• Nenhum resultado encontrado

PARTIR DA PERSPECTIVA HISTÓRICO-CULTURAL

Os processos criativos das crianças a partir da cultura da mídia no contexto de uma turma de Educação Infantil se constitui no objetivo desta pesquisa de mestrado. Em virtude deste objetivo, faz-se necessário discorrer sobre a temática criatividade, ainda que de modo bastante inicial, em virtude da amplitude e das múltiplas dimensões que envolvem esse tema e da natureza deste trabalho, uma dissertação de mestrado.

Para iniciar a discussão, assumi um arcabouço teórico que compreende os processos criativos como constituintes da subjetividade humana relacionada às condições concretas de vida do sujeito, como é o caso da perspectiva histórico- cultural. Sobre a perspectiva histórico cultural na formação dos sujeitos pode-se dizer que Vigotski é um de seus principais representantes e que sua teoria ajuda a construir a própria teoria da subjetividade de González Rey (2004). Embora a teoria da subjetividade de González Rey não seja considerada como foco de estudo para esta pesquisa ela não poderia ser desconsiderada na medida em que a criatividade, como já dito, é entendida, a partir da perspectiva teórica escolhida, como constituinte da subjetividade humana. De modo mais especifico sobre a criatividade dialogo com Mitjáns Martinéz (1997; 2001; 2004; 2009; 2010) que, com base nos pressupostos da teoria histórico-cultural e da teoria da subjetividade de González Rey, desenvolveu vários estudos sobre o tema. Em outras palavras, o arcabouço teórico assumido para compreender a criatividade se distancia de uma das concepções

bastante comuns e tradicionais, geralmente provenientes do âmbito da psicologia, que entende a criatividade como algo próprio ou mesmo inato ao sujeito e não leva em consideração o contexto histórico-cultural no qual ele está inserido.

Por ter sido um dos principais representantes da teoria histórico-cultural, dialogo também com Vigotski (2004) que entende a atividade criadora como eminentemente humana, não herdada, mas construída ao longo dos processos de desenvolvimento humano pela apropriação dos instrumentos e símbolos da cultura. Nesse contexto, os processos criativos, para o autor, se constituem ao lado de outras funções psicológicas superiores como o pensamento, a memória e a imaginação.

Assim, pode-se dizer que a criatividade não é algo que “desabrocha” no indivíduo de dentro para fora, mas é constituída nas relações sociais mediadas pela cultura. Nesse sentido, não é possível dissociar o indivíduo das suas condições concretas de existência, já que, conforme nos esclarece Vigotski (1999) “[...] o homem é um ser social: um agregado de relações sociais incorporadas num indivíduo” (p. 72). Desse modo, ao considerar o contexto concreto de vida das crianças na contemporaneidade, pelo menos das que vivem nos grandes centros urbanos, posso afirmar que na maior parte do tempo as suas relações sociais são mediadas pela cultura das mídias, das tecnologias e do consumo.

É importante esclarecer que o sujeito nessa perspectiva é compreendido mediante as relações sociais que estabelece, conforme Vigotski nos aponta “[...] a relação com o outro, nas diversas esferas e níveis da atividade humana é essencial para o processo de construção do ser psicológico individual. ” (VIGOTSKI apud OLIVEIRA, 2010, p. 62). A respeito desses processos González Rey (2007) aponta que não se dão de modo linear, mas implica em um movimento de inter-relação do âmbito social com o individual como podemos observar a seguir:

Nada do que acontece em nossas práticas se internaliza, pois acima delas nós produzimos, e essa produção, mesmo sendo resultado de nossas práticas e relações, não é um resultado linear, mas uma produção diferente. (p. 173).

A partir dos pressupostos de González Rey (2007), é possível compreender que a subjetividade se constitui a partir da própria cultura, que ao mesmo tempo em que constitui o sujeito por ela é constituído em um movimento de interdependência.

Ainda com base nas ideias de Vigotski (2004), compreendo que o desenvolvimento humano se dá pela apropriação da cultura que implica em uma participação direta da criança que por meio de experiências sociais, mediadas pelos signos e instrumentos, se constitui enquanto sujeito social. Nesse sentido, é possível dizer que a criança tem uma postura ativa na apropriação e reconstrução das diferentes configurações culturais que fazem parte do seu contexto concreto de vida, inclusive aquelas relacionadas à mídia e ao consumo.

Além disso, entendemos que as possibilidades de ações criativas das crianças se alargam quando elas estão com seus pares compartilhando uma determinada cultura, já que conforme nos esclarece Oliveira (2010) a respeito das teorizações de Vigotski “[...] a constante recriação da cultura por cada um de seus membros é a base do processo histórico, sempre em transformação, das sociedades humanas”. (p. 65). Desse modo, nos faz pensar que a cultura da mídia não é consumida de modo passivo pelas crianças, mas por elas é ressignificada e transformada na relação com o outro nos diversos contextos sociais e históricos dos quais faz parte.

De tal maneira, é relevante apontar, como nos esclarece González Rey (2004) a partir da teoria da subjetividade, que esses outros com os quais o sujeito se relaciona só são significativos para o seu desenvolvimento quando são capazes de produzir sentidos e conseguem “[...] estender essa produção de sentidos a outros aspectos psíquicos que se transformarão em novas aquisições do desenvolvimento” (2004, p. 18). A esse respeito González Rey esclarece, ainda, que o outro é significativo “[...] quando se converte em um sentido subjetivo, que está sempre associado à emocionalidade. ” (2004, p. 10). Nessa perspectiva, o outro só terá relevância para o desenvolvimento do sujeito quando consegue estabelecer uma conexão com ele, ou seja, um vínculo afetivo. Desse modo, ao considerar também as mídias como sendo alguns desses outros com os quais as crianças se relaciona, posso dizer que, em muitos momentos, os produtos, imagens e representações midiáticas conseguem estabelecer conexões afetivas com as crianças.

Conforme já foi dito, a partir da teoria da subjetividade de González Rey (2002; 2004), que contribuiu com os estudos de Mitjáns Martínez (1997; 2001; 2004; 2009; 2010), a criatividade é entendida como estando diretamente vinculada à subjetividade, ou seja, como uma produção de sentidos subjetivos que vão configurando as experiências dos sujeitos em suas mais variadas vivências sociais.

Desse modo, o sentido subjetivo pode ser compreendido conforme aponta González Rey como “[...] unidade inseparável do simbólico e o emocional, onde um evoca ao outro sem estar determinado por ele [...] ” (GONZÁLEZ REY, 2002, p. 25). Portanto, podemos dizer que os processos criativos estão diretamente relacionados à história, às condições concretas de vida do sujeito e aos processos emocionais e simbólicos que ele vivencia nas suas relações com outros sujeitos, nos diferentes espaços sociais e com os variados artefatos da cultura.

É importante esclarecer, ainda, que nessa perspectiva a subjetividade individual está diretamente relacionada à subjetividade social, conforme apontam Mori e González Rey (2012, p. 146):

O sentido subjetivo está sempre envolvido na subjetividade, tanto social como individual, associado à ação do sujeito e na organização de sua subjetividade individual, assim como nos diferentes espaços e contextos em que o sujeito atua, nos processos de sua subjetividade social.

Com base em tal afirmação, o sentido subjetivo é entendido como uma produção subjetiva individual, singular, permanentemente relacionado à subjetividade social. Nessa perspectiva, as ideias, práticas e ações do sujeito vão constituindo a subjetividade social ao mesmo tempo em que constituem a sua subjetividade individual. Logo, os processos de subjetivação estão associados a lugares sociais diversos que estão relacionados a vida concreta do sujeito, como é o caso das instâncias culturais da mídia e do consumo, conforme nos apontam Momo e Mitjáns Martinéz (2017, p. 5):

[...] as pessoas são seres (inter) ativos que, mesmo participando de condições culturais semelhantes, podem, na condição de sujeitos, gerar sentidos subjetivos que fogem aos sentidos hegemônicos expressos na cultura da mídia e também do consumo.

Nessa perspectiva, se faz necessário problematizar os possíveis efeitos da cultura da mídia e as suas implicações para os modos ser criança na atualidade, um tempo marcado por produtos e processos midiáticos. Com base nesse entendimento, podemos dizer que as crianças são seres ativos que, pelas vivências sociais e culturais, se constituem e são constituídas pela cultura ao mesmo tempo que também produzem cultura e que a criatividade se constitui enquanto expressão

da subjetividade das crianças. A esse respeito já afirmava González Rey (2014) “Toda representação é sempre uma produção subjetiva, nunca um reflexo de certa realidade exterior ao processo subjetivo. ” (p. 40).

Assim como Vigotski (2004), Mitjáns Martínez (2004) aponta a criatividade como uma característica especificamente humana constituída em meio as condições sociais, culturais e históricas do sujeito. Ambos afirmam que a criatividade está presente em todos os indivíduos humanos, no entanto, as condições concretas de vida desses sujeitos, vinculadas ao seu contexto histórico, familiar, cultural, escolar, dentre outros, é que possibilitarão ou não o desenvolvimento das capacidades criativas.

Para Mitjáns Martínez (2004) a categoria de sujeito assume um papel de relevância nos processos criativos já que, segundo a autora, “É o sujeito psicológico que se relaciona com os outros nos contextos sociais em que está inserido, vivencia emoções, toma decisões e constrói representações da realidade”. (p. 82). Desse modo, o sujeito é compreendido em sua totalidade e não de modo fragmentado e suas ações são entendidas como únicas e inseparáveis das suas condições concretas de vida.

Além disso, Mitjáns Martínez (2009) esclarece que a criatividade na compreensão histórico cultural não está centrada apenas no produto final, mas “[...] no próprio processo de produção da novidade, processo que caracteriza as formas mais complexas do funcionamento da subjetividade humana”. (p.11). Com base nesse entendimento, podemos pensar nos processos criativos das crianças pequenas não apenas com o foco no produto final das suas ações, mas com ênfase em todo o processo, atentando para as suas elaborações e para o modo singular pelo qual ressignificam as suas experiências.

Segundo Mitjáns Martinéz (2009, 2010), ao analisar as obras de Vigotski sobre a temática da criatividade, pode-se dizer que a criação não necessariamente se expressa através de algo material, mas pode se caracterizar como um movimento de organização do pensamento, sentimentos e ideias. Nesse sentido, as ações criativas das crianças podem não se materializar apenas em produtos concretos, mas também se expressarem na elaboração de pensamentos, ideais e emoções, ou seja, em elementos que não são, necessariamente, palpáveis.

Mitjáns Martinéz (1997) em sua obra Criatividade, Personalidade e Educação aponta o que ela denomina de caráter personológico da criatividade ao afirmar que

“[...] sem negar a influência dos fatores sócio-históricos ou situacionais externos na produção criativa, surgem evidências cada vez maiores sobre a importância das características do sujeito no comportamento criativo” (p.56). Nessa perspectiva “[...] o sujeito desenvolve e otimiza as suas capacidades em estreito vínculo com a esfera motivacional da sua personalidade”. (p. 58). Com isso, a autora quis evidenciar que não se pode explicar a criatividade sem considerar as múltiplas nuances que envolvem os sujeitos que produzem ações criativas. Com base nessas ideias, é possível afirmar que não há características da personalidade que definem o sujeito criativo, mas que as configurações personológicas podem interferir no comportamento criativo do indivíduo. Essas configurações personológicas, segundo Mitjáns Martinéz (1997), corresponderiam a expressão das capacidades cognitivas e afetivas do indivíduo de forma indissociável, articulando o individual e o social no espaço da interação. A esse respeito Mitjáns Martinéz (1997) nos esclarece que:

Não é a capacidade diretamente que determina a atividade criativa, é o sujeito em seu caráter ativo que atua com suas capacidades em uma direção e com um nível de implicação determinados, produzindo o resultado criativo. (p. 58).

´

Com base nesses pressupostos, Mitjáns Martinéz (1997) quis dizer que as ações criativas dos sujeitos não podem ser entendidas fragmentando os elementos afetivos e cognitivos. Desse modo, a indissociabilidade entre cognição e afeto tem função importante na estruturação da criatividade em conjunto com as motivações que envolvem o sujeito.

É importante esclarecer que esse nível de implicação do sujeito na atividade criativa está intimamente relacionado às “[...] áreas onde seu potencial criativo está envolvido, em que se desenvolve interesses e implicações pessoais”. (MITJÁNS MARTÍNEZ, 1997, p. 59). Logo, é possível afirmar que o indivíduo é criativo nas áreas em que tem motivação, necessidades e/ou interesses. Assim, a criatividade não está relacionada a capacidades biológicas individuais, mas as formações motivacionais que estão ligadas a história de vida de cada sujeito e a cultura que é inseparável do próprio sujeito. Esse entendimento de criatividade justifica o porquê de existirem sujeitos que são criativos em algumas áreas e em outras não.

Ainda para Mitjáns Martinéz (1997) há dois elementos fundamentais da criatividade. O primeiro se refere ao fato que se produz algo novo, assim este algo

novo pode ser uma ideia, um comportamento, um objeto, a solução para um problema ou até mesmo o olhar diferenciado para um contexto, de modo “[...] a encontrar um problema onde os outros não o vejam, o que constitui uma importante expressão do seu potencial criativo”. (MITJÁNS MARTÍNEZ, 1997, p. 54). Entretanto, é importante salientar que esse novo deve ser considerado “[...] em relação ao sujeito do processo criativo”. (MITJÁNS MARTÍNEZ, 1997, p. 55). Desse modo, esse “novo” está relacionado ao sujeito que o produz e o contexto no qual está inserido. O segundo elemento fundamental da criatividade, elencado por Mitjáns Martinéz (2007) é o fato que o que se produz deve ter algum valor. Assim, podemos dizer que esse valor está intimamente articulado às exigências de uma determinada circunstância social.

Além de estar articulada às exigências de determinadas situações sociais, a criatividade se estabelece como “[...] parte consubstancial do desenvolvimento e como expressão das necessidades do próprio sujeito em desenvolvimento”. (MITJÁNS MARTÍNEZ, 2009 a, p. 34). Assim, a criatividade assume dupla função, ao mesmo tempo em que ela traduz as necessidades do indivíduo ela se constitui como parte do próprio desenvolvimento.

De modo mais específico no que se refere aos processos criativos na infância é importante ressaltar a escassez de produções científicas sobre o tema. Dessa forma, o entendimento desse conceito com relação às crianças pequenas, em alguns momentos, ainda, fica fadado ao senso comum, sendo a criatividade, por vezes, considerada como algo que o ser humano herda naturalmente ou como um dom que é privilégio de poucos.

Entretanto, Vigotski (2004, p. 15), ao estudar o desenvolvimento infantil, se contrapõe a ideia de criatividade como inata ao afirmar que a criação está “[...] por toda parte que o homem imagina, combina, modifica e cria algo novo, mesmo que esse novo se pareça a um grãozinho comparado às criações dos gênios”. Assim, para esse teórico, a criatividade faz parte do ser humano, estando presente em todas as esferas da vida e não somente nas grandes invenções ou obras artísticas. Dessa forma, podemos dizer que todos os sujeitos humanos são potencialmente criativos em contato mediado com o meio sociocultural. Corroborando com esse entendimento, Santos (2009) afirma que:

[...] se consideramos que a criação, no sentido psicológico, consiste em fazer algo novo, a partir das experiências, das fantasias, dos reflexos de algum objeto do mundo exterior, de determinadas construções do cérebro ou dos sentimentos que vivem e se manifestam somente no homem, chegaremos à conclusão de que todos podem criar em maior ou menor grau. Assim, a criação é acompanhante natural e permanente do desenvolvimento humano, da infância a idade adulta. (p. 164).

No entanto, se a criatividade faz parte de nossas vidas cotidianas, questiono- me: o que caracteriza uma ação humana como criativa? Que elementos nas interações das crianças com os conteúdos midiáticos podem ser considerados como criativos?

Em sua obra a Imaginação e criação na Infância, Vigotski (2004) atribui importante papel a imaginação, para o autor ela é a base da atividade criadora na infância. Além disso, o autor elenca dois aspectos essenciais do comportamento humano, o reconstitutivo ou reprodutivo e o criador. O comportamento reconstitutivo, embora não crie algo novo, tem importante significado, já que preserva a experiência vivida e possibilita uma adaptação a realidade. Já o comportamento criador é aquele que reelabora elementos de experiências vividas produzindo novas significações. Assim, denomina como atividade criativa aquela em que se cria algo novo. Nesse sentido, - o novo - é construído pela capacidade de combinar elementos de experiências anteriores de novas maneiras. A esse respeito, nos esclarece Santos (2009):

[...] não podemos esquecer que a imaginação, conforme a perspectiva sócio-histórico-cultural, não repete em formas e combinações iguais impressões acumuladas, isoladas, mas (re) constrói, (re) cria o novo a partir das impressões anteriormente acumuladas. (p. 164).

É importante assinalar, ainda, que, segundo Vigotski (2004), a imaginação criadora envolve os processos complexos de dissociação e associação. Nesse sentido, dissociar implica em dividir as experiências vivenciadas em partes e nesse processo algumas partes serão lembradas e outras esquecidas. Já associar implica combinar e modificar os elementos que foram dissociados das experiências anteriores formando novas significações.

De tal modo, é possível afirmar que a criação está estreitamente vinculada às experiências sociais e que a combinação de elementos de vivências anteriores pode

resultar em um outro elemento novo (VIGOTSKI, 2004). Assim, as ações criativas sempre implicarão em reconstruções e reelaborações por parte dos sujeitos envolvidos, conforme nos esclarece Vigotski (2004), “[...] toda a atividade humana que não se restringe a reprodução de fatos e impressões vividas, mas que cria novas imagens e ações, pertence a essa segunda função criadora, a combinatória. (p. 3).

No entanto, essa capacidade de combinar antigos elementos de experiências anteriores atribuindo-lhes novas significações só é possível graças ao funcionamento dos sistemas psicológicos superiores que não é determinado biologicamente, mas é construído pelo sujeito em contato mediado com o contexto social. Além disso, outra condição importante para o desenvolvimento das capacidades criadoras nas crianças é a linguagem, assim, a fala e o seu desdobramento em pensamento verbal possibilita à criança uma nova forma de funcionamento psíquico. Conforme nos esclarece Vigotski (2003) “[...] o crescimento intelectual da criança depende de seu domínio dos meios sociais de pensamento, isto é, da linguagem [...]” (VIGOTSKI, 2003, p. 63). Um outro aspecto que constitui a imaginação criadora, segundo Vigotski (2004), é a necessidade de adaptação ao meio que faz com que o sujeito busque superar os desafios colocados pelas circunstâncias da vida. Para este autor “[...] na base da criação há sempre uma inadaptação da qual surgem necessidades, anseios e desejos”. (VIGOTSKI, 2004, p. 40). Dessa forma, é a necessidade de se adaptar ao meio que impulsiona o indivíduo à atividade de criação e que um sujeito, seja ele criança ou adulto, totalmente adaptado ao meio não vê necessidade de criar.

Vigotski (2004) enfatiza, ainda, o papel da imitação na atividade criadora. Parte da compreensão que a imitação não é uma mera atividade de repetição, mas pode resultar na construção de algo novo, a partir da realidade observada. Segundo Oliveira (2010), a imitação oportuniza a criança a possibilidade de realizar ações que ela não realizaria se não fosse a partir da observação e imitação do outro. A respeito da importância da imitação para os processos criativos nos esclarece Souza (2009):

O primeiro elemento seria configurado por estilhaços e fragmentos da memória que se materializam na imitação, o segundo seria a vivência do sujeito no momento em que decide reconstruir essa imagem e o somatório desses dois elementos seria uma nova imagem criada pelo humano. (2009, p. 160).

Nesse sentido, a criança se utiliza de fragmentos de suas memórias, ou seja, das lembranças de suas vivências nos diferentes contextos sociais e os torna concreto pela imitação. No entanto, no momento em que a criança puramente imita não repete a realidade experienciada, mas a reconstrói naquele momento com base na sua vivência atual.

Em relação à função da memória no desenvolvimento da criatividade da criança na primeira infância, Mozzer e Borges (2008) nos apontam, ao citar Vigotski (1930/1990), que:

[...] a experiência da criança documentada na memória por causa dos sentidos que representam determina toda a estrutura do pensamento e suas variações (atividade criativa) nas primeiras etapas do desenvolvimento. Assim, podemos afirmar que, a criatividade da criança na primeira infância está diretamente relacionada com a memória e com outras funções psíquicas que tenham sentido e significado para ela. (p.8)

Com base nessaafirmação, se faz necessário compreender que grande parte dos processos de criação das crianças pequenas se apoiam em suas memórias, frutos das suas experiências sociais e, de certa forma, as memórias lembradas pelas