CAPÍTULO 02 EDUCAÇÃO POPULAR E EDUCAÇÃO DO CAMPO
2.2 Os movimentos sociais e a educação do campo
É a partir dos movimentos sociais do campo que se desenvolvem processos educativos e de produção de saberes nessa área, partindo das práticas organizativas e discursivas em que todos são sujeitos do processo. A própria pedagogia desenvolvida durante todo o processo de organização do movimento bem como todos os recursos utilizados formam uma rica
contribuição para a formação de sujeitos e podem nortear a educação escolar com práticas pedagógicas enriquecidas pelas experiências dessas organizações. O reconhecimento das estratégias de organização e de luta pelos direitos tem contribuído para uma educação política, para a identidade social dos sujeitos do campo e para a construção da cidadania.
Segundo Barreto (2001), o estudo da história mostra que os movimentos sociais estão presentes nas sociedades e devem ser compreendidos como um fenômeno inerente aos processos de mudança social. Partindo dessa compreensão, buscamos subsídios teóricos para que haja o entendimento de como e por que se origina um movimento social. A autora nos conduz a fazer alguns questionamentos que são salutares para que possamos entendê-los. Citamos alguns para que nos ajudem a compreender melhor o tema. Dentre eles destacamos: Por que, em determinadas épocas, os movimentos sociais são bem vistos, atingem o auge da aceitação e participação popular e, em outras, entram em crise? Qual a relação existente entre grupo organizado de “sem-terra” e a educação? O que tem a ver movimentos sociais com cidadania e democracia?
Baseando-se nesses questionamentos a autora nos faz refletir que quando pensamos em movimentos sociais, a primeira imagem que nos vem à mente é de um aglomerado de pessoas reivindicando alguma coisa. Porém, nem todas as manifestações coletivas que resultam em protestos, quebra-quebra, às vezes envolvendo a polícia, constituem movimento social.
Porém, para que se compreendam os movimentos sociais, é preciso analisá-los a partir do projeto que apresentam, da ideologia que os anima e da organização que estabelecem para atingir seus objetivos.
Segundo Gohn (2007), tendo em vista que os principais sujeitos da sociedade civil organizada são os movimentos sociais, é importante registrar que os movimentos pela educação têm caráter histórico, são processuais e ocorrem dentro e fora deles, em outros espaços institucionais. As lutas pela educação envolvem a luta por direitos e são partes da construção da cidadania. Movimentos sociais pela educação abrangem questões tanto de conteúdo escolar quanto de gênero, etnia, nacionalidade, religião, portadores de necessidades especiais, de meio ambiente, qualidade de vida, paz, direitos humanos, direitos culturais etc. Esses movimentos são fortes e agências de produção de saberes. O tema dos direitos é fundamental porque ele dá universalidade às questões sociais, aos problemas econômicos e às políticas públicas, atribuindo-lhes caráter emancipatório.
Segundo Touraine (1998 apud BARRETO, 2001), pode-se afirmar que movimento social é um fenômeno social que só se concretiza no contexto da modernidade. Isso porque
antes, nas sociedades pré-modernas, não é possível emergir um movimento social. Estas sociedades caracterizam-se por apresentar uma estrutura social estratificada: uma camada dominadora e outra de dominados. O poder está centrado nas mãos de poucos e é transmitido de geração para geração.
Após este breve arcabouço histórico vamos apreciar os movimentos sociais populares do campo, pois para os campesinos são eles que reivindicam um projeto de sociedade alicerçado na emancipação humana. Partindo desse pressuposto Ribeiro (2010, p. 189), afirma:
Os movimentos sociais populares rurais/ do campo que, nas suas lutas, propõem-se a romper com séculos de políticas de expropriação/proletarização e dominação do campesinato brasileiro, inserem a educação do campo em projeto popular de sociedade, no qual a emancipação humana é o horizonte para o qual se orienta a sua caminhada.
Percebemos que os movimentos sociais têm corroborado de modo muito notável na construção de uma proposta pedagógica onde a emancipação humana seja considerada. Além disso, notamos que todo o processo de luta e conquistas considera os valores do campo e faz parte da história dessa emancipação.
É a partir das lutas dos movimentos sociais rurais/do campo que nasce um projeto de escola, uma proposta pedagógica. Observa-se que há uma íntima relação entre a luta pela terra e a luta pela escola, pois é uma exigência que se impõe pela realidade das crianças em idade escolar que acompanham os pais durante as ocupações. Sabemos que a educação por si só não resolve os problemas do país, nem promove a inclusão social. Mas pode ser um elemento muito importante se combinada com um conjunto de ações políticas que suscitem nos sujeitos o desejo de transformar a sua realidade a partir das mobilizações e organizações na busca de uma sociedade mais igualitária.
Nesse sentido, não podemos deixar de enfatizar a importância dos movimentos sociais como instituidores de práticas educativas, de novas sociabilidades, de busca e de afirmação da cidadania para os setores excluídos da sociedade capitalista no Brasil, que se manifesta segundo Fernandes (2009, p. 35) “quando surgem condições especiais e históricas de existência da propriedade privada, da acumulação de um exército industrial de reserva etc.”.
O que observamos é que a realidade e as pesquisas que estamos realizando têm revelado uma ampla e diversificada teia de experiências de educação popular, empreendidas pelas ações coletivas nas cidades e no campo.
movimento social como uma das matrizes pedagógicas fundamentais na reflexão de um projeto educativo que se contraponha aos processos de exclusão e desigualdade social, e que ajude a reconstruir a perspectiva histórica e a utopia coletiva de uma sociedade com justiça social e trabalho para todos.
Este é um aspecto importante no contexto de avanço da globalização e da disseminação do ideário neoliberal em todas as instâncias sociais e na educação, em que se avolumam os processos de exclusão social.
Claramente se evidencia na historicidade dos movimentos sociais do campo a busca por emancipação, as lutas contra opressão e pela valorização do modo de vida específico no campo. Na base das lutas sociais no Brasil, os movimentos sociais do campo destacam-se como “inovadores”. Como diz Martins (1989, p. 17) “todas as grandes revoluções sociais do século XX foram camponesas, total ou predominantemente”.
Os movimentos sociais populares rurais/do campo que, nas suas lutas, propõem-se a romper com séculos de políticas de expropriação/proletarização e dominação do campesinato brasileiro, inserem a educação do campo em projeto popular de sociedade, no qual a emancipação humana é o horizonte para o qual se orienta a sua caminhada. Como afirma Arroyo (2004, p. 80):
Quando situamos a educação como processo de transformação humana, de emancipação humana, percebemos quanto os valores do campo fazem parte da história da emancipação humana. Então, como a escola vai trabalhá-los? Será suficiente pegar o livro da cidade e apenas adaptá-lo? A questão é mais profunda, é ir às raízes do campo e incorporá-las, incorporá-las como uma herança coletiva que mobiliza e inspira lutas pela terra, pelos direitos, por um projeto democrático e que também pede educação.
Temos percebido que os movimentos sociais têm construído um novo modelo de educação. Por esta razão, exigem uma educação que leve em consideração o trabalho no campo, possibilitando o desenvolvimento do território daqueles que lá vivem.
O desafio posto pelos movimentos sociais do campo tem sido pensar tanto em uma educação do e no campo, como em uma escola do e no campo, que visualize as mudanças sociais e consiga administrá-las, ao mesmo tempo em que possibilite a formação de seus agentes, das crianças, jovens e adultos, vinculando o saber universal às experiências de vida dos educandos, para que se tornem sujeitos participativos, dialógicos, humanizados e capazes de estabelecer os alicerces de uma nova ordem social.
Segundo Sidnei Costa (2002), os movimentos sociais incentivam e mobilizam a sociedade civil na luta da construção de uma escola pública democrática e de qualidade. Os movimentos sociais que atuam no campo, a exemplo do Movimento dos Sem Terra (MST), segundo Caldart (2004), foi fundado oficialmente em 1984, na cidade de Cascavel, no Paraná, e estão preocupados com a educação e iniciaram uma reflexão sobre uma escola básica do campo como uma resposta ao modelo de escola única pretendida para a população do campo. De acordo com Oliveira (2011), as primeiras experiências de luta dos movimentos sociais do campo, “Por uma Educação do Campo”, aconteceram em 1997, quando ocorre, em Luziânia/Goiás o I Encontro Nacional de Educadores e Educadoras da Reforma Agrária (ENERA) que, segundo Arroyo e Fernandes (1999), iniciou-se no final do I ENERA, promovido pelo MST, em Brasília, em parceria com diversas entidades, como a Universidade de Brasília (UNB), o Fundo das Nações para a infância (UNICEF), a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciências e Cultura (UNESCO) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), começaram a criar mecanismos para construir uma educação que atendesse às necessidades das famílias do campo, parcela da sociedade que, historicamente, nunca teve prioridade nos projetos educacionais no Brasil.
Na I Conferência Nacional por uma Educação Básica no Campo, em 1998, foi analisada a precariedade de educação no campo, deixando claro sua importância. Como afirma Caldart (2004, p. 14), "o campo é espaço de vida digna e é legítima a luta para as políticas públicas específicas e por um projeto educativo próprio para seus sujeitos. Foram aprovadas nessa conferência as diretrizes operacionais para a educação básica nas escolas do campo”.
Arroyo (2004) relata que a necessidade de uma proposta de ensino diferenciada está pautada no fato que as realidades do campo e da cidade são diferentes uma da outra. Todavia, a educação que até hoje se realizou no campo e na cidade, notadamente para alunos provindos da zona rural, sempre esteve pautada em valores, em realidades que não eram por eles totalmente vivenciadas. Fato este observado principalmente pela exclusão ou pelo fracasso escolar destes alunos que, quando inseridos na educação escolar, não viam nesta educação um significado real para a realidade em que viviam.
Nesta ótica, enquanto aluno do campo, pudemos perceber quão difícil é a situação dos alunos vindos das áreas rurais, pois enfrentam grande discriminação em relação aos alunos da cidade, vistos como inferiores, atrasados, sem capacidades para acompanhar o ensino oferecido nas instituições urbanas.
A proposta de educação do campo nega os moldes de escolas existentes até então, pois está fundamentada na ideia de que estas instituições não têm contribuído para a compreensão da realidade.
A Educação do Campo, para Caldart (2004), possui três matrizes prioritárias. A primeira delas é a tradição do pensamento socialista que traz a dimensão pedagógica do trabalho e que nos ajuda a pensar a articulação entre educação e produção, bem como as relações e o mundo do trabalho, a organização coletiva e a formação humana. A segunda referência é a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire e a tradição decorrente das experiências da educação popular praticadas por Freire. E que nesta ótica a educação do campo talvez possa ser considerada uma das realizações práticas da pedagogia do oprimido, à medida que afirme os pobres do campo como sujeitos legítimos de um projeto emancipatório, e por isso mesmo, educativo. E a terceira referência pedagógica para a educação do campo, ainda em construção, é a Pedagogia do Movimento que dialoga com as anteriores, mas é produzida desde as experiências educativas dos próprios movimentos sociais, em especial os movimentos do campo.
O foco da luta dos movimentos sociais do campo, nos dias atuais, é priorizar a educação considerada como necessidade básica para os trabalhadores do campo, com a perspectiva de mudar a concepção de que o campo é lugar de atraso, servindo apenas como produto de mercadoria para suprir o mercado econômico.
Arroyo (2004, p. 22) destaca:
O movimento social no campo representa uma nova consciência de direitos à terra, ao trabalho, à igualdade, ao conhecimento, à cultura, à saúde e à educação. O conjunto de lutas e ações que os homens e mulheres do campo realizam, os riscos que assumem, mostra o quanto se reconhecem sujeitos de direitos.
Com esta perspectiva, os movimentos sociais do campo estão lutando por uma educação dirigida para as necessidades humanas e sociais da população do campo, valorizando a cultura, seus saberes populares, preservação do meio ambiente, uma vez que, até então, a educação oferecida para a população do campo era baseada nos modelos das instituições escolares existentes, voltados para o interesse do capital. Já a educação proposta pelos movimentos sociais do campo, que é a educação do campo, é criada e pensada com a população e para a população do campo. E para podermos compreender melhor todo este movimento precisamos entender como se deu o processo de desconstrução da educação rural à educação do campo procurando conhecer a sua historicidade e legislação.