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6 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

6.3 AS DOCENTES E O CICLO DE VIDA PROFISSIONAL

6.3.3 Os questionamentos quanto à profissão docente

As professoras Acácia, Oiti e Uvaia narraram suas vivências durante esse ciclo. Foi possível perceber que as três tiveram um percurso semelhante durante essa fase da profissão, já que as três realizaram seus Doutorados nesse momento da carreira, bem como as três decidiram sobre a opção profissional nesse período. Outra coincidência é que as três vivenciaram essa fase dos questionamentos na profissão em tornos de 35/37 aos 50/55 anos de idade cronológica. Além disso, foi com esse tempo de profissão que Acácia e Oiti se engajaram em projetos para criação de Programas de Pós-Graduação nas suas respectivas instituições, bem como assumiram funções na área de gestão.

Acácia vivenciou essa fase nas décadas de 1980 e 1990. Foi nesse momento da carreira que ela faz a decisão de se manter na Educação Superior e que nasce o interesse em lecionar, também, na Pós-Graduação. Durante esse ciclo a professora cursou o Doutorado e concomitantemente se exonera da Escola Técnica, já que além dos horários não coincidirem, o Doutorado que estava realizando não era de interesse dessa instituição, nem para esse nível de ensino, que visava algo mais profissionalizante. À essa altura da carreira já tinha objetivos

consolidados de onde atuar, era engajada politicamente no processo de democratização da universidade pública, foi pró-reitora e começa a organizar, conjuntamente, um Programa de Pós-Graduação no qual passa a lecionar, exclusivamente, tal como pode ser observado em sua fala:

Só em 1988 eu me exonerei na escola técnica. Porque em 1985 eu fui fazer o Doutorado e tive problema de carga horária, pois a universidade me liberava, mas a escola técnica não me liberava, já que o Doutorado não era parte da carreira. Primeiro eu troquei, fiquei com 40 horas na universidade e 20 horas na escola, depois acabei deixando a escola porque não dava para conciliar. E aí, [de 1989 a 1992] fiquei só na universidade. Como professora e, também, me envolvi com todo esse processo de democratização da universidade pública, as primeiras eleições de reitores e, por conta disso, que foi um grupo que acabou sendo eleito para gerir a universidade e eu fui pró-reitora de graduação por quatro anos, o que me deu também uma outra experiência de visão mais macro, também num momento de muita revolução, porque tinha me envolvido muito com a questão da constituição, que a constituição acolhesse a universidade como espaço de ensino, pesquisa e extensão, a dissociabilidade dessas três questões e a gente não tinha história na universidade, nessa direção. Então a gente ficou um pouco com esse compromisso na mão de pensar um pouco mais a universidade, o ensino de graduação, tanto que até hoje o ensino de graduação é meu foco de pesquisa, ali em vim procurar essas questões. Quando voltei para a faculdade, depois da pró-reitoria, a gente foi juntando um PPG em Educação, que acabou sendo iniciado em 1996 (ACÁCIA, informação verbal).

O marco de conclusão desse ciclo na vida profissional da professora Acácia foi a realização do Pós-Doutorado realizado em 1998, fora do país (ACÁCIA, informação do Lattes). Já Oiti vivenciou essa fase no período em torno dos anos 1994 a 2012. Oriunda de outra área profissional, responsável em lidar com gestão de pessoas em empresas, nesse momento lecionando a seis anos na graduação, decide assumir a docência como profissão. Essa fase de muitos questionamentos possibilitou a professora Oiti encontrar-se profissionalmente e decidir sobre sua carreira. Nasce, aqui, o desejo em fazer parte do quadro docente em um Programa de Pós-Graduação, portanto inicia os estudos de doutoramento, desta vez, em Educação:

Em 2003 eu decidi que eu queria dar continuidade na minha trajetória acadêmica como docente, daí se colocou no meu horizonte ser professora na Pós-Graduação e eu vim fazer o Doutorado em Educação [na mesma instituição em que lecionava em outro curso] conciliando minha área de formação com Educação, mantive uma certa coerência com aquilo que eu vinha construindo historicamente na minha trajetória. Eu concluí o Doutorado em 2006 e, nesse tempo do Doutorado, um tempo eu passei desenvolvendo projetos de especialização e coordenando especialização, porque a vinda para o Doutorado fez com que eu tivesse que abrir mão da

minha posição [na área relativa à gestão de pessoas] em função de não conseguir conciliar essas atividades (OITI, informação verbal).

Antes de ingressar na carreira educacional, a professora Oiti já trabalhava na área de gestão de pessoas. Quando docente na graduação, por sua experiência em gestão, assumiu várias vezes a coordenação do curso no qual lecionava. Durante a realização do Doutorado e alguns anos após a conclusão do mesmo, a professora Oiti seguiu desenvolvendo atividades como coordenadora e assim aconteceu até se aproximar do ingresso no quadro docente stricto

sensu. Ela explica que, entre 2005 e 2008:

Então fiquei ainda um ano do Doutorado fazendo a transição e depois assumi coordenação de projetos e coordenação de especialização. Mal terminando o Doutorado, não tinha ainda terminado, e de novo veio, é que os convites ás vezes são convites meio compulsórios, aí veio o convite de retomar a coordenação do curso em que eu lecionava em 2005, então retomei, mas aí nesse momento eu deixei claro pra instituição qual era a minha expectativa, quais eram os meus projetos de futuro, mas enquanto fosse necessário eu iria ainda trabalhar pela minha experiência em gestão, eu iria ainda contribuir e teria que dar essa contribuição até porque eu fiz meu Doutorado com bolsa, então eu tinha também que saber ceder, em termos institucionais, então nesse curso sempre foi assim, eu sempre, em todos os projetos de curso eu retomava, participava e acabava voltando para coordenação, também foi o meu vínculo inicial (OITI, informação verbal).

Paralelo a isso, em 2006, Oiti participou da elaboração de projeto de um novo curso de Pós-Graduação em área a fim à Educação e, também, nesse período, participou de um projeto interdisciplinar para a universidade, que motivou seu interesse pela Educação e foi determinante para a posição que ocupa até os dias de hoje. Portanto, em 2008, surge uma nova condição na carreira docente da professora Oiti e ela começa a ter resultados de sua formação e das perspectivas futuras traçadas:

Aí fiquei até 2008, quando, então, fui convidada para coordenar um trabalho, que era um estudo de interesse da instituição, então era um grupo interdisciplinar de professores e funcionários de todas as áreas, era um projeto vinculado a reitoria, então eu participei a coordenar essa pesquisa. Foi um estudo de caso na instituição e foi uma pesquisa que acabou alavancando e definindo o que eu faço hoje. (OITI, informação verbal). Claro que ainda teve mais uma retomada para a gestão [antes de assumir o cargo em que hoje atua], porque quando eu terminei aquilo que a gente se propôs para dois anos de estudo, acabou se criando uma gerencia de atenção aos alunos que era justamente quem iria acolher, além dos serviços de um conjunto de serviços que estavam fragmentados na estrutura de atendimento do aluno, o núcleo de estudo da temática pesquisada, estudo e prevenção. Então o reitor, essa gerencia vinculada num primeiro momento direto a reitoria, ao reitor, ele pediu que eu ainda ficasse mais um tempo, então eu assumi essa gerência que, também, foi uma experiência muito importante, porque foi uma experiência criada a partir da pesquisa. Então, acho que também foi algo importante que aconteceu, mas eu já defini que era com

tempo marcado. Em todos os momentos eu marcava para a instituição que, ok, mais um tempo na gestão (OITI, informação verbal).

Então, a participação nessa pesquisa interdisciplinar e, também, a participação na elaboração do projeto de um novo Programa de Pós-Graduação, foram suportes para a condição docente que a professora Oiti passa a assumir no ciclo seguinte de sua carreira profissional. O percurso de Uvaia nesse ciclo não se diferencia muito do que as outras duas professoras vivenciaram. Uvaia passou a ter experiências nessa fase a partir do ano 2000 e seguia nesse ciclo da carreira até o dia da entrevista. Ela não chegou a assumir atividades relacionadas à gestão, no entanto, apesar de já estar lecionando, é nesse período da carreira que faz sua escolha pela Educação e investe em formação na área.

Uvaia explica que boa parte do seu percurso profissional, em especial de 2000 a 2010, precisava viajar entre a cidade que residia e a cidade em que lecionava, o que, por vezes, era cansativo. Depois ela esclarece:

Foi uma trajetória bem diferente, [2004-2008] porque aí eu tive convicção que eu queria trabalhar com Educação, porque durante esses cinco anos que eu trabalhei nesse campus, eu dei aula na área das Ciências da Vida, de muitas coisas, e o que eu mais gostei foi o trabalho com as licenciaturas. O ensino de áreas de Ciências da Vida que eu trabalhei e tal, e comecei a pesquisar sobre a história desses cursos por outras vias assim, porque eu ajudava a montar um arquivo histórico e trabalhava com entrevistas, já em 1990. 1998 eu já fazia isso, mas não era formal. Quando eu comecei a assistir as disciplinas como aluna especial no Doutorado que eu comecei a me dar conta que isso poderia ser um viés de pesquisa e eu já tinha uma trajetória empírica nesse espaço de trabalho, já tinha feito muita coisa, mas não tinha sistematizado. Então, tive a felicidade de encontrar uma professora que trabalhava nessa perspectiva e fui fazer o meu Doutorado com ela, que foi uma orientadora maravilhosa, que hoje olhando, muito inspira na forma como ela orienta. E, nesse processo de cursar o Doutorado, eu também trabalhava (na graduação e na rede municipal de Educação Básica), que eu comecei a trabalhar em 1994. [...]. Em 2010 me mudei de cidade, para acompanhar meu marido, e tive que seguir viajando para trabalhar. Depois [em 2011], eu vim para a instituição em que estou lecionando até hoje, durante os dois primeiros semestres aqui eu, também, trabalhei três disciplinas na graduação, duas na Pós-Graduação, porque eu tinha menos orientandos, então foi um momento bem complicado de excesso de trabalho, porque também a gente não tem o ritmo. Depois que tu começas a ter orientandos de Doutorado, que tu tens um grupo, eu coordeno um grupo de pesquisa, eu consigo, sou convidada para banca e consegue articular outras coisas e as coisas vão se organizando assim, e tu consegues construir uma certa legitimidade com teus pares, com as pessoas que trabalham contigo, então é um processo que é construído muito lentamente (UVAIA, informação verbal).

Uvaia, até o momento da entrevista, ainda se encontrava nesse ciclo da carreira. Foi possível perceber seu caminho percorrido e como aos poucos está se encaixando nesse novo

desafio da Pós-Graduação. Acácia e Oiti tiveram, além desse percurso de questionamentos na carreira e entrada para a Pós-Graduação, um engajamento, paralelo à gestão, bem como, a experiência da elaboração de Programas de Pós-Graduação. Portanto, as três professoras que vivenciaram essa fase da carreira, como pôde ser observado, tiveram nesse momento os questionamentos quanto ao rumo a ser tomado na profissão, a busca pela formação para se tornarem aptas à função pretendida, bem como, tiveram aqui a certeza pela opção pela docência na área da Educação, em nível de stricto sensu.