos” de um mesmo povo no Antigo Testamento deriva da ideia de “filhos de Israel” (Lv 25.46; Dt 3.18). Moisés se referia aos israelitas como “irmãos” (Ex 2.11; 4.18). Mas em alguns momentos outros povos são chamados de “irmãos”, como os edonitas (Nm 20.14). O rei de Tiro também foi chamado de “irmão” por Salomão (I Re 9.13). Desse modo, percebe-se que sempre que se pretende denotar algum tipo de proximidade entre duas ou mais pessoas empregam-se os termos ou

ח ָא

respectivamente em seus idiomas ou como uma equivalência nos processos de tradução. Os escritos neotestamentários também apontam que os cristãos se tratavam como “irmãos” (At 11.26; 26.28; 1 Pe 4.16; Mt 25.40; At 11.29; 1 Co 5.11; Lc 10.29,30). Talvez a passagem que venha a calhar seja aquela em que o próprio Jesus lembra os seus seguidores de que eles são “irmãos”: “Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. [...] Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos (Mt 23.2,8). A mensagem de Jesus retoma a tópica da fraternidade dos filhos de Israel, que permeia os discursos que promovem a sociedade judaica como uma extensão da família dos patriarcas. Esta passagem carrega também uma crítica à hipocrisia dos líderes judaicos do I século, especialmente os “escribas” e “fariseus”. Desse modo, a fraternidade cristã é uma comunidade que procura reivindicar uma moral mais elevada que os demais judeus. Justino reproduz este discurso de que os cristãos são mais piedosos que os judeus, mas o apologista não parece ser demasiadamente restritivo em muitos aspectos. Ele está

802 LIDDELL, H. G.; SCOTT, R. (Ed.). A Greek-English Lexicon. Oxford: Clarendon Press, 1940. Tal como aparece na Electra (536) de Eurípides ou nas Histórias (7.97), de Heródoto cf. ERODOTO. Storie. Testo greco a fronte. Vol. 1-4. Milano: Biblioteca Univ. Rizzoli, 1984.

803 Cf. ATENÁGORAS. Petição em favor dos cristãos. In: FRANGIOTTI, R.; BALANCIN, R.; STORNIOLO, I. (Ed.). Padres Apologistas. 3. ed. São Paulo: Paulus, 2005; ATHENAGORAS. A Plea for the Christians. In: SCHAFF, P. (ed.). Ante-nicene fathers, v. 2. Fathers of the second century: Hermas, Tatian, Athenagoras, Theophilus, and Clement of Alexandria. Grand Rapids, MI: C. Classics Ethereal Library, 2004.

sempre empenhado em convencer tanto os judeus quanto os pagãos do engano por eles praticado e da verdade pelos cristãos proclamada, mas seu discurso é um apelo ao arrependimento e um convite para a comunidade dos “irmãos”. Aliás, o termo será usado tanto para judeus quanto para romanos.

Aos judeus, Justino relembra Is 66.5-11:

Jesus nos mandou amar inclusive os inimigos; a mesma coisa foi anunciada por Isaías em extensa passagem, na qual ele também alude ao mistério da nossa regeneração e, em geral, de todos aqueles que esperam que Cristo aparecerá em Jerusalém e se esforçam em agradar-lhe com suas obras. As palavras de Isaías são estas: “Ouvi a palavra do Senhor, vós que temeis a sua palavra. Dizei ‘irmãos nossos’ aos que vos odeiam e que abominam que o nome do Senhor seja glorificado. Para vossa alegria, ele apareceu e eles ficaram envergonhados. Da cidade vem uma voz de alarido, voz do povo, voz do Senhor, que dá aos soberbos o que eles merecem. Antes que a parturiente desse à luz e antes que lhe chegassem as dores do parto, deu à luz um varão. Quem ouviu tal coisa ou quem viu algo semelhante? A terra ficou em parto um só dia e deu à luz de uma só vez a um povo, pois Sião sentiu as dores de parto e deu à luz seus filhos. Eu dei essa expectativa também àquela que concebe, diz o Senhor. Tanto a fecunda, como a estéril, fui eu que as fiz, diz o Senhor. Alegra-te, Jerusalém, e congregai-vos todos vós que a amais. Regozijai-vos todos vós que chorais sobre ela, para que vos amamenteis e sejais saciados pelo seio de sua consolação, para que, amamentados, sejais acariciados pela entrada gloriosa dele” (Diál. 85.7804).

Justino interpreta as palavras de Isaías como sendo mais uma profecia que se cumpre sobre os cristãos, um novo povo que é gerado por Deus tendo em vista a desobediência do povo eleito de Israel. Os judeus são apontados como aqueles que amaldiçoam em suas “sinagogas todos aqueles que dele recebem o fato de ser cristãos, e as demais nações, tornando efetiva a vossa maldição, tirais a vida pelo simples fato de alguém se confessar cristão” (Diál 96.1805). Os cristãos, porém, são apontados como aqueles que dizem a todos: “sois nossos irmãos” (Diál 96.1). E não somente isso, são também aqueles que se reúnem para orar pelos inimigos.

Ainda neste sentido, desenvolvendo sua interpretação simbólica sobre Jacó, Justino aponta que esta oposição dos judeus estava prevista.

Jacó foi o tempo todo odiado por seu irmão, e agora nós e também nosso Senhor somos odiados por vós e, em geral, por todos os homens, embora sendo, de fato, todos irmãos por natureza. Jacó foi chamado Israel, e aquele que é e se chama Jesus está demonstrado que é Israel e Messias ou Cristo (Diál. 134.6806).

O discurso de Justino, portanto, enraíza a noção de fraternidade na cultura judaica e a reinterpreta dentro de suas próprias prerrogativas, mas não é apenas aos judeus que Justino se remete como aos irmãos.

Na introdução da II Apol. 1.1 o apologista chama os romanos de . “Com efeito, sois da nossa mesma natureza e irmãos nossos, por mais que, por causa da vaidade de vossas

804 JUSTINO, Op. cit., p. 243. 805 Ibid., p. 259.

supostas dignidades, não o reconheçais, nem o desejeis”. Neste caso, porém, o apologista usa a palavra “irmãos” no sentido de homens da mesma natureza.

Um grande número de trabalhos tem analisado a “linguagem familiar” ou de “irmãos” entre os cristãos antigos807. Wayne Meeks808 aponta que o uso de "irmãos" por parte de Paulo é indicativo de como os membros eram ensinados a conceber apenas duas classes de humanidade: a seita e os “outsiders". Esse tipo de discurso proporciona uma espécie de ruptura com o passado e integração na nova comunidade. Mas embora seja comum a referência às raízes judaicas desse tipo de linguagem entre os cristãos, há fortes evidências de que o mundo greco- romano também estava familiarizado à linguagem familiar e ao chamamento de “irmão”.

Conforme aponta Philip Harland809, grupos e associações do mundo antigo conheciam a designação metafórica dos “irmãos”. Túmulos descobertos na montanha da região de Lamos, na região central de Rough Cilicia, pertencentes a cemitérios coletivos de associações que datam do período anterior a Vespasiano, apresentam esse tipo de referência. A maioria desses memoriais comuns não faz menção de um título para o grupo ou de terminologia que os membros usariam para se referir um ao outro. Na maioria desses túmulos compartilhados, há simplesmente uma lista de nomes dos membros sem auto-identificação adicional (IKilikiaBM II 197, 198, 200, 202), ou uma declaração do nome do líder seguida pela lista de pessoas com ele (IKilikiaBM I 34; IKilikiaBM II 201). Certamente há sinais claros de pertencimento em todos esses casos, no sentido de que esses indivíduos se "juntaram" conscientemente, como diz uma inscrição, e eles estavam preocupados em garantir que apenas seus membros e ninguém mais estivesse enterrado lá (IKilikiaBM I 34). Portanto, embora existam várias associações neste local, em apenas um deles, incidentalmente, vislumbramos a terminologia de pertença que poderia ser usada entre membros, neste caso, linguagem de irmão fictícia. A inscrição IKilikiaBM II 201 de Lamos na coluna b = linhas 21-35 menciona o seguinte: “Não é permitido vender para alguém fora do grupo, mas deixe ele tirar do tesouro comum 30 staters e deixe-o partir. Todavia, se algum irmão quiser vender, deixe os outros irmãos (ἀδελφοὶ) comprá-lo.

807 Cf. MOXNES, H. Constructing Early Christian Families: Family As Social Reality and Metaphor. London: Routledge, 2017.; MENGESTU, A. God as father in Paul: Kinship language and identity formation in Early Christianity. Eugene, Oregon: Pickwick Publications, 2013. BALCH, D. L. Early Christian Families in Context: An Interdisciplinary Dialogue: [Conference Was Held at Brite Divinity School, Texas Christian University, Fort Worth, Texas, November 30 - December 3. 2000]. Grand Rapids, Mich. [u.a.]: William B. Eerdmans, 2010.; AASGAARD, R. 'My Beloved Brothers and Sisters!': Christian Siblingship in Paul. London: T & T Clark International, 2004.; OSIEK, C.; BALCH, D. L. Families in the New Testament World Households and House Churches. Enskede: TPB, 2006.; NATHAN, G, S.; HÜBNER, S. Mediterranean Families in Antiquity: Households, Extended Families, and Domestic Space. Chichester: Wiley Blackwell, 2017.

808 Op. cit., 1983. pp. 85-86.

809 Familial dimensions of group identity: “brothers” (adelfoi) in associations of the greek east. JBL 124/3 (2005) 491–513.

Mas se os irmãos assim o desejarem, então deixe-o receber as moedas mencionadas acima e abandonar a associação [...]810”. Harland aponta outros casos da Ásia Menor envolvendo membros de uma associação ou organização cultual que também empregam terminologia de irmãos. Um certo número de inscrições pertencentes a funcionários em cultos em vários locais parece usar o termo "irmão" como uma designação para um sacerdote. Em Halikarnassos há monumentos em que os sacerdotes (ἱερεῖς) em um templo são referidos como "irmãos sacerdotes" [ἱερεῖς ἀδελφοί] (IGLAM 503)811. Inscrições similares aparecem em Mylasa, nas quais dois homens são chamados “bons, em sub-sacerdotes” [καλῶν ἀ|δελφῶν ὑποιερέ|ων] (IMylasa 544)812.

Onno van Nijf813 neste mesmo sentido analisa uma inscrição do século III de Tessalônica na Macedônia. É um túmulo coletivo de uma associação com nichos individualmente designados: "Para Tyche. Eu fiz este nicho em comemoração do meu próprio parceiro fora de esforços conjuntos. Se um dos meus irmãos se atreve a abrir esse nicho, ele pagará... "(IG X.2.1 824).

De modo geral, o que se pode notar é que a terminologia do parentesco foi usada de diversas formas dentro dos períodos helenístico e romano, incluindo o uso dos termos "irmão" ou "irmã" como uma expressão de carinho entre amigos próximos. O estudo de Arzt-Grabner814 recolhe vários casos claros de papiros (datando do século II a.C. até o século III d.C.) em que aqueles que não estão literalmente relacionados dirigem-se a oficiais, amigos ou parceiros comerciais como "irmãos". No entanto, existem outros casos dessa prática envolvendo colegas de trabalho ou co-devotos de uma deidade ou deidades que estavam ativas nos mesmos santuários ou que pertenciam a associações ou a outras organizações.

810 ἔξοθεν πωλῆσαι, ἀ.|λ\ὰ\ λ\α\μβανέτω\ ἐκ τοῦ | κοινοῦ στατῆρες τριά|κοντα καὶ ἀποχωρείτω. | ἐὰν δ\έ τινος ἀδελφὸς | θελήσει ἀποπωλῆσ|α\ι ,\ ἀγοραζέσθωσαν οἱ | ἕτεροι ἀδελφοί. εἰ δὲ μὴ | θέ.ωσιν οἱ ἀδελφοί, τό|τε λανβάντωσαν τὸ πρ|ογεγραμμένον κερ[μ]|άτιον καὶ ἐκχωρείτω[σα|ν] ἐκ τοῦ κονοῦBEAN, G. E.; MITFORD, T. B. Journeys in rough Cilicia, 1964-1968. Wien: Böhlau in Komm, 1970 apud HARLAND, P. A. Dynamics of identity in the world of the Early Christians: associations, Judaeans, and cultural minorities. New York/London: T&T Clark, 2009. pp. 68-69; id. Familial dimensions of group identity: “brothers” (adelfoi) in associations of the greek east. JBL 124/3, 2005, pp. 491–513.

811 LE BAS, P.; WADDINGTON, W. H. Inscriptions grecques et latines recueillies en Gréce et en Asie Mineure. Paris, F. Didot, 1847. apud HARLAND. Op. Cit. 2009. pp. 69-70.

812 Cf. MCCABE, D. F. Mylasa Inscriptions. Texts and List. «The Princeton Project on the Inscriptions of Anatolia», The Institute for Advanced Study, Princeton. Packard Humanities Institute CD #6, 1991. — Includes: Wolfgang Blümel. Die Inschriften von Mylasa. 2 vols. «Inschriften griechischer Städte aus Kleinasien», 34-35. Bonn 1987-1988. Vol. 1, Inschriften der Stadt; vol. 2, Inschriften aus der Umgebung der Stadt. apud HARLAND. Op. Cit. 2009. p. 70.

813 The Civic World of Professional Associations in the Roman East. Leiden: Brill, 1997.

814“Brothers” and “sisters” in documentary papyri and in early Christianity. Revista Biblica 50, 2002. Pp. 185-

204. Cf. BGU VIII 1755, 1770, 1788; SB XVI 12835: BGU VIII 1874; POxy XVII 2148; SB V 7661; POxy XLII 3057; SB XIV 11644: BGU I 248–49, II 531, 594–95, 597; BGU XVI 2607; POxy LV 3808; OClaud I 158 e II 226.

Não é possível determinar exatamente se o uso da linguagem fictícia ou figurada de “irmãos” era algo generalizado nas associações ou se tinha o mesmo significado que os "irmãos" desenvolveram em alguns círculos cristãos. No entanto, Harland está correto em constatar que a linguagem de parentesco em associações e organizações de vários tipos (grupos étnicos, cultuais, ocupacionais, ginásticos, cívicos e outros) no mundo greco-romano era algo mais comum do que se supunha. Inscrições na Grécia, na Ásia Menor e em cidades gregas do Danúbio e do Bósforo, bem como papiros do Egito, sugerem que a linguagem familiar foi usada em uma variedade de configurações de pequenos grupos em referência a outros membros como "irmãos". Como Harland também aponta, “ao prestar mais atenção aos materiais que temos, começamos a ver um terreno comum entre algumas associações, sinagogas e congregações cristãs na expressão de identidade e pertencimento”815.

Desse modo, embora possam existir aplicações em contextos diferenciados do título “irmão”, em todos eles esta palavra denota certo grau de proximidade, de companheirismo mais íntimo que um mero amigo. Representa a comunhão e o pertencimento a um mesmo grupo. Como também apontou Dennis E. Smith816,

foi no contexto da ceia que os primeiros cristãos experimentaram o evento de ligação que fazia deles uma família fictícia, na qual eles poderiam chamar uns aos outros de irmãos e irmãs e se considerarem parte da família de Deus. Neste sentido, a ceia tornou-se o meio para a formação da comunidade, ou, em outras palavras, a teologia da comunidade vem a ser entrelaçada com e através da experiência do ritual.

Ao se dirigir aos romanos como a “irmãos” (II Apol. 1.1), o discurso de Justino destaca essa inclinação para a proximidade para com os senhores do império, mas sua obra é marcada por contrastes que variam entre semelhanças e dessemelhanças, concordância e discordância, aproximação e distanciamento. Neste caso, a proximidade é justificada pelo fato de todos terem a mesma “natureza”. Algo que lembra as teorias estoicas sobre a comunidade humana. De qualquer forma, esse jogo faz parte do processo discursivo de estabelecimento de fronteiras que definem os próprios cristãos.

Justino não dá detalhes de onde os cristãos se reuniam817. A I Apol. 65.1 limita-se a dizer que aquele que aderiu ao grupo após o batismo e a profissão de fé é levado aos irmãos “no lugar onde se reúnem”. Mas o lugar onde se reuniam tem muito a dizer sobre a situação dos cristãos no II século.

815 Op. cit. 2005. p. 512.

816 From symposium to Eucharist. Minneapolis: Fortress, 2003. p. 282.

817 I Apol. 65.1 limita-se a dizer que aquele que aderiu ao grupo após o batismo e a profissão de fé é levado aos irmãos “no lugar onde se reúnem”.